1000CONVERSAS
Mil conversas, mil temas, mil opiniões, falar de tudo ou quase nada. Desabafos, alegrias e tristezas, risos e cantos, choros e gritos aflitos, saltos na rede e sem rede, liberdade total e inteira responsabilidade.
09 Janeiro, 2012
Ai de ti...
Mexo-me e encolho-me na tua presença. Saio de mim e entro num caminho sem sentido.
Bifurcações ou desvios acidentais.
Mas sempre a tua presença, a tua imagem, as fotos na praia, o meu biquini preto com laçarote do lado esquerdo que teimavas desapertar, o teu peito no meu em ânsias de morte e asfixia.
E a ausência faz tempo. Os teus não-diálogos.
Se não me respondes, mata-me. Se não me matas morro à mesma, pronto.
E não te desejo mais nenhum 'Bom Dia', nem 'Boa Noite', nem digo 'Olá'.
Não te chamo 'meu querido', 'meu Anjo-da-guarda'. Não te trato do cão.
Não te leio, não olho para os teus olhos de vez em quando.
Não falo mais de ti a mim.
E tu, descaradamente respondes…
-"E eu com isso?" e pronto. Morro mesmo.
Isto tudo depois de sair do teu peito, hoje à noite.
Razão tinha a minha avó Maria, não se pode confiar nos Homens.
Ela que engravidou cedo de um tropa de partida para África.
Esse que nunca quis saber dela e a coitada a carpir mágoas, rezando pelo seu bem-estar. Até hoje… pelo que sei.
Sendo assim, vou por uma mordaça na boca e vou-me algemar para não ter a tentação de falar contigo.
Vou suster a respiração até "rebentar".
E vou-me anestesiar para não sentir o teu feitiço.
E ainda assim, volto a perguntar porque não me olhas, não me tocas, nem me queres…
… será o teu feitiço? Ou serei eu?
Velinhas e rezas à Sra de Fátima, o teu cheiro ainda nas paredes, o frigorífico pela metade, os “tupperwares” da tua mãe…
O medo que o menino não comesse, que eu não te alimentasse… eu que tirava da boca para ti, do peito para ti, do corpo todo para ti… E, no entanto, as orquídeas que secaram, o bouquet dos cinco anos e três meses, a tua não-lembrança, a minha mágoa.
Rédea curta, dizias tu. E eu a imaginar-te corredor de fundo, papa-léguas, saltitão.
Se não me queres, diz. Afasta-me com forcep´s, atira-me de supetão, faz de mim o enclave na guerra norte-sul.
Razão tinha a Avó, por não crer nos Homens. Valha-me Deus ou o apregoado Senhor dos Anjos aflitos.
Vou dormir semana e meia, desconjuntar-me toda. Vou a reparar na oficina, trocar peças, rolamentos e cabeça. Os “pistons” também.
Quem sabe dás por mim, ou te apoquenta a minha figura, o meu novo traje, gente por inteiro.
Ou mando retirar a tua chávena, a fotografia na mesa de cabeceira a três-quartos, o teu cheiro invasor.
Arre que és chato. Se não me respondes, mata-me. Se não me matas, morro à mesma, pronto.
23 Dezembro, 2011
RELOGIOS DE TODAS AS DEMORAS
Estalido de fechadura nas minhas costas.
Tu em reticências, um peito de delito a qualquer hora. Pescoço e pernas delgadas como desnorte de náufrago.
Espectro lívido na tua presença. O meu protesto à porta do teu corpo.
Juras de amor sôfregas, promessas e suspiros de devoção. Paixão como semáforo intermitente, beicinhos e choros.
Regresso ao teu corpo diluído, antipartículas, sonho em fragmentos.
Intermitências onde se abriga nocturna a lua pálida e pérfida.
Vês como se aninham parados os relógios de todas as demoras ?
Dá-me medo que a saudade liquidifique, trémulo bambu, beijos melosos percorrendo o caminho sinuoso das tuas costas.
Redime-me. Absolve-me em confissão. Multa-me por engano cósmico, sangra-me a pele, repete-me tresloucada a boca no meu beijo.
Horas, minutos e segundos, que se amontoam na aridez sedenta da pele.
A fonte de todos os males, uma boca de alimento nos frutos dos teus ramos.
Os teus braços.
Braços, sim. Braços de envolver, de embalar meninices e entoar baixinho as emoções de outros rios, outros lugares.
Eu, em desuso, noves-fora-nada, raiz quadrada entre nós, oxidação do tempo, esbelta madrugada, querubim que te protege, relógio atrasado na desordem do encontro.
Os teus lábios pretensiosos a morder-me mundo e fundo, mãos no teu vestido cintado, batidas cardíacas em ritmo de samba.
Volúpia de sombra, lábios espelhos de alma, lágrimas secas e sofridas.
Foram parados por nós os relógios de todos as demoras.
Latido de cão, trancas na porta, mímica de silêncio quando me puxas o corpo, abafos de dor, um trilho seguro, camadas de pó em três assoalhadas e uma mansarda.
Mãos entrelaçadas num expirar de prazo, eco sem uso, rascunhos sem preconceito, lua nova mapeada.
A tua vida caligrafada em mim.
Grilhões do tempo, contorno da tua boca, um olhar cristalino e uma língua sem temor num tempo sem demoras.
20 Dezembro, 2011
Escrutinio do tempo
A angustia do sentido da vida e o relacionamento com ela,
Defeitos que se afiguram mais nítidos, as insuficiências e os erros.
O caminho da coragem. O sorriso feito coragem.
Caminho apressado para os cinquenta. A idade fica apenas mais nítida e aumenta o encanto.
Nada mais.
E é Dezembro como sempre. Frio, chuvoso, inquietante.
Flores e pétalas avermelhadas, nuvens sujas. Plantas que entortam o muro do quintal.
O gato imóvel
O parvo do gato que quando miava se queixava de mim à minha Mãe...medricas.
- Mariquinhas é o que és.
O tempo embaciado como os óculos do meu tio na ponta do nariz.
Ele, elegante, chapéu aprumado.
- A bênção Tio. – Deus te abençoe, sobrinho.
Livros que não acabam nunca. O cheiro agradável do "after-shave" do meu Pai.
Domingo de nuvens sujas, a tarde triste, um sol escondido sobre o Porto.
Os meus quinze anos. O parvo do gato, ainda imóvel.
As fisgadas nos pássaros, as bochechas rosadas da minha vizinha da frente.
Sombras das árvores no quintal.
O Hospital das “Guelas de Pau” , o porteiro numa caixinha de vidro. Correrias rampa acima aos pontapés na bola.
A vizinha rosadinha que me atira bilhetinhos. Um dia destes vamos comer “fava-rica”. Eu, ela o Almeida e o Chico.
Casas com cheiro a antigo, tarecos nos móveis, naperons com argolinhas, flores de plástico. O Hospital com cheiro a infeção.
Tudo cheira menos o gato... Imóvel.
Só pode estar embalsamado, o parvo!
Dias que se socorrem de outros dias. Percurso encharcado na manhã, e eu, distraído, tocando-te nas margens da pele.
Conversas noite fora, bocejos de fome e diálogos guardados como relíquias.
Não pela verve, sim por nós.
Precisava de tempo a fundo perdido.
Noite como se nunca acabasse. As contas do dia. Cada vez mais contas e menos dia.
Eu, com quinze anos, paixão como cegueira, solidão no meio do mundo, as miúdas como figuras santas, altares engalanados, o frenesim e a dor de barriga na preparação do baile de garagem.
Fingimentos de Princesas de Fábulas a reboque de sete anões.
O caminho sinuoso da paixão. A minha mãe que me olha pelo canto do olho, o nariz torcido da minha avó, e eu, nuvens e pássaros e musicas e bailados e encantos no corpo delas.
Afecções na saúde e uma perda de tempo.
Borbulhas na cara, a clarividência do meu sorriso quando te vejo.
-Criancices... - Dizem uns.
Domingos engalanados na missa das onze.
A noite que se faz escura sem limite de tempo. O seu aconchego que trato por tu.
Escrutínio da vida. Céu sem nuvens. O traço incerto dos teus dedos minúsculos.
As incisões na pele aos cinquenta, memórias e retratos que acompanham.
O prazer do silêncio e a mesma angustia no sentido da vida.
Hoje precisamos de mais caminho para a coragem e um sorriso.
O parvo do gato e o seu miar imóvel.
- Mariquinhas, é o que és!.
02 Dezembro, 2011
Trovoadas e tempestade
Eu, Tu e as trovoadas. Raios e relâmpagos. Trovões como paquidermes.
A tua Tia carregadinha de cremes, debruçada na varanda.
A minha Avó de bengala. Monogramas nas fronhas que vai cosendo. Fímbrias douradas e azul celeste.
Tu, menina. Tosse rouca que partilhavas num vendaval brônquico qual relâmpago em aguaceiro.
Os dois no entreposto entre as duas portas. Pé aqui, pé ali.
Inocentes de mãos dadas.
Uma reza a Santa Bárbara. O céu iluminado e nós desafiando paquidermes grotescos.
Saltinhos entre quadrados desenhados no chão, voltas e voltas, um beijo na face esquerda, protegida dos olhares certeiros da Tia e o trovão a espreitar.
O frio nas entranhas da casa. Água tépida. Três assoalhadas. Esgares de gente que não conheço em molduras marteladas na parede.
Naperons com argolinhas, afectos em repouso, rugas de mansinho na cara da minha Avó.
Chuva em bátegas na vidraça, o gato fru-fru enrolado nas tuas pernas tentadoras. Eu destemido invasor.
Um tabuleiro de xadrez. Torres derrubadas, cavalo aos pinotes numa correria de xeque-mate.
A tua Tia carregadinha, lápis de cor no lugar das sobrancelhas e tu, dedos muitos, a atrapalharem-se nos botões. Eu quase em pânico. Os botões atrapalhados também.
Tinha os detalhes do teu corpo ancorado em mim.
Eu com medo que os pulsos disparassem com o batimento sistólico e que as tuas mãos sejam mãos outra vez, ou que a tua geometria baile no espaço entre os nossos pontos convexos.
E no entanto silencio da minha Avó. A quantidade de medo dentro do silêncio da minha Avó.
Mãos e dedos e o teu ar rarefeito no meu lóbulo esquerdo. O ar que não multiplico mas que me falta.
Saltam vidraças num bater de porta aflito... solto as amarras na tua cintura.
A redenção dos pecados nos cremes da tua Tia.
Um lábio acima outro abaixo, pinceladas rupestres e a serenidade da experiência na voz do silêncio que a minha Avó desperta.
- Meninos, cuidado com os trovões. Pode vir aí mau tempo.
29 Novembro, 2011
Poções Mágicas e um Sorriso
Chove imenso neste dia e é quase Dezembro.
Estou em pedaços. Incompleto. Esquartejado em meia-lua ou quarto-minguante.
Falta-me fazer magia para completar o círculo da vida. A magia que tu fazias em azul. Os teus olhos em azul.
E eu piso de novo os meus passos numa procura de alma em labirintos inquietos.
O céu é um lençol pejado de estrelas, e o arco-íris, um caminho para lá chegar.
Resta-nos o caminho.
Vivo em combustão entre a saudade e o devir. Arrumo coisas que julgava terem tido o seu lugar.
Volta-não-volta, desarrumo gavetas onde as deixei.
E no entanto, a sombra da voz e o teu sorriso.
O beijo que envolve, a mão que protege, o grito que abafo, o musculo que absorve.
Parágrafos que deslassam emoções, risos inocentes, enxurradas de sílabas a matarem esta saudade que corrói.
Versos que largaste, o abraço que me deixou e um coração com as cores em agonia.
Frases soltas, que não sei como encaixar. Um espaço sobrante… o teu.
Estou entre lugares que não me pertencem, lugares que não conheço, algures entre dois caminhos.
Pedaços que me faltam, vozes em correntes desenfreadas.
E o silêncio da noite. Sempre noite.
A noite e os meus dedos musicais que falam dedilhando.
Dedos que percorrem e revolvem emoções pirateadas
Chove imenso neste dia e é quase Dezembro.
Tenho a idade numa curva mal calculada, um amor que me enrola em mantas de palavras ditas no contorno da boca.
Nós que desato como as dores, uma a uma. Ciclos que não encerrei e sonhos descortinados e repaginados.
Tenho poções mágicas e um sorriso.
Um sorriso dos teus em Dezembro.
04 Novembro, 2011
IN MY PLACE...!
Este é o meu lugar. Um lugar novo.
Um espaço fechado de silêncio e paz.
Pedaços de algodão como flocos de neve. Fiapos de luz tecida num candeeiro bifurcado em complexo de teia.
Almas e gentes, diabretes e aflições, tudo na alma. Tudo numa alma.
O teu corpo quente ancorado nos meus lábios, enquanto solfejo palavras perto do ponto final deste texto.
E neste lugar vazio de gente, cheio de mim em ti e de ti em mim, cirandamos descalços pelos trilhos misteriosos da mente.
Os Deuses devem ter enlouquecido e semeiam segredos na voz desavinda das pessoas.
As pessoas enlouqueceram e desafiam os Deuses sem complexo nem voz.
Nos cabelos em cascata dos Anjos, prendemos gestos para esconder a saudade.
As nuvens vistosas repisam desejos e o rio repleto de carisma alonga os seus dedos rodeando os nossos corpos enlaçados e invisíveis.
Sãos os teus sonhos que se fazem.
A lua teima em não se envolver, depositando nas paredes nuas dos prédios a minha sombra.
O eco da fala morde o meu sossego.
O gato mia no silêncio…. É de ouro, … -dizem!....O gato…-ripostam.
O horizonte é frio e húmido. O teu fôlego aconchegado a mim. Um caos a parir nova ordem.
A tua boca que me faz desordem. Fragmentos inconciliáveis nos desenhos que traçamos.
Rosto acostado em rosto, mão em mão, textura quente do corpo a querer acordar sob o signo de outro tempo.
Este é sem duvida o meu lugar. Um lugar novo.
Feito de silêncios, queixumes atirados ao desconcerto.
Desalinho no tempo, bátegas de chuva, nuvens ritmadas a pousarem lençóis de água em mim.
Preciso do sol neste espaço como amor em drageias bebidas no tempo certo.
Feixes de luz musicados, relâmpagos fluorescentes esbatidos até o tempo fechar.
Frutas maduras, castanhas dissecadas, arrulho de pássaros, lágrimas de calor.
Os teus olhos que buscam lugares, mãos em concha, um caminho de sol entre nuvens entupidas.
O teu coração com asas de fogo, a tua voz, a tua boca...
Este é o meu lugar. Um lugar novo.
25 Outubro, 2011
SEGREDOS DOS DEUSES
De dia abraço o Tejo… de noite a madrugada.
Da minha janela a cidade e uma luz esvoaçante.
Do nosso quarto vês a Lua, um rio, espelho de água e uma traineira.
Aí navegam os meus silêncios, enquanto corpos se enlaçam nos beirais, nas pontes à descoberta e nas ameias do castelo.
Tens Lisboa nos lábios, fado inquieto na língua.
Nuvens bailam a céu aberto, pinturas a carvão em tela difusa.
Lisboa de sombra e luz. Partir e ficar. Máscaras caídas após o bater das asas.
Senhoritas como contos de polichinelo, damas de cetim e olhar amendoado.
Lágrimas que apertas no peito. Caderno de partitura com música escondida.
Do jardim abraço o dia, na praia o pôr-do-sol.
Olhos de Anjo em segredos de pássaro.
Saudades com gente dentro. Carótida atiçada. Eufemismos na tua boca.
Deuses em rastos de gente, dentes que sobejam num sorriso.
Olhos na névoa que se dissipa em bando.
Feridas afagadas para que não sangrem, este texto que sai sofrido e uma bátega de chuva no parapeito, esventrando a noite adormecida.
É um tempo de deuses e anjos.
Sonâmbulos ancestrais, o meu doce refeito na tua boca e o teu arranhar ao de leve nas franjas do estuário.
Enrosca-te sem inquietação, prende-lhe post-it´s na roupa e faz-te figurante e narrador.
Aconchega-o no peito, acaricia-lhe o cabelo ao de leve, deixa o teu coração bater no espaço quente do dele.
Anjos de asas coloridas… a terceira cor do arco-íris.
De dia abraço o Tejo, a ponte em sobressalto
De noite a Lua dançando com nuvens a céu aberto, enquanto me fazes adormecer nos teus braços.
Serão estes os segredos dos deuses ?
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