UMA BOLA DE BERLIM...

Sei de Fantasmas adormecidos que acordam para nos atormentar.
Faço para que não incomodem, mas inundam-me a memória e tenho de os resolver.

ZéQui, estava longe, absorto, perplexo.
Olhava aqueles alinhadinhos na espera da consulta e imaginava a fila dos animais no matadouro. Mais uma Químio, bombas revestidas de comprimido, provavelmente mais um corte... mais do mesmo.
E a sensação que tenho é que me olhavam para expiar as suas maleitas... do género, – "coitado, este está mal”.

Abutres pendurados no meu pescoço...
-“Olha para ele que nem se tem...”

Pouco importa. O que me incomoda, é um cheiro interminável a éter, que me queima o nariz e tomba a cabeça, -Dizia-me.
Sei como ele passou pelas roupas negras da depressão. Sei da sua angústia, de quanto escondia fundo, tristeza solitária. Por ele, sei, estava rebeldemente resignado.

Falava-me tantas vezes da tortura inquisítorial nos hospitais, das clínicas que percorreu, médicos no país e no estrangeiro, a luta, uma luta e uma dor imensa, senão física, quantas vezes psicológica.

De quando nesses corredores olhava atónito o lixo que passava nas Tv´s e nada via, e olhava para quem olhava e nada via também.
Sentia o corpo, que não a alma a ser resgatado, como um pavio curto, lentamente, a apagar.

Dizia-me a principio, que no seu corpo alguma coisa desafinava, mas tão novo, e tinha esgotado o prazo de validade? Que mal pode ser?

Interrogava-me sobre o que haveria de fazer com os seus filhos, um casal lindíssimo (ou não fossem os nossos filhos, todos eles, lindíssimos…). Excesso de zelo? Liberdade absoluta?
- “Sei que nada de bom aí virá”, - repetia-me com frequência..
Porventura, revoltam-se, mas ainda são novos, dão a volta por cima, pensava ele.

-“Viegas, vai uma bola de berlim a meias?”
-“Porque não ZéQui ? Vamos nisso…”
Eu estava que nem podia. Nem vontade, nem prazer. Mas o ZéQui, merecia tudo isso e muito mais.

Que poderia fazer? Acompanhá-lo nesses momentos e dar-lhe apoio, o ombro amigo, ouvi-lo atentamente, e afastar as mágoas, o mais possível…
O que é uma bola de Berlim recheada com creme de pasteleiro, no meio de tudo isto?
- Nada.
E lá íamos nós, deitar diabinhos fora do corpo.

Falar do ZéQui, é expiar a alma de demónios tenebrosos que teimam em não largar.
Falar de alguém que se conheceu numa fase transitória de doença, na sua viagem entre o céu e a terra, em momentos curtos de partilha, de desabafo, recolha de mágoas, anseios e dores, alicerçando admiração e respeito mútuo.

Foi nesta fase terminal, numa altura em que as defesas físicas e psicológicas tinham sido derrubadas, que me deu grandes lições de vida.

O ZéQui, adorava visitar os colegas a meio da tarde depois dos tratamentos que cada vez mais o debilitavam. Adorava falar da vida, do desporto, dos negócios, sempre com o "DN", debaixo do braço.

-“Então Viegas, ganharam? - “Olha que estás a ficar velho...”
E lá começava a nossa cavaqueira, onde sempre apareciam os filhos, a vida, o futuro, o desporto, os meus resultados.
-"Vai uma bola de berlim a meias?
(nunca mais vou comer bolas de berlim tão boas, como nesse tempo).
- "Claro que sim".

Nos dias de mudança de ciclo ou tratamento, arrastava a voz de cansaço. A respiração assustava, pieiras sobressaltadas em tom vagaroso.
As lágrimas pendiam. Querer e não poder, num “tem-te não caias constante”.

-“ E os miúdos Viegas? O que mais me preocupa é que eles não aceitem sem revolta este desígnio…
-“ Nada disso… não podes entregar assim o jogo da vida… tens de vencer… ser forte…
O que se pode dizer nestas alturas? Nunca saberemos certamente, mas compaixão, não, isso nunca mostrei.
Coragem, sinais de luta, de vitória e pensamentos positivos, era o meu dever.~

- “ Então e a nossa bola de Berlim? Queres uma ? ou meia?”
-“ Dividimos a meio… Já me custa, pá… Qualquer dia, nem isso. E vou ter saudades…”
-“Nem penses. Vamos dizer ao Sr. Mário, para aumentar a produção, pois este vicio não acaba assim…”

E o ZéQui, já mal conseguia. Andar cem metros pareciam dez quilómetros.
Aos poucos, fui sendo invadido por sentimentos de impotência, angústias permanentes e um vómito de revolta constante.
Sentir que tudo o que pensamos, conjecturamos, estruturamos, lutamos, e vivemos, é fugaz.

Este amigo, Homem novo, debilitado, de um branco quase transparente, vai partir, e por mais que me convença, não posso aceitar como desígnio de Deus, a partida antes de tempo. Porque nunca é tempo, eu sei, mas antes do tempo, que o cruel destino marcou.

Já lã vão uns anos, caro amigo, o que me faz recordar com um misto de nostalgia, afectividade e orgulho, o tempo de convívio.

Novas flores brotarão no jardim fronteiriço, velhas doenças e novas curas descobrirão, e o tempo quase voará.
E a verdade, como diria o mendigo, toldado de copos de tinto, verdade, é o que fica na nossa memória.
Essa é que é a razão, a memória.

-“Vai uma bola de Berlim a meias?”
-“Fica bem amigo, onde quer que estejas…”

(Em homenagem a um colega e Amigo, e como pequenos nadas nos podem dizer tanto...)

Comentários

Seabra disse…
Simplesmente maravilhoso.
Anónimo disse…
li o texto e gostei muito
Cocas disse…
Tal como uma vez me escreveste, "O que fica,o legado que vamos deixando são essas palavras sentidas que transmites tão bem...".
A vida foge-nos entre os dedos, por vezes bem mais depressa do que esperavamos. Mal de quem parte, saudade imensa de quem fica e uma tristeza só. Há que aproveitar muito bem o tempo que cá temos, sem dar valor ao que não tem realmente importância. Essa é a grande lição que me esforço por aprender.
Um beijo

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