04 maio, 2006

TEMPO DO "NICO"



Andamos perdidos no balanço doce de problemas, lembranças e ilusões, próximas e distantes, mas sentimos pulso e respiração. Gravitam à nossa volta, novos e velhos, pessoas com glórias e memórias, sonhos, alegrias, desenganos, projectos e vontades, anseios, melancolias, dramas e mistérios, uns com muito outros sem nada. Não se sabe neste momento, onde começa cada um de nós e acaba cada um dos outros, dos que passam, indiferentes a tudo, sem vida, sem razões, onde nem a realidade cede lugar à fantasia.

Vejo crianças, repletas de sonhos e fantasias, de encanto e paixão. Um, o "Nico" procura de braços no ar atingir o tempo, o seu tempo. O "Nico" não tem pais. Tem doze irmãos, vive numa barraca, come do que arranja, veste do que lhe dão, e brinquedos, uma bola de trapos e carros de outros meninos. Arranja uns "dinheiros" conforme diz, dos extras que faz. Ajuda nas obras, limpa nos restaurantes, aparece na oficina so Sr. Alfredo e as "gorjas" vão servindo para o bolo da montra da pastelaria. Diz que não vai à escola, pois perde muitos "recados".

O "Nico" gosta de ser visto e que falem com ele. Tem expressão no corpo, brilho no olhar e até o ranho que teima em escorrer lhe dá um ar de rebelde gentil.

E tem desejos. Gostava de um emprego para o "Mangas", o mais velho, para ficarem melhor, pois o Sr. Manuel da mercearia, não deixa levar mais coisas p´ra casa.

O "Nico" quer estar em todo o lado. Do lado do sol, da chuva e do vento, da certeza e incerteza, da dúvida, do grito e da raiva, do pão e do doce, da vida, luta e revolta, da alegria e da esperança que é humilde e mora a seu lado, permanentemente.

É firme e determinado, sabe afagar a dor, o grito, choro e raiva, numa inquebrantável crença na Humanidade. Ele sabe que existe lealdade e solidariedade, - foi uma senhora que me disse outro dia, mas não me deu mais nada...

Ele sabe, que esta é uma época de sofrimento, de dor, de tempo, de um tempo em construção.

Vi, agora os seus olhos marejados e fundos, angustiados, perdidos, procurando uma razão, uma luz, um cheiro, um olhar, e um nunca mais acabar de emoções e sentimentos, ideias e diálogos, abrindo muito os olhitos negros, para um infinito, e um tempo, que o tempo não trás.

Este(s) "Nico(s)", têm rosto e voz. Têm coragem, condição e cidadania. Não podem ser mais figurantes e adereços de paisagem no teatro da vida.

Tem de haver tempo, tempo dos "Nico´s", e para os "Nico´s".

Tempo para que cada um tenha a sua vez.

A vez de ser feliz.

1 comentário:

Anónimo disse...
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