31 dezembro, 2006





"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um individuo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de Acreditar

que daqui para frente...

tudo vai ser diferente ...!



"Carlos Drummond de Andrade"

30 dezembro, 2006


Existem estradas sem direcção e caminhos tortuosos a percorrer.
Acontece-nos em quase tudo, um esforço tremendo para conseguir pequenos nadas.
Como um Dali, as estrelas pintaram o céu, troquei os passos que esperava dar e amparei-me para não cair.
Sei que quase ninguém me lê neste canto.
Coloco letras em frases seminuas e abandonadas. Sou eu e elas, as letras.
Por vezes consigo vê-las saltar pelo papel, caminhando não sei porquê nem que direcção tomam,
e com dificuldade junto-as como um pastor o faz com suas ovelhas.
Essas letras, não são um rebanho, mas talvez, inquietas criaturas que fazem questão de perturbar o meu sossego.
Ordeno-lhes disciplina cuidada, rigor, contenção, mas as malvadas correm pelos textos, saltam parágrafos, e brincam, rindo muito, muito, pelo esforço que faço em mantê-las ordenadas.
Uso papelinhos que escrevinho e acumulo nos bolsos, como se levasse daí alguma vantagem.
Mas, não raras vezes, os papéis de pouco servem, saltando da memória para o teclado, frases, ideias, lembranças, que fintam esses papelinhos que nem Garrincha num drible vertiginoso.
Qualquer composição frásica com mais de três palavras, torna a minha facie sorridente.
E olho-me no espelho da alma revelando-me como numa foto a cores.

O meu coração gosta de entoar melodias (daí algumas taquicardias e extra-sístoles que me assaltam), parecendo por vezes um sino de bater repenicado.
Habitualmente anda exultante, por vezes deprimido, desassossegado, carente, desolado, mas isso é porque exijo muito dele, como de mim, aliás.
Como um Rembrandt, procuro simbiose nas cores e nos traços. Pincelada ali, retoque acolá, faço de um grotesco um quadro afinado.
Procuro imitá-los não repetindo erros, aprendendo com eles, mas como não uso máscara de protecção, dando o peito às balas, vou acumulando cicatrizes.
Imagino a quantidade despropositada de sinapses que o meu humilde cérebro desperdiça ao pensar. E como vou amontoando, pensamento, trabalho, leituras, investigação, mais pensamento e mais trabalho e tudo um pouco demais, tenho medo que o meu cérebro se auto esvazie.
E muitas vezes, esgotado que estou, é essa a sensação - de auto esvaziamento.
Aí tento reciclar.
Verde, azul, amarelo, qual Ecoponto, até conseguir pôr tudo no lugar.
Pois… a produção excessiva dá origem ao desperdício, não é?
– Moderação menino, moderação…

26 dezembro, 2006





E agora?
Depois da euforia dos sacos na mão, rabanadas recheadas, Peru e Bacalhau com todos em fartas mesas, dos carros estacionados em 2ªs e 3ªs filas, para um ultimo retoque no presente que esquecemos, nos bons dias dados a correr, o abraço apertado e aperto de mão esfuziante, àquele que ainda ontem vimos e fizemos de conta-que-não-pois-ele-é-um-chato-do-caraças-e-eu-não-tenho-paciência.

Do Feliz-Natal-e-Festas-Felizes-e-se-não-nos-virmos-um-Bom-Ano-para-si-também, que sai a correr sem significado e sem jeito, em sílabas mastigadas com os restos do bolo-rei que ficou do café tomado no centro comercial.

Do frenesim de cores, de embrulhos, de laçarotes azuis, vermelhos, verdes, multicores, da camisola Gant, do lenço Burberry´s, do sapato Chanell ou da ultima-moda-xpto-eléctrica-que-ainda-ninguém-tem-e-faço-um-grande-vistaço.

E agora?

Largados os últimos, cirandando na rotina normal dos nossos dias, onde fica tudo isso?
Onde colocamos a excitação das ultimas semanas, dias, horas, minutos?
Onde colocar os velhos que nos fizeram companhia na Ceia de Natal?
Outra vez no contentor das coisas raras encostados uns aos outros numa inesgotável fila de encaminhados para um destino comum?
Onde deixar o pobre pedinte ou o “tontinho” do saco às costas e Phones de trabalhador das obras nas orelhas a imitar o Michael Jackson?
Será que os vamos pôr de lado mais um ano, como fazemos com os presépios, o Menino Jesus em palhinhas e a vaquinha sorridente que olha o céu esperando a chegada dos Reis Magos?
Será que não podemos começar a sorrir em lugar de apontar o dedo indicador?
Será que podemos “perder” uns míseros minutos e olhar o pobre, o velho e o doente que se cruza connosco diariamente?

Será que já fizemos o esforço de olhar à nossa volta e ver o vizinho, o miúdo que joga a bola no pátio ou no jardim e a senhora doente que com 125 €/mês de reforma, todos os dias atravessa a rua para carcomida pelo tempo, ir buscar o seu alimento feito de leite e de pão?
Será que a indiferença não nos afectará um dia a todos nós directa ou indirectamente?
Não seremos mais gente, mais preenchidos se olharmos com um sorriso quem nos envolve com passos vagarosos ou apressados um dia após outro?

Teremos de chegar a um outro Natal e calcorrear os mesmos caminhos na direcção do nada, sem conseguirmos realizar um dos nossos destinos de vida na vida, tornando “o Outro” um pouquinho mais feliz?

Vamos continuar a olhar de lado para os sujos, doentes, oprimidos, velhos, pobres e demais, e atirar para os outros os ónus sociais das misérias que habitam paredes-meias com os excessos?

Porque será que este Mundo continua a organizar as 15h do orgasmo colectivo e não faz as 16 h da visita a uma família carenciada e lhes leva pão, roupa, leite, dignidade, sorriso, felicidade e um amanhã melhor?
E agora?

23 dezembro, 2006





Na Marta já tentou acertar 3 vezes no coração, pontaria desafinada, danadinho.
Setas que pretendo atire e acerte em cheio... nada!.
Grave problema para quem faz da vida, Cupido.
Anda distraído, cabisbaixo, olheirento. O meu Cupido não anda bem.
Sentimentos de amargura pela falta de pontaria apresentada.
Como ontem... "...Vá, Cupido acerta naquele...."
E ele, apertando-o-arco-contra-o-peito, susteve respiração, disparou e... flecha no chão.
Nos treinos já caiu de telhados, tropeçou em baldes, bateu com a cabeça em postes, quase foi atropelado.
Quando dispara na pessoa errada, deita a correr até conseguir retirar a seta.
E chega-se perto de mim e fala-me ao coração pedindo desculpas e afagos.
Quantas vezes lhe digo, para ir tentando..."um dia vais conseguir..." "andas nervoso..." "ainda não apanhaste o jeito..." "são pequenas fases..." "muda de arco... "
Pede-me desculpa atrás de desculpas, e eu... desculpo, claro.
Pobre Cupido.
Eu acho que ele tem mesmo falta de jeito.
Por vezes insistimos em algo para o qual não ajuda, nem engenho nem arte, e ele, não nasceu para Cupido.
Já tentei substituí-lo, mas é tão apegado a mim, que o melhor mesmo é acarinhá-lo, dar-lhe doces, afagá-lo, mimá-lo e tê-lo juntinho a mim, não vá o coração disparar de repente.

22 dezembro, 2006



Se embalares o meu sono
numa noite de cidade cansada, num imenso adormecer.
Num ritmo citadino, fluido, pedindo retorno à intimidade.

Se te aconchegares em mim,
enrolando-te em sons e aromas de fragrâncias campestres em corpos cansados e adormecidos, onde as palavras perdidas de sentido ecoam num espaço reduzido, como reduzido o nosso tempo.

E ouvimos ruídos de delinquentes com um passo a descompasso, cambaleando como “zombies” inebriados ao som do álcool que lhes tilinta nos olhos.

E embalo o meu sono em silêncio recolhendo despojos de mim, fazendo de ti concha em mim.
E guardo sorrisos e carícias e memórias que congelo para usar amanhã num qualquer micro-ondas de um qualquer lugar em que me encontre

E fecho a cadeado as minhas fraquezas não deixando transpirar um único acorde da musica que entoo, embalando sozinho o teu corpo em mim.

Fecho os olhos e resigno a minha condição a um interior de oceano sem fim.
Coberto de quando em quando num manto cerrado de nevoeiro.

17 dezembro, 2006



Como gosto de morangos rubros e suculentos numa tarde de verão...
como gosto de dias ensolarados despontando de névoas matinais em promessas de vida ...
como gosto da chuva a fustigar-me o rosto num qualquer entardecer...
do mar infinito, sereno ou alterado cuja imagem não se repete nunca...
da estrela cadente que trespassou o olhar sem sequer permitir formular um desejo ...
do dia que amanhece e adormece e amanhece de novo, sempre em tons de surpreendente colorido
de mim e de ti e de outros que passam e espreitam um gotejar por entre portas,
de um Porto ribeirinho, de uns bons malandros ou janotas aprumados,
de damas de chapéu arqueando sobre ombros com peles de boutiques finas,
de pedintes, de ouvintes, de um dragão vencedor.
Da água fria da foz e as suas margens reluzentes, como reluzentes as francesinhas do Capa Negra.
De um carro eléctrico que sobe os clérigos a compasso, dando graças ao granítico monumento
E a outros que povoam esta cidade de gente bela, de gente boa.
De um Porto sentido, por todos que lá chegam ou partem.

13 dezembro, 2006



Ela é uma matadora.
Bamboleia os quadris, umbigo ao vento, pele tratada, unhas de gel, mamas de silicone, pestanas de plástico, sobrancelhas de feltro.
Ela é uma vedeta.
Caminha como se estivesse sob holofotes.
Eles param, torcem e retorcem o pescoço, alguns já têm jeitos, afagam os bigodes e dão um ar de galanteio.
Pressente os olhares e bamboleia como numa dança erótica o seu corpo semi-artificial.
Entra no café da avenida e do barulho, silêncio gélido se faz.
Entrou a matadora.
As mulheres desdenham a imagem e comentam em surdina ...os “valha-me Deus, coitada...!, e
..."olha-me esta pindérica...", num misto de inveja e troça refinada.
Os Homens, são dominados por um resfriado de gentileza no trato, e os “faça favor...”, “claro que sim, concerteza...”, espalham-se pelo balcão.
Um olhar mais maroto, atravessa a sala.
O Sr António, velho lobo do mar, faz o Sudoku.
Duas filas feitas, engano no 8, apaga o 4, decide-se pelo 3.
Lança novo olhar e um “Ai se eu fosse mais novo...”- ecoa.
A matadora, não se desmancha. Estes comentários são doces para o ego.
Tenta disfarçar no meio da bica e do queque de passas e vira as páginas do correio da manhã.
Segue a frase com o dedinho por debaixo como se régua se tratasse não lhe vá escapar a letra. “Ai, Dona Zistrudes, este Amaricano é miiiieeeesmo bom...”. - diz, olhando a foto de um
actor e dando uma de finesse refinada.
Cai o lápis ao velho lobo.
O Senhor do Banco, alguns passos ao lado, tosse e espalha cinza do SG na bica curta em chávena aquecida.
Gertrudes, mulher de bofes na boca e mão na cintura com cinquenta e tal de balcão, abre a boca. O comentário sai:...“Mas ela fala. A boneca entrapada fala...”
A matadora não se desmancha, tais são os espartilhos.
Do seu cérebro franzino, duas correntes tocam neurónios provocando uma explosão de deslumbramento.
Deixa os cinquenta da bica e sai com as madeixas loiras tocando-lhe os olhos.
Ela é uma vedeta. A matadora de Chelas.

08 dezembro, 2006

Nódulo que tapa a alma


Descobriu em si um nódulo que lhe amordaçava a vida.
Sentiu-se perder as forças e a razão. A esperança esfumou-se. Em breves segundos revisitou todos os lugares, relembrou todos os momentos, todo o seu tempo.

Estática, compenetrou-se das razões que não achava e eclodiu num choro compulsivo.
Arrumou-se em si mesma como um trapo que se enrola.

Sentia o corpo ceder como se não habitasse nele e o visse algures por aí.
Os músculos quase não reagem, tem uma ansiedade que não acaba e nem uma única célula que não esteja virada do avesso.

Pensou imediatamente porque razão Deus a tinha abandonado. Mas todos sabemos que Ele não pode atender a todos os necessitados e enquanto não arrumar todo o seu expediente, não se volta para aqui.

Amélia, sentiu um arrepio gelado de dor que atravessa a alma.
-"A morte passou por aqui, … exclamou."

Eu bem senti, que o tempo hoje estava diferente e que as brincadeiras no parque, geladas também elas, assim estavam, porque a morte andou por lá a brincar às escondidas.
-“ Mas logo agora, que até tinha a vidinha mais composta” – disse

Mas não podemos esperar tempo nem vontade, pois nada acontece quando se espera.
A vida prega-nos rasteiras inesperadas, e não escolhe tempo nem lugar.

Eu sabia aceitar o meu inverso, sabia aceitar tumultos de alma como aqueles que me invadem a existência.

Eu acreditava em muitas coisas.
Estabelecia conceitos, mas sempre fraquejei quando tentei pô-los à prova.
Sempre tive uma vida muito previsível, muito dois mais dois são quatro, uma vida mortal e lúcida, transparente e pouco deslumbrante.

Diga-se de passagem que de deslumbrante também, sempre tive pouco.
A beleza, esqueceu-se de pousar por aqui e foi bater a outras portas, os óculos com graduação tipo fundo de garrafa pouco me abonou, a maldita da espondilose que toda a vida me atacou, e agora por fim, até tendinites ganhei, do trabalho na fábrica.

Mas a minha vida era em tudo igual a um relógio, com os ponteiros rodando, sempre ao mesmo ritmo sempre no mesmo compasso. Tic tac tic tac. Voltas e voltas, nos segundos, nos minutos nas horas, nos dias, por aí fora. Até hoje...

Até ao dia em que me encontro minada no corpo e dilacerada na alma.

E quando tento percorrer com os meus olhos o desconhecido, fica tudo mais complicado pelo indecifrável futuro.
“… mas preciso encontrar forças e razões para lutar…”

Vejo almas que sorriem, e tento entender porque sorriem.
As almas vagueiam em espaços recônditos. Tento perceber porque andam assim por aqui.
Para onde vão.

E caminham rapidamente num descontrolo de movimentos. Mas devem ter destino, se não porque aumentariam o seu passo tornando-o apressado?
Uma alma sem destino não precisa aumentar a cadência do seu andar…

Elas choram quando me olham e trazem cicatrizes espalhadas pelo corpo, que em tempos foi belo, e fazem-no por mim… mas eu não sei como fazer para que elas voltem a sorrir…
Mas porque haveriam de sorrir?
Amélia levantou-se.
Limpou as lágrimas e sorriu. Sorriu como nunca tinha sorrido.

Olhou pelo canto do olho e viu a vida lá fora.
Sentiu vibrações em seu redor, boas vibrações, sussurros de alma nos seus ouvidos e sorriu, sorriu de novo, e sentiu uma luz forte, como um sol invadindo e irradiando felicidade, renovando o seu corpo.
“… sinto que preciso reaprender a viver…”

… e sentir a minha alma ferver de lava incandescente de vida e apelo à vida, como um vulcão que cospe lava por todo o corpo e o faz estremecer de calor e, de novo… de paixão.
Paixão pelos que me rodeiam, amor pelos filhos, pais, marido, irmãos.

E uma alegria imensa por saber que estou viva e por me ter sido concedido o sabor o prazer e o poder de sentir a vida.
… E abraçou-se de novo à vida, vivendo a vida de novo!

05 dezembro, 2006


Quero viver como um gato.
Enrolar-me nas tuas pernas e ronronar para que me afagues.
Beber leite em tigelas de plástico e comer peixe fresco pelas tuas mãos.
Quero pousar relaxado no teu sofá e encostar a minha cabeça no teu colo como quem não espera por amanhã.
Quero deliciar-me entre os livros que estás a ler e lamber o meu pelo depois do teu afago.
Quero ouvir-te ralhar quando espalho pelos por toda a casa e arranhar-te a pele quando brincas comigo.
Quero escutar os teus desabafos mesmo que não os entenda e miar de noite enquanto dormes.
Quero cheirar-te a pele e afogar-me no teu perfume de princesa.
Quero ser gato para subir aos telhados, saltar de beiral em beiral, ter sete vidas e dessas sete, viver catorze contigo.

03 dezembro, 2006

Contra a Indiferença !


Andamos ocupados com lembranças, prendas, corridas de ilusões próximas e distantes, numa mistura de deslumbramento com luzinhas a piscar em êxtase de consumismo frenético.

Passam por nós, novos e velhos, desenganados uns, coitados outros, cabisbaixos, sujos, melancólicos de tempo perdido, não se percebendo, tamanha a crueldade destes tempos, onde começa cada um de nós e acaba cada um dos outros.
Onde completamente indiferentes pela vida, não cedem lugar a sonhos realidades ou fantasias, e sem esperança no futuro, vegetam em circuitos urbanos.

Olhos opacos, pele tisnada e gasta, mãos sofridas da escravatura do sonho.

Percorro estas ruas de Dezembro, como de apeadeiro em apeadeiro, enchendo a memória e o olhar, para despejar na estação mais próxima, lágrimas por rostos de criança a quem foi prometido um Mundo e a quem deram, nada.

E se cada um de nós se plantar em pensamentos distantes e imaginar infâncias assim vividas, como seria o nosso olhar?
Como seria o tempo, de um tempo sem tempo, em que nos tornássemos um qualquer “Tó Mangas”, e olhássemos uma montra com aviões telecomandados e Playstation Portable, e déssemos por nós a 25 do mês de Jesus, a retirar de um sapato roto pelo desgaste do caminho, um carrinho de chapa?
Como seria ter, em vez do Peru e Bacalhau cozido com batatas regado com azeite virgem, uma sopa partilhada com muitos outros, que de tanto acrescento, nada mais restou?

E cruzamos com rostos de criança marcada, que nos estende a mão de conveniência, da qual nos afastamos, não vá ela sujar o fato acabado de estrear. Criança essa que tem alegria mitigada, de quem sabe que o Natal é só para outros.

Entendemos lutar contra esta indiferença, proporcionando um dia melhor por cada um de nós, numa sociedade tão vazia de valores e humanidade, tão repleta de indiferença e vaidade, tão intensa de um tudo que é nada.

Valem-nos esses olhares tristes, mas verdadeiros, para nos ensinarem o que é a iluminação de Natal e nos encherem as Vilas e Cidades com sentimentos de afectos e partilhas, a quem abrimos as mãos, e nos despojamos de nós.

30 novembro, 2006







Ontem, num grupo de amigos, discutia-se a problemática macho-masculina (na voz do António), do gajo que olha o rabo da gaja e se baba todo, como ranho de caracol.
Nunca tinha pensado nesta questão dos traseiros e da sua influência no comportamento masculino tão profundamente. Normalmente os homens vêem nestas questões, valores mais arredondados. Portanto, não sei se será questão, se falsa questão. E discutia-se a problemática questão de as rebolonas serem ou não, umas senhoras, ou umas pindéricas sem jeito para a coisa. Discutiu-se a filosofia do trejeito de anca, da perna mais ou menos torneada e até do tecido adiposo, que a substância traseira trás agarrada a si, o que, tornou o tema mais interessante, pois passou a discutir-se filosoficamente um problema de índole médico-cientifico.
Não sei o que tinha o tema de tão introspectivo, que o Mário, passou todo o tempo de boca aberta, maxilares bem firmes sem ranger os dentes. Os sorrisos esses eram mais que muitos, tal a definição científica e arquitectónica, que cada um emprestava ao assunto.
Até que o Vítor segredou: - “ mas que artelhos ela tem… até me põe o espírito taralhoco”…
Foi um desafinar de risos e de novo, um olhar diferente sobre a causalidade.
Já entravamos na vertente esotérica da coisa o que, diga-se, deixava toda a gente de cabeça no ar.
Acenderam-se então, incensos de mil aromas e a prosápia continuava, num desbobinar de conhecimentos (?) esbatidos em erros acumulados anos a fio.
Do trejeito de anca passou-se para os belos pares, pois também com um belo par de saliência pulmonar, com a graça de Deus, se apresentava.
Abanando-se num ciclópico de wonderbra, teceram-se loas a Afrodite, Deusa do Amor, o que instigou nova discussão.
O Telmo, ligado a ciências históricas, reconheceu que só Dionísio, Deus do vinho na mitologia grega poderia ser a solução,
Ou então Poseidon, Deus dos mares, pudesse contribuir para o arrefecimento da conversa.
Até que num faíscante olhar, a dona de tão belos argumentos arrematou o diálogo, desnudando tudo á sua volta, como se pretendesse revelar, fotos a cores.

28 novembro, 2006


Por vezes dou por mim a questionar-me :
- Para onde vou, de onde venho, o que tenho feito, o que necessito fazer, se existo, se sou mesmo eu, se estou vivo.
Travam os meus neurónios lutas incessantes com uns fiozinhos cá dentro, para se conectarem. Mas por vezes não é fácil, as conecções ou estão lentas ou com dificuldades de ligação.
E questiono -me porque escrevo.
Se já nem tempo tenho para ler as "Visões" e "Sábados", que se acumulam por casa, mais outras que aparecem, mais os livros que vou comprando, de tal forma que aviso sempre;
- "... aqui ninguém mexe!"
para quem não sabe, devoro estas leituras todas de fio a pavio, o que é viciante, bem sei.
Mas afinal porque escrevo?
Tenho amigos que escrevem, conhecidos que escrevem, outros que nem conheço que escrevem também, uns editaram outros não.
Escrevem alguns vizinhos, como o do 6º Dt, mas acho que nem ele sabe. Escreve o Administrador do condomínio papeis que nunca mais terminam. Escreve o Lopes do café, post-it´s, de "coisas-para-fazer".
Escrevia a Joana, que de tanto escrever, ganhou calos nos dedos e anda toda entrapada.
Escrevia o Tó, resmas e resmas de cadernos, que mal terminava queimava numa fogueira para se aquecer no beco lá do bairro, mas esse eu sei, expiava demónios que saíam pela ponta de feltro e voavam como gambuzinos.
Escreve o Zé do Talho, em pequenos papeis tingidos do sangue da faca de corte, "carne do Lombo - Kg x", e escreve o Sr. Padre, sermões dele para todos, e esses mesmos para ele, vá-se lá saber como os cumpre.
Escreve o médico receituários que só ele sabe ler, escreve toda a gente algumas… bizarrices que ninguém percebe.
Uns soltam os diabinhos, outros os diabretes, outros porque sim, outros porque talvez, alguns nem por isso.
Ok, que seja.
Eu? Sei lá.
Já agora ia estar aqui a despir a alma , não?
Ou será que já o estou a fazer?
Será ? Vêem?
Eu não dizia?
Tenho manhãs em que acordar já é difícil, quanto mais fazer a ligação ao computador central para ficar conectado.

25 novembro, 2006


Aproximamo-nos do mês, em que sinto-não-sei-bem-o-quê.
Uma inquietude que me agita o esqueleto. Aquele estado de alma, que me rói o corpo.
De ano para ano a estrada para o Natal, vai-se deteriorando. Só não deixo de a percorrer porque as crianças assim o dizem.
O comodismo, o consumismo e o cinismo tomam lugar na cadeira do Pai Natal.
Gosto dos beijos e abraços quentes e sentidos revestidos de um Natal apertado em laçarotes vermelho garrido. Gosto da partilha de afectos simples e despretensiosos. Não gosto dos que afastados numa maré com 364 dias, se lembram de enviar numa corrente de 1 dia, sms já gravados e reenviados por outros.
Não gosto das filas de adrenalina, mãos e cabeças agitadas num consumismo em espiral.
Não me encontro em hipocrisias latentes de desejos festivos em presépios de lata.
Sinto nesta época, um nó na garganta que me sufoca e se vai deslocando para me espremer as glândulas lacrimais.
Sinto vontade de saltar etapas do tempo, juntando crianças que olham montras e prendas e luzes de encanto, numa ceia de alegria, com sobremesas de felicidade.
E juntar os velhos, os doentes e os que se apertam de solidões, num embrulho de mil cores com música adequada e travessas de doces e desejos concedidos.
E evito encontros de conversas inúteis com pessoas que se acotovelam, para falar por falar como se ganhassem o céu com ladainhas.
Talvez num qualquer Dezembro me encontre sem ventos gelados no rosto, num desencanto de amargura trazido por glaciares que não vejo mais.
E nesse Dezembro relembre um tempo que já foi tempo e sinta
não-sei-bem-o-quê.

20 novembro, 2006


Ás vezes cometer um erro é a melhor maneira de se chegar a algum lado.
Veja-se Cristóvão Colombo. Se não tivesse cometido um pequeno erro de cálculo, o mais certo é que nunca tivesse desembarcado na América, mesmo que o fizesse, convencido que tinha descoberto o caminho mais curto para a Índia.
Na educação das crianças, erros de cálculo são frequentes.
Como são frequentes os nossos próprios erros na sua educação.
Não existem Humanos perfeitos (graças a Deus) muito menos Pais e Educadores perfeitos.
As crianças cirandam de ocupação em ocupação. E tanto o Estado como a Sociedade Civil, ainda não “procuraram” solução para esta questão.
Bem sei, que para muitos Pais e muitas mentalidades, é um “bem” a criança estar ocupada nos atelier´s, nas Escolas, nos Colégios, nos Jardins. Sempre não “chateiam”, não “ocupam” o seu tempo. E são esses Pais, que na sua época, brincavam nas ruas, corriam por jardins, jogavam á bola em qualquer local e aprendiam cedo e aos trambolhões a andar de bicicleta.
Hoje, são esses que não “têm tempo” para os filhos, que se zangam se sujam o calção ou o bibe e se zangam também se “descobrem”que os filhos nem de bicicleta sabem andar.
E se por um lado os ocupam, por necessidade funcional ou familiar, por outro querem enchê-los de informação para que sejam uma espécie de “Heróis do futuro”.
São eles que “despejam” crianças em horários de desporto, “empurram-nas” para ATL´s, “encostam-nas” em cursos de línguas e catequeses, e o tempo que sobra para brincar, para serem verdadeiramente crianças, não existe.
Deixam de ter tempo para conduzir as suas brincadeiras e crescem com a responsabilidade da competição, numa sociedade cada vez mais marginalizadora, competitiva e pouco social.
Os espaços de aprendizagem e sociabilização estão-se a perder, o pouco tempo que os pais passam com os filhos, por outro lado, faz com que sejam mais protectores, e assumam muitas vezes pelos próprios filhos, as responsabilidades e obrigações destes.
É a desculpabilização sistemática e a permissão para quase tudo, como compensação pelo pouco tempo passado em conjunto. Criam-se assim crianças sem regras, sem margens definidas, sem comportamentos adequados.
As crianças já não vêem nos Pais alguém que os cuida e com quem podem contar, quase não os vêem. O seu herói, o seu Porto de Abrigo. Alguém a quem imitar (a criança necessita dessa ferramenta no seu processo de crescimento interior). A posição corporal, o manear das mãos, do corpo, do pentear, das expressões, são cópias dos Pais.
Os Pais, por sua vez, vivem com o pensamento no “melhor” dos filhos. E mergulham em ansiedades e angústias de contornos particularmente patológicos.
Nos séculos passados, a vida dependia do berço em que se nascia, da fortuna familiar ou posição social.
Hoje, a criança vive mergulhada numa piscina, salta barreiras de atletismo, gravita no Jardim-de-Infância, escuta lições de piano, fala Inglês e Francês, conhece Geografia, Geologia e Meteorologia, tem explicações, e tornam estes dez-reis-de-gente, em potros de competição.
A vida já não se vive, compete-se.
Crescem, tornando-se licenciados, com um grau académico X, bom atleta de valor Y, um profissional de excelência, com um emprego de truz, férias de traz, uma casa de sonho de elevado valor, restaurantes de luxo, ginásios de elite, uma mulher fina, com unhas de gel, sobrancelhas postiças, mamas com silicone, lábios tratados na Michelyn, loira e bem vestida.
E ele com consultas de luxo em clínicas de Psiquiatria dos Alpes Suiços toma doses cavalares de Prozac – mas isso não interessa nada - a vida dele é realmente um sonho, foi isso que os pais programaram.
E os Pais? esses, olham-se um dia ao espelho e revivem os poucos momentos passados com os filhos.
Afinal o que sabem deles? O que partilharam? Que dificuldades sentiram? Que diálogos tiveram? Quantas feridas trataram? Quantas idas ao Pediatra? Quantas fraldas mudaram e banhos lhes deram ?Quantas vezes o abraçaram, beijaram, aconchegaram a roupa e disseram simplesmente…. Amo-te muito meu filho…!








P.S. Desculpem, nunca faço aqui comentários externos. Nem de pessoas, nem de politica, nem de casos.
Este espaço não o quero para isso.
Mas existe um, que me deixou angustiado. O das duas irmãs que ficaram órfãs, assistindo ao acidente dos pais, esmagados contra a própria viatura.
Elas estão separadas, cada uma com seus avós. Separadas pelo Tejo, uma em cada margem.
Juntem-nas por favor.
Elas necessitam fazer o luto, juntas.
Necessitam estar uma com a outra e chorarem os pais, juntas.

Mais do que qualquer ajuda externa, necessitam antes de mais, uma da outra.

16 novembro, 2006






E inventávamos o Mundo,
pintando em aguarelas de cor, almas unidas num só gozo.
Como malabaristas, ilusionistas da vida, disfarçando choros,
os nossos choros em gritos de amor.

Fechava os olhos e parecia que
o meu corpo se dissolvia em nada.
E olhava-te no teu corpo de mulher
e mordia-te língua e lábios,
e cheirava formas e aromas do teu corpo.

E tenho vontade de te possuir, uma e outra vez, sem que nada inebrie os meus sentidos, sem cansaço, sem espera,
E olhar-te!
Olhar-te como se olha a vida,
procurando na tua alma a profundeza do mesmo olhar.

E sentir-te feliz num vento de sabor a sal,
do teu corpo que respira a céu aberto.
E sentir-te entregar, como o mar se entrega em orgasmos infindos contra os rochedos.
E passar-te a língua em lugares secretos, só teus, só nossos, onde o coração espreita ao cimo da pele.

O teu sorriso nervoso,
o teu olhar como pétala de um Outono florido em odes madrigais.
Que me procura, que me quer, que me despe,
Rasgando roupa e pele, num desejo de ternura.
Mas sonho-te fugir entre dedos que se entrelaçam
E prendo-te.
És minha, agora,
hoje, amanhã e sempre.
Só para mim, presa ao meu pensamento, ao meu corpo,
colada no meu suor, na minha saliva no meu cheiro.
E vou aprisionar o teu cheiro.
E quero comer-te e beber-te em sílabas graves, como os poemas de O´Neill,
sentir-te o vai vem da tua mão no meu corpo,
massajando os músculos cansados de leituras nocturnas em sonetos de Chopin.
De tão cansado, já nem a luz que entrava eu via, nem o vai vem da rua que eu já não ouvia.
E subo pela escada sempre deserta, que ninguém sobe nem desce, piso onde tu pisas e tocas onde eu toco.
E ouço Caetano e Bethania,
E pareço um Adamastor aos olhos de Vasco da Gama.

E foste embora.
Era tarde, meu amor, eu sei.
Mas deixas sempre o teu cheiro para me acordar, para eu rolar para o teu lado da cama, ainda quente.
E nos lençóis ficou marcado o grito que a tua mão soltou,
quando no teu corpo estava eu.

E inventamos de novo o Mundo,
mais e menos por menos e mais
e fechamos um ciclo de vida,
em gemidos de prazer, corpos colados de amor
na direcção vaga do infinito.
Porque te amo.

14 novembro, 2006

SE...


Se conseguir ver um gato preto na próxima esquina a cruzar-se comigo, se o eléctrico 32 passar um minuto depois da hora marcada, se o padeiro buzinar antes das oito, se confundir de novo o azul com o preto, se o telemóvel vibrar em vez de tocar, se mais uma vez não vir a mulher-do-padeiro, se chover de novo com 23 graus, se a menina do Renault verde voltar a ultrapassar pela direita, se os próximos 4 semáforos, continuarem vermelhos, se neste exacto momento me voltar a arrepiar, se a tartaruga fizer barulho no aquário, se o pinga-pinga da torneira não parar, se voltar a adormecer ao fim de 5 minutos de leitura, se o nevoeiro não se dissipar e deixar cruzar o arco-íris pela montanha, se a D. Alice do café me voltar a falar dos belos rissóis de carne da filha, se continuar a mexer o café para a esquerda, se o Teodoro Anastácio da Silva Campelo e Melo de Gouveia Frederico e Silva, não aparecer de novo na “Caras” com o patrocínio da mesma e viajar para a ilha dela, se os preliminares forem abolidos, se no urinol publico voltar a sentir olhares de machos na minha direcção, se os políticos conseguirem sorrir sem cinismo e durante 2 minutos conseguirem falar uma palavra de verdade, se o Manel do 4º esquerdo não der o arroto ao descer as escadas do escritório, ou a menina da livraria não coçar a orelha quando lhe falo, é mau sinal…..... ainda não recuperei da loucura.

09 novembro, 2006

NEM SEI PORQUÊ!


Lembro-me de já ter sido D. Quixote, Sancho Pança, D. Sebastião, famoso, estupor, óptimo e um bom malandro.
Nas bocas da penumbra, adocicados com sal refinado ou açúcar louro, ditados pelo povo, podemos ser qualquer coisa.
Pouco incomoda. Apenas ligeiros arranhões, naquilo que alguns tentam que se torne num acidente sem proporções.
Com o tempo habituamo-nos a que algumas salivas brotem venenos escarlates, o que com o passar do tempo se há-de reverter no seu próprio perfume envenenado.
Alguns já os vi cair. Outros por aí virão.
Leio cada folha da memória, e percorro caminhos de tempos passados.
Custa-me levantar pedaços de papel escritos com lágrimas fortuitas de raiva contida por infinitos tempos.
E hesito entre papel e teclas e Word e A4, entre o que sou, e o que me querem fazer.
Puro engano, imbecis. Cruéis desesperados de almas penadas e empedernidos socalcos de coração despedaçado.
Puro engano.
Jamais sabereis valores. Jamais me vereis senão aquilo que vos mostro, e que é tão pouco, que jamais sereis donos de qualquer verdade.
Engano vosso.
Carpideiras do sangue de outros e vampiros dos demais.
Podereis adiar fumos brancos. Vendilhões do tempo, desgraçados desgarrados do interior vazio que é o vosso.
Verdugos de penumbras, vividos em escuridão, sem rosto, sem mãos, sem pele, sem expressões. Fechai gavetas e portas, dobrai fechaduras das vossas casas, onde habitam fantasmas existenciais.
Lavai-vos com água benta, das impurezas da alma que habitais, colocai um qualquer roll-on, que vos perfume a existência e vereis um novo ressurgir, num amanhã diferente, para melhor, se fores capaz.

07 novembro, 2006



Sara, abriu a pasta, e retirou o Moleskin preto.
Puxou da caneta que conservava religiosamente vai para dois anos, desde que ele sucumbira nos seus braços de Morfeu.
Escreveu-lhe:
“… A lua está fria e distante. Tudo está longe de mim. O ar vai ficando mais pesado porque o tempo não passa.
Há coisas a começar e a acabar, neste exacto instante. Vidas e sonhos, sonhos e vidas, e mar e estrelas e palavras e desejos e encontros. Amores encontrados, amores perdidos, outros desajeitados, quantos esquecidos.
E eu…. Eu estou aqui parada. Tenho pouco cabelo já. A químio arrasa-me os glóbulos, e tudo gira em volta de nada.
Não sei o que espero.
Não sei se estou à espera que algo comece ou acabe em mim…”

Rasgou a folha e escondeu-a debaixo da almofada, adormecendo.

Ele respondeu, sem tardar.

“… Sabes Sara, tudo deixa de ter importância quando falas, quando escreves, quando me olhas.
Pouco me interessa a duração do tempo. O tempo é tempo, nada mais.

O importante para mim, é o momento. Este momento que vivemos.
E vivemos hoje, porque amanhã não sabemos. Nem eu, nem tu. Ninguém o sabe.
Tornaste-te uma lutadora, uma Mulher coragem. O teu exemplo e de outras Mulheres coragem, esses sim, perdurarão pelos tempos.
E hoje sou feliz, e canto e salto e grito e abraço-te porque te quero, porque te tenho.
Porque o hoje é muito mais do que o ontem e certamente do que amanhã.

Porque o vivemos, porque o sentimos, porque assim, aqui, estamos os dois.
Sabes, Sara. Toda a minha vida, recordei pessoas, sítios, cheiros, sabores, palavras, casas, paredes, luzes, estórias… sempre recordei vivências, instantes, memórias. Eu que nunca me imaginei de outra maneira, senão nostálgico...
Até que me diagnosticaram uma obsessão.
Mas, estou curado dessa.
Agora só me vejo no momento, neste, contigo, neste nada que é tudo.
Sei que por vezes gelam as madrugadas. Sei que o meu amor, na tua boca, mais não é que sal dissolvendo-se mais e mais a cada dentada de vida vivida nas horas roubadas aos dias.
Já sabia que o sofrimento faria par comigo.
Mas escolhi assim, amor! "

05 novembro, 2006

Acho que sim... sei lá...!



Pasmo com a coscuvilhice, a falta de temas que as pessoas “não” têm.
E pasmo, porque mais do que tratarmos das nossas vidinhas, com os problemas inerentes a cada um, seja no emprego, no carro que está velho e não anda, nos filhos e na produção escolar, no vencimento que um dia destes é ultrapassado pela quantidade de impostos que temos de suportar, com a vida de casa e seus amores tão delicados, damos frequentemente pelo linguarejar das pessoas, sobre os outros, que de si, é bom que nem se fale.
Ele é tema de telenovela, de primeira página em papel de jornal nauseabundo, de revista cor-de-rosa social, daquelas que dominam os temas como verdades absolutas, do tipo, … “ o céu é azul”, …”amanhã se não chover, fará um rico dia”… “o sol quando nasce é para todos”…e blá, blá, blá.
As acusações chovem. Todos falam.
Espirram toda a lama na direcção de alguém.
Fazem chicanas em mesas de café, com um chá para quatro, ou aproveitam o pouco que trabalham para vociferar argumentos pestilentos sobre outros, sacudindo o seu próprio pó, e teias de aranha, que mais parecem enlatados.
Rotineiramente fartam-se de dizer mal de outros para esconder o seu próprio mal.
Mostram-se conhecedores, ainda que sem conhecer, apenas porque ouviram alguém dizer, quantas das vezes por inveja ou ciumeira, ou porque sim…sei lá.
E farto de estar a ouvir uma conversa sem pés nem cabeça, sobre a filha-do-pasteleiro-que-dizem-que-anda-metida-com-aquele-rapaz-que-trabalha-lá-em-baixo-no-restaurante- do- Alfredo-e-o-coitado-do-marido-que-é-uma-jóia-sem-saber-de-nada,....
Mais, o-senhor-padre-que-Deus-nos-valha- (benzem-se três vezes)-que-parece-que-tem-um-filho-que-vive-com-a-mãe-uma-rapariga-lá-da-aldeia-dele-em-Penegodes-que-fica-lá-nos-altos-dos-montes-e-que-nunca-desceu-à-cidade-para-não-ser-apontada-pelo-povo
Mais, a da minha-vizinha-Maria-que-Nosso-Senhor-me-acuda-que-quando-era-nova-andava-metida-com-tudo-o que-é-Homem-e-bem-que-ela-aproveitou-a-malandra-e-o-marido-coitado-que-é-um-moiro-de-trabalho-e-só-aparece-bebâdo-ás-vezes-…
… E perguntemos a essas queridas… porque é que não se metem na vida delas…?!

01 novembro, 2006



Tudo o que fuja da rotina ou do instalado, do sempre igual e constante marear, as alterações, provocam roturas, confusões e perplexidades.
Tudo muda, muita coisa muda, umas para o bem, outras para o mal, mas tudo acaba por mudar.
E muda quando queremos, quando estamos predispostos ou mesmo quando nem pensamos tal.
Temos receios de grandes alterações, de grandes mudanças, que façam mexer no quotidiano, que agite a nossa vidinha catolicamente instalada, que faça sombra à própria sombra.
Mexer em processos ou estilos de vida ou a qualquer coisa diferente de ligar a ignição, meter a primeira no automóvel e arrancar, carregar em botões, meter a chave à porta ou apanhar o 46 para o trabalho.
Sentar no mesmo café, atendido pelo mesmo empregado, ver o mesmo vizinho, levar as crianças à escola, assistir os mesmos programas, as férias no mesmo local de farnel na mão, a acomodação permanente e constante.
Mas tudo muda, muitas vezes a ritmo de caracol, devagar, lentamente, tudo muda.
Levamos tempo a assimilar as mudanças, a perplexidade instala-se, e a nossa adaptação depende do tempo que levarmos a fazê-lo.
Temos medo que essas mudanças provoquem instabilidade, que agitem águas adormecidas, que mexam no nosso “modus vivendi”, na operacionalidade das nossas vidinhas.
Mas todos conseguimos adaptações, flexibilizando para podermos fazer e conhecer coisas e pessoas diferentes. O problema que se coloca não está na mudança propriamente dita, mas no nosso eu, interior. Na memória do que foi, no passado que nos agita fantasmas, nos pensamentos que adjectivam as meninges, que nos obriga a comparações, e que por isso afecta a mudança.
E abalam-nos pensamentos, filmes antigos, vivências belas ou tenebrosas, desassossegos instalados. Fechamo-nos em conchas ou caixas de “Tupparware” hermeticamente fechadas, silêncios labirínticos, escondendo-nos do que nos pode pôr à prova. Afinal, é sempre muito mais fácil não enfrentar, do que dar com os costados nas verdades que nos surgem aos olhos.
Emocionalmente somos afectados. Choramos, arrepelamos os cabelos, revoltamo-nos, e sentimo-nos marginalizados e colocados no cantinho do sótão das coisas velhas da vóvó. De um momento para o outro, somatizamos todos os maus momentos, as conversas que nos “tocaram”, as atitudes que magoaram, o mal que nos infligiram, as “trocas” que afectaram, os processos descontruídos.
Qual Cinderela com madrastas cínicas e feiosas, gritamos amarguras que nos atiraram para esta má sorte, e tendemos a sentir bruxinhas velhas de vassoura em riste a manietarem-nos a memória.
Mas temos de enfrentar, limpando o pó sujo da alma e as teias de aranha do coração… e já agora… tiramos a vassoura da bruxa má e em vez de a montarmos para fugir, imaginamo-nos o “Batman” e damos nós a varredela final… que tal?

29 outubro, 2006



Olá Leonor

Perguntavas tu, de dentro dos teus poucos aninhos o que é a "sensinilidade".

Pois, olha, eu entendi o que falavas.
Da senilidade, que vai querendo aparecer, mas que vou chutando à medida que posso, dessa, um dia mais tarde, falaremos, assim o tempo me dê tempo.
Da sensibilidade, que tu questionas, sei dizer-te, que é um sentir, por demais sentir.
É um estar que nos arrepia a pele, que nos adormece os músculos.
Não. Não é pieguice ser sensível, pelo contrário, faz falta sensibilidade ao mundo, às pessoas.
É porventura, ver as coisas com alertas de alma, com outra atenção.
Sabes, Leonor, o tempo foi roubando a cada um de nós, a possibilidade de nos ouvirmos e de também escutarmos os outros. Para não serem diferentes, guardam tudo dentro deles, vão amarfanhando, empurrando, até nada mais caber.
Guardam como se guarda um tesouro, algo de valioso que é.
Mas puro engano.
Saberes, dores, choros e alegrias. Quem não dá, não pode esperar receber.
Por isso, quanto mais guardam os cheiros, as cores e as texturas das coisas, menos percebem que a melhor parte é compartilhar.
Quando uma lágrima cai, quase sem percepção (... e comigo isso acontece, não te admires...), quando sentes por antecipação um desfecho daí esperado, quando um adulto que nunca foi criança em vez de desabafar, flexibilizar... foge.
Quando arrumamos sentimentos que bem abanados e estruturados, podem ainda ter tempo de conseguir milagres;
quando alguns desses milagres, são passeios de alma e estradas do coração, concluimos que nada é mais importante do que o que nos toca na alma.

20 outubro, 2006

ARCO-ÍRIS



Hoje sonhei com o arco-íris.
Esse sonho transportou-me para imagens de rara beleza, como as feições de meu Pai.
Ouvi a sua voz, vinda de longe. As suas palavras doces, o seu belo sorriso.
Ele dizia que apenas nos iludimos, quando pensamos que somos donos das coisas, dos instantes ou dos outros. E que a vida, ténue como é, apenas nos empresta algumas coisas, tirando-as quando o entender. E que melhor será a partilha e a comunhão do que a leviandade de querer ser a qualquer preço, melhor, poderoso, ou importante.
O meu Pai fazia magia quando me abraçava, como eu espero fazer, quando abraço os meus filhos.
E revivi os meus amigos, as minhas viagens, no que deixei de viver, no que passei ao lado por falta de tempo ou disposição, nas alegrias e nas tristezas, nos que passaram por mim, no que me deixaram e no que lhes deixei.
Relembrei cores, objectos, viagens, frases, danças, timbres de voz, olhares, cheiros, sobretudo nas coisas insignificantes a que atribuo enorme valor.
E espreitei pela janela em direcção ao céu.
O céu à noite é um lençol com estrelas. (…por vezes as nuvens fazem-se “edredons” tapando-as do frio...).
E olhei a estrela polar, cassiopeia, e ursa maior.
Senti um frio que me pregou a alma e suspirei.
Ao sair de casa, deparei com o arco-íris do sonho a olhar-me de cima.
Puxei-o e ele poisou de mansinho na minha mão.
Desde criança que o imagino como o caminho da felicidade.
Pensava nesse tempo, (ainda hoje o penso), que se conseguisse subir caminharia até ao infinito, onde quer que ele ficasse.
Talvez pelas cores, talvez pela beleza ou harmonia, sentia-me jovem de novo e dei por mim a saltar. Cantarolei, pedi um "donut´s", bebi um café e olhei-o devagarinho.
Lá estava ele, num remanso colorido, afagando-se nas curvas da mão.
Remirei a aura e sentei-me numa esplanada.
Naquele instante deixei-me transportar na direcção das estrelas.
Pedi um desejo e habitaram em mim pedaços de sonho em algodão doce.
Sorri.
De tal modo era o sorriso, que as pessoas paravam para me olhar.
E eu não parava. Mesmo que o quisesse, não era capaz. O sorriso transformava-se em felicidade, a felicidade em amor e de novo em sorriso.
De repente, no meio de tanto sorriso, apanhou-me distraído e, saltou da mão alojando-se no coração.
Ao princípio, estranhei… depois entranhei.
Hoje vivo com ele no peito e sorrio.
Sorrio às crianças, sorrio aos velhos, sorrio aos doentes, sorrio aos desafortunados, sorrio aos meus inimigos, sorrio aos que me querem, sorrio aos que não me olham, sorrio aos que me evitam, sorrio aos que não sorriem, sorrio à vida, e, descobri, que apenas um sorriso, um leve e pequeno sorriso, pode fazer milagres.
Experimentem!

17 outubro, 2006



SE ME QUISERES...

Prendes-te com atilhos e escreves em bloco-notas a palavra... desejo-te!

Recortas letras de um qualquer papel jornal, formando palavras numa ordem desordenada com cheiro requentado a tinta, onde colocas o J e o P em maiusculas, distintas, formando palavras de ordem, como aquela que aguardo... SE ME QUISERES !

Fazes um desenho colorido, vincas um papel, constrois um planador que atiras ao sabor do vento, na minha direcção.

Escreves post-it vários e fixas em todas as árvores no passeio da avenida.

SE ME QUISERES...

Adoças-te em colheradas de gosto açucarado, raspando com pontas dos dedos e lambuzando-te em pequenas doses.

Enrolas-te em algodão doce e deixas-me saborear aos golinhos durante o dia o sabor das tuas palavras.

Sobes ao Big Ben, olhas-me da Torre Eiffel, e cruzas-te comigo na dos Clérigos.

Pintas com cores garridas, libertando tubos e pinceis aprisionados em paleta incólume desafiando um desejo numa promessa de criação.

Degustas a doce sensação da miragem, do desconhecido, a misteriosa magia do despertar dos sentidos...

SE ME QUISERES...

Deixa o silêncio pairar tranquilo e efémero, deixa que a magia faça o resto...

Descobre-me, destapando-me alma e coração, arreganhando memórias como peças soltas em teatro de marionetas.

SE ME QUISERES...

Terás o Sol na ponta dos dedos e o Mar como presença notada.

Terás a Lua nos olhos e a minha Voz num sussurro permanente.

...Virás de Princesa vestida, numa charrete de quatro cavalos brancos, brilhando a rubis e diamantes, e mesmo que pela meia-noite te transformes em abóbora, jamais deixarás de ser... Princesa...!

16 outubro, 2006

"SHUT DOWN"



Será a vida um jogo de espelhos onde a realidade se confunde com a imaginação ?
Será que habitam em nós fantasmas que nos perseguem e nos prendem a abismos de uma inquietude intransigente?
Será que fechamos caminhos e criamos labirintos para não sermos encontrados.?
Tento falar pausadamente para me ouvir, como quem nunca erra a "cor" de uma palavra.
Sinto-me avariado.
As pessoas também avariam, sem que se saiba porquê. E eu tenho momentos assim.
Tal como os motores, os computadores, faço "pause". Talvez tenham sido fios cá dentro que encostaram, talvez seja necessário um "Back-up", após tantos "donwload´s" efectuados.
O "Scroll Lock" impede-me de continuar, retém-me nas memórias.
Será o "disco rígido" ou a "placa gráfica "? Sinto-me a perder velocidade, quiçá capacidade.
O que sei é que se fizer "Shut Down", vai tudo ao ar e perco-me de todo.
Mas será que as pessoas também avariam pelo muito que pensam ou pelo nada que vivem ?
Prefiro ser mártir das minhas crenças que cavaleiro em seu dorsel.
Não. Não posso julgar.
Ninguém pode julgar ninguém sem se olhar a si.
Pensamos os outros… imaginamos… puro engano. Só lendo na alma através do coração.
Não somos Deus, nem Anjos, nem Diabo.
- Diabo ? - Pró Diabo... como esse não serei.
O que não sou é servente de hipocrisias ou mestre-de-obras sem consciência.
Gosto da minha transparência, mas também me encubro em vestes de pó como se não existisse.
E ando neste limbo cinzento de inquietude, cansado.
Cansado de mais para "te" pensar, para "me" ver.
Vou saboreando ao longo do dia o sabor destas palavras, sabendo que nem todas as bocas saberão beber do meu cálice.
Não imagino o que sai, nem para quê.
São os olhos e ouvidos que quem me ouve lê e interpreta, que dão sentido às palavras e forma às imagens.
Porque um amontoado de palavras será sempre, e só, um amontoado de palavras se não fizerem eco na sensibilidade de quem tenta decifrar o seu significado.
… Sinto que a máquina tende a parar. “Ctrl” “Alt” “Del”…
Na música os compassos aprendem-se. Errando, repetindo e voltando a errar.
E sendo esta vida um jogo de espelhos, os erros, nossos e dos outros, devem ser considerados normais. Afinal quem pode atirar a primeira pedra?
Op´s!
“Pause”!

13 outubro, 2006



Quando foi a ultima vez que limpaste o coração?

Calço luvas, coloco bata e máscara e munido de bisturi, percorro canais.

De auricula para ventriculo, de veia cava para cá e para lá, de artérias gordurosas, alojamos aparelhagem bem no meio do coração.

Encontro pó, vários quartos e salas com teias de aranha.

Paninho na mão, "spray" limpa nódoas e cera para o soalho de quartos desabitados.

Alguém escorrega ? - Não

- Ninguém habita por lá.

Peguei no álcool e vaporizei as paredes.

- Ardeu ?

- Claro que sim

Mas era esse o objectivo. Deixar arder, doer.

Quando foi a ultima vez que limpaste o coração ?

O aspirador entrou em cena e a soda caustica retirou o mais entranhado.

Por fim e antes de passar a linha e agulha para fechar o remendo executado com mestria em definitivo, deixei que as janelas arejassem...

Do pouco que restou, peguei numa pá e enterrei-o bem no fundo do coração, quase tocando na alma.

Jamais me habitarás.

Viverás aí para sempre!

12 outubro, 2006


Tenho dias em que só consigo ouvir o bater calmo do coração.
Adoro o cheiro matinal a flores e deixava-me estar nesse remanso, do "café da avó".
O céu está humido. Goteja na janela e a minha alma está carente de um sol que me faça festas.
Ouço frases de outros dias num tilintar de ouvido.
Sobram bocados de gente, de gestos, de tempo, neste aconchego em que me encontro.
Deito-me inconfessavelmente tarde.
O som do silêncio, a luz ténue, a sensação de calma e serenidade como gosto, como sinto, estendendo os braços na direcção do dia que se aproxima.
Tenho uma mancha no coração.
Abro janelas para silêncios que procuro agitar, desejoso de te ver limpar minhas asas de voo que não reconheces.
De ver meus dedos escorregarem em teclas de piano de cauda em contraluz, de palavras etéreas que saltam de acordes mal dedilhados.
Nunca quiseste entrar no espaço que abri para ti, nos braços que apertavam no aconchego do meu peito, no sussurrar da minha voz.
Abres as portas por onde passo.
Balanço no balançar de ancas onde me vejo num jogo de sedução arcaica, saltando do meu para o teu olhar e embebedo-me em ti.
E... adormeço-te enquanto te olho e me faço ninho no teu regaço.

06 outubro, 2006



O meu coração boca fora e a alma, meio metro fora do corpo.

Rosto sem luz e voz sem palavras.

Sinto que o meu corpo andou 10 metros para o lado e encostou na parede junto ao móvel, e eu aqui a olhá-lo.

-Que é isto ? Mas onde é que tu vais ?

... Sonho ?

Ouvir-te falar faz-me abstraír do significado das palavras, e o meu coração bate descompassado num ritmo sem ritmo de frenético.

E suspiro, roendo as unhas, quando te envolvo com o meu olhar.

Adoraria deixar-te as minhas impressões digitais, sufragando-te os gestos e sacudindo o meu amor em ti.

Volto a não sentir. Nem corpo, nem cheiro, não vislumbro luz.

Saí de novo de mim e ainda não voltei...!

Em que ancoradouro andarei ?

A lua a boiar no céu, o cheiro a terra e mar.... regressei de Finisterra ?

Mas que faço ? Onde tenho andado ? Qual a dimensão em que habito ?

Saber que não existes, aligeira-me o fardo, deste tormento.

Saber que não existes, porque eu te criei, colei-te a mim, fiz-te minha.

Insónia, desprotegida.

26 setembro, 2006


Hoje estou cansado, e não posso estar cansado.
Não tenho tempo, nem oportunidade para estar cansado.
Deste cansaço que entendo não seja físico, nem mental, acho que….espiritual.
Estou farto de tanta coisa e não posso estar. Deste País de “Tolans”, pois isto está tudo virado ao contrário, deste País de “Gordons”, tal como a tempestade que assolou os Açores, só que este “Gordon”, é mais “Flash Gordon” e atacou as nossas Instituições.
Outro dia tentei perceber qual delas não tinha sido tocada, ou por incompetências, ou por compadrios, ou por corrupção.
…pois… ainda estou à procura.
E estou cansado desta carcaça, que sou, deste feitio feito mel, deste ser que não sou, deste estar que não estou.
E dou por mim distraído.
Cumprimento quem não conheço, ou quem conheço, mas não sei quem é.
Ou se calhar sei, mas nunca consegui “ver”.
Se por vezes nem nos conhecemos…
E circulamos pelas pessoas como meras transparências, quase invisíveis, nós e elas.
Levamos connosco fios de marionetas, que puxamos consoante entendemos.

Ora agora, abanamos a cabeça (puxa o cordel…já está…).
Ora bem, agora fazemos o sorriso especial (só um pouquinho… ora aí vai… puxa o cordel…já está…),

... e lá continuamos na nossa vidinha, como a Ti Maria das flores, ou o Sr. Zé do talho.

-“Então o que é que vai ser ó freguesa?”
– “Lá está o raio da mulher… nunca compra nada, mas para pintar as beiças e arranjar o cabelo, já tem dinheiro”. Fingida. Não te dê uma Filoxera”.

E lá vem o rótulo, a carimbadela e o estereótipo.
Típico Portuguesismo.
Pouca importância damos às coisas e/ou às pessoas.
O que lê, que filmes vê, o que faz e como faz, valores, princípios, etc….
Nada.
Vai rótulo para cima e carimbo na testa. Está etiquetado.

Mas a vida é mais do que isso, as pessoas são mais que isso, “nós” somos mais, muito mais.
E vivemos semi-escondidos em capas personalizadas, consoante as ocasiões.
E raramente deixamos transparecer para além dessa imagem construída e retocada de tempos a tempos. Ou porque socialmente nos impõem, ou porque nos obrigamos nós.
E vamos passando pela vida e pelas pessoas, por acasos e casos, por sítios, vivências, paixões, locais e lugares, e medramos num papel no qual não cabemos, e ouvimos prosápias que não entendemos.

E raramente “olhamos” bem, e nos “olhamos” também.

25 setembro, 2006

AMIGO












"Procura-se um amigo. Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.
Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa.

Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.
Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.

Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja de primeira-mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.
Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância.
Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive."

Vinicius de Moraes

21 setembro, 2006


Estava eu descontraidamente a soltar o pinguinho de urina num WC de área de serviço, quando pressinto invasão de excursionistas.

Quase terminava, quando reparo num sujeitinho baixote de bigode farfalhudo, cigarro na boca, mão a segurar o “Record”, num contorcionismo arrojado.

Porra, pensei eu. Então este tipo, faz o xixizinho da ordem, sacode e guarda o objecto só com uma mão? Mas é ilusionista ou quê? E será que vai conseguir mexer no cigarro com a mão que saiu do dito?

Eis que, não bastando, aparece um outro, alto, com barriga de pipo, daquelas que rebolando na neve provocam avalanche, e começa a vociferar.

- Ó Toino, viste aquela gaja ?
- Grande traço, diz o dito ilusionista, com um esgar, entre o aparvalhado e o sebento.

E eu, no meio dos dois, sem me conseguir mexer, disfarçando urinas retidas.

-Mas ó Toino, ela bem levava, hum?
- Hó, se levava, dizia, com a beata quase a morder-lhe os lábios.
- Então que querem? Metem aqueles pregos nos umbigos, amais as tatuages, e um Home num há-de ficar doido ?

Reparo então, que o grandalhão tinha cachecol futebolístico pendurado ao pescoço.

E no meio das algaraviadas que iam roncando, começam, por atacado a “despir” a dita cuja “gaja”.
Que faziam isto, e acontecia aquilo... e eu no meio, atarracado, imaginando que aquelas almas, de erecções, só mesmo naquela ocasião, enquanto dura a mijadela...

Fui lavar as mãos, na esperança de que poderia estar enganado e que o baixote afinal, não seria um McGuiver dos sanitários, quando ele passa, lançando baforadas de um Sg qualquer que empestou o espaço.

Grande animal... Então e as mãozinhas não se lavam?

Eis que, atraiçoado pelo pensamento, logo atrás, o grandalhão e mais meia dúzia de quadrúpedes pestilentos, passam numa chinfrineira que ecoa, e … nada! Mãos lavadas é que não!

Futebol e gajas, são duas paixões de que falam, sem uma prejudicar a outra.

E reparo que este é o espelho de um País de gente inculta, iletrada e sem maneiras.

E não terem bebido água do sanitário…. Já vou com sorte!

20 setembro, 2006



Depois de algum tempo

"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas.
Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.
E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.
Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.
Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas segundos para destrui-la, e que poderás fazer coisas das quais te arrependerás para o resto da vida.
Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que tens na vida, mas quem tens na vida.
E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.
Aprendes que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebes que o teu melhor amigo e tu podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.
Descobres que as pessoas com quem tu mais te importas são tiradas da tua vida muito depressa, por isso devemos sempre despedir-nos das pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.
Aprendes que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começas a aprender que não te deves comparar com os outros, mas com o melhor que podes ser.
Descobres que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que se quer ser, e que o tempo é curto.
Aprendes que, ou controlas os teus actos ou eles te controlarão e que ser flexível nem sempre significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, existem sempre os dois lados.
Aprendes que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer enfrentando as consequências.
Aprendes que paciência requer muita prática.
Descobres que algumas vezes a pessoa que esperas que te empurre, quando cais, é uma das poucas que te ajuda a levantar.
Aprendes que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tiveste e o que aprendeste com elas do que com quantos aniversários já comemoraste.
Aprendes que há mais dos teus pais em ti do que supunhas.
Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são disparates, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.
Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.
Descobres que só porque alguém não te ama da forma que desejas, não significa que esse alguém não te ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo.
Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, poderás ser em algum momento condenado.
Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que tu o consertes.
Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás.Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga flores.
E aprendes que realmente podes suportar mais... que és realmente forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.
E que realmente a vida tem valor e que tu tens valor diante da vida!
As nossas dádivas são traidoras e fazem-nos perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar."

William Shakespeare
Estranho beber dos teus lábios
Ensinamentos com mil histórias, mil nada inacabados, em notas de violino num musical em dó menor.

Estranho beber dos teus lábios
Frases inacabadas, conversas cruzadas, entrelaçadas, temas por decifrar.

Estranho beber dos teus lábios
O suster da respiração e sentir apenas a leve brisa do teu perfume,
que me atormenta a alma.

Estranho beber dos teus lábios,
Regras, leis, ritmos, musicalidade, esperanças e pinturas em tons de pastel.

Estranho beber dos teus lábios
E rodopiar pela tua pele em gestos sublimes de te tocar em cada lágrima, num arco-íris de movimentos,

Estranho beber dos teus lábios
E não conseguir mover-me ansioso às voltas da órbita que me impões, fora do trajecto que tinha traçado.

Estranho beber dos teus lábios
Palavras murmuradas que me atingem na carne como bolas de fogo

Estranho beber dos teus lábios
Inquietação por não ter conseguido oferecer-te as nuvens, o mar e o sol.

Estranho beber dos teus lábios
O relógio e a despedida a flor e o acenar na partida.

Estranho beber dos teus lábios
A falta de ser mais eu, mais tu, mais outros, de mais e mais sendo só e apenas eu.

17 setembro, 2006














Cativar

"(...) - Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. - Estou tão triste...
- Não posso brincar contigo - disse a raposa.Ainda ninguém me cativou...
- Ah! Então, desculpa! - disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- «Cativar» quer dizer o quê?
(...)- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa.
- Quer dizer «criar laços»
- Criar laços?
- Sim, laços - disse a raposa - Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim.
Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um dou outro. Passas a ser único no mundo para mim.
E eu também passo a ser única para ti
- Parece-me que te estou a perceber - disse o principezinho.
-Sabes, há uma certa flor... tenho a impressão que ela me cativou. (...)"

in, O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry

"Tratar a criança com cancro e não só o cancro na criança!
Este é nosso lema, que espelha o que pretendemos com a nossa Associação.
Todos os anos surgem mais casos de cancro infantil. As crianças com cancro e os seus pais sofrem durante anos psíquica, física e economicamente. A experiência mostra que a solidariedade é um factor de extrema importância para ajudar a minimizar os problemas causados pelos longos e difíceis períodos de tratamento.
Por outro lado, é cada vez maior a percentagem dos que vencem a doença
."

- Do Site da Acreditar-






PARA QUEM SOFRE


Hoje eu vou sorrir contigo.
Vou brincar, dar pontapés na bola, atirar-te conchas de esperança.
Hoje, eu vou correr ao teu lado e abraçar-te como se não houvesse amanhã, desligar-me do mundo e ter-te só para mim.
Vou fazer de cada dia teu, um dia melhor, para um amanhã maior.
Vou arrumar as tradições e reservar-te um espaço feliz no coração da minha vida.
Hoje serei eu e tu e mais ninguém.
Visitaremos os teus amigos e contaremos historias de Reis e Princesas e belas donzelas de lancelot.
Já não levarás o boné que te acompanhou todo este tempo, mas um sorriso de esperança que distribuis sem cansaço.
Levas contigo o obrigado que te sai vezes sem conta e que contagia.
Serás tu, a coragem que dissimula a dor e trará mil cores aos demais.
Levo-te à escola e aguardo-te na hora de saída. Sem saberes vi-te brincar, correr e saltar, e senti-me gente de novo.
Vi de novo a luz do teu rosto quando sorris.
Afaguei-te o cabelo e deste-me uma palmada nas costas como nos velhos tempos.
E vou abraçar-te junto de mim, dando graças por te ter comigo.

Pedro Viegas






15 setembro, 2006
















De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia

13 setembro, 2006















"No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.

Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Talvez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego".



Pablo Neruda

12 setembro, 2006









"Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;

ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados

E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;

ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir".


Kahli Gibran













El viento es un caballo:
óyelo cómo corre por el mar,
por el cielo.
Quiere llevarme:
escucha cómo recorre el mundo para llevarme lejos.
Escóndeme en tus brazos por esta noche sola,
mientras la lluvia rompe contra el mar
y la tierra su boca innumerable.
Escucha cómo el viento me llama galopando para llevarme lejos.
Con tu frente en mi frente,
con tu boca en mi boca,
atados nuestros cuerpos al amor que nos quema,
deja que el viento pase sin que pueda llevarme.
Deja que el viento corra coronado de espuma,
que me llame y me busque galopando en la sombra,
mientras yo, sumergido bajo tus grandes ojos,
por esta noche sola descansaré,
amor mío.


Pablo Neruda

28 agosto, 2006



Sonhei-te

Sonhei que vivia numa rua onde ninguém passa, onde nada acontece, onde nada se ouve.
Onde se houve chilrear, pios de um pardal que ali passou.
Mas está tanto calor que não ousou voar. Saltitava, como se tivesse molas nas suas patinhas, olhando freneticamente em todas as direcções, como se fugisse de abrir as asas, para não lhe fugir a sombra e corresse o risco de derreter ao sol.
Como ele, fujo do calor.
Cheguei ao ponto em que estou contente por me bater na cara uma brisa que me refresca nos seus trinta e nove graus.
Maldita variação, raios partam o buraco do ozono, ou o que quer que seja que provoca este inferno.
Hoje gostaria de não poder ver aquilo para que olho.
Gostaria de não poder escutar aquilo que ouço.
Gostaria de não poder sentir aquilo que se me cola à pele e à alma.
Queria estar indiferente às tonalidades que a vida vai tomando.
Hoje queria apenas ser e estar...
Guardar algumas memórias. Apesar de já ter tentado tantas vezes deixá-las esquecidas num canto qualquer, não consigo livrar-me delas.
Há quem diga que vivo por lá, entre a depressão e a impressão, mas penso que não.
E lanço sementes, esperando colher do que semeei, numa colheita que ainda me faça sorrir.
És a outra metade da minha alma.
A outra metade da minha asa, que esvoaça por torrentes de azul.
Sonho-te.
Sonho-te muito ingenuamente o mais das vezes.
Sonho-me um cavaleiro da Távola Redonda ou um Peter Pan, sempre na rota de Neverland.
A tua imagem, ilumina os olhos de uma forma que nem mil sóis conseguiriam iluminar.
Por vezes sinto que o tempo, escapa pelos dedos como areia fina, e que não chego a ver-te voar na minha direcção.
Das tuas asas farei as minhas,
das tuas penas, meu vestir,
do teu cantar, remédios de coração.
Eis chegado o ponto em que o cérebro decide em memórias estaladas de gestos irreflectidos.
Onde estou?
Na terra do nunca, ou nunca estou?
E fujo sem saber a direcção que tomou o pássaro frenético em dia de calor, com patinhas de molas afinadas, olhando o sol, em doce solfejo num dó menor.

26 agosto, 2006

Um dia abandonei a infância, a adolescência ficou amarrada a projectos desportivos.
De repente, vejo-me longe das conversas dos amigos, das brincadeiras vividas, dos risos e choros, das desordens ordenadas, de partilhas, de namoros, de jogos, de festas, dos bailaricos com Pink Floyd e o “Dark Side of the Moon” que abrasava o gira discos do Barbosa.
O Veloso e o “Chico Fininho” saíam à rua com a “Rapariguinha do Shopping” e o Augusto aparecia de MGB, descapotável, lançando inveja nas garotas da avenida.
E éramos nós, a malta, da “Ribeira até à Foz”, com os "Já fumega" e os "Minipop"...
E durante anos, fui desatando os nós.
Pensava ser amanhã o reencontro, ser outro dia o abraço, ser novamente ontem, para nos rirmos e brincarmos como sempre.
Mas, o destino trocou-nos os caminhos da vida.

O telefone já não toca como tocava. Os reencontros vão-se tornando mais raros.
O Figui advoga, com o tempo contado. O Rick, anda a saltar do Porto para Esmoriz , o João controla as corridas dos seus atletas e os cabelos brancos surgem em catadupa.
O Amado desapareceu, dele nem rasto.
O Pedro, Paulo, Costa, Leonor, Paula, Fátima, Laura, Beta, Sérgio, Zé, Carlos, Nanda, tantos, tantos que eramos. Um grupo excelente.

Enchiamos o comboio para Esmoriz de alegria vivida. Cerveja com groselha em pequenos almoços mirabolantes com rabanadas de molho divinal.
Francesinhas da Tí Alice, regadas com o verde do Monteiro, que dizia sempre: - “este é dos bons, já cá canta...”.

A Tia do Amado, suspirava pelas noticias que lhe levávamos, com ele a conta gotas espreitando da esquina em frente.
O S. João com filas de 60, numerados em saltos de fogueira, as corridas pela Boavista e o dormir na praia da Foz.
Dizíamos: - “Três dias e três noites sem ir à cama, seus morcões”.
O jogo do "pilha" e a “sameirinha”, a “patela” e os jogos de bola no Velasquez.
Chumbadas nas calças de ganga, de “assaltos” à fruta na Quinta do Monte Aventino,...

Quando nos encontramos, tudo parece ontem.
Saltamos e brincamos e falamos tanto e tanto em tão pouco tempo, que sofregamente, enchemos Santa Catarina.
No retorno a casa, fazemos promessas de encontros frequentes... e o telefone.. e o e.mail...

... e a vida volta, e o tempo alonga a distância, e o Inverno passa, o Verão volta, e amanhece de novo.
E mais cabelos brancos e rugas espantadas em espelhos de jovem.
E contamos aos filhos como era bom, como nos divertíamos, o que era a “verdadeira amizade”, as partilhas, o jogo da “casquinha”, o “porta a porta”, a “esmolinha p´ro St. António e "P´ro S. João”, e a sopa de couve na casa da avó.
E virámos o 25 de 74, de mochila às costas na Praça D. João I, a ver chaimites e “magalas” de sorriso largo olhando as moças que passam.
E como hoje é diferente.
Como a “Playstation” e a “Net” e o “Pokemon” e a TV Fox, subtrai a amizade a potências de solidão.

Vá lá pessoal, só mais um copo.
Não, o último não.
Haveremos de passar pelo Oliveira Martins ou o Alexandre Herculano e esperar as miúdas às cinco da tarde no Rainha Santa.
Depois embarcamos na paz do tempo e algum tempo depois nos encontraremos a caminho...
de novo... até um dia, quem sabe ... ?

24 agosto, 2006





Todos sem excepção procuramos o Paraíso, ou algo que se assemelhe a tal.
E quando se fala nisso, fala-se numa Eva, resguardada por uma parra (o fio dental da época), um rio de águas transparentes e frondosas árvores por onde passam raios de sol e aves que enchem o céu.
Evidentemente que este encher de alma, tem alimentado a nossa imaginação ao longo dos tempos, tentando ver o Paraíso na terra olhando o céu.
Mas o Paraíso transforma-se consoante os tempos.
Passa dos mapas para o céu e do céu para o local que cada um de nós mais considera, transformando esse espaço no "Verdadeiro Éden".
Espaço esse, que pode ser físico, temporal ou imaginativo, desde que nos faça sentir bem e nos focalize num bem-estar saudável.
Os textos bíblicos ou sagrados, referem pouco sobre estas descrições, mas elas estão bem presentes na memória de cada um de nós.
Cada imagem, cada momento, cada associação, cada sentimento, cada encontro com o maravilhoso, com a paixão, com o amor, transporta-nos física e espiritualmente para o Jardim do Éden.
Por outro lado e tendencialmente quanto mais desesperados andamos com a vida na terra, mais procuramos o caminho para o Paraíso.
Se tem riachos, cascatas, árvores, jardins, flores, aves, jovens e belas mulheres com muita ou pouca parra; "Eva´s" melhor ou pior vestidas (despidas talvez), cada um fará interiormente o seu local de perfeição... se é que esse lugar alguma vez existiu.

Uma pequena fábula:

"Havia numa floresta um alegre Pirilampo que vivia feliz da vida iluminando a noite dos outros insectos com a sua linda luzinha. Até que uma Serpente passou a perseguir o pequeno insecto dia e noite acabando assim com a sua paz e segurança. O pobre bicho gastava as suas energias todas para escapar à boca da Serpente que não desistia nunca de persegui-lo.

Um dia no limite das suas forças o Pirilampo voltou-se para a cobra e disse.

- Pronto, desisto. Podes devorar-me, mas responde-me só a algumas perguntas:
- Está bem - Disse o odioso réptil.
- Eu fiz-te algum mal?
- Não. - Disse a Serpente

- Eu pertenço à tua cadeia alimentar?
- Também não.
- Então porque insistes em perseguir-me?
- Porque não suporto ver-te brilhar..."

Amigos, não desistam nunca de brilhar.

Os outros insectos precisam do vosso brilho. E quanto mais alto voarem mais longe ficam dos animais que rastejam.




O sol entra-nos pela vida dentro, sem que o convidemos, mas ele amigo como é, nem precisa de convite, chega, coloca os óculos escuros (para evitar queimaduras) abre uma revista, senta-se à mesa connosco.
Nada modesto, pois todo ele brilha.
Sorri quando sorrimos e concorda ao de leve com o que dizemos, respeitosamente.
Se tiramos um retrato ele aparece connosco, faz parte da família. Se vamos à praia ele acompanha-nos, se entendemos "sestar" ele fica de mansinho, presente.
Até por vezes, quando nos deitamos, fica ali aconchegadinho, caladinho, mirando e remirando, por vezes destapando-nos para deixar entrar leve brisa.
Se temos males de boca, colesterol, a alma amolgada (sabe-se lá porquê...), lá anda ele a rondar-nos, preocupado.
Por vezes desaparece...
Não o vejo na casa com as roseiras brilhando, nem no alto da colina, nem repousando no mar...
Desaparece, pura e simplesmente.
Estará doente? Sofrerá? Mal de amores?
Como um amigo, gostaria de o ouvir, de me lamentar também.
Ou será que anda tão carregado de sofrimento que nem pelo sofrimento dá?
Pensará o quê? Desejará o quê?
Olho para o recanto da mesa, e nem sombras...