03 Novembro, 2009

O teu calor que me coze o frio na barriga.
As copas das árvores e eu a sorver-te num fôlego e tu a escorregar por dentro de mim.
Gosto de te ter assim na minha boca… adocicada.

Existe em mim este semblante de tristeza que se reflecte como “néons” no escuro da vida.

E os teus espasmos em mim, e as minhas mãos enregeladas, curvadas, torcidas e retorcidas, enquanto desces na direcção do esófago.

Engoli-te como seria desejável entre as dez e as onze, para morrermos assim, enquanto te espalhas como ramos secos nas intersecções dos meus órgãos.

E o passado. Excesso de passado em ti, agora que te transportas em mim.

Aquele jeito de Princesa, feita boneca de porcelana com tiques firmes a adornar o cigarro.
Baforadas e gestos largos e sublimes a tocar os lábios depois da fumaça.

E um toque mais. Outro toque, e eu lânguido, absorvido pelos gestos, ensombrado pelo fumo que se ergue.

Lábios carmesins-os teus, e um cigarro

Eu e o teu calor que me coze o frio na barriga.
Eu e tu e um metro quadrado de elevador, os dois e a vizinha, mais o nosso ar.
O ar que respiramos os dois, a partilhá-lo com a vizinha.

Ela de sorriso trocista, imaginando que me habitavas mais por fora que por dentro, mas só nós sabíamos que por dentro me devoravas frenética, inquieta, degustando-me gulosa, entranhada.

E eu assim apunhalado, trucidado, remexido.
E foram assim, dois a três dias, de noite, na manhã seguinte, na noite do dia seguinte e outro dia também.
E era nessa luta interior que nos misturávamos que nos dividíamos apenas em nós.

Espasmos, o teu passado em mim, o jeito de Princesa com punhal no lugar do cigarro, e o gesto firme e quente e o meu “néon” psicadélico, desfalecido.

E eu com o teu sabor em mim, adocicado na minha boca, e o teu calor que me coze o frio na barriga.

16 Outubro, 2009

Ser Gato




Quero viver contigo e em ti
Enrolar-me num lençol de cetim
E de quatro fazer dois.

Quero ronronar por ti, afagar-me em ti e arranhar-te naquele momento próprio do desejo.

Quero subir aos sofás, rasgar cortinados e enrolar-me nas tuas pernas largando pêlo no teu regaço.

Quero ser gato em ti
Gosto quando me sorves em parágrafos, quando me lês de uma vez e ficas sedenta de mais das minhas historias das minhas palavras e dos meus silêncios

Entre um afago e o aconchego, um ronronar e pêlo eriçado, as tuas bradicardias que me pedem café.

Quero ser gato em ti.
De manhã enquanto acordas e me passeio pelo teu corpo num despertar siamês e todo o tempo em que espreguiças os teus braços e te mordo os dedos e pulsos, sentindo o sangue quente que te envolve.

Os meus olhos faiscantes nos teus de princesa, o meu bigode de gato das botas, as orelhas pontiagudas, e as unhas penetrantes, enquanto franqueias espaços de guerra para um encontro de paz.

Quero viver num lençol de cetim, com coleira anti-pulga, entre as dez e as onze, num quarto arejado a escorregar de loucura, entre corridas atrás do novelo, até que me faças parar.

E subas paredes comigo
Para seres
gata em mim.

15 Outubro, 2009

Às vezes um Anjo



Às vezes um Anjo
E eu a trocar-me todo entre o Senhor de olhar distante, circunspecto, ao miúdo que saltita entre espaços no jogo da macaca, que chuta a bola e que salta a corda.

Às vezes não oiço
Tolhe-me o pensamento e a surdez que me obriga a esforço de entendimento.
- O quê? Sim?

E o lado esquerdo mais enquadrado inclinando-se para a voz que me fala.
(Porquê o lado esquerdo se oiço mal dos dois?)

Às vezes um anjo
E eu por aí.
Não perdido, mas fora de mim. Fora de tudo, noutra dimensão.
O meu corpo aqui. O sorriso ali, e eu fora.

Longe, muito longe, tão longe que nem eu sei.
Vagueio por aí em sombras, minhas e dos outros, mas apenas sombras.
Estou por lá um tempo.

Daqui por umas horas, muitos anos depois, sou eu a olhar para ela.
Apenas os dois no café. Um sorriso tímido.
Bigode fininho, bem aconchegado ao lábio, risca ao meio, fatiota aprumada e uma xícara de chá.
Ela, boca de chocolate, cabelo elevado e sentimentos em pratas de bombons a saírem-lhe dos olhos.
Mindinho esticado a baloiçar o chá na porcelana francesa, um biquinho, um beicinho, e o fumegar da planta na água quente.

Vai nos oitenta e nem uma ruga, nem expressão fora do lugar
Eu, ritmado pelo seu dizer, saliento espaço para levantar o sobrolho e apreciá-la avidamente como se a visse ontem pela primeira vez.
Estou recheado de vincos, como uma camisa mal passada, enrugada.
Mas prefiro assim, vê-la assim.

E tenho a imagem ali, a cabeça aqui e o sorriso corpo fora.
Retrocedo então, pequenos passos e regresso a mim.

Às vezes um Anjo.

Por vezes receio.
O dedo indicador na sala de espera do consultório dos aflitos.
O dedo na minha direcção e o embate.
- Você! Os seus exames chegaram…. Lamento.

Assim. Só assim. Simples, curto, conciso e um segundo.
Um mísero segundo e tudo muda. Entre o tempo antes e o tempo depois do segundo, tudo muda.
O dedo indicador, o desígnio, o destino.

Às vezes um Anjo

Que me traz estes pensamentos e lembra a finitude.
E a infância em desenhos, uma corrida na adolescência e a finitude.
Este Anjo que me rodeia e que sinto quando bate as asas. O pó mágico que delas cai.

O meu vizinho, muito velho, a mulher muito doente, e muito tempo a visionar a rua, do peitoral da casa.

Prometi escrever-te, mas não podia ser inverno. Nem podia ter secado.
As mãos não mexem, os dedos não agitam, a alma vai congelando e o cérebro num espera-desespera.
Como um monstro cinzento feito nuvem que me engole e de cujas entranhas retiro sombras para chegar a ti.

Olho para trás e parece que toda a vida foi um sonho, perfeito ou imperfeito, mas um sonho. Um sonho de sentimentos e emoções escavadas.

E eu a trocar-me todo entre o Homem e o miúdo, o dedo indicador esticado, o destino, memórias e o Anjo com asas.

Às vezes, mesmo assim

Um Anjo

11 Outubro, 2009




Gosto de rir
Sempre gostei de rir, de pregar partidas, de jogar com as palavras.

Detesto cinzentismos. Já me chega a vida e o inverno com os seus ares de trovoada e diabinhos à solta pontapeando a nossa existência.
Veio-me à memória o “homem das castanhas”, um saco de serapilheira.

Elas todas juntas, ainda quentes, ele, mãos grandes, enegrecidas.
Faz um cone com jornal e vende uma-dúzia-cinco-tostões.
Está cara a vida… uma-dúzia-cinco-tostões.

Há coisas que se pegam a nós, não nos largam.
A Ribeira num crepúsculo, o Inverno em Trás-os-Montes, o verde do Minho, as ondas desérticas da areia do Sahara, e a figura “Maria das gravatas” que corria Porto fora, desatinando tudo o que era gente.

Por vezes também me apetece fazer isso, desatinar toda a gente.
E no entanto gosto de rir.

Ainda tenho um “gato de botas” um “zorro invencível”, um “Homem aranha” avassalador, um pássaro que fala comigo, uma galinha que me pisca o olho e quatro namoradas na escola, e no entanto uma-dúzia-cinco-tostões.
Está cara a vida.

Já despachei racionalmente o “Gato” mais o “Zorro” e o “Homem-Aranha”. O “Velho-das-barbas” vai depois, com o Homem das castanhas e o saco de serapilheira mais as quatro namoradas da escola.

Ainda gosto de rir, mas uma-dúzia-cinco-tostões ??
Está cara a vida.

05 Outubro, 2009

Cinco de Outubro na memória...




Num Cinco de Outubro, saltamos portões, agitamos a quinta, trepamos arvores, devoramos fruta, corremos como lebres e refastelamo-nos à porta do Ricky, ensopados em suor com Bolas de Berlim do "Cunha".

Um dia, mais tarde, abandonei a infância, a adolescência ficou amarrada a projectos desportivos.
De repente, vejo-me longe das conversas dos amigos, das brincadeiras vividas, dos risos e choros, das desordens ordenadas, de partilhas, de namoros, de jogos, de festas, dos bailaricos com Pink Floyd e o “Dark Side of the Moon” que abrasava o gira discos do Barbosa.

O Veloso e o “Chico Fininho” saíam à rua com a “Rapariguinha do Shopping” e o Augusto aparecia de MGB descapotável, lançando inveja nas garotas da avenida.
E eramos nós, a malta, da “Ribeira até à Foz”, com os "Já fumega" e os "Minipop"...
E durante anos, fui desatando os nós.

Pensava ser amanhã o reencontro, ser outro dia o abraço, ser novamente ontem, para nos rirmos e brincarmos como sempre.
Mas, o destino trocou-nos os caminhos da vida.

O telefone já não toca como tocava. Os reencontros vão-se tornando raros.

O Figui advoga com o tempo contado. O Ricky, anda a saltar do Porto para Esmoriz, o João controla as corridas dos seus atletas e os cabelos brancos surgem em catadupa.
O Amado desapareceu, dele nem rasto.
O Pedro, Paulo, Costa, Leonor, Paula, Fátima, Laura, Beta, Sérgio, Zé, Carlos, Nanda, tantos, tantos que eramos. Um grupo excelente.

Enchiamos o comboio para Esmoriz de alegria vivida. Cerveja com groselha em pequenos almoços mirabolantes com rabanadas de molho divinal.

Francesinhas da Tí Alice, regadas com o verde do Monteiro, que dizia sempre: - “este é dos bons, já cá canta...”.

A Tia do Amado, suspirava pelas noticias que lhe levávamos, com ele a conta gotas espreitando da esquina em frente.
O "S. João" com filas de 60, numerados em saltos de fogueira, as corridas pela Boavista e o dormir na praia da Foz.
Dizíamos: - “Três dias e três noites sem ir à cama, seus morcões”.
O jogo do "pilha" e a “sameirinha”, a “patela” e os jogos de bola no Velasquez.
Chumbadas nas calças de ganga, de “assaltos” à fruta na Quinta do Monte Aventino,...

Quando nos encontramos, tudo parece ontem.
Saltamos e brincamos e falamos tanto e tanto em tão pouco tempo, que sofregamente, enchemos Santa Catarina.
No retorno a casa, fazemos promessas de encontros frequentes... e o telefone.. e o E.mail...

... e a vida volta, e o tempo alonga a distância, e o Inverno passa, o Verão volta, e amanhece de novo.
E mais cabelos brancos e rugas espantadas em espelhos de jovem.
E contamos aos filhos como era bom, como nos divertíamos, o que era a “verdadeira amizade”, as partilhas, o jogo da “casquinha”, o “porta a porta”, a “esmolinha p´ro St. António e "P´ro S. João”, e a sopa de couve na casa da Avó.

E virámos o 25 de 74, de mochila às costas na Praça D. João I, a ver chaimites e “magalas” de sorriso largo olhando as moças que passam.
... E como hoje é diferente.
Como a “Playstation” e a “Net” e o “Pokemon” e a TV Fox, subtrai a amizade a potências de solidão.

Vá lá pessoal, só mais um copo.

Não, o último não.
Passaremos pelo Oliveira Martins ou o Alexandre Herculano e esperamos as miúdas às cinco da tarde no Rainha Santa.

Depois embarcamos na paz do tempo e algum tempo depois encontramo-nos a caminho...
de novo... até um dia, quem sabe ... ?

Não sem antes secar esta que aqui enrola e espreita num canto do olho na vã esperança de vos ter de novo, todos juntos, como ontem.

23 Setembro, 2009

As vezes o Amor...!



Belas as cartas que releio na premonição do tempo.

Seladas, lacradas, fechadas.

E foi ali naquele espaço, ao alcance dos meus dedos, da minha mão.

Fugiste-me.

Ainda guardo esse cheiro no canto superior esquerdo, o lado do remetente oposto ao selo. E a fita-cola e o carimbo e 20 anos já ali ao virar da esquina.

A esquina da saudade, o tempo e o passado, a distância e a lágrima que nos corre pela cara.

De saudade, de alegria de momentos, de bocados, pedaços de nós.

Por vezes passavas e nem levantavas a cabeça e eu ali, sereno, a vaguear com o olhar na direcção da tua sombra.

Fazia monólogos ensaiados no aproximar do cumprimento, do balbuciar o teu nome, trémulo, inquieto, quase remendado a fita-cola como as tuas cartas que releio.

Adorava ser sangue e circular nas tuas veias, percorrer-te os segredos, cantos e recantos. E pousar suavemente na tua mão.

Os dedos que percorrem o papel em que ensaio escritos para ti e quase te toco.

Quase te toco.

E escrevi, não dez mas quase certo, um cento.

Escrevia e rasgava, voltava de novo e rodopiava na escrita e na lembrança.

Fazia poesia de olhares macerados, e canções de amor lançadas ao mar do cabedelo.

Era... já não lembro quem, que tocava nos discos de vinil.
Um selo, dois tostões.

E o cheiro, o teu cheiro na dobra final da carta. Selada, lacrada de ti, em pedaços de escrita, por mim.

O tempo correu voraz.

Serás agora um jardim, provavelmente já não flor, mas sim Jardim.

De mil cores e mil cheiros rasgados e abertos ao céu.

E imagino-me na dor de não me lembrar de te dizer isto…

Naquele dia, era mesmo eu.
Uma sombra colada a fita-cola com o teu cheiro em mim, e um selo de dois tostões no lado oposto ao remetente.

21 Setembro, 2009



E chega uma altura em que passamos a ter mais uma amiga a rondar-nos a porta.
Sentada. Às vezes de pé, longe e perto, mas atenta.
Paciente.
Sabe que nos tem como certos.

Chega ao catálogo do dia e hora... escolhe... prepara as coisas ... e ...
E nós..- mas tem de ser já ? Nem um almocinho, um café, um copo ? Sente-se aqui, já agora, (nós a adiarmos a hora) e ela afoita, esperta como as raposas.

Olha de soslaio....

Passa a conviver connosco.
Nos hospitais... - Quem é aquela ali? Parece que conheço, mas não sei de onde...
Na rua, junto ao passeio, vestido comprido preto de cerimónia, sem cerimónias nenhumas. Ao nosso lado, como se fosse a nossa pele, colada a nós.
Nas filas intermináveis das repartições, passa-nos a mão-pelo-pêlo

Por vezes sentimos-lhe o cheiro, acre, pesadão, irrespirável.

E dorme connosco, como uma amante. Utiliza o nosso espelho, usa a nossa toalha, a nossa tosse, o coração, o corpo, como uma amante.
Pior que uma amante.

E no fundo sempre esteve connosco. Nas análises ao sangue, à urina, as ultrapassagens na estrada, na guerra colonial, o colesterol, a arritmia, o fígado, ao espelho - quem é aquela que está atrás de mim??
Como uma amante.

Pior que uma amante
- Veste o casaco que vamos sair. Traz trocos para o autocarro (já ninguém anda de autocarro, muito menos com uma amante).

Aconchega-nos o cachecol ao peito. As rugas que nos cobrem o rosto, os joelhos que tremem, a mão que não para, as pálpebras que não abrem, a respiração que não se ouve.

E chega a altura em que a olhamos sem ver, com olhos mortiços, sem razão e sem sentido, como uma amante.

E depois somos nós na fotografia da estante, afastada, sobre o náperon às rodinhas que a tua avó fez já lá vão 85 anos.
É de renda e valiosa, uma relíquia, como tudo o que ela fazia.
E o vazio, não da presença dela, mas do retrato, na cómoda, encostado à bíblia e ao espelho.

O corpo que se afasta e que não é de ninguém, o carro que não pega a casa que se foi e a tua Avó Esmeralda, importante como o nome, e a dentadura a boiar no copo e ele à janela com ela ao lado e o vizinho que insiste em urinar contra a serventia do lado do portão. Quase como os cães, de perna alçada, um pingo bem sacudido, como os cães.

E a corrida contra o tempo, um tempo sem corrida e sem espaço, um pingo de soro, a máquina que apita, a injecção que ela acompanha de pé.
Pé-coxinho.

A ver se vale a pena... um-dois-três, vou nascer outra vez ... começar de novo... a ver se vale a pena

E ela ri e dá-nos a mão, afastamo-nos, longe. Lá longe.

E a foto a preto e branco encostada, a televisão na novela das cinco, e a tua Avó Esmeralda sem dentadura na moldura ao lado.

Raio de sorte a minha.
Logo a tua Avó Esmeralda, importante como o nome, e o meu Benfica que perdeu com o Manchester, mais o Zé Águas e o Coluna, Bobby Charlton e uns Beatles a caminho de Liverpol.

Mas a tua Avó Esmeralda ?