29 abril, 2006

BELEZA



"Tu és o sítio onde o céu e a terra tocam os lábios da vida...onde as mãos se dão para fazer um sorriso... onde a erva cresce...e se transforma num tapete por onde irão os caminhantes em direcção às entranhas da terra.. és o mar onde os navios tropeçam nas ondas para rasgar alvoradas.. és o sítio para onde os meus braços olham..e para onde os meus olhos estendem os braços..de mãos abertas à vida..para que a vida não fuja..."

ABRIL


A libertação de um povo
numa canção do "Adeus"
num cravo vermelho
em amor pelos seus.

A força de um povo
massacrado no seu viver
é um fruto muito rijo
que nasce no ventre da mulher.

Abril dia longo
em que capitães não dormiram
foi idealizado um sonho
que outros antes não viram.



Sem um tiro disparado
na revolução a preceito
sem sangue derramado
CRAVOS VERMELHOS AO PEITO!

28 abril, 2006

RAIO DE VIDA

Mas que raio de vida a nossa. trabalhamos e trabalhamos e trabalhamos, e saltamos do emprego para o Hobby (que muitas vezes também é trabalho), do Hobby para o Part-time, deste para o entretém, e é trabalho e só trabalho.
Raros são os momentos em que quebramos esta hibernação cíclica. Todos temos consciência disso, e, não raro, falamos sobre isso. Não conseguimos saltar fora desta barreira, deste círculo instalado nas nossa vidas.
Respiramos pouco e mal, não abrandamos o passo, desatinadamente perdemos o sentido das coisas, não gozamos o pôr do sol ou o raiar do mesmo. Os filhos usam fralda, crescem, brincam, estão na escola, acabaram a faculdade, casaram, arrumaram e olhamos para o espelho numa manhã enevoada como a vida e reparamos nos cabelos brancos, olheiras fundas e um tempo passado e repassado - nada.
Protestamos com tudo e todos, zangamo-nos irreflectidamente e não nos damos conta do nome do vizinho. Tomamos Ben-u-ron para panaceias e consumimos revistas, jornais, noticias, tempo.
Sentimos ansiedade, remorso, fervilhão interior, tonturas e vermelhão, salta-nos a tampa, e o tempo lá passa, já lá vai.
O mundo cai-nos em cima, inflamamos palavras, entramos em depressão, um Lorenin p´ra boca, Xanax na mão, isto agora está um caos, salta-nos o coração.
Todos sabemos o que isto é, mas não sabemos como acabar, viciados que estamos a correr, mas vale a pena pensar que o tempo nos está a levar e enquanto vamos a tempo e o tempo nos quer ajudar, temos de aprender tanto a viver como a saber parar.
Vem logo a seguir a competição e a competitividade. No emprego, na rua, na estrada, na politica, no desporto, com este e aquele, por isto ou aquilo. No fim de semana é que vai ser, dormir bem e descansar. Qual quê, já se faz tarde, toca a levantar. E lá vamos nós com as têmporas a latejar, o peito a arder, os músculos a rebentar.
Meus senhores, está na hora, toca a parar.
Acariciemos a vida, sapateando a tristeza, criando espaços vazios para o pensamento, batendo palmas ao trabalho, mas também a uma boa ideia, a procurar o silêncio no interior que pode ser de ouro, apreciando a leitura, o desporto.
Façamos a vida com paixão e fervor mas sem nos vincularmos a um destino de superação e transcendência.
Façamos da vida um desafio permanente e empolgante que se alimenta não de visões doentias, negativas e pessimistas, mas sim de irradiantes optimismos humanistas.

... para um amigo, (muitos de nós) para quem o tempo nunca tem tempo !
"Numa rua que eu cá sei há quase sempre duas ou três flores de buganvília caídas no chão, às voltas dentro do vento, mas nos muros, varandas, janelas,por toda a parte, não se vê a planta-mãe donde elas se possam ter soltado.Por esta espécie de milagre, e por serem bonitas, assim livres e muito únicas, gosto de apanhar uma de vez em quando e levá-la para casa: ficam bem no parapeito nos dias claros de sol, a luz atravessa as pétalas e acende o desenho das nervuras (uma árvore mínima delicadíssima), e a flor violeta na beira da janela é de repente uma coisa muito frágil e muito forte.

"Tem algo de borboleta a flor na minha mão - uma borboleta com três asas e três cabeças escondidas -, e lembro-me de um verso do último livro do Tolentino que me ficou na cabeça, "Havia uma buganvília por um instante/quase alusiva à força dos desvios".

"Com o pretexto dos últimos recados, ando por Lisboa ao acaso, despedindo-me de ruas e pequenezas (as mãos dadas pintadas naquela parede, com a palavra"tudo", ou "muito"?, em baixo; aquele lugar onde havia uma árvore e agora o céu parece de outro azul, como se o víssemos através de um tronco e ramos transparentes; o prédio cortado ao meio, com as divisões interiores à mostra, a sala cor de laranja, o quarto azul, a casa de banho aos quadrados igual a um jogo de xadrez) - quando partimos, há algo que se quebra em nós, e tudo parece mais próximo, mais urgente.
Quando partimos, a cidade passa a ser a cidade-que-eu-cá-sei, uma cidade que só cada um de nós é que sabe, uma cidade só nossa, e os meros mortais, como eu, "por um instante" vêem como os poetas".

"(De noite os candeeiros são balões de luz com uma luz mais intensa no centro, e no silêncio apenas ouvimos os nossos passos na calçada, e na manhã seguinte há um sol duro e o calor é o ar brilhante nos telhados e o rumor dos automóveis é um som longínquo porque não sopra uma brisa de vento e as sombras não são sombras, são vazios escavados no alcatrão e nas fachadas, e entrando na auto-estrada uma pessoa lembra-se de um verso e diz alto, só para si:)"

"Havia uma buganvília por um instante
quase alusiva à força dos desvios.
Havia um barco pelo canal vagaroso.

A vida afastava-se de qualquer destino".

Jacinto Lucas Pires

27 abril, 2006

HISTÓRIAS DE ENCANTAR

Reza a história que há muito, muito tempo, um Arauto do Bem pronunciou um juramento.
Afirmou, para quem o quis ouvir e também para os outros, que queria mais espaços verdes, parques infantis e temáticos (o que demonstra já nesse tempo a preocupação com a Ecologia), e que seria contra, mas totalmente contra, castelos de torres com 11 andares.
Abrenúncio, saramago, pé de cabra.
Excomungo os maus e enlevo os bons - afirmou.
Este Cavaleiro Andante, sempre pronto a recolher benções à esquerda e à direita, sobretudo a esta, teve notórios e auspiciosos resultados na promoção e cultivo dos valores do altruísmo e solidariedade, na defesa e protecção dos fracos, necessitados e injustiçados, assim como na desmotivação, perseguição e irradicação do compadrio e das injustiças do mau olhado.
Nunca Deus, nestas Cruzadas pelo Império. deixou de inspirar tamanho Cavaleiro, de decisões tão certeiras e atinadas. A consciência e espirito de missão levaram-no a matricular-se em cursos intensivos de construção, desporto, pdm, urbanismo, estacionamento, etc, que o iriam ajudar na sua Cruzada contra os arrasadores do obscurantismo e a má-fé dos espiritos das trevas que se colocam no seu caminho.
Qual conquistador, ele lutou pelo Concelho, Distrito e pela Assembleia dos Nobres, que se situava na Capital, mas no Concelho não, isso não, nesse ninguém mexe, pois armado de tridente, mais parecia São Miguel Arcanjo na luta contra os opositores.
O seu discurso de Missionário leva-o a calcorrear caminhos para pregar sermões em todas as localidades, a Norte e a Sul, mas não tem muito impacto na base Distrital.
Sentindo-se ameaçados e acossados, os ardilosos, recalcitrantes e manhosos adversários, propalam calúnias e atoardas contra o Oráculo. Acusam-no de não pertencer a estes domínios, mas sim a uma entidade estrangeira empenhada na reconquista do reino pelos Mouros. O seu despudor vai ao ponto de espalharem, que as verdadeiras intenções do paladino do bem, não são as que afirma nas suas intervenções, atirando-lhe à cara a aleivosia de que, por debaixo do verniz das palavras, se esconde uma figura semelhante à dos vendedores ambulantes de remédios miraculosos para os calos e outras dores.
A isto reage o Cavaleiro Andante com afinco, brandindo a espada e o tridente na defesa do seu reino, da justiça e honra ofendidas. E invoca que nada mais o deixaria satisfeito, do que elevar o seu reino a Capital, não procurando vantagens pessoais ou de grupo, sendo que o imperativo da verdade obriga-o a ir até ao fim, nunca abandonando o seu lugar, a não ser por periodos minimos de 45 dias.
Os seus inimigos não se comovem, nem esmorecem. Antes respondem que o Missionário quer é destruir os seus opositores, para ditar regras e leis a seu bel-prazer.
Fazem-se alianças de modo a enfraquecê-lo e desestabilizá-lo, para gáudio do mal e inquietação do bem.
De parte, outros, confortados pelas investidas de ambos os lados, não escondem o riso, pois sabem que, se de um lado, a espada e o tridente são de plástico e fruto da imaginação, do outro a verborreia esbarra sempre na indiferença e ausência do Cavaleiro Andante.
O que não agrada a ninguém, são alguns apartes gagos, que em nada beneficiam uns e outros, normalmente utilizados por acólitos do Cavaleiro Andante e por outros Bobos da Corte, que com as suas piruetas, lá vão brincando neste reino do faz de conta.
E pronto chegamos ao fim, já não me deixam continuar, agora que a imaginação me abençoava. Mas também pouco mais haveria a dizer, pois nesse reino, nada mais existe e poucas noticias se conseguem obter.
Mas não julguem que este conto é para ser desacreditado desta maneira, alto lá.
Então, nesse reinado cinzento e triste, mergulhado em mil tristezas, tão necessitado de heróis e santos, não interessa um Missionário, Cavaleiro, Profeta, um Arquétipo de tamanha envergadura ?
Só para terminar.
Consta que vontade não faltava ao Cavaleiro Andante, sobrando-lhe crença e convicção. Impôs a si mesmo esta cruzada pelo bem e pela verdade, e a todos disse não.
- Deste reino não saio, aqui mando eu!
Venham Ministros e Governantes doutros reinos, que neste, nem portagens pagam.
Perante tal, a humildade tornou-o grande e fez dele Santo.
(Qualquer semelhança com episódios conhecidos, é apenas coincidência).

26 abril, 2006


"Acredito que a imaginação pode mais que o conhecimento.
Que o mito pode mais que a história.
Que os sonhos podem mais que a realidade.
Que a esperança vence sempre a experiência.
Que só o riso cura a tristeza.
E acredito que o Amor pode mais que a Morte"

Robert Fulghum

Luto algumas vezes contra a falta de assunto para escrever. Escritos regulares, não são tarefa fácil, sobretudo para quem não é do "metier". Aquilo de que mais precisamos é de ideias. Até para poder tirar partido das poucas ideias que temos.

As ideias e conhecimentos são instrumentos que nos acompanham pela vida,e nos permitem ver pouco, muito ou nada do Mundo. A pobreza ou a riqueza das nossas ideias mostra o grau de relacionamento que temos com o Mundo, com a vida, o entendimento e compreensão com nós próprios.

Quando me sento a escrever, por vezes tardiamente, saem escritos azedos e violentos, de revolta contra a fome, a pobreza, a guerra, a mentira, a calúnia, falsidades e mentiras, indignidades, insensatez e burrice. Então, nessa altura, mastigo mais um pouco do meu amigo chocolate (que me acompanha sempre nestas horas, daí as adiposidades resistentes) e enveredo pelas tonalidades mais doces, de tinta fresca e colorida.

Sei que é importante vir a terreiro dar caneladas contra o marasmo e a coisificação, e que não devemos abalar a determinação de denunciar o ridiculo e a mediocridade, mas pronto, lá vem outro dia, e o arco-íris e a tal tinta fresca e colorida...

Procuro por vezes nos meus "canhenhos", temas a aflorar, ideias a reinventar. Procuro temperar os artigos com pimenta, coentros, ou outros temperos, mas interrogo-me sobre o resultado final. Sairá bem ? Sairá mal ? É que nem assim, consigo disfarçar a minha inépcia culinária.

Tenho-me sentido na escrita, como numa peladinha de futebol. Fingindo que sei jogar, mas raramente toco na bola, mesmo quando passa a um palmo de distãncia. Gasto o tempo á procura do esférico, sem lhe acertar em cheio. Não vou além de uns pontapés em bico, e de ressaltos nas canelas e joelhos. Bem tento por vezes, adornar a linguagem, vindo buscar ideias á linha lateral, mas dá-me mais vontade de pedir água, ou uma substituição, ao fim de poucos minutos.

F C PORTO - Campeão


Que me desculpem, alguns amigos, mas não poderia deixar de partilhar este sentimento. O meu FC Porto, foi mais uma vez Campeão. E foi, este ano com inteira justiça. Dando o beneficio da dúvida a Mr. Co Adriansse, espero que na próxima época nos possam brindar com mais algumas alegrias.
Sei por experiência própria que ser do Porto no Sul, não é fácil, mas se fosse perderia toda a piada. Sei também que o Dragão, desperta alguns ódios, mas isso nem irracionalmente se pode admitir. A liberdade de escolha e o respeito que todos os clubes e pessoas merecem, inviabiliza toda e qualquer argumentação contra ou a favor. Torçam pelas vossas equipas, vibrem com elas como eu vibro com a minha, sempre com o respeito e elevação devidos e metade dos problemas resolvem-se por si.

1000CONVERSAS

1000CONVERSAS

25 abril, 2006

Os anos passarão. Os canteiros hão-de gerar um outro buxo. Outros pássaros virão cantar nos ramos altos do pinheiro manso e dos plátanos. A tia morrerá. E a casa, o jardim, a própria vila, suas rotinas, seus ritmos e seus ecos. Não ficará senão a tua voz na tarde calma. Olá, disseste. E a terra começou a tremer.) ......
............
..... (Que nome te dar? Tu és única. Tu és todas. Ou talvez nenhuma. Eu sou tu. Tu és eu. A outra metade de mim. A parte de ti que em mim ficou. A parte de mim que foi contigo. Ninguém me foi tão próximo. Ninguém me escapou tanto....
.............
Como foi que constantemente nos encontrámos e nos perdemos?....
..............
Esta é a história. Uma história sem história. Uma história só isto.) ....
...............
Amarei outras mulheres. Amar-te-ei em outras. Tu, todas. E todas, tu. Mas não voltarei a dar à paixão palavras excessivas e perigosas....
............
A não ser agora,"sem detalhes", como recomenda Gérard de Nerval.)....
...........
Andarei pelo mundo, dar-te-ei outros nomes. Passará muito tempo, continuo à tua espera, inventando o teu corpo noutros corpos, reinventando o teu rosto noutros rostos. Tu és todas, tu és nenhuma, tu és só uma. O teu nome é Pandora e eu sou aquele que te procura.)

Manuel Alegre, A Terceira Rosa, 1998

VALERÁ A PENA ?

Quando
a noite é noite
e o dia é dia,

Quando
a tristeza é um açoite
da vida vazia,

Quando
o Sol é Sol
e a vela alumia,

Quando
se enfrasca um gole
e se sente azia,

Quando
muito se ama
e de nada vale,

Quando
se escreve uma carta
sem código postal,

Quando
se olha a vida
com olhos de ver,

Quando
muito se dá
sem nunca receber,

Pode-se dizer...
é isto viver ?

JPV

24 abril, 2006

DE QUANDO EM VEZ

De quando em vez
olho para trás
e revejo,
colecções de momentos
que tenho guardados.

De quando em vez,
documento cerebralmente
todos esses momentos
como folhas soltas
ou encadernadas,
arrumando um pouco
dentro de mim.

De quando em vez
olho para trás,
misturo sonhos de côr,
sol, chuva, alegrias e desventuras,
louvores, ternuras.

De quando em vez,
olho,
revejo,
colecções de momentos
que tenho guardados.

JPV




Andorra

Caldea

PABLO NERUDA

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
"Pablo Neruda"

ALMA

«A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova. Baldado esforço o teu de queres sentir outras coisas sem sentires de outra maneira, e sentires de outra maneira sem mudares de alma. Porque as coisas são como nós as sentimos - há quanto tempo sabes tu isto sem o saberes? - e o único modo de haver coisas novas, de sentir coisas novas é haver novidade no senti-las. Muda de alma. Como? Descobre-o tu.»

Fernando Pessoa

Quase tudo ou quase nada

A definição exacta do que se pretende.
Escrever sobre tudo ou mesmo sobre nada.
O que nos vai na alma,
o que povoa o pensamento,
o que nos atiça o coração.