23 novembro, 2016

Deixa ficar assim…






Dormes menos. Vês passar o tempo, quieto, sobranceiro, meticuloso.

Cartas ao pai natal. Um comboio elétrico para aquele, uma pista de carros para outro, a camisola de lã, o cachecol, o perfume. Uma interminável lista.

 E de repente no mesmo acordar todos na direção da missa do galo, três pais-nossos, duas ave-marias, a Ceia de Natal.

E o espelho na cómoda em frente, que te reflete.
O que irá refletir daqui por uns tempos?

 Neste instante tudo é serenidade, O mundo parece ter parado, Nem um movimento.
Contudo, se abrir o cortinado, reflexos no vidro do quarto.

 Até os murmúrios regressam, acompanhados pela minha avó espanhola.
- “Hola como estas “ – e uma chávena de chá segura por dois dedos e o mindinho esticado.

O Avô impaciente, deslocava-se como se patinasse.

As “tias” que acompanham a avó, recostam-se em poltronas com crochet´s de um lado e a boca revirada (para assuntos da vida de cada um), para o outro.

Isso e as dentaduras que abanam em sons de castanholas num “salero” de Vigo.

 E o eco dos passos de ninguém ressoava nas paredes enquanto a avó de mão em concha no ouvido esquerdo respingava…
- “ Que esta sucediendo niño ?”   
- “Oh Avó, foi um fantasma que arrastou os móveis contra a parede e atiçou os cães na rua “.


 E, as velhas inclinadas como o Titanic, quase a regurgitar veias e glotes em catadupa boca fora, estremeciam da resposta.

-“Sabes assobiar, não sabes? “Perguntava o Avô.

 Revisito o passado e hesito um novo olhar. Tudo parece mudado.
O naperon na mesa-de-cabeceira, o móvel com as fotos de família, a cor das paredes, até a cruz pendurada por um fio de contas no canto da cama.

Os dedos esticadinhos no pulso esquerdo sentindo o bater da vida. Mais forte, cadenciado, com ritmo.

 Eram dias invernosos, palavras e laços que se desatam, filigranas trabalhadas ponto a ponto e abraços com afectos.

E os nossos destinos longínquos, num caminho repetidamente traçado.
As mesmas paragens, a mesma língua de areia ao sul, que resiste à invasão do mar, o vento nas dunas, o rebentar das marés, o voo das gaivotas e a amêijoa aberta.

O lado negro da ria. Pescadores zangados, o vento que sopra solto, os progressos das ostras da Amélinha e o candeeiro a petróleo que te ilumina caminho. Até um dia.

Fantasmas vagueiam o pensamento e instalam-se na escuridão dos alertas.

Os dias não se esgotam no passar das horas. No inchaço dos meus olhos, na voraz idade que passa sem eu ver, paliativos na memória.

Os teus passos nos sapatos engraxados, aproximando-se devagar, como só tu. Com elegância.

 -“Sabes assobiar, não sabes?”

 E esta infância de correrias e trapalhadas e jogos e amizades profundas como se a dor ainda hoje nos apertasse uns contra os outros como nas filas, avenida abaixo na quadra do S. João.

Nós e as nossas vidas, os nossos fantasmas, os nossos velhos acoplados, mais a gaja do terceiro direito, deambulando para cá e para lá magnificamente como merda luzidia, onde a diferença disfarçava no hálito cúmplice dela, uma surdez galopante e os joanetes escondidos em pé atravancado.

E esta infância que muitos apagariam a mata-borrão e eu permaneço nela o tempo que for preciso para vos ver sorrir e gritar… “passa a bola”.

 -“Sabes assobiar, não sabes?”
     Sei, mas deixa ficar assim. 

19 novembro, 2016

A MEMÓRIA







A memória aparece intermitente nos dias que correm solarengos.

A memória dos mortos é mais viva do que quando estava com eles.

“Amanhã telefono-te. Sim, já gravei o número.
Não esqueças que temos de almoçar… este ano juntamo-nos todos antes do natal…”

As nossas conversas, encontros e reencontros ficam para depois. Nunca temos tempo, esquecemos rápido, e no entanto o tempo está aí.

Um dia temos tempo.

Sorrisos em câmara lenta, comboio no apeadeiro das sete.
As figuras, as vossas e as minhas, o passado no presente. As palavras.

Aos poucos e poucos vão aparecendo as primeiras ilhas. Ponto a ponto. Perfil a perfil.
Pequenos e imprecisos muros, delimitando jardins. Viramos, contrapomos edifícios, suspirando pelas imagens que se apresentam majestosas.

Uma longa avenida, dois a três candeeiros altos e largos, entre-cortados por outros pequenos e escondidos.

Igrejas e uma torre. Um monumento, mais uma capela e uma nave central cobrindo com feixes de luz restos de pintura nas paredes.

Gente que traz gente. Museus e mapas e uma praça literária com o privilégio do tempo certo na medida exacta do tempo.

“Amanhã temos futebol, para a semana discoteca. Não te esqueças…”

E nunca ninguém esquece. Porque esqueceríamos? 

E o tempo hoje calmo, fica agreste amanhã, mais a voragem dos dias que correm apressados como rio para o mar.

A vossa memória é mais viva hoje, do que quando estava com vocês.

Mulheres de histórias difíceis cheiram a sabão azul e branco. Gente a falar no interior das pessoas.

Palavras que não falam. Gestos reflectidos na dança e o vento que empurra as folhas no sentido oposto ao dos olhares que se perdem. Olhos parados de espanto.

Queixo a resmungar amiúde, espasmos na glote, olhos numa dança turva.

Micas, lembram-se? A beata-mor, assolava no largo fronteiro à capela. Arrastava um pé. O outro estica-se na passada.

“Dos tornozelos” – dizia ela, disfarçando quilos a mais que transporta consigo, e nós, miúdos, gaiatos que não pensavam nas coisas da vida.

O nosso mundo era a rua cravejada de pedra solta, os quintais vizinhos, as árvores, a bola rota, mais gomo menos gomo e os doces da D. Emília.

Era uma casa de rés-do-chão de duas assoalhadas e um quintal minúsculo. Uns bibelot´s, umas cortinas púdicas compridas com flores e travesseiros espalhados no sofá. 

A velha estagnada, lenta como um caracol, surda na conveniência.
Tem o odor confuso da idade, cheiro a canfora mesclado com o cheiro das pregas da pele. Voz arrastada entre a demência a ruindade escondida nos bolsos da bata preta.

E partimos sós, cada um para o seu tempo e o seu espaço com aquele até breve que nos enche o corpo, as mãos e os sentidos.

E são estes sabores amargos. Estas memórias em catadupa que nos inquietam o verbo, e a meninge.


A memória mantém-se intermitente e viva… pois temos sempre tempo… até um dia. 

04 setembro, 2016

REFUGIADOS















Qual o nome desse corpo a que chamas teu?
Pagas uma viagem incerta num ritual de ondas que te levam. Até à sétima vaga num porto qualquer.
Ficas num limbo, na sombra do corpo e a perda do brilho no olhar triste e despegado.
Trazes sonhos em rebentações e foges do infortúnio numa barcaça de mortalhas esculpida como cilindro.
És o esqueleto de alguém que anda, esse corpo e alguém com ele.
Algo que nem tu entendes, mas procuras. Foges de balas ziguezagueantes, morteiros de fome estampada no teu peito que enche os bolsos de muitos.
Esse é o teu tronco, numa outra cabeça. Os teus braços noutro corpo.
Lapidaste o desejo e esculpiste a lágrima furtiva enquanto os ponteiros desandam em sentido oposto e as marés invertem tenebrosas passagens do tempo.
Será num mar grego ou Italiano, será em janelas repletas de fantasmas que vão soltando por aí.
Saem do corpo, deixando-os pendurados
Permanecem em silêncio no meio dos silêncios. Talvez também fantasmas silenciosos.
Cegos na busca de um caminho, uma sombra, uma luz ténue um tatear de dedos cansados, desamparados sem poiso nem regaço.
Um outro coração. Outro bater.
E os vossos olhos onde ficam? Onde estão os nossos olhos?
E amanhã mais um ritual de águas e corpos despejados por aí.
Cegos na vida que não queremos ver. Que nos passa e trespassa como anexos de outra vida qualquer, distante da nossa. Paralela, inconveniente.
Qual o nome desse corpo a que chamas teu?
Porções de gente galopante, “Cavalli” “Dolce Gabbana”, com cardápios de perfume a tiracolo em cheiro adocicado e nuvens densas misturando odores e “baton”.
E vemos e revemos os mesmos gestos, os mesmos olhares incómodos, esqueletos abandonados, rastos de gente sem gente dentro.
O esqueleto de alguém que anda, esse corpo e alguém com ele…
Ainda não consigo entender isto. Nem os meus nem os vossos olhos.
Qual o nome desse corpo a que chamas teu ?

31 março, 2016

SEI QUE ERA TARDE.



Era tarde. Não sei se muito ou pouco. Sei que era tarde.

Navegamos os dois, solitáriamente entre a nau das descobertas e um pedaço de terra num sítio qualquer. Não interessa.

Caminhávamos sem sentido, acompanhados por uma ligeira brisa e as luzes que aos poucos se acendiam, bem como os sentidos que se despertavam entre os dois.  

Naquele instante pouco mais importava. Nem o perfume certo, nem a cor da camisa, o toque na pele, o sapato a condizer, a palavra certa, a madeixa que me atrapalha. Nada.
Apenas e só, os dois e o instante.

A cidade estava diferente, as pessoas estavam diferentes, os autocarros acendiam as luzes, os semáforos desligados, corpos deambulavam pelos bares, ou éramos nós que a víamos diferente.

Falávamos sem nos ouvirmos, escrevemos sem nos lermos e guardamos no fundo de nós, em código de 3 dígitos, notas de aroma musical.

Tínhamos uma dança de palavras desacertadas, espaços sobrantes, e apenas um olhar intenso. Pouco mais do que um olhar.
Mas era aquele olhar que nos esculpe por dentro, que nos revira os órgãos, que mistura as salinidades do corpo, que antecipa a vida depois da morte.
E era também o som dos teus passos. A ansiedade da tua chegada, o coração que dispara em cada passo.

Era tarde. Não sei se muito ou pouco. Sei que era tarde.

Sentei-me nos degraus do cais. Olhei em volta. O vento brindava-me com leves sorrisos, e eu, estupefacto fiquei por ali.

Os teus cabelos esvoaçavam, enquanto cuidavas da camisa que teimava em abrir.
A tua mão que por instantes enlaçava na minha, puxou-me não sei para onde, ainda que o saiba perfeitamente.

Queria poder ler os dias de trás para a frente. Fazer-me silêncio para ouvir as margens do rio, o encosto das águas no cais. As plantas que germinam. 
Registar as tuas pausas, e seguir-te os passos.

E antes de adormecer rever os barcos e o rio que os seduz na mansidão dos dias que correm sem que nada aconteça, ao som da vida que entorpece e se quebra em mil pedaços de luz na noite que é só minha.

Troco o relógio pelo bater do coração. Não quero horas, quero vida, enquanto a tua memória vive em mim, inquieta, audaz, sagaz, como se alguém pintasse o quadro em que me reinvento ao pensar-te.

A cidade estava diferente, as luzes acendiam-se a cada instante, e eu sentado nos degraus do cais, falava-te sem me ouvires e guardava no meu interior em código de 3 dígitos, o despertar dos sentidos.

Não sei se muito ou pouco. Sei que era tarde. 










29 março, 2016

O QUE ACONTECEU, SABES ?


 Tocam os sinos da Igreja no fim da rua, balançando acordes de chamamento.
O vizinho com o seu aparelho de surdo espetava o nariz na direcção do vento.

Outro, galanteador, distribui acenos, enquanto ajeita o chapéu e encosta, com o franzir da testa, as sobrancelhas brancas. E era como se toda a neve do mundo tivesse ali poisado.

A mulher Espanhola, vestida de folhos e cetim, cabelo espetado para o céu, debitava sons das bochechas caídas, enquanto um dente assobiava, dando sinais de vida.
Este e pouco mais, apareciam e desapareciam como teclas num piano de cauda.

 O sino continuava a sua melodia estridente enquanto a notícia percorria os caminhos.

- Foi do coração. Desequilibrou-se, coitado. 

O galanteador tinha um fato cerzido nas mangas e os colarinhos das camisas virados.
Três botões no casaco assertoado, e uma gravata de riscas com um bonequinho no fim, pendurado.

 - Três voltas no ferrolho - gritava a espanhola-, enquanto o sapateiro, duas portas ao lado competia com o sino em batidas vigorosas.

Chaminés despejam fumos, um monta-cargas deposita gente no andar de cima, como mercadoria.

De repente um caudal de água junta-se a outras e descem de mão dada formando um rio. A lisura líquida de um rio.

No cimo da rua, alcoviteiras debruçadas nas janelas cumprimentam com poses de estrela, os transeuntes na direcção da Igreja, conduzindo as notícias pelas pessoas e pelos caminhos.

 - Foi do coração. Desequilibrou-se, coitado.
Quando pensava acertar o passo, já a vida tinha acertado o passo com ele.

Castanheiros murmuram, as amoras dançam, e as línguas das folhas gemem baixinho como se acompanhassem o ritmo da primavera.
Está um céu de catástrofe, relâmpagos em desatino.

Candeeiros na rua, pestanejam sinais receosos, numa luz ténue. A chuva ia caindo intensa, transbordando da terra como choro de criança.

O vizinho, para além de surdo, desarticulado. Um pé para cada lado, ombros descaídos cada um para o contrário do outro.
Olhos desabitados quase sem cor.  

D. Laurinda rezava avé-marias, e num ápice sobe a escadaria na direcção da sacristia e da confissão. O Demo tinha voltado.

O “apêndice”, assim chamava ao neto mais novo do presidente da junta, vagueava de roupão florido, fitas e cremes na cara.
Tinha delicadeza nos dedos espetados, com o mindinho sempre espevitado. Uma madeixa colada à testa, boquinhas viradas para dias feriados e subtilezas várias.
Não se lhe conhecia trabalho, apenas alguns jeitos e trejeitos.

Nada que levasse caminho de notícia, apenas tonteiras de D. Laurinda, que a cada passo, mais uma ladainha a nossa senhora, três “pai-nosso”, e umas benzeduras.

E o som do sino, acordes de chamamento, enquanto o povo se dirige para a homilia o mesmo sino que se tinha interrompido há anos.

- Foi do coração. Desequilibrou-se, coitado.

- Três voltas no ferrolho- “adelante” - grita a espanhola, enquanto o sapateiro vigia o ensanduichado do galanteador e as coscuvilheiras anunciam preces e desgraças a três frases por segundo.

- O que aconteceu, sabes?

- Foi do coração. Desequilibrou-se coitado. 


17 março, 2016

ATÉ JÁ...!

   
Já não temos dias limpos, nem orvalhos da manhã, pão torrado com manteiga, nem conversas sem fim.

A humidade escorre nos muros repletos de musgo. O cheiro da casa vazia. A chuva que me definha os ossos.

Dias de cor cinza, sons abafados pelos lençóis que me cobrem. A clarabóia que geme com os trovões.

Sombras que fogem das sombras. Gente sem pulmões unidos num único respirar. Um todo sem partes e a outra metade sem metade de mim.

O meu dedo do meio esticado. Os outros recolhidos como partitura musical numa nota só.

Cogumelos que crescem amontoados. Flores de cheiro e rosas silvestres. 
Óculos protegidos com aros remendados e relógios sem tempo. Corpo em remissão.

Silabas que não ocupam frases, cicatrizes das árvores, um aceno.
Estou longe do instante. Longe da procura. Longe do tempo.

Nem uvas na tua boca, nem flores no teu regaço, nem romãs pingadas na tua camisa de linho.

Estou entre perímetros. Um decalque, desenho do que já foi, numa efusão ou simbiose. Grafia de vogais abertas, diferenças na conjugação.

A casa acorda devagar. Linhas de sol poisam nos cortinados, e o dia vai abrindo lentamente espreguiçando-se.

A solidão que me prende, os músculos que se questionam e o meu sangue que se liquidifica para desistir entre o sol e a lua, num até já, enquanto aguardo o ultimo transporte para longe do sorriso limpo.

Na aldeia, nesta aldeia, tudo é em tons de branco e azul claro.
Os ninhos estão colocados estrategicamente nas casas, nos postes e as gaivotas, bem como a igreja iluminada, fazem parte do cenário.

A escola primária foi casebre, tasca, e agora faz de casa de hóspedes.
Toda a gente se foi. Casas fechadas, muros caídos, nem corridas nem gritos de criança. Chuva e vento. Solidão absoluta, almas vazias.

Hoje como ontem, o céu parte vidros e estilhaça-nos a alma, tal o poder dos relâmpagos.
Não é fácil viver por aqui, nem fácil partir. E há muitas almas que se esquecem de partir, face à inconstância do tempo, e a indefinição dos lugares.

Já não temos dias limpos, pão torrado com manteiga nem conversas sem fim. 

Resta-nos um espaço rasgado no tempo. Onde não há o que foi, nem o que será. Apenas este instante, um curto instante.

 Um olhar, quantas das vezes um sorriso, diálogos tímidos, um chá para dois, quadradinhos de chocolate preto, o teu gato persa, as minhas insónias, e o medo que o tempo me soterre.

E neste até já, a vida divide-nos a meio. A metade que ficou não regressa, mas existe sempre um até breve. Quem sabe, até já.




09 março, 2016

FICA COMIGO CHEIRO


A sopa da minha avó. Couve, muita couve fumegante a sair da panela. 
O “after-shave” do meu pai, suave. Doce, como ele em pessoa.

O mar da foz do douro, o pão quente com manteiga. O chiar do setenta e oito com dois andares, o tlim-tlim do eléctrico nos carris da Boavista.
Marcas na memória e na alma.

Reflexos de tudo. Entranhado na pele e metido no nariz.
Livros que não são apenas livros.
Capicua. Números que são apenas números.

- Fica comigo cheiro.
As uvas do “Larinho” em cesto de vime cobertas por parras, em camadas de duas. Brancas e pretas.
Trazem um pano branco a tapá-las, sinal de limpeza e nobreza de quem as envia.

Castanhas quentes saídas da serapilheira que um homem alto e tisnado transporta.
O verde no Minho que brota, enquanto pequena cascata de água desaba num ribeiro.

Tigelas de resina nos pinheiros, Lágrimas que escorrem da árvore a conta-gotas, triste.
Amoras silvestres, no quintal vizinho. Nuvens de chuva redundante.

Pinturas de caça nas paredes. A foto de uma mulher avantajada, matriarca, e um cãozinho que abana a cabeça.
Ferrolhos barulhentos fechados a sete chaves, relógios a dar desoras no balanço do pêndulo.

Senhoras de leque num abanico ritmado e duas alianças no dedo anelar – não vejo homens com duas alianças – valha isso o que valer.

Pessoas que ocupam pouco espaço. Cantinho de sofás, desembaraçados de tudo, perdidos numa espiral de sossego, sossego a mais.
Nem diálogos, nem olhares, nem nódoas nas camisas. Tudo muito engomado, esticado. Tudo muito sem jeito.

- Fica comigo cheiro.

Roupa estendida, gel de banho. 
O cozido na panela, o respirar da casa. O café da avó e a porta que se fecha sobre o silêncio que fica.

Passos leves no corredor, o gato que se espreguiça coçando o focinho na pata direita.
Frio seco em dias cheios de sol. Uma palete tons terra que se manifestam no jardim fronteiro.

Flores no parapeito, sardinheiras coloridas, bater ritmado do relógio sem  marcar o tempo.
Molduras espalhadas pelos cantos da casa.
Quadros de gente com os olhos metidos num medo qualquer.

O cheiro deste tempo e desta terra, da minha e de outras avós, de gente simples, como simples é a vida enquanto quisermos.


- Fica comigo cheiro.