30 julho, 2006







Foto de João Gomes



E POR VEZES

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira
Antologia



25 julho, 2006

NO TEMPO EM QUE OS BURROS ZURRAVAM...


NO TEMPO EM QUE OS BURROS ZURRAVAM...
E ALGUNS HOMENS DAVAM COICES ...!


Felizmente nesta história, houve poucos coices...
A tentativa, era melhorar as condições lá do sitio, e como o local era de encontro e de disputa, formavam-se grupos aqui e acolá, de onde saíam ás vezes sons alegres, noutros zurros estridentes.
Quando o sitio abanava, por pressão atmosférica, ou fraqueza retórica, alguns abutres aproximavam-se, por sentir cheiro de algum animal moribundo.
Por vezes, era mesmo preciso, que os mais considerados zurrassem bem alto, para evitar que a pele de algum ficasse cortada pelo coice de outro. Era uma maçada. Dos restantes, os periquitos abanavam as suas asas, os elefantes tremiam as orelhas, o urso sacudia as patas, e o gorila "maguila" batia no peito, lembrando que tinham direito ao sossego, enquanto os contendores lá iam amuados por não terem conseguido forçar a sua razão (?).
Os do costume, pela surdina, censuravam os que iam lá ao sitio, ora trabalhar, ora conjecturar, ou mesmo saltar de ramo em ramo. Apesar de tudo, ao crepúsculo, desenhavam-se quase sempre as mesmas sombras, já que a zona era boa e, tanto quanto se sabia, não havia nas proximidades, animais ferozes.
Até que veio um dia, em que alguns do sitio, mais alguns dos novos, resolveram dar uma reviravolta na macacada e nas condições da selva, e, caso curioso, quando seria de pensar que o sitio, ficaria, finalmente calmo, zás....... um sururu dos diabos.
Uns tigres, mais uns passarões, alguns patos bravos e certos papagaios que passavam, resolveram arranjar na confusão, qualquer coisa para se alimentarem.
Curiosa mostra do desenvolvimento intelectual que o burro já tinha, apesar de ainda zurrar, foi o aproveitamento feito em redor de tudo o que aconteceu.
Não se contaram pontos importantes antecedentes à algazarra, para que ninguém visse os principais culpados da mesma. Distorceram-se mesmo alguns assuntos, para que apenas se gravassem imagens recentes, sem permitir recordar quem tantas vezes tinha feito o "bailado" no meio da clareira lá do sitio.
Os velhos, chamados ao assunto, mais pela gaguez do que pela velhice, as vezes serenavam as coisas, outras faziam medrar a discussão.
Desabituados (?) que estavam ás doninhas fedorentas, passaram um mau bocado: Arranhados não queriam ficar, mas mal cheirosos, não, isso não...
Bem, desculpem lá, estas histórias costumam ser só para os mais novos, mas já agora esperem, está quase no fim.
Todos os burros daquele lugar, pensaram numa situação, até ali, mal ponderada. Talvez conseguissem ultrapassar melhor alguns problemas se tentassem articular novos sons. Teriam até a vantagem de, não dando coices e não zurrando, exigir explicações, propor entendimentos, acarear conflitos, não permitindo ruídos inaudíveis, propositadamente confusos, que só favorecem os de baixa intenção.
Devem ter optado por esse caminho, pois calmamente o sitio transformou-se num agradável lugar.

P.s. -Qualquer semelhança, com qualquer realidade, é mesmo e só, coincidência.

19 julho, 2006

RAQUETADAS




E vão 35 anos.

No próximo mês de Setembro faz 35 anos que iniciei a prática oficial desta modalidade.

Foram muitos jogos, muitas viagens, muitos países, muitos titulos, muitos amigos, muitas alegrias, algumas tristezas.

A dedicação de uma vida, a uma modalidade muito exigente, mas pouco divulgada, e confundida vulgarmente pelo chamado Pingue-Pongue.

Neste ano, que se reveste de alguma importância, pela indecisão na continuidade ou desistência, fruto de uma arreliadora lesão, que faz o favor de por vezes marcar presença, fui convidado a abraçar o projecto Vitória de Setubal, em conjunto com o técnico Alves Diniz, o chinês Wu Jien Wei, Luís Sena, Sérgio Santos e David Diniz.
A transparência, a compreensão, a forma, o carácter e a amizade transmitidas, não permitiram recusar.
Não sei, o quanto posso dar, mas tenho a certeza do que posso proporcionar.

Não posso deixar de relembrar todos os amigos, companheiros de equipa, colegas e adversários. Não quero esquecer os momentos amargos, mas somatizar apenas os momentos positivos e os bons amigos, que ao longo desta caminhada (felizmente muitos), fui encontrando.

A Elsa, o Hugo e o Diogo, que pacientemente correm ao meu lado e com ternura me vão mimando.

Em especial, recordo sempre, com o coração apertado de saudade, o grande obreiro destas jornadas, aquele que a cada instante, esteja onde estiver, vibra comigo, sente, chora e ri, o meu Pai.



17 julho, 2006
















Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.

"Pablo Neruda"







Viver não dói

Definitivo, como tudo o que é simples.

Nossa dor não advém das coisas vividas,
Mas das coisas que foram sonhadas
E não se cumpriram.

Porque sofremos tanto por amor ?

O certo seria a gente não sofrer,
Apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão boa
Que gerou em nós um sentimento intenso
E que nos fez companhia por um tempo razoável.
Um tempo feliz.

Sofremos porquê ?

Porque automaticamente esquecemos
O que foi desfrutado e passamos a sofrer
Pelas nossas projecções irrealizadas
Por todas as cidades que gostaríamos
De ter conhecido ao lado do nosso amor
E não conhecemos.
Por todos os filhos que
Gostaríamos de ter tido junto
E não tivemos.
Por todos os shows e livros e silêncios
Que gostaríamos de ter compartilhado
E não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados
Pela eternidade.

Sofremos não porque
Nosso trabalho é desgastante e paga pouco
Mas por todas as horas livres
Que deixamos de ter para ir ao cinema
Para conversar com um amigo
Para nadar, para namorar

Sofremos não porque nossa mãe
É impaciente connosco
Mas por todos os momentos em que
Poderíamos estar confidenciando a ela
Nossas mais profundas angustias
Se ela estivesse interessada
Em nos compreender.

Sofremos não porque nosso clube perdeu
Mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos
Mas porque o futuro está sendo
Confiscado de nós
Impedindo assim que mil aventuras
nos aconteçam.
Todas aquelas com que sonhamos e
Nunca chegamos a experimentar

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:
Iluda-se de menos e viva mais.

A cada dia que vivo
Mais me convenço de que o desperdício da vida
Está no amor que não damos
Nas forças que não usamos
Na prudência egoísta que nada arrisca
E que, esquivando-se do sofrimento
Perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável! O sofrimento opcional.

"Carlos Drummond de Andrade"

15 julho, 2006














"Tu és o sítio onde o céu e a terra tocam os lábios da vida... onde as mãos se dão para fazer um sorriso...
onde a erva cresce... e se transforma num tapete por onde irão os caminhantes em direcção às entranhas da terra...
és o mar onde os navios tropeçam nas ondas para rasgar alvoradas...
és o sítio para onde os meus braços olham...
e para onde os meus olhos estendem os braços...
de mãos abertas à vida...
para que a vida não fuja..."



PORQUE

















Porque os outros se mascaram mas tu não.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello B. Andresen


(Porque é bom que haja quem tente fazer a diferença...para um mundo mais belo, seja pela poesia, pela sabedoria, pela inteligência... seja pela simples arte de viver)
A Menina e o Pássaro Encantado

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: Era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola estiver aberta, vão embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades...Suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor.Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava.
Certa vez, voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão.
"- Menina, eu venho de montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco de encanto que eu vi, como presente para você...".
E assim ele começava a cantar as canções e as estórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como fogo, penacho dourado na cabeça.

"... Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água,onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga.Minhas penas ficaram como aquele sol e eu trago canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes".

E de novo começavam as estórias.
A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia.E o pássaro amava a menina, e por isso voltava sempre

Mas chegava sempre uma hora de tristeza.
"- Tenho que ir", ele dizia."- "Por favor não vá, fico tão triste, terei saudades e vou chorar...."
"- Eu também terei saudades", dizia o pássaro. "- Eu também vou chorar. Mas eu vou lhe contar um segredo: As plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios... E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera da volta, que faz com que minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudades".
-"Eu deixarei de ser um pássaro encantado e você deixará de me amar".
Assim ele partiu.
A menina sozinha, chorava de tristeza à noite. Imaginando se o pássaro voltaria.
E foi numa destas noites que ela teve uma idéia malvada."- Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá; será meu para sempre. Nunca mais terei saudades, e ficarei feliz".
Com estes pensamentos comprou uma linda gaiola, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Finalmente ele chegou, maravilhoso, com suas novas cores, com estórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu.
Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Foi acordar de madrugada, com um gemido triste do pássaro."- Ah! Menina... Que é que você fez? Quebrou-se o encanto. Minhas penas ficarão feias e eu me esquecerei das estórias...".
"Sem a saudade, o amor irá embora..."
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas isto não aconteceu.
O tempo ia passando, e o pássaro ia ficando diferente. Caíram suas plumas, os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio; deixou de cantar. Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava.
E de noite ela chorava pensando naquilo que havia feito ao seu amigo...Até que não mais aguentou.
Abriu a porta da gaiola."- Pode ir, pássaro, volte quando quiser...".
"- Obrigado, menina. É, eu tenho que partir. É preciso partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro da gente. Sempre que você ficar com saudades, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudades, você ficará mais bonita. E você se enfeitará para me esperar..."
E partiu.
Voou que voou para lugares distantes. A menina contava os dias, e cada dia que passava a saudade crescia."- Que bom, pensava ela, meu pássaro está ficando encantado de novo...".E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos; e penteava seus cabelos, colocava flores nos vasos..."- Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje..."
Sem que ela percebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado como o pássaro.
Porque em algum lugar ele deveria estar voando. De algum lugar ele haveria de voltar.
AH! Mundo maravilhoso que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama...
E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento.
- "Quem sabe ele voltará amanhã...."
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

Você é responsável por tudo aquilo que cativa.
Colherá daquilo que plantou ...