13 agosto, 2006



A ironia na inevitável crise da idade…!

E… deitamos as culpas de tudo e de nada a esta inevitabilidade. Da falta de vontade para o exercício físico, da barriguita que começa a “desenformar”, da pequena ruga que teima em não sair, daquelas dores que nunca nos apareciam…!
Tínhamos uma insanidade juvenil que nos protegia de amarguras e que nos servia de escudo contra dúvidas, ventos e marés.
Agora, quando ”nos olhamos” verificamos que afinal, o código de barras não estava errado, e que a “mercadoria” está um pouco adulterada.
Envelhecer é uma sucessão interminável de revisões periódicas, check-up´s e quejandos.
Em jovem, tínhamos barras de ferro como protecção de alma. Não víamos o passar do tempo. Habitavam em nós sombras que desconhecíamos, as mortes eram mais emocionais, hoje sentimo-las muito físicas.
E fazíamos castelos de areia e montanhas de conjecturas no ar. Tudo intransponível.
Afinal, verificamos que os castelos se desmoronam e tudo se desfaz.
Mas este PDI é real. Já não é imortal. Somos nós, estamos cá…por enquanto.
Sinto marés revoltas de tempo, que o tempo não apagou. Ventos assassinos, prontos a lançarem torrentes de resfriados desprevenidos.
De vez em quando reflexos do que fui assolam a janela da imaginação.
Este PDI, este envelhecer, seria tão mais simples, se fosse só meu. Se me caísse no regaço e eu o contemplasse e deixa-se que aos poucos ele entranhasse na carne e no coração.
Se mais ninguém o visse e mais ninguém o sentisse.
E vivemos uma vida inteira, preparando-nos para essa mesma vida.
De repente olhamos em volta e já nada do que era voltará a ser. O espelho reflecte com exactidão o que escondemos todo este tempo.
O tempo, esse insanável, esse indomável patife que me suga o espírito e a mente.
E… depressa virá.
Mas…que venha, cá estaremos.
Aliás, inexoravelmente temos de o contrariar e provocá-lo.
A juventude não se perde assim.
Serei velho aos 70, aos 80? Qual quê? Verão…
Tenho o dom de contrariar respeitosamente estas tendências, jamais perderei a minha irrequietude, a minha generosa infantilidade, a minha T´Shirt, calção, calça de ganga, o meu desporto.
E uma barriguita, que mal tem? As adiposidades já queimam mal, mas nada de mais.
Não sou a casca do tempo que partiu, nem a curva dos teus olhos que se fechou,
Mas a imagem dos gestos que tracei, e aí…
O céu ficou mais perto, quanto mais belo.

3 comentários:

Ana disse...

Este post tem um força enorme!!
Todos, mais cedo ou mais tarde, já passámos por isto. A forma como lidamos com o envelhecer é que varia de pessoa para pessoa.

saltosaltos disse...

Diria mais, envelhecer é uma sucessão interminável de revisões da matéria dada e porra, como eu detesto revisões!

Excelente texto!

FF disse...

não "já passámos por isto", mas isto somos nós num continuum irrepetível e interminável (até ao último fôlego), com que podemos contar para 'lermos' um bocadinho dos mistérios que nos rodeiam...

gostei desta pequena partilha que fazes na blogosfera do teus "diabinhos"