20 maio, 2006

CRIANÇAS


Crianças
de olhos rasgados,
de olhos bonitos,
de côr.
Crianças,
branças ou pretas,
amarelas ou vermelhas,
são crianças.
Crianças,
ternura na mão,
brinquedo no chão,
ansiedade no olhar.
Crianças,
de faces rubras,
de constituição peituda
com mãos estragadas.
Crianças,
com destino traçado
a guardar animais,
mal alimentadas,
pensamentos reais.
Criança,
amor,
flor,
mar,
alegria,
riqueza,
beleza.
Criança,
temos esperança
que a tua existência
seja a mudança.
Criança,
em ti confio,
é em ti que se deposita a herança.
Criança,
tú que num gesto mudo,
desconcertas tudo,
dá um novo rumo,
ao mundo.

OS LAMACEIROS


Em tempos idos, numa pequena cidade de um pequeno País, havia um grupo chamado de "Os Lamaceiros".
Os lamaceiros, indivíduos, feios, porcos e maus, chafurdavam na lama, no lamaçal, dos quintais vizinhos.
Os seus, esses eram intocáveis. Os dos vizinhos, bom, eram vasculhados incessantemente.
A vida dos lamaceiros eram feitas de pequenos nadas.
Ora espreitavam as vidas alheias, ora coscuvilhavam notícias, ora alimentavam o "diz que diz" lá da terra.
As suas vidas, nem saber. As dos outros, essas sim, tinham muito mais piada...
Normalmente, a vida familiar dos lamaceiros era um tudo que é nada, pouco interessante.
Havia contudo lamaceiros por todo o rectângulo desse País. Então na politica... ele era os lamaceiros viajantes, os chorões, os encostas, os dorminhocos, os atrevidos, os chico-espertos, os poetas, os aprendizes, os titubeantes, os mafarricos, os trauliteiros, os couve-lombarda e os rapatachos. Ele havia de tudo.
Claro que onde havia lamaceiros, havia borrasca.
Ele era lugar para mim, lugar para ti, quotas para ali, quotas para acolá. Seriam quase necessários dois Países, para caberem todos os lamaceiros em cargos públicos.
Um bom lamaceiro aguarda uma chamadinha de uma qualquer sumidade nacional para um qualquer cargo politico.
Os lamaceiros tinham também como característica manobrar a politica dos articulados.
Ora pendiam para a esquerda, ora tombavam para a direita, ora planavam entre ventos e marés.
Agitavam bandeiras, mas causas não, isso não. Demorava muito tempo e o trabalho era desgastante. Um bom lamaceiro não se deve cansar.
Um lamaceiro é inquieto e nervoso, fruto da sua pouca experiência e do seu pouco à vontade em qualquer situação.
Os lamaceiros na sua infinita ignorãncia, vivem na penumbra e na ideia de que são mais espertos do que os outros, mas só conseguem enganar os da sua igualha.
Um lamaceiro cínico diz ao amigo que lhe oferece determinado bocado, mas no fim, fica com tudo. Os lamaceiros, de bocado em bocado, tornam-se possuídores de pocilgas completas.
Um facto inebriante é a nova qualidade de lamaceiros novos, que, discretos, em casa ou socialmente, arranjam forma de aparecer, para comer em qualquer gamela.


P.s. - Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência...

14 maio, 2006

UMA BOLA DE BERLIM...

Sei de Fantasmas adormecidos que acordam para nos atormentar.
Faço para que não incomodem, mas inundam-me a memória e tenho de os resolver.

ZéQui, estava longe, absorto, perplexo.
Olhava aqueles alinhadinhos na espera da consulta e imaginava a fila dos animais no matadouro. Mais uma Químio, bombas revestidas de comprimido, provavelmente mais um corte... mais do mesmo.
E a sensação que tenho é que me olhavam para expiar as suas maleitas... do género, – "coitado, este está mal”.

Abutres pendurados no meu pescoço...
-“Olha para ele que nem se tem...”

Pouco importa. O que me incomoda, é um cheiro interminável a éter, que me queima o nariz e tomba a cabeça, -Dizia-me.
Sei como ele passou pelas roupas negras da depressão. Sei da sua angústia, de quanto escondia fundo, tristeza solitária. Por ele, sei, estava rebeldemente resignado.

Falava-me tantas vezes da tortura inquisítorial nos hospitais, das clínicas que percorreu, médicos no país e no estrangeiro, a luta, uma luta e uma dor imensa, senão física, quantas vezes psicológica.

De quando nesses corredores olhava atónito o lixo que passava nas Tv´s e nada via, e olhava para quem olhava e nada via também.
Sentia o corpo, que não a alma a ser resgatado, como um pavio curto, lentamente, a apagar.

Dizia-me a principio, que no seu corpo alguma coisa desafinava, mas tão novo, e tinha esgotado o prazo de validade? Que mal pode ser?

Interrogava-me sobre o que haveria de fazer com os seus filhos, um casal lindíssimo (ou não fossem os nossos filhos, todos eles, lindíssimos…). Excesso de zelo? Liberdade absoluta?
- “Sei que nada de bom aí virá”, - repetia-me com frequência..
Porventura, revoltam-se, mas ainda são novos, dão a volta por cima, pensava ele.

-“Viegas, vai uma bola de berlim a meias?”
-“Porque não ZéQui ? Vamos nisso…”
Eu estava que nem podia. Nem vontade, nem prazer. Mas o ZéQui, merecia tudo isso e muito mais.

Que poderia fazer? Acompanhá-lo nesses momentos e dar-lhe apoio, o ombro amigo, ouvi-lo atentamente, e afastar as mágoas, o mais possível…
O que é uma bola de Berlim recheada com creme de pasteleiro, no meio de tudo isto?
- Nada.
E lá íamos nós, deitar diabinhos fora do corpo.

Falar do ZéQui, é expiar a alma de demónios tenebrosos que teimam em não largar.
Falar de alguém que se conheceu numa fase transitória de doença, na sua viagem entre o céu e a terra, em momentos curtos de partilha, de desabafo, recolha de mágoas, anseios e dores, alicerçando admiração e respeito mútuo.

Foi nesta fase terminal, numa altura em que as defesas físicas e psicológicas tinham sido derrubadas, que me deu grandes lições de vida.

O ZéQui, adorava visitar os colegas a meio da tarde depois dos tratamentos que cada vez mais o debilitavam. Adorava falar da vida, do desporto, dos negócios, sempre com o "DN", debaixo do braço.

-“Então Viegas, ganharam? - “Olha que estás a ficar velho...”
E lá começava a nossa cavaqueira, onde sempre apareciam os filhos, a vida, o futuro, o desporto, os meus resultados.
-"Vai uma bola de berlim a meias?
(nunca mais vou comer bolas de berlim tão boas, como nesse tempo).
- "Claro que sim".

Nos dias de mudança de ciclo ou tratamento, arrastava a voz de cansaço. A respiração assustava, pieiras sobressaltadas em tom vagaroso.
As lágrimas pendiam. Querer e não poder, num “tem-te não caias constante”.

-“ E os miúdos Viegas? O que mais me preocupa é que eles não aceitem sem revolta este desígnio…
-“ Nada disso… não podes entregar assim o jogo da vida… tens de vencer… ser forte…
O que se pode dizer nestas alturas? Nunca saberemos certamente, mas compaixão, não, isso nunca mostrei.
Coragem, sinais de luta, de vitória e pensamentos positivos, era o meu dever.~

- “ Então e a nossa bola de Berlim? Queres uma ? ou meia?”
-“ Dividimos a meio… Já me custa, pá… Qualquer dia, nem isso. E vou ter saudades…”
-“Nem penses. Vamos dizer ao Sr. Mário, para aumentar a produção, pois este vicio não acaba assim…”

E o ZéQui, já mal conseguia. Andar cem metros pareciam dez quilómetros.
Aos poucos, fui sendo invadido por sentimentos de impotência, angústias permanentes e um vómito de revolta constante.
Sentir que tudo o que pensamos, conjecturamos, estruturamos, lutamos, e vivemos, é fugaz.

Este amigo, Homem novo, debilitado, de um branco quase transparente, vai partir, e por mais que me convença, não posso aceitar como desígnio de Deus, a partida antes de tempo. Porque nunca é tempo, eu sei, mas antes do tempo, que o cruel destino marcou.

Já lã vão uns anos, caro amigo, o que me faz recordar com um misto de nostalgia, afectividade e orgulho, o tempo de convívio.

Novas flores brotarão no jardim fronteiriço, velhas doenças e novas curas descobrirão, e o tempo quase voará.
E a verdade, como diria o mendigo, toldado de copos de tinto, verdade, é o que fica na nossa memória.
Essa é que é a razão, a memória.

-“Vai uma bola de Berlim a meias?”
-“Fica bem amigo, onde quer que estejas…”

(Em homenagem a um colega e Amigo, e como pequenos nadas nos podem dizer tanto...)

10 maio, 2006

PAPAGAIOS DE POLEIRO


Em todo o tempo, em cada época, existe um modo de entender, de explicar.
Não porque se altera o tempo, mas porque com ele se altera a nossa condição. Existem muitas perguntas sem resposta, problemas que se gastaram, questões que deixaram de o ser, e muita, muita coisa que deixou de servir.
Não há racionalidade científica, que defina de modo cabal e explicito, o porquê de certos comportamentos, certas atoardas ou "golpes de rins".
A natureza humana, com todos os seus defeitos, dá-nos mostras dessas vertentes, relegando para plano secundário os sentimentos, os sentidos, e a moral, chamando a primeiro plano o que deveria ser secundarizado.
Converte-se a vida em bolsa de investimentos de todos os valores, sendo que os "doutos pedagogos" que tudo sabem e de tudo falam, são religião de todos os milagres e cura de todos os males.
Temos por vezes dificuldade em submeter o animal da nossa condição ao primado da cultura, tornando-nos humanos.
Quando escutamos e assistimos a aberturas de telejornal com o "peeling" da Lili Caneças, dando valor a figuras virtuais da nossa realidade quotidiana, então estamos com o nosso conceito em baixo e a necessitar de rápidas melhoras.
Urgentemente necessitamos configurar culturalmente a condição humana, com actos de civismo, educação, urbanidade, em vez do animal rude e bravio que nos rodeia.
E esquecemos a miséria que se vê.
Crianças que maltratam crianças, polícias a serem agredidos, pedófilos a serem entrevistados, potenciais assassinos contratados com directos na TV, um Zé qualquer coisa Branco, armado em qualquer coisa, decisões em tribunal com esperas de 20 anos, criminosos libertados penalizando-se inocentes, corrupção em toda e qualquer parte dos nossos organismos, broncos de linguagem e atitude, cuspidelas para o chão, estacionamentos em 2ºs, 3ºs e 4ªs filas, desumanização, iliteracia, directos de 3 dias dissecando um jovem falecido em acidente, massacrando brutalmente a familia com imagens, não respeitando a intimidade e a dor, e um povo, que diz presente, sem saber para quê.
O mau, o nojento e repelente aplaudido e o bom ou razoável, perfeitamente ignorado.
Um imenso património de valores que se vão perdendo, fazem com que o povo aguarde por heróis descartáveis e multinacionais de preservativos a patrocinar casamentos com direito a Tv em directo, num verdadeiro "Reality Show".
Numa sociedade cada vez mais egoísta, egocêntrica e materialista, tenta-se ultrapassar em duplo traço contínuo, apenas para passar á frente.
É da condição humana, o pouco esforço e qualidade do que fazemos, daí os papagaios de poleiro, muito em moda, que ao abrigo de qualquer coisa, não interessa o quê, dão-se a autênticos recitais de palermice, onde a humildade não é condição.
Não há pachorra!

04 maio, 2006

TEMPO DO "NICO"



Andamos perdidos no balanço doce de problemas, lembranças e ilusões, próximas e distantes, mas sentimos pulso e respiração. Gravitam à nossa volta, novos e velhos, pessoas com glórias e memórias, sonhos, alegrias, desenganos, projectos e vontades, anseios, melancolias, dramas e mistérios, uns com muito outros sem nada. Não se sabe neste momento, onde começa cada um de nós e acaba cada um dos outros, dos que passam, indiferentes a tudo, sem vida, sem razões, onde nem a realidade cede lugar à fantasia.

Vejo crianças, repletas de sonhos e fantasias, de encanto e paixão. Um, o "Nico" procura de braços no ar atingir o tempo, o seu tempo. O "Nico" não tem pais. Tem doze irmãos, vive numa barraca, come do que arranja, veste do que lhe dão, e brinquedos, uma bola de trapos e carros de outros meninos. Arranja uns "dinheiros" conforme diz, dos extras que faz. Ajuda nas obras, limpa nos restaurantes, aparece na oficina so Sr. Alfredo e as "gorjas" vão servindo para o bolo da montra da pastelaria. Diz que não vai à escola, pois perde muitos "recados".

O "Nico" gosta de ser visto e que falem com ele. Tem expressão no corpo, brilho no olhar e até o ranho que teima em escorrer lhe dá um ar de rebelde gentil.

E tem desejos. Gostava de um emprego para o "Mangas", o mais velho, para ficarem melhor, pois o Sr. Manuel da mercearia, não deixa levar mais coisas p´ra casa.

O "Nico" quer estar em todo o lado. Do lado do sol, da chuva e do vento, da certeza e incerteza, da dúvida, do grito e da raiva, do pão e do doce, da vida, luta e revolta, da alegria e da esperança que é humilde e mora a seu lado, permanentemente.

É firme e determinado, sabe afagar a dor, o grito, choro e raiva, numa inquebrantável crença na Humanidade. Ele sabe que existe lealdade e solidariedade, - foi uma senhora que me disse outro dia, mas não me deu mais nada...

Ele sabe, que esta é uma época de sofrimento, de dor, de tempo, de um tempo em construção.

Vi, agora os seus olhos marejados e fundos, angustiados, perdidos, procurando uma razão, uma luz, um cheiro, um olhar, e um nunca mais acabar de emoções e sentimentos, ideias e diálogos, abrindo muito os olhitos negros, para um infinito, e um tempo, que o tempo não trás.

Este(s) "Nico(s)", têm rosto e voz. Têm coragem, condição e cidadania. Não podem ser mais figurantes e adereços de paisagem no teatro da vida.

Tem de haver tempo, tempo dos "Nico´s", e para os "Nico´s".

Tempo para que cada um tenha a sua vez.

A vez de ser feliz.

03 maio, 2006

ESTRANHOS


Estranhos são aqueles que estando ao pé de nós, nunca estão.
São aqueles que em vez de nos desnudarem qualidades, nos apontam apenas e só defeitos.
Considerando normal, não gostar de algumas coisas em alguém, atitudes, gestos, comportamentos, formas, é essencial contudo, conhecer o que gostamos, mas sobretudo, o que achamos não gostar.
Estranhos, são aqueles que em vez de partilharem as nossas alegrias, sorriem cinicamente com os nossos percalços.
Estranhos são aqueles, que não se esforçando por entender, disparam balas de canhão contra um peito macerado.
Estranhos são aqueles, a quem abrimos a alma e nos fecharam a deles... a quem tentamos alcançar, com um gesto, com um apelo, e que nunca nos deram a oportunidade de lhes tocar.
Estranhos são aqueles, a quem tentamos dar mais do que provavelmente eles queriam, e por isso nos deixaram de fora da grande muralha erguida à sua volta.
Estranhos são aqueles, a quem confiamos a nossa alma e que simplesmente fecharam a deles por pura comodidade.
Darmos de nós, despe-nos a alma, expõe-nos a correntes frias, franqueia o coração e traz riscos, ansiedades, dores, mostra o melhor e também o pior de cada um, mas quem não o faz, esses sim, vão ser sempre estranhos para toda a gente.
Porque, se não se dão, não se podem magoar, se não arriscam nunca poderão caír, se não saltam, nunca poderão ultrapassar, se não caiem nunca se poderão levantar, se não sofrem nunca darão valor, se não amam nunca sentirão.