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"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um individuo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de Acreditar

que daqui para frente...

tudo vai ser diferente ...!



"Carlos Drummond de Andrade"
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Existem estradas sem direcção e caminhos tortuosos a percorrer.
Acontece-nos em quase tudo, um esforço tremendo para conseguir pequenos nadas.
Como um Dali, as estrelas pintaram o céu, troquei os passos que esperava dar e amparei-me para não cair.
Sei que quase ninguém me lê neste canto.
Coloco letras em frases seminuas e abandonadas. Sou eu e elas, as letras.
Por vezes consigo vê-las saltar pelo papel, caminhando não sei porquê nem que direcção tomam,
e com dificuldade junto-as como um pastor o faz com suas ovelhas.
Essas letras, não são um rebanho, mas talvez, inquietas criaturas que fazem questão de perturbar o meu sossego.
Ordeno-lhes disciplina cuidada, rigor, contenção, mas as malvadas correm pelos textos, saltam parágrafos, e brincam, rindo muito, muito, pelo esforço que faço em mantê-las ordenadas.
Uso papelinhos que escrevinho e acumulo nos bolsos, como se levasse daí alguma vantagem.
Mas, não raras vezes, os papéis de pouco servem, saltando da memória para o teclado, frases, ideias, l…
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E agora?
Depois da euforia dos sacos na mão, rabanadas recheadas, Peru e Bacalhau com todos em fartas mesas, dos carros estacionados em 2ªs e 3ªs filas, para um ultimo retoque no presente que esquecemos, nos bons dias dados a correr, o abraço apertado e aperto de mão esfuziante, àquele que ainda ontem vimos e fizemos de conta-que-não-pois-ele-é-um-chato-do-caraças-e-eu-não-tenho-paciência.

Do Feliz-Natal-e-Festas-Felizes-e-se-não-nos-virmos-um-Bom-Ano-para-si-também, que sai a correr sem significado e sem jeito, em sílabas mastigadas com os restos do bolo-rei que ficou do café tomado no centro comercial.

Do frenesim de cores, de embrulhos, de laçarotes azuis, vermelhos, verdes, multicores, da camisola Gant, do lenço Burberry´s, do sapato Chanell ou da ultima-moda-xpto-eléctrica-que-ainda-ninguém-tem-e-faço-um-grande-vistaço.

E agora?

Largados os últimos, cirandando na rotina normal dos nossos dias, onde fica tudo isso?
Onde colocamos a excitação das ultimas semanas, dias, horas, minutos?
Ond…
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Na Marta já tentou acertar 3 vezes no coração, pontaria desafinada, danadinho.
Setas que pretendo atire e acerte em cheio... nada!.
Grave problema para quem faz da vida, Cupido.
Anda distraído, cabisbaixo, olheirento. O meu Cupido não anda bem.
Sentimentos de amargura pela falta de pontaria apresentada.
Como ontem... "...Vá, Cupido acerta naquele...."
E ele, apertando-o-arco-contra-o-peito, susteve respiração, disparou e... flecha no chão.
Nos treinos já caiu de telhados, tropeçou em baldes, bateu com a cabeça em postes, quase foi atropelado.
Quando dispara na pessoa errada, deita a correr até conseguir retirar a seta.
E chega-se perto de mim e fala-me ao coração pedindo desculpas e afagos.
Quantas vezes lhe digo, para ir tentando..."um dia vais conseguir..." "andas nervoso..." "ainda nãoapanhaste o jeito..." "são pequenas fases..." "muda de arco... "
Pede-me desculpa atrás de desculpas, e eu... desculpo, claro.
Pobre Cupido.
Eu acho que …
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Se embalares o meu sono
numa noite de cidade cansada, num imenso adormecer.
Num ritmo citadino, fluido, pedindo retorno à intimidade.

Se te aconchegares em mim,
enrolando-te em sons e aromas de fragrâncias campestres em corpos cansados e adormecidos, onde as palavras perdidas de sentido ecoam num espaço reduzido, como reduzido o nosso tempo.

E ouvimos ruídos de delinquentes com um passo a descompasso, cambaleando como “zombies” inebriados ao som do álcool que lhes tilinta nos olhos.

E embalo o meu sono em silêncio recolhendo despojos de mim, fazendo de ti concha em mim.
E guardo sorrisos e carícias e memórias que congelo para usar amanhã num qualquer micro-ondas de um qualquer lugar em que me encontre

E fecho a cadeado as minhas fraquezas não deixando transpirar um único acorde da musica que entoo, embalando sozinho o teu corpo em mim.

Fecho os olhos e resigno a minha condição a um interior de oceano sem fim.
Coberto de quando em quando num manto cerrado de nevoeiro.
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Como gosto de morangos rubros e suculentos numa tarde de verão...
como gosto de dias ensolarados despontando de névoas matinais em promessas de vida ...
como gosto da chuva a fustigar-me o rosto num qualquer entardecer...
do mar infinito, sereno ou alterado cuja imagem não se repete nunca...
da estrela cadente que trespassou o olhar sem sequer permitir formular um desejo ...
do dia que amanhece e adormece e amanhece de novo, sempre em tons de surpreendente colorido
de mim e de ti e de outros que passam e espreitam um gotejar por entre portas,
de um Porto ribeirinho, de uns bons malandros ou janotas aprumados,
de damas de chapéu arqueando sobre ombros com peles de boutiques finas,
de pedintes, de ouvintes, de um dragão vencedor.
Da água fria da foz e as suas margens reluzentes, como reluzentes as francesinhas do Capa Negra.
De um carro eléctrico que sobe os clérigos a compasso, dando graças ao granítico monumento
E a outros que povoam esta cidade de gente bela, de gente boa.
De um Porto sentido, po…
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Ela é uma matadora.
Bamboleia os quadris, umbigo ao vento, pele tratada, unhas de gel, mamas de silicone, pestanas de plástico, sobrancelhas de feltro.
Ela é uma vedeta.
Caminha como se estivesse sob holofotes.
Eles param, torcem e retorcem o pescoço, alguns já têm jeitos, afagam os bigodes e dão um ar de galanteio.
Pressente os olhares e bamboleia como numa dança erótica o seu corpo semi-artificial.
Entra no café da avenida e do barulho, silêncio gélido se faz.
Entrou a matadora.
As mulheres desdenham a imagem e comentam em surdina ...os “valha-me Deus, coitada...!, e
..."olha-me esta pindérica...", num misto de inveja e troça refinada.
Os Homens, são dominados por um resfriado de gentileza no trato, e os “faça favor...”, “claro que sim, concerteza...”, espalham-se pelo balcão.
Um olhar mais maroto, atravessa a sala.
O Sr António, velho lobo do mar, faz o Sudoku.
Duas filas feitas, engano no 8, apaga o 4, decide-se pelo 3.
Lança novo olhar e um “Ai se eu fosse mais novo...”- ecoa.
A matad…

Nódulo que tapa a alma

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Descobriu em si um nódulo que lhe amordaçava a vida.
Sentiu-se perder as forças e a razão. A esperança esfumou-se. Em breves segundos revisitou todos os lugares, relembrou todos os momentos, todo o seu tempo.

Estática, compenetrou-se das razões que não achava e eclodiu num choro compulsivo.
Arrumou-se em si mesma como um trapo que se enrola.

Sentia o corpo ceder como se não habitasse nele e o visse algures por aí.
Os músculos quase não reagem, tem uma ansiedade que não acaba e nem uma única célula que não esteja virada do avesso.

Pensou imediatamente porque razão Deus a tinha abandonado. Mas todos sabemos que Ele não pode atender a todos os necessitados e enquanto não arrumar todo o seu expediente, não se volta para aqui.

Amélia, sentiu um arrepio gelado de dor que atravessa a alma.
-"A morte passou por aqui, … exclamou."

Eu bem senti, que o tempo hoje estava diferente e que as brincadeiras no parque, geladas também elas, assim estavam, porque a morte andou por lá a brincar…
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Quero viver como um gato.
Enrolar-me nas tuas pernas e ronronar para que me afagues.
Beber leite em tigelas de plástico e comer peixe fresco pelas tuas mãos.
Quero pousar relaxado no teu sofá e encostar a minha cabeça no teu colo como quem não espera por amanhã.
Quero deliciar-me entre os livros que estás a ler e lamber o meu pelo depois do teu afago.
Quero ouvir-te ralhar quando espalho pelos por toda a casa e arranhar-te a pele quando brincas comigo.
Quero escutar os teus desabafos mesmo que não os entenda e miar de noite enquanto dormes.
Quero cheirar-te a pele e afogar-me no teu perfume de princesa.
Quero ser gato para subir aos telhados, saltar de beiral em beiral, ter sete vidas e dessas sete, viver catorze contigo.

Contra a Indiferença !

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Andamos ocupados com lembranças, prendas, corridas de ilusões próximas e distantes, numa mistura de deslumbramento com luzinhas a piscar em êxtase de consumismo frenético.

Passam por nós, novos e velhos, desenganados uns, coitados outros, cabisbaixos, sujos, melancólicos de tempo perdido, não se percebendo, tamanha a crueldade destes tempos, onde começa cada um de nós e acaba cada um dos outros.
Onde completamente indiferentes pela vida, não cedem lugar a sonhos realidades ou fantasias, e sem esperança no futuro, vegetam em circuitos urbanos.

Olhos opacos, pele tisnada e gasta, mãos sofridas da escravatura do sonho.

Percorro estas ruas de Dezembro, como de apeadeiro em apeadeiro, enchendo a memória e o olhar, para despejar na estação mais próxima, lágrimas por rostos de criança a quem foi prometido um Mundo e a quem deram, nada.

E se cada um de nós se plantar em pensamentos distantes e imaginar infâncias assim vividas, como seria o nosso olhar?
Como seria o tempo, de um tempo sem tempo, em …
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Ontem, num grupo de amigos, discutia-se a problemática macho-masculina (na voz do António), do gajo que olha o rabo da gaja e se baba todo, como ranho de caracol.
Nunca tinha pensado nesta questão dos traseiros e da sua influência no comportamento masculino tão profundamente. Normalmente os homens vêem nestas questões, valores mais arredondados. Portanto, não sei se será questão, se falsa questão. E discutia-se a problemática questão de as rebolonas serem ou não, umas senhoras, ou umas pindéricas sem jeito para a coisa. Discutiu-se a filosofia do trejeito de anca, da perna mais ou menos torneada e até do tecido adiposo, que a substância traseira trás agarrada a si, o que, tornou o tema mais interessante, pois passou a discutir-se filosoficamente um problema de índole médico-cientifico.
Não sei o que tinha o tema de tão introspectivo, que o Mário, passou todo o tempo de boca aberta, maxilares bem firmes sem ranger os dentes. Os sorrisos esses eram mais que muitos, tal a definição científ…
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Por vezes dou por mim a questionar-me :
- Para onde vou, de onde venho, o que tenho feito, o que necessito fazer, se existo, se sou mesmo eu, se estou vivo.
Travam os meus neurónios lutas incessantes com uns fiozinhos cá dentro, para se conectarem. Mas por vezes não é fácil, as conecções ou estão lentas ou com dificuldades de ligação.
E questiono -me porque escrevo.
Se já nem tempo tenho para ler as "Visões" e "Sábados", que se acumulam por casa, mais outras que aparecem, mais os livros que vou comprando, de tal forma que aviso sempre;
- "... aqui ninguém mexe!"
para quem não sabe, devoro estas leituras todas de fio a pavio, o que é viciante, bem sei.
Mas afinal porque escrevo?
Tenho amigos que escrevem, conhecidos que escrevem, outros que nem conheço que escrevem também, uns editaram outros não.
Escrevem alguns vizinhos, como o do 6º Dt, mas acho que nem ele sabe. Escreve o Administrador do condomínio papeis que nunca mais terminam. Escreve o Lopes do café, post…
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Aproximamo-nos do mês, em que sinto-não-sei-bem-o-quê.
Uma inquietude que me agita o esqueleto. Aquele estado de alma, que me rói o corpo.
De ano para ano a estrada para o Natal, vai-se deteriorando. Só não deixo de a percorrer porque as crianças assim o dizem.
O comodismo, o consumismo e o cinismo tomam lugar na cadeira do Pai Natal.
Gosto dos beijos e abraços quentes e sentidos revestidos de um Natal apertado em laçarotes vermelho garrido. Gosto da partilha de afectos simples e despretensiosos. Não gosto dos que afastados numa maré com 364 dias, se lembram de enviar numa corrente de 1 dia, sms já gravados e reenviados por outros.
Não gosto das filas de adrenalina, mãos e cabeças agitadas num consumismo em espiral.
Não me encontro em hipocrisias latentes de desejos festivos em presépios de lata.
Sinto nesta época, um nó na garganta que me sufoca e se vai deslocando para me espremer as glândulas lacrimais.
Sinto vontade de saltar etapas do tempo, juntando crianças que olham montras e prendas …
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Ás vezes cometer um erro é a melhor maneira de se chegar a algum lado.
Veja-se Cristóvão Colombo. Se não tivesse cometido um pequeno erro de cálculo, o mais certo é que nunca tivesse desembarcado na América, mesmo que o fizesse, convencido que tinha descoberto o caminho mais curto para a Índia.
Na educação das crianças, erros de cálculo são frequentes.
Como são frequentes os nossos próprios erros na sua educação.
Não existem Humanos perfeitos (graças a Deus) muito menos Pais e Educadores perfeitos.
As crianças cirandam de ocupação em ocupação. E tanto o Estado como a Sociedade Civil, ainda não “procuraram” solução para esta questão.
Bem sei, que para muitos Pais e muitas mentalidades, é um “bem” a criança estar ocupada nos atelier´s, nas Escolas, nos Colégios, nos Jardins. Sempre não “chateiam”, não “ocupam” o seu tempo. E são esses Pais, que na sua época, brincavam nas ruas, corriam por jardins, jogavam á bola em qualquer local e aprendiam cedo e aos trambolhões a andar de bicicleta.
Hoje, …
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E inventávamos o Mundo,
pintando em aguarelas de cor, almas unidas num só gozo.
Como malabaristas, ilusionistas da vida, disfarçando choros,
os nossos choros em gritos de amor.

Fechava os olhos e parecia que
o meu corpo se dissolvia em nada.
E olhava-te no teu corpo de mulher
e mordia-te língua e lábios,
e cheirava formas e aromas do teu corpo.

E tenho vontade de te possuir, uma e outra vez, sem que nada inebrie os meus sentidos, sem cansaço, sem espera,
E olhar-te!
Olhar-te como se olha a vida,
procurando na tua alma a profundeza do mesmo olhar.

E sentir-te feliz num vento de sabor a sal,
do teu corpo que respira a céu aberto.
E sentir-te entregar, como o mar se entrega em orgasmos infindos contra os rochedos.
E passar-te a língua em lugares secretos, só teus, só nossos, onde o coração espreita ao cimo da pele.

O teu sorriso nervoso,
o teu olhar como pétala de um Outono florido em odes madrigais.
Que me procura, que me quer, que me despe,
Rasgando roupa e pele, num desejo de ternura.
Mas sonho-te fugir e…

SE...

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Se conseguir ver um gato preto na próxima esquina a cruzar-se comigo, se o eléctrico 32 passar um minuto depois da hora marcada, se o padeiro buzinar antes das oito, se confundir de novo o azul com o preto, se o telemóvel vibrar em vez de tocar, se mais uma vez não vir a mulher-do-padeiro, se chover de novo com 23 graus, se a menina do Renault verde voltar a ultrapassar pela direita, se os próximos 4 semáforos, continuarem vermelhos, se neste exacto momento me voltar a arrepiar, se a tartaruga fizer barulho no aquário, se o pinga-pinga da torneira não parar, se voltar a adormecer ao fim de 5 minutos de leitura, se o nevoeiro não se dissipar e deixar cruzar o arco-íris pela montanha, se a D. Alice do café me voltar a falar dos belos rissóis de carne da filha, se continuar a mexer o café para a esquerda, se o Teodoro Anastácio da Silva Campelo e Melo de Gouveia Frederico e Silva, não aparecer de novo na “Caras” com o patrocínio da mesma e viajar para a ilha dela, se os preliminares fore…

NEM SEI PORQUÊ!

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Lembro-me de já ter sido D. Quixote, Sancho Pança, D. Sebastião, famoso, estupor, óptimo e um bom malandro.
Nas bocas da penumbra, adocicados com sal refinado ou açúcar louro, ditados pelo povo, podemos ser qualquer coisa.
Pouco incomoda. Apenas ligeiros arranhões, naquilo que alguns tentam que se torne num acidente sem proporções.
Com o tempo habituamo-nos a que algumas salivas brotem venenos escarlates, o que com o passar do tempo se há-de reverter no seu próprio perfume envenenado.
Alguns já os vi cair. Outros por aí virão.
Leio cada folha da memória, e percorro caminhos de tempos passados.
Custa-me levantar pedaços de papel escritos com lágrimas fortuitas de raiva contida por infinitos tempos.
E hesito entre papel e teclas e Word e A4, entre o que sou, e o que me querem fazer.
Puro engano, imbecis. Cruéis desesperados de almas penadas e empedernidos socalcos de coração despedaçado.
Puro engano.
Jamais sabereis valores. Jamais me vereis senão aquilo que vos mostro, e que é tão pouco, que jam…
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Sara, abriu a pasta, e retirou o Moleskin preto.
Puxou da caneta que conservava religiosamente vai para dois anos, desde que ele sucumbira nos seus braços de Morfeu.
Escreveu-lhe:
“… A lua está fria e distante. Tudo está longe de mim. O ar vai ficando mais pesado porque o tempo não passa.
Há coisas a começar e a acabar, neste exacto instante. Vidas e sonhos, sonhos e vidas, e mar e estrelas e palavras e desejos e encontros. Amores encontrados, amores perdidos, outros desajeitados, quantos esquecidos.
E eu…. Eu estou aqui parada. Tenho pouco cabelo já. A químio arrasa-me os glóbulos, e tudo gira em volta de nada.
Não sei o que espero.
Não sei se estou à espera que algo comece ou acabe em mim…”

Rasgou a folha e escondeu-a debaixo da almofada, adormecendo.

Ele respondeu, sem tardar.

“… Sabes Sara, tudo deixa de ter importância quando falas, quando escreves, quando me olhas.
Pouco me interessa a duração do tempo. O tempo é tempo, nada mais.

O importante para mim, é o momento. Este momento que vivemo…

Acho que sim... sei lá...!

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Pasmo com a coscuvilhice, a falta de temas que as pessoas “não” têm.
E pasmo, porque mais do que tratarmos das nossas vidinhas, com os problemas inerentes a cada um, seja no emprego, no carro que está velho e não anda, nos filhos e na produção escolar, no vencimento que um dia destes é ultrapassado pela quantidade de impostos que temos de suportar, com a vida de casa e seus amores tão delicados, damos frequentemente pelo linguarejar das pessoas, sobre os outros, que de si, é bom que nem se fale.
Ele é tema de telenovela, de primeira página em papel de jornal nauseabundo, de revista cor-de-rosa social, daquelas que dominam os temas como verdades absolutas, do tipo, … “ o céu é azul”, …”amanhã se não chover, fará um rico dia”… “o sol quando nasce é para todos”…e blá, blá, blá.
As acusações chovem. Todos falam.
Espirram toda a lama na direcção de alguém.
Fazem chicanas em mesas de café, com um chá para quatro, ou aproveitam o pouco que trabalham para vociferar argumentos pestilentos sobre out…
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Tudo o que fuja da rotina ou do instalado, do sempre igual e constante marear, as alterações, provocam roturas, confusões e perplexidades.
Tudo muda, muita coisa muda, umas para o bem, outras para o mal, mas tudo acaba por mudar.
E muda quando queremos, quando estamos predispostos ou mesmo quando nem pensamos tal.
Temos receios de grandes alterações, de grandes mudanças, que façam mexer no quotidiano, que agite a nossa vidinha catolicamente instalada, que faça sombra à própria sombra.
Mexer em processos ou estilos de vida ou a qualquer coisa diferente de ligar a ignição, meter a primeira no automóvel e arrancar, carregar em botões, meter a chave à porta ou apanhar o 46 para o trabalho.
Sentar no mesmo café, atendido pelo mesmo empregado, ver o mesmo vizinho, levar as crianças à escola, assistir os mesmos programas, as férias no mesmo local de farnel na mão, a acomodação permanente e constante.
Mas tudo muda, muitas vezes a ritmo de caracol, devagar, lentamente, tudo muda.
Levamos tempo a ass…
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Olá Leonor

Perguntavas tu, de dentro dos teus poucos aninhos o que é a "sensinilidade".

Pois, olha, eu entendi o que falavas.
Da senilidade, que vai querendo aparecer, mas que vou chutando à medida que posso, dessa, um dia mais tarde, falaremos, assim o tempo me dê tempo.
Da sensibilidade, que tu questionas, sei dizer-te, que é um sentir, por demais sentir.
É um estar que nos arrepia a pele, que nos adormece os músculos.
Não. Não é pieguice ser sensível, pelo contrário, faz falta sensibilidade ao mundo, às pessoas.
É porventura, ver as coisas com alertas de alma, com outra atenção.
Sabes, Leonor, o tempo foi roubando a cada um de nós, a possibilidade de nos ouvirmos e de também escutarmos os outros. Para não serem diferentes, guardam tudo dentro deles, vão amarfanhando, empurrando, até nada mais caber.
Guardam como se guarda um tesouro, algo de valioso que é.
Mas puro engano.
Saberes, dores, choros e alegrias. Quem não dá, não pode esperar receber.
Por isso, quanto mais guardam os cheir…

ARCO-ÍRIS

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Hoje sonhei com o arco-íris.
Esse sonho transportou-me para imagens de rara beleza, como as feições de meu Pai.
Ouvi a sua voz, vinda de longe. As suas palavras doces, o seu belo sorriso.
Ele dizia que apenas nos iludimos, quando pensamos que somos donos das coisas, dos instantes ou dos outros. E que a vida, ténue como é, apenas nos empresta algumas coisas, tirando-as quando o entender. E que melhor será a partilha e a comunhão do que a leviandade de querer ser a qualquer preço, melhor, poderoso, ou importante.
O meu Pai fazia magia quando me abraçava, como eu espero fazer, quando abraço os meus filhos.
E revivi os meus amigos, as minhas viagens, no que deixei de viver, no que passei ao lado por falta de tempo ou disposição, nas alegrias e nas tristezas, nos que passaram por mim, no que me deixaram e no que lhes deixei.
Relembrei cores, objectos, viagens, frases, danças, timbres de voz, olhares, cheiros, sobretudo nas coisas insignificantes a que atribuo enorme valor.
E espreitei pela janela…
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SE ME QUISERES...Prendes-te com atilhos e escreves em bloco-notas a palavra... desejo-te!Recortas letras de um qualquer papel jornal, formando palavras numa ordem desordenada com cheiro requentado a tinta, onde colocas o J e o P em maiusculas, distintas, formando palavras de ordem, como aquela que aguardo... SE ME QUISERES !Fazes um desenho colorido, vincas um papel, constrois um planador que atiras ao sabor do vento, na minha direcção.Escreves post-it vários e fixas em todas as árvores no passeio da avenida.SE ME QUISERES...Adoças-te em colheradas de gosto açucarado, raspando com pontas dos dedos e lambuzando-te em pequenas doses.Enrolas-te em algodão doce e deixas-me saborear aos golinhos durante o dia o sabor das tuas palavras.Sobes ao Big Ben, olhas-me da Torre Eiffel, e cruzas-te comigo na dos Clérigos.Pintas com cores garridas, libertando tubos e pinceis aprisionados em paleta incólume desafiando um desejo numa promessa de criação.Degustas a doce sensação da miragem, do desconhe…

"SHUT DOWN"

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Será a vida um jogo de espelhos onde a realidade se confunde com a imaginação ?
Será que habitam em nós fantasmas que nos perseguem e nos prendem a abismos de uma inquietude intransigente?
Será que fechamos caminhos e criamos labirintos para não sermos encontrados.?
Tento falar pausadamente para me ouvir, como quem nunca erra a "cor" de uma palavra.
Sinto-me avariado.
As pessoas também avariam, sem que se saiba porquê. E eu tenho momentos assim.
Tal como os motores, os computadores, faço "pause". Talvez tenham sido fios cá dentro que encostaram, talvez seja necessário um "Back-up", após tantos "donwload´s" efectuados.
O "Scroll Lock" impede-me de continuar, retém-me nas memórias.
Será o "disco rígido" ou a "placa gráfica "? Sinto-me a perder velocidade, quiçá capacidade.
O que sei é que se fizer "Shut Down", vai tudo ao ar e perco-me de todo.
Mas será que as pessoas também avariam pelo muito que pensam ou pelo nada …
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Quando foi a ultima vez que limpaste o coração? Calço luvas, coloco bata e máscara e munido de bisturi, percorro canais.De auricula para ventriculo, de veia cava para cá e para lá, de artérias gordurosas, alojamos aparelhagem bem no meio do coração.Encontro pó, vários quartos e salas com teias de aranha.Paninho na mão, "spray" limpa nódoas e cera para o soalho de quartos desabitados.Alguém escorrega ? - Não- Ninguém habita por lá.Peguei no álcool e vaporizei as paredes.- Ardeu ?- Claro que simMas era esse o objectivo. Deixar arder, doer.Quando foi a ultima vez que limpaste o coração ?O aspirador entrou em cena e a soda caustica retirou o mais entranhado.Por fim e antes de passar a linha e agulha para fechar o remendo executado com mestria em definitivo, deixei que as janelas arejassem...Do pouco que restou, peguei numa pá e enterrei-o bem no fundo do coração, quase tocando na alma.Jamais me habitarás.Viverás aí para sempre!
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Tenho dias em que só consigo ouvir o bater calmo do coração.
Adoro o cheiro matinal a flores e deixava-me estar nesse remanso, do "café da avó".
O céu está humido. Goteja na janela e a minha alma está carente de um sol que me faça festas.
Ouço frases de outros dias num tilintar de ouvido.
Sobram bocados de gente, de gestos, de tempo, neste aconchego em que me encontro.
Deito-me inconfessavelmente tarde.
O som do silêncio, a luz ténue, a sensação de calma e serenidade como gosto, como sinto, estendendo os braços na direcção do dia que se aproxima.
Tenho uma mancha no coração.
Abro janelas para silêncios que procuro agitar, desejoso de te ver limpar minhas asas de voo que não reconheces.
De ver meus dedos escorregarem em teclas de piano de cauda em contraluz, de palavras etéreas que saltam de acordes mal dedilhados.
Nunca quiseste entrar no espaço que abri para ti, nos braços que apertavam no aconchego do meu peito, no sussurrar da minha voz.
Abres as portas por onde passo.
Balanço no bal…
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O meu coração boca fora e a alma, meio metro fora do corpo.Rosto sem luz e voz sem palavras.Sinto que o meu corpo andou 10 metros para o lado e encostou na parede junto ao móvel, e eu aqui a olhá-lo.-Que é isto ? Mas onde é que tu vais ?... Sonho ?Ouvir-te falar faz-me abstraír do significado das palavras, e o meu coração bate descompassado num ritmo sem ritmo de frenético.E suspiro, roendo as unhas, quando te envolvo com o meu olhar.Adoraria deixar-te as minhas impressões digitais, sufragando-te os gestos e sacudindo o meu amor em ti.Volto a não sentir. Nem corpo, nem cheiro, não vislumbro luz.Saí de novo de mim e ainda não voltei...!Em que ancoradouro andarei ?A lua a boiar no céu, o cheiro a terra e mar.... regressei de Finisterra ?Mas que faço ? Onde tenho andado ? Qual a dimensão em que habito ?Saber que não existes, aligeira-me o fardo, deste tormento. Saber que não existes, porque eu te criei, colei-te a mim, fiz-te minha.Insónia, desprotegida.
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Hoje estou cansado, e não posso estar cansado.
Não tenho tempo, nem oportunidade para estar cansado.
Deste cansaço que entendo não seja físico, nem mental, acho que….espiritual.
Estou farto de tanta coisa e não posso estar. Deste País de “Tolans”, pois isto está tudo virado ao contrário, deste País de “Gordons”, tal como a tempestade que assolou os Açores, só que este “Gordon”, é mais “Flash Gordon” e atacou as nossas Instituições.
Outro dia tentei perceber qual delas não tinha sido tocada, ou por incompetências, ou por compadrios, ou por corrupção.
…pois… ainda estou à procura.
E estou cansado desta carcaça, que sou, deste feitio feito mel, deste ser que não sou, deste estar que não estou.
E dou por mim distraído.
Cumprimento quem não conheço, ou quem conheço, mas não sei quem é.
Ou se calhar sei, mas nunca consegui “ver”.
Se por vezes nem nos conhecemos…
E circulamos pelas pessoas como meras transparências, quase invisíveis, nós e elas.
Levamos connosco fios de marionetas, que puxamos consoante…

AMIGO

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"Procura-se um amigo. Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.
Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa.

Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.
Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.

Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja de primeira-mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.
Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastima…
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Estava eu descontraidamente a soltar o pinguinho de urina num WC de área de serviço, quando pressinto invasão de excursionistas.

Quase terminava, quando reparo num sujeitinho baixote de bigode farfalhudo, cigarro na boca, mão a segurar o “Record”, num contorcionismo arrojado.

Porra, pensei eu. Então este tipo, faz o xixizinho da ordem, sacode e guarda o objecto só com uma mão? Mas é ilusionista ou quê? E será que vai conseguir mexer no cigarro com a mão que saiu do dito?

Eis que, não bastando, aparece um outro, alto, com barriga de pipo, daquelas que rebolando na neve provocam avalanche, e começa a vociferar.

- Ó Toino, viste aquela gaja ?
- Grande traço, diz o dito ilusionista, com um esgar, entre o aparvalhado e o sebento.

E eu, no meio dos dois, sem me conseguir mexer, disfarçando urinas retidas.

-Mas ó Toino, ela bem levava, hum?
- Hó, se levava, dizia, com a beata quase a morder-lhe os lábios.
- Então que querem? Metem aqueles pregos nos umbigos, amais as tatuages, e um Home num há-de fic…
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Depois de algum tempo

"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas.
Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.
E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.
Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.
Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobres que se leva anos para se const…
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Estranho beber dos teus lábios
Ensinamentos com mil histórias, mil nada inacabados, em notas de violino num musical em dó menor.

Estranho beber dos teus lábios
Frases inacabadas, conversas cruzadas, entrelaçadas, temas por decifrar.

Estranho beber dos teus lábios
O suster da respiração e sentir apenas a leve brisa do teu perfume,
que me atormenta a alma.

Estranho beber dos teus lábios,
Regras, leis, ritmos, musicalidade, esperanças e pinturas em tons de pastel.

Estranho beber dos teus lábios
E rodopiar pela tua pele em gestos sublimes de te tocar em cada lágrima, num arco-íris de movimentos,

Estranho beber dos teus lábios
E não conseguir mover-me ansioso às voltas da órbita que me impões, fora do trajecto que tinha traçado.

Estranho beber dos teus lábios
Palavras murmuradas que me atingem na carne como bolas de fogo

Estranho beber dos teus lábios
Inquietação por não ter conseguido oferecer-te as nuvens, o mar e o sol.

Estranho beber dos teus lábios
O relógio e a despedida a flor e o acenar na partida.

E…
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Cativar

"(...) - Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. - Estou tão triste...
- Não posso brincar contigo - disse a raposa.Ainda ninguém me cativou...
- Ah! Então, desculpa! - disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- «Cativar» quer dizer o quê?
(...)- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa.
- Quer dizer «criar laços»
- Criar laços?
- Sim, laços - disse a raposa - Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim.
Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um dou outro. Passas a ser único no mundo para mim.
E eu também passo a ser única para ti
- Parece-me que te estou a perceber - disse o principezinho.
-Sabes, há uma certa flor... tenho a impressão que ela me cativou. (...)"

in, O Principezinho, Antoine de Saint-Exupé…
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"Tratar a criança com cancro e não só o cancro na criança!
Este é nosso lema, que espelha o que pretendemos com a nossa Associação.
Todos os anos surgem mais casos de cancro infantil. As crianças com cancro e os seus pais sofrem durante anos psíquica, física e economicamente. A experiência mostra que a solidariedade é um factor de extrema importância para ajudar a minimizar os problemas causados pelos longos e difíceis períodos de tratamento.
Por outro lado, é cada vez maior a percentagem dos que vencem a doença."
- Do Site da Acreditar-






PARA QUEM SOFRE


Hoje eu vou sorrir contigo.
Vou brincar, dar pontapés na bola, atirar-te conchas de esperança.
Hoje, eu vou correr ao teu lado e abraçar-te como se não houvesse amanhã, desligar-me do mundo e ter-te só para mim.
Vou fazer de cada dia teu, um dia melhor, para um amanhã maior.
Vou arrumar as tradições e reservar-te um espaço feliz no coração da minha vida.
Hoje serei eu e tu e mais ninguém.
Visitaremos os teus amigos e contaremos historia…
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De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia
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"No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.

Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Talvez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego".



Pablo Neruda
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"Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;

ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados

E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;

ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir".


Kahli Gibran
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El viento es un caballo:
óyelo cómo corre por el mar,
por el cielo.
Quiere llevarme:
escucha cómo recorre el mundo para llevarme lejos.
Escóndeme en tus brazos por esta noche sola,
mientras la lluvia rompe contra el mar
y la tierra su boca innumerable.
Escucha cómo el viento me llama galopando para llevarme lejos.
Con tu frente en mi frente,
con tu boca en mi boca,
atados nuestros cuerpos al amor que nos quema,
deja que el viento pase sin que pueda llevarme.
Deja que el viento corra coronado de espuma,
que me llame y me busque galopando en la sombra,
mientras yo, sumergido bajo tus grandes ojos,
por esta noche sola descansaré,
amor mío.


Pablo Neruda
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Sonhei-te

Sonhei que vivia numa rua onde ninguém passa, onde nada acontece, onde nada se ouve.
Onde se houve chilrear, pios de um pardal que ali passou.
Mas está tanto calor que não ousou voar. Saltitava, como se tivesse molas nas suas patinhas, olhando freneticamente em todas as direcções, como se fugisse de abrir as asas, para não lhe fugir a sombra e corresse o risco de derreter ao sol.
Como ele, fujo do calor.
Cheguei ao ponto em que estou contente por me bater na cara uma brisa que me refresca nos seus trinta e nove graus.
Maldita variação, raios partam o buraco do ozono, ou o que quer que seja que provoca este inferno.
Hoje gostaria de não poder ver aquilo para que olho.
Gostaria de não poder escutar aquilo que ouço.
Gostaria de não poder sentir aquilo que se me cola à pele e à alma.
Queria estar indiferente às tonalidades que a vida vai tomando.
Hoje queria apenas ser e estar...
Guardar algumas memórias. Apesar de já ter tentado tantas vezes deixá-las esquecidas num canto qualquer, não con…
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Um dia abandonei a infância, a adolescência ficou amarrada a projectos desportivos.
De repente, vejo-me longe das conversas dos amigos, das brincadeiras vividas, dos risos e choros, das desordens ordenadas, de partilhas, de namoros, de jogos, de festas, dos bailaricos com Pink Floyd e o “Dark Side of the Moon” que abrasava o gira discos do Barbosa.
O Veloso e o “Chico Fininho” saíam à rua com a “Rapariguinha do Shopping” e o Augusto aparecia de MGB, descapotável, lançando inveja nas garotas da avenida.
E éramos nós, a malta, da “Ribeira até à Foz”, com os "Já fumega" e os "Minipop"...
E durante anos, fui desatando os nós.
Pensava ser amanhã o reencontro, ser outro dia o abraço, ser novamente ontem, para nos rirmos e brincarmos como sempre.
Mas, o destino trocou-nos os caminhos da vida.

O telefone já não toca como tocava. Os reencontros vão-se tornando mais raros.
O Figui advoga, com o tempo contado. O Rick, anda a saltar do Porto para Esmoriz , o João controla as corridas…
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Todos sem excepção procuramos o Paraíso, ou algo que se assemelhe a tal.
E quando se fala nisso, fala-se numa Eva, resguardada por uma parra (o fio dental da época), um rio de águas transparentes e frondosas árvores por onde passam raios de sol e aves que enchem o céu.
Evidentemente que este encher de alma, tem alimentado a nossa imaginação ao longo dos tempos, tentando ver o Paraíso na terra olhando o céu.
Mas o Paraíso transforma-se consoante os tempos.
Passa dos mapas para o céu e do céu para o local que cada um de nós mais considera, transformando esse espaço no "Verdadeiro Éden".
Espaço esse, que pode ser físico, temporal ou imaginativo, desde que nos faça sentir bem e nos focalize num bem-estar saudável.
Os textos bíblicos ou sagrados, referem pouco sobre estas descrições, mas elas estão bem presentes na memória de cada um de nós.
Cada imagem, cada momento, cada associação, cada sentimento, cada encontro com o maravilhoso, com a paixão, com o amor, transporta-nos física e esp…
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Uma pequena fábula:

"Havia numa floresta um alegre Pirilampo que vivia feliz da vida iluminando a noite dos outros insectos com a sua linda luzinha. Até que uma Serpente passou a perseguir o pequeno insecto dia e noite acabando assim com a sua paz e segurança. O pobre bicho gastava as suas energias todas para escapar à boca da Serpente que não desistia nunca de persegui-lo.Um dia no limite das suas forças o Pirilampo voltou-se para a cobra e disse.

- Pronto, desisto. Podes devorar-me, mas responde-me só a algumas perguntas:
- Está bem - Disse o odioso réptil.
- Eu fiz-te algum mal?
- Não. - Disse a Serpente- Eu pertenço à tua cadeia alimentar?
- Também não.
- Então porque insistes em perseguir-me?
- Porque não suporto ver-te brilhar..."

Amigos, não desistam nunca de brilhar. Os outros insectos precisam do vosso brilho. E quanto mais alto voarem mais longe ficam dos animais que rastejam.
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O sol entra-nos pela vida dentro, sem que o convidemos, mas ele amigo como é, nem precisa de convite, chega, coloca os óculos escuros (para evitar queimaduras) abre uma revista, senta-se à mesa connosco.
Nada modesto, pois todo ele brilha.
Sorri quando sorrimos e concorda ao de leve com o que dizemos, respeitosamente.
Se tiramos um retrato ele aparece connosco, faz parte da família. Se vamos à praia ele acompanha-nos, se entendemos "sestar" ele fica de mansinho, presente.
Até por vezes, quando nos deitamos, fica ali aconchegadinho, caladinho, mirando e remirando, por vezes destapando-nos para deixar entrar leve brisa.
Se temos males de boca, colesterol, a alma amolgada (sabe-se lá porquê...), lá anda ele a rondar-nos, preocupado.
Por vezes desaparece...
Não o vejo na casa com as roseiras brilhando, nem no alto da colina, nem repousando no mar...
Desaparece, pura e simplesmente.
Estará doente? Sofrerá? Mal de amores?
Como um amigo, gostaria de o ouvir, de me lamentar também.
Ou será qu…