26 agosto, 2006

Um dia abandonei a infância, a adolescência ficou amarrada a projectos desportivos.
De repente, vejo-me longe das conversas dos amigos, das brincadeiras vividas, dos risos e choros, das desordens ordenadas, de partilhas, de namoros, de jogos, de festas, dos bailaricos com Pink Floyd e o “Dark Side of the Moon” que abrasava o gira discos do Barbosa.
O Veloso e o “Chico Fininho” saíam à rua com a “Rapariguinha do Shopping” e o Augusto aparecia de MGB, descapotável, lançando inveja nas garotas da avenida.
E éramos nós, a malta, da “Ribeira até à Foz”, com os "Já fumega" e os "Minipop"...
E durante anos, fui desatando os nós.
Pensava ser amanhã o reencontro, ser outro dia o abraço, ser novamente ontem, para nos rirmos e brincarmos como sempre.
Mas, o destino trocou-nos os caminhos da vida.

O telefone já não toca como tocava. Os reencontros vão-se tornando mais raros.
O Figui advoga, com o tempo contado. O Rick, anda a saltar do Porto para Esmoriz , o João controla as corridas dos seus atletas e os cabelos brancos surgem em catadupa.
O Amado desapareceu, dele nem rasto.
O Pedro, Paulo, Costa, Leonor, Paula, Fátima, Laura, Beta, Sérgio, Zé, Carlos, Nanda, tantos, tantos que eramos. Um grupo excelente.

Enchiamos o comboio para Esmoriz de alegria vivida. Cerveja com groselha em pequenos almoços mirabolantes com rabanadas de molho divinal.
Francesinhas da Tí Alice, regadas com o verde do Monteiro, que dizia sempre: - “este é dos bons, já cá canta...”.

A Tia do Amado, suspirava pelas noticias que lhe levávamos, com ele a conta gotas espreitando da esquina em frente.
O S. João com filas de 60, numerados em saltos de fogueira, as corridas pela Boavista e o dormir na praia da Foz.
Dizíamos: - “Três dias e três noites sem ir à cama, seus morcões”.
O jogo do "pilha" e a “sameirinha”, a “patela” e os jogos de bola no Velasquez.
Chumbadas nas calças de ganga, de “assaltos” à fruta na Quinta do Monte Aventino,...

Quando nos encontramos, tudo parece ontem.
Saltamos e brincamos e falamos tanto e tanto em tão pouco tempo, que sofregamente, enchemos Santa Catarina.
No retorno a casa, fazemos promessas de encontros frequentes... e o telefone.. e o e.mail...

... e a vida volta, e o tempo alonga a distância, e o Inverno passa, o Verão volta, e amanhece de novo.
E mais cabelos brancos e rugas espantadas em espelhos de jovem.
E contamos aos filhos como era bom, como nos divertíamos, o que era a “verdadeira amizade”, as partilhas, o jogo da “casquinha”, o “porta a porta”, a “esmolinha p´ro St. António e "P´ro S. João”, e a sopa de couve na casa da avó.
E virámos o 25 de 74, de mochila às costas na Praça D. João I, a ver chaimites e “magalas” de sorriso largo olhando as moças que passam.
E como hoje é diferente.
Como a “Playstation” e a “Net” e o “Pokemon” e a TV Fox, subtrai a amizade a potências de solidão.

Vá lá pessoal, só mais um copo.
Não, o último não.
Haveremos de passar pelo Oliveira Martins ou o Alexandre Herculano e esperar as miúdas às cinco da tarde no Rainha Santa.
Depois embarcamos na paz do tempo e algum tempo depois nos encontraremos a caminho...
de novo... até um dia, quem sabe ... ?

1 comentário:

Anónimo disse...

Diferente cenário, diferentes personagens, mas basicamente uma mesma história. Para quem como nós se exilou mais ou menos voluntariamente, as emoções que envolvem a cidade da adolescência são irmãs. A nostalgia das aprendizagens mais doces e das outras também, teimam por vezes em prender-nos eternamente ao passado, ao reviver de algo irepetível. Todos já caímos no terno engodo do canto do passado, é irresistível, eu sei, o que só nos faz sentir tremendamente mais velhos e mais desajustados.
Resta-nos portanto a fuga para a frente, em direcção ao futuro, que nos aguarda mais ou menos prometedor, virgem essencialmente. Seja ele com Playstation com Net ou Fox TV, cabe-nos sempre a nós torná-lo mais próximo dos nossos ideais humanistas, e para que o saibamos: os nossos filhos não estão assim tão mal acompanhados, afinal, tem-nos para lhes transmitir o valor da amizade.