Sonhei-te

Sonhei que vivia numa rua onde ninguém passa, onde nada acontece, onde nada se ouve.
Onde se houve chilrear, pios de um pardal que ali passou.
Mas está tanto calor que não ousou voar. Saltitava, como se tivesse molas nas suas patinhas, olhando freneticamente em todas as direcções, como se fugisse de abrir as asas, para não lhe fugir a sombra e corresse o risco de derreter ao sol.
Como ele, fujo do calor.
Cheguei ao ponto em que estou contente por me bater na cara uma brisa que me refresca nos seus trinta e nove graus.
Maldita variação, raios partam o buraco do ozono, ou o que quer que seja que provoca este inferno.
Hoje gostaria de não poder ver aquilo para que olho.
Gostaria de não poder escutar aquilo que ouço.
Gostaria de não poder sentir aquilo que se me cola à pele e à alma.
Queria estar indiferente às tonalidades que a vida vai tomando.
Hoje queria apenas ser e estar...
Guardar algumas memórias. Apesar de já ter tentado tantas vezes deixá-las esquecidas num canto qualquer, não consigo livrar-me delas.
Há quem diga que vivo por lá, entre a depressão e a impressão, mas penso que não.
E lanço sementes, esperando colher do que semeei, numa colheita que ainda me faça sorrir.
És a outra metade da minha alma.
A outra metade da minha asa, que esvoaça por torrentes de azul.
Sonho-te.
Sonho-te muito ingenuamente o mais das vezes.
Sonho-me um cavaleiro da Távola Redonda ou um Peter Pan, sempre na rota de Neverland.
A tua imagem, ilumina os olhos de uma forma que nem mil sóis conseguiriam iluminar.
Por vezes sinto que o tempo, escapa pelos dedos como areia fina, e que não chego a ver-te voar na minha direcção.
Das tuas asas farei as minhas,
das tuas penas, meu vestir,
do teu cantar, remédios de coração.
Eis chegado o ponto em que o cérebro decide em memórias estaladas de gestos irreflectidos.
Onde estou?
Na terra do nunca, ou nunca estou?
E fujo sem saber a direcção que tomou o pássaro frenético em dia de calor, com patinhas de molas afinadas, olhando o sol, em doce solfejo num dó menor.

Comentários

saltosaltos disse…
Demasiado bonito para que lhe fique indiferente,
demasiado bonito para que o consiga comentar com outras palavras diferentes destas...

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