Perdas ...


O desaparecimento de alguém que nos é chegado, que nos é querido, provoca-nos sobressaltos de alma, angústias permanentes e morre inevitavelmente um pouco de nós.
Sabemos que jamais brilharemos como antes.
Por mais que tentemos, não conseguimos aceitar como desígnio de Deus, a partida antes de tempo. Porque nunca é tempo, deste partir, intempestivo, cruel e marcante.
Somos assaltados pelas costas e roubam-nos a alma, ficamos apáticos e não conseguimos concretizar tanto do que gostaríamos…. … o abraço, a ultima conversa, a brincadeira do neto ou o beijo terno que não recebemos.
Então como aceitar um desígnio destes?
Se sempre tivemos uma boa relação com “ELE”, merecemos este castigo?
Merecemos ser fustigados por um raio, que nos atira pelo abismo, um negro e profundo abismo do qual jamais nos libertaremos?
Apetece baixar os braços e desistir, mas não se devem cobardias infantis.
Noites a fio, correntes de lágrimas aguardam uma razão, que nunca chega.
Em consciência, sabemos que de nada vale essa angústia.
Sabemos que novas folhas brotarão, novas vidas nascerão, surgirão novas doenças e os rios secarão, mas de nada vale forçar a corrente, pois o rio jamais mudará o seu curso, e nada mais volta, nada regressará.
A verdade, é o que fica na nossa memória.
Mas temos de aceitar a dor, o sofrimento da morte.
Como tradição que vagueia de geração em geração, e num imaginário religioso, diz-se que a morte tem espaço e um lugar.
Eu penso que a morte nunca tem tempo. Está normalmente fora de tempo, do “nosso” tempo.
Aquilo que se designa, como um trabalho de “luto” ou “fazer o luto”, para além de vivermos o desgosto pela perda é sobretudo o trabalho e o processo de desconstrução da presença e da construção da ausência.
Fazemos um trabalho de elaboração psíquica, tentando diminuir os impactos da dor, da desorganização, da emoção, que em tudo liga a representação, o pensamento e o afecto.
Já “Barthes” dizia que se deve compreender os sinais e não recusar a inevitabilidade do fim.
Mas o fim, como fim é sempre doloroso. Todos nós, temos medo de perder algo significativo, e todos nós nos defendemos com escudos super-protectores e defesas arcaicas, de qualquer hipótese de perda indesejável.
No luto e com o luto, vem a tristeza, a indiferença, a inibição, e por vezes, mas sem muitas das vezes ter nada a ver, a depressão.
Mas pelo facto de ficarmos com as defesas baixas e o nível de auto-estima diminuído, não devemos deixar perder o “Eu”. Temos de “trabalhar” bem a aceitação do luto, sabendo que não existe sempre uma continuação.
E fazemos um esforço, para na rejeição da perda, tornar suportável a culpabilidade.
Depois vamos desinvestindo a recordação e a esperança, que na memória vão batalhando.
Este é que é o nosso trabalho do luto, que termina quando “aceitamos” a ausência.
"ÉPICURO" dizia: «Enquanto existirmos a morte não é. Quando a morte é, nós não somos.»

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