Mil conversas, mil temas, mil opiniões, falar de tudo ou quase nada. Desabafos, alegrias e tristezas, risos e cantos, choros e gritos aflitos, saltos na rede e sem rede, liberdade total e inteira responsabilidade.
Uma rua como tantas outras, uma esquina como outras, semblantes vagueiam entre caixotes e beatas já fumadas.
A viela da saudade é o vazadouro dos inquietos.
Restos de gente sem prazo de validade, atirados como pedaço de qualquer coisa nos corredores ensonados de soporíferos.
Olhares perdidos flutuavam na janela do segundo piso, Marcianos, Plebeus, Reis, Deus, Anti-cristo, Cientista, Napoleão, de tudo existe no aconchego da nádega dada à seringa ao copo plástico três quartos de água e bolinhas brancas como comprimidos.
Evadidos dos próprios, quebrando correntes e historias de pasmo, baloiçando suavemente dentro deles.
Raramente recordam sonhos, fantasiam-nos.
Gente que não se vê gente... mas que se sente.
Empalhados sequiosos, etiquetados com prozac´s de cabeça feita vento, trauteando cenários dantescos com premonição assustadora.
Dilúvios de jovens arrancados à vida, indolentes sonhadores, poetas de marfim, escritores de ocasião, declamadores.
Cabeças rapadas, batas como mortalhas e bocas sem dentição, vazios de palavras e débeis de ideias.
E… dois e dois são quatro, três vezes nove vinte e sete. - Doutor, uma moedinha por um pão?
Tamborilho os nós dos dedos e a cicatriz que lhe cobre a testa, mais saliente.
Aguardo sempre um novo respirar… perde Inverno e Primavera, já não toca no tronco velho, faltam as forças, espalhadas na bandeja com a água e a ração diária.
São borboletas num casulo, e contrariamente têm serenidade intemporal, como se vivessem e preferissem assim.
O tempo é a desculpa inevitável, atar a alma a algo incerto.
O casulo da borboleta, o comprimido no copo pela metade, os olhares perdidos e flutuantes, um suspiro sem prazo de validade, na viela da saudade.
A intensidade com que aprecio os dias inteiros e não pela metade,o meu equilibrio a três-quartos mantido por extremos, a minha felicidade ao lado da sombra, a tua vida dentro dos livros, no alto das árvores, nas primeiras chuvas, nos textos que leio, na imaginação fértil, as saudades que tenho de um abraço, e fico esquecido do lado de lá.
Um dia levo-te para um elevador e carrego no Stop.
O trilho fermentado do desejo, o teu cheiro no meu, o grito que abafas com a minha boca, a sombra volátil do meu corpo e a tua lingua que me impõe lei marcial.
Vou-me emprestar a ti a fundo perdido, sem depósito nem caução enquanto o mar nos arrulha por entre esperas e os olhos batem num duelo de cansaço.
Agarras nos meus braços, esconjuras pecados e benzes-me com rezas ancestrais, atinjo o teu coração à dentada e sofregamente escorrego nos teus braços, como suicida indeciso.
Accionas a presença de Deus, absorves-me por inteiro, mordes-me os lábios enquanto o elevador abana frenesim.
Vacilo a minha maçã-de-adão na tua boca, o teu peito cintilante e as curvas do teu corpo entre botões reluzentes de espera e joelhos doridos no desconforto.
Uivas baixinho, não te tens na espera e empurras a porta, balbuciando desejos, enchendo o coração de medo como o debroar quezilento das ondas contra o molhe.
Vives como num palácio de sonhos e fantasmas encantados, espraias olheiras clandestinas pela face em urgências de paixão enchendo o coração de medo na minha presença.
A vadiagem da tua boca que brinca com e sem sentido, desperdiçando horas em coreografias madrugadoras.
Eu e tu no elevador e carrego no Stop.
E ficamos nós enrolados, a lua pendurada por fios, e eu no teu barco para Ítaca, entre a bussola e as estrelas e poções mágicas de Circe.
Percorro em passo marcante, afirmativo e gestos envolventes, um roçar de queixo e nariz, e um cheiro inebriante do teu perfume que me percorre cantos e recantos no meu corpo.
Tenho em mim o doce sabor dos teus dedos e o cheiro do fim do dia nos teus cabelos.
Ainda tenho o meu corpo molhado e sinto a humidade quente que se instalou entre nós.
Estremeceram as muralhas construídas com os nossos sorrisos, adicionando formas paralelas aos teus encantos.
Como mantenho as minhas pernas enlaçadas nas tuas ?
e as tuas mãos inquietas que entrelaças e percorres de Este a Oeste e a Sul perdes o Norte ?
Um dia danço para ti
Quero apoderar-me de ti em ritmos de salsa e provar-te o diabo no corpo, desatinar-te e adormecer-te a inquietação, enquanto transpiras por todos os orifícios da tua pele de seda, e o meu corpo se agarra ao teu em frémitos de luz.
Há entre nós um laço, um nó górdio, serpentinas que se enroscam em ti como um caminho sem fim
Os teus olhos que exalam partituras musicais e os teus beijos sequiosos, em marés e vagas de estio que rasgam o Outono.
Um dia danço para ti
Uma dança de guerreiro acossado por dragões e na memória de ti, desembainho a espada e defendo o teu castelo de princesa, até me prenderes na masmorra onde me queres e onde sem ti, definho.
E aí chegados, percorro a tua pele enquanto me sulcas por dentro e espevitas o meu ser, numa sincronia de respirações anelantes, no qual a tua boca concisa e segura se instala nas minhas frases, discorrendo palavras feitas e gemidos com dislexia verbal.
Um dia danço para ti,
Uma dança fecunda e seminal, e beijo os recantos da tua boca, fazendo alquimia dos meus gestos ritmados nos teus, num estalar difuso de felicidade.
Aparecias como Anjo esvoaçante e escultural
Pé ante pé, num equilíbrio de passos nas nuvens como se há muito evitasses o contacto com o solo.
Surgiste no teu jeito certo, percorrendo espaços comuns como se lá tivesses habitado anos.
Por vezes e como qualquer Anjo que se preze, desapareces quase incógnita.
Tenho por bem que vais reabastecer a alma e confortar o espirito tornando as asas mais brilhantes. É esse o brilho da luz que emanas e o pó de cristal que trazes em ti.
Outros vivem errantes sem nunca encontrarem qualquer lugar, vivendo pendurados entre varandas de uns e portas de outros, deixando assar no fumeiro da indiferença, virados de juízo para baixo e o coração de pernas para o ar.
Os Deuses contudo, caminham contigo e explodem em cânticos a cada gesto teu, fazendo do cinzento das trevas, azuis sorridentes.
Mas as noites estão pesadas e os dias tristes... mesmo para um Anjo.
E dou por mim no limiar do desespero entre teias que teço a cada canto e a fuga do indómito e cavernoso tempo entre ramos de solidão e as folhas de uma angustia presente.
Preciso que me salves dos fantasmas que me assolam memória e dos corvos que me agridem.
Mumifico presença perante as asas que te cobrem. Esvoaças por entre as ruas da minha alma, saltitas nas vielas que me acolhem num puzzle assustador de emoções ao rubro.
Por ti tenho mais paisagem, mais mar, mais céu, mais cor, mais espaço e mais de mim.
Tenho acordes e melodias tocadas em pianos de cauda, desde que abriste as asas, salpicando-me de ternura, quando as tuas mãos me percorrem num sentido sem fim.
Anjo ou Deusa, ou Deusa no meio dos Anjos, percorres o teu espaço e entrelaças a minha na tua mão num caminhar conjunto de pétalas abertas ao mundo, risos de sabedoria, choros amargos, trincheiras de adolescente repletas de emoção, rios transbordando ternura.
E se por ventura te sentires indisposta ... é porque o amor gelou as veias, paradas de sangue e nelas o nosso tempo.
Ou se algum dia sentires que já não sou eu, recolhe o pouco que sobra e dissolve-me na espuma das marés que nos embriagam os dias.
O amor, esse, faz-se também na solidão, apagam-se os gritos e cala-se a voz.
Porque sem Anjos ninguém vive. Não sou eu, nem tu. Somos nós.
Aqueci hoje a chávena pela última vez antes de partir, resolvi os assuntos e falei com o meu pai.
Vou embora.
Já sinto o vazio na sala ampla deste coração. Já sinto a alma a apertar e o tempo a passar.
Coloquei a possibilidade de parar o tempo ou muda-lo de lugar e tudo isto ainda me parece um sonho.
A verdade é que parto, mas não tenho noção se volto.
E sinto-me violentado pela partida, qual criança arrancada a forcep´s do sossego uterino.
Fiz um chá.
Coisa rara em mim. Se me visses saberias utilizar a tua expressão que me encanta.
Tenho medo de perder o tempo e de perder o medo. Tempo e medo são duas palavras que vão viver toda a vida comigo, neste sitio inóspito, rodeado de minas e armadilhado em cada canto.
Por cada carta minha ou missiva tua, saberei que voaram alguns dias.
Saberei viver longe de ti?
Aqueci hoje a chávena pela última vez antes de enfrentar uma guerra e mil perigos.
Quantos de nós já não voltam? Quem voltará?
Ao olhar cada um e cada rosto vou fazê-lo por quanto tempo?
A reboque do silêncio fingi-me desorientado, dar-te tempo para que me pedisses que ficasse.
Não que o fizesse ou pudesse, mas sabia-me bem ouvi-lo.
Meigamente e a custo, beijei-te quando dormias e perdi-me na tentação de te amar uma vez mais, apenas mais uma vez.
A nossa despedida foi curta, como curta é ainda a nossa história, mas nem por isso menos intensa.
Vou para um espaço que não me pertence, um sitio de ninguém, algures entre o céu e a terra na perpendicular de um horizonte, entre tiros de morteiro e bombas de” Napalm”, numa África esquecida, e ainda cheiro a ti, ao teu cabelo enrolado e à tua língua que me pinta a boca como Rembrandt as telas.
Vou agora enviar-te cartas à maneira antiga, perfumadas e com selo e irei precisar dos teus braços que não tenho, os teus beijos sequiosos embalando-me os sentidos, que me faltam.
Agora será assim, despojado de tudo e de nada.
Já trago a tristeza alojada em mim, como tiro certeiro na omoplata esquerda, bem juntinho ao coração.
E é entre nuvens desassombradas e calor estival, baralhado nas coordenadas sem certezas absolutas que me faço guerreiro, à míngua de melhor.
Quem sabe ficarei ferido de guerra em prenúncios de um fim, estilhaços de outro encostado a mim, fazendo disparar os alarmes na distância que nos separa como barras de titânio nas articulações.
E espero que apenas um amor faminto me carregue às costas como mochila de campanha, e me encharque com “kits” de amor, línguas contornando a pele, sarando feridas.
Talvez por sorte fique apenas de raspão, mas caso a “maldita” vença, festeja esta partida na tasca dos amigos em brindes à memória do que fui, com gargalhadas estridentes e anedotas passadas.
Festeja e festeja-me.
Por certo, alegrar-me-á o coração... e fará deste espírito acalmia.
Ficou a chávena e o chá gelado...não gosto de despedidas...até um dia, quem sabe?
Era capaz de jurar que não foi mais que um piscar de olhos entre a eternidade e o fim.
Foi assim, sem mais.
Porque é assim que tudo começa ou pode acabar.
Um piscar de olhos.
O coração salta e não sabe o que sente.
Bate e rebate, soluça, mexe, remexe, balança da esquerda para a direita e em sentido contrário, cambaleando como relógio ancorado em mim.
E… não sei, se te resisto.
Se te rompo placenta e nasço de novo.
Não sei se me atiro, se te puxo, se rodopio ou afasto ou me embrenho em ti.
Ou então finge que não vês, que não sou eu.
Que mordeste os dedos e eu cortei os pulsos. Finge uma tendinite, uma apoplexia, pede comprimidos milagrosos e duradouros.
Faz-te febril. Esquizofrénica, intemporal.
Tosquia-me as palavras, recolhe adjectivos e afasta-me os pretéritos.
Pode mesmo um de nós dizer que sim, que o outro diz logo não.
E vou fingir que não estou, que não sou eu.
Fugir, esconder, pintar a cara, disfarçar as olheiras, esconder as rugas.
Baixar a guarda, percorrer-me no interior, torcer-me por dentro, emaranhar-me por fora.
Era capaz de jurar que pisquei os olhos, talvez um cisco perturbador, nada mais.
Finge então falta de ar, alquimia, bruxaria, insatisfação.
Tropeça na casca que te lancei mas agarra-te em pedaços à memória.
Redobra-te de cuidados de vampiros inquietos e cabeças de hidra.
Não sejas loba nem capuchinho. Faz de ti incógnita, raiz quadrada ou apenas subtracção.
Não multipliques nem te inquietes…
Mas faz… era capaz de jurar que vi um piscar de olhos …
E … não sei se te resisto.