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REENTRANCIAS DA LUA

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Igrejas povoadas de velas pingando cera, encostadas umas às outras como se dormissem, e os painéis dos santos de olhos bonitos que nos inquietam.
Sombras estreitas de viúvas e velhos mexeriqueiros como caturras, despejando do porta-moedas restos de côdea de pão.
A minha impaciência soletrada três vezes, o estuque da parede desbotada da humidade, as molduras de família sem pressa, enternecidos uns, tranquilos outros,
 E o relógio de parede num descompasso arrepiado, até rebentar com todas as horas e minutos do mundo numa algazarra histriónica. Agora, parece que o tempo não se altera mas eu no interior desse tempo vou envelhecendo pouco a pouco.
E eram as horas da toma do bicarbonato, do chão limpo com creolina e a elegância do gato persa na varanda, cuscando as cretinices da vizinhança do prédio em frente.
Sente-se o cheiro do peixe do lado do rio.
A lua gorda presa à água e cristais finos saindo dela na direção da noite. O licor de tangerina adocicava na mesa por cima do naperon com …

DESORDENADA VIDA

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Cheiro de loção barata para a barba, dentes postiços pontapeando as gengivas. Óculos como rãs saltitando entre as orelhas e a cana do nariz. O globo ocular fora e dentro num estrabismo confuso. As cigarrilhas do velho “Pastas” mexiam sozinhas, penduradas no lábio de baixo, agitando levemente o fumo, gotejando saliva, como cera em lacre. Era este desaforido viajante, na insubmissão de quem não dorme na mesma cama que se agastava em gestos circulares, calcorreando a Praça Velasquez, pé direito-pé torto. E aparecem assim, aqui e ali, outros velhos de barba grisalha e cabelo seboso sem pente, roupas bafientas numa opulenta miséria, garras em vez de dedos, coçando-se réstias de dignidade, sorvendo beatas apanhadas ao acaso em qualquer frincha dos paralelos de S. Bento. No inverno quando o rio Douro se esbatia nas pedras da Ribeira, e com um olho espreitava o funicular dos guindais, graúdos gelatinosos como pirilampos sem luz, debitavam acordes grotescos enquanto a malta chapinhava nas poças …

O MUNDO DE PERNAS PARA O AR

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O MUNDO DE PERNAS PARA O AR
Quantidade enorme de gente sem relação entre si, e que procuram, pisando os mesmos espaços, o mesmo tempo.
Roupas penduradas, vasos partidos que espalham terra. Plantas tombadas viradas a sul. Baldes de plástico como latrinas.
Meninas sem idade e seminuas. Uma quase mulher, feições fugidias como se com vergonha própria, em permanentes caretas desajeitadas e seios espremidos e murchos.
Senhoras com costuras atrevidas e folhos marcados na bainha como partituras.
Homens fantasmagóricos, encalacrados numa imagem. Sabedores de tudo e de todos, como mágicos fantasiosos, revirando a cabeça no sentido contrario do corpo. Malabaristas da vida.
Vendedores de certezas ocas com roupagem de deuses ancestrais, debitam frases para um público gaseado. Um mundo paralelo e ilusório. A promessa de tudo, A recompensa no final do arco-íris.
Mulheres santificadas em frases rítmicas, entrecortadas por decibéis tenebrosos, cáusticos e violentos. Tão rude, que subitamente o ritmo…

QUE TE DIZEM OS OLHOS

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Que te dizem os olhos ? 
Olhares inquietos, verrugas de água no vidro da sala, espelhos sem reflexo.
Um casulo em contraluz. Os passos do inverno, cautelosamente chegando devagar
 Os pequenos ódios remoídos, como a sombra da mãe por perto, as pregações, o não querer saber, a Tia Henriqueta e o rímel três partes ao lado.
Os espartilhos fazem morrer tiras nos músculos abdominais, os cremes escorrem agarrados ao suor como cal de parede sem pintura.
O desprezo pelos óculos dele, A lente difusa com que o vê, as frases relampejantes em que te atiça, e a velha tia, uma velha tão azeda que até os casacos tigresa desmaiam aflitos nos ombros.
Veem-se gradações de luz, filtradas por latões de cobre, peças espalhadas, numa desarrumação aparente.
Silêncios remexidos por dentro, uma aceitação, a dádiva da vida num olhar.
Um olhar tão cheio de nada, um nada tão cheio de tudo e o medo que algo saia de dentro do tudo e o soterre.
Formigas na barriga, um inchaço no peito, a voz retida em impulsos c…

Deixa ficar assim…

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Dormes menos. Vês passar o tempo, quieto, sobranceiro, meticuloso.
Cartas ao pai natal. Um comboio elétrico para aquele, uma pista de carros para outro, a camisola de lã, o cachecol, o perfume. Uma interminável lista.
 E de repente no mesmo acordar todos na direção da missa do galo, três pais-nossos, duas ave-marias, a Ceia de Natal.
E o espelho na cómoda em frente, que te reflete. O que irá refletir daqui por uns tempos?
 Neste instante tudo é serenidade, O mundo parece ter parado, Nem um movimento. Contudo, se abrir o cortinado, reflexos no vidro do quarto.
 Até os murmúrios regressam, acompanhados pela minha avó espanhola. - “Hola como estas “ – e uma chávena de chá segura por dois dedos e o mindinho esticado.
O Avô impaciente, deslocava-se como se patinasse.
As “tias” que acompanham a avó, recostam-se em poltronas com crochet´s de um lado e a boca revirada (para assuntos da vida de cada um), para o outro.
Isso e as dentaduras que abanam em sons de castanholas num “salero” de Vigo…

A MEMÓRIA

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A memória aparece intermitente nos dias que correm solarengos.
A memória dos mortos é mais viva do que quando estava com eles.
“Amanhã telefono-te. Sim, já gravei o número. Não esqueças que temos de almoçar… este ano juntamo-nos todos antes do natal…”
As nossas conversas, encontros e reencontros ficam para depois. Nunca temos tempo, esquecemos rápido, e no entanto o tempo está aí.
Um dia temos tempo.
Sorrisos em câmara lenta, comboio no apeadeiro das sete. As figuras, as vossas e as minhas, o passado no presente. As palavras.
Aos poucos e poucos vão aparecendo as primeiras ilhas. Ponto a ponto. Perfil a perfil. Pequenos e imprecisos muros, delimitando jardins. Viramos, contrapomos edifícios, suspirando pelas imagens que se apresentam majestosas.
Uma longa avenida, dois a três candeeiros altos e largos, entre-cortados por outros pequenos e escondidos.
Igrejas e uma torre. Um monumento, mais uma capela e uma nave central cobrindo com feixes de luz restos de pintura nas paredes.
Gente que…

REFUGIADOS

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Qual o nome desse corpo a que chamas teu? Pagas uma viagem incerta num ritual de ondas que te levam. Até à sétima vaga num porto qualquer. Ficas num limbo, na sombra do corpo e a perda do brilho no olhar triste e despegado.
Trazes sonhos em rebentações e foges do infortúnio numa barcaça de mortalhas esculpida como cilindro. És o esqueleto de alguém que anda, esse corpo e alguém com ele. Algo que nem tu entendes, mas procuras. Foges de balas ziguezagueantes, morteiros de fome estampada no teu peito que enche os bolsos de muitos. Esse é o teu tronco, numa outra cabeça. Os teus braços noutro corpo. Lapidaste o desejo e esculpiste a lágrima furtiva enquanto os ponteiros desandam em sentido oposto e as marés invertem tenebrosas passagens do tempo. Será num mar grego ou Italiano, será em janelas repletas de fantasmas que vão soltando por aí.
Saem do corpo, deixando-os pendurados
Permanecem em silêncio no meio dos silêncios. Talvez também fantasmas silenciosos. Cegos na busca de um caminho, um…