28 abril, 2006

"Numa rua que eu cá sei há quase sempre duas ou três flores de buganvília caídas no chão, às voltas dentro do vento, mas nos muros, varandas, janelas,por toda a parte, não se vê a planta-mãe donde elas se possam ter soltado.Por esta espécie de milagre, e por serem bonitas, assim livres e muito únicas, gosto de apanhar uma de vez em quando e levá-la para casa: ficam bem no parapeito nos dias claros de sol, a luz atravessa as pétalas e acende o desenho das nervuras (uma árvore mínima delicadíssima), e a flor violeta na beira da janela é de repente uma coisa muito frágil e muito forte.

"Tem algo de borboleta a flor na minha mão - uma borboleta com três asas e três cabeças escondidas -, e lembro-me de um verso do último livro do Tolentino que me ficou na cabeça, "Havia uma buganvília por um instante/quase alusiva à força dos desvios".

"Com o pretexto dos últimos recados, ando por Lisboa ao acaso, despedindo-me de ruas e pequenezas (as mãos dadas pintadas naquela parede, com a palavra"tudo", ou "muito"?, em baixo; aquele lugar onde havia uma árvore e agora o céu parece de outro azul, como se o víssemos através de um tronco e ramos transparentes; o prédio cortado ao meio, com as divisões interiores à mostra, a sala cor de laranja, o quarto azul, a casa de banho aos quadrados igual a um jogo de xadrez) - quando partimos, há algo que se quebra em nós, e tudo parece mais próximo, mais urgente.
Quando partimos, a cidade passa a ser a cidade-que-eu-cá-sei, uma cidade que só cada um de nós é que sabe, uma cidade só nossa, e os meros mortais, como eu, "por um instante" vêem como os poetas".

"(De noite os candeeiros são balões de luz com uma luz mais intensa no centro, e no silêncio apenas ouvimos os nossos passos na calçada, e na manhã seguinte há um sol duro e o calor é o ar brilhante nos telhados e o rumor dos automóveis é um som longínquo porque não sopra uma brisa de vento e as sombras não são sombras, são vazios escavados no alcatrão e nas fachadas, e entrando na auto-estrada uma pessoa lembra-se de um verso e diz alto, só para si:)"

"Havia uma buganvília por um instante
quase alusiva à força dos desvios.
Havia um barco pelo canal vagaroso.

A vida afastava-se de qualquer destino".

Jacinto Lucas Pires

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