26 setembro, 2006


Hoje estou cansado, e não posso estar cansado.
Não tenho tempo, nem oportunidade para estar cansado.
Deste cansaço que entendo não seja físico, nem mental, acho que….espiritual.
Estou farto de tanta coisa e não posso estar. Deste País de “Tolans”, pois isto está tudo virado ao contrário, deste País de “Gordons”, tal como a tempestade que assolou os Açores, só que este “Gordon”, é mais “Flash Gordon” e atacou as nossas Instituições.
Outro dia tentei perceber qual delas não tinha sido tocada, ou por incompetências, ou por compadrios, ou por corrupção.
…pois… ainda estou à procura.
E estou cansado desta carcaça, que sou, deste feitio feito mel, deste ser que não sou, deste estar que não estou.
E dou por mim distraído.
Cumprimento quem não conheço, ou quem conheço, mas não sei quem é.
Ou se calhar sei, mas nunca consegui “ver”.
Se por vezes nem nos conhecemos…
E circulamos pelas pessoas como meras transparências, quase invisíveis, nós e elas.
Levamos connosco fios de marionetas, que puxamos consoante entendemos.

Ora agora, abanamos a cabeça (puxa o cordel…já está…).
Ora bem, agora fazemos o sorriso especial (só um pouquinho… ora aí vai… puxa o cordel…já está…),

... e lá continuamos na nossa vidinha, como a Ti Maria das flores, ou o Sr. Zé do talho.

-“Então o que é que vai ser ó freguesa?”
– “Lá está o raio da mulher… nunca compra nada, mas para pintar as beiças e arranjar o cabelo, já tem dinheiro”. Fingida. Não te dê uma Filoxera”.

E lá vem o rótulo, a carimbadela e o estereótipo.
Típico Portuguesismo.
Pouca importância damos às coisas e/ou às pessoas.
O que lê, que filmes vê, o que faz e como faz, valores, princípios, etc….
Nada.
Vai rótulo para cima e carimbo na testa. Está etiquetado.

Mas a vida é mais do que isso, as pessoas são mais que isso, “nós” somos mais, muito mais.
E vivemos semi-escondidos em capas personalizadas, consoante as ocasiões.
E raramente deixamos transparecer para além dessa imagem construída e retocada de tempos a tempos. Ou porque socialmente nos impõem, ou porque nos obrigamos nós.
E vamos passando pela vida e pelas pessoas, por acasos e casos, por sítios, vivências, paixões, locais e lugares, e medramos num papel no qual não cabemos, e ouvimos prosápias que não entendemos.

E raramente “olhamos” bem, e nos “olhamos” também.

25 setembro, 2006

AMIGO












"Procura-se um amigo. Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.
Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa.

Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.
Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.

Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja de primeira-mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.
Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância.
Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive."

Vinicius de Moraes

21 setembro, 2006


Estava eu descontraidamente a soltar o pinguinho de urina num WC de área de serviço, quando pressinto invasão de excursionistas.

Quase terminava, quando reparo num sujeitinho baixote de bigode farfalhudo, cigarro na boca, mão a segurar o “Record”, num contorcionismo arrojado.

Porra, pensei eu. Então este tipo, faz o xixizinho da ordem, sacode e guarda o objecto só com uma mão? Mas é ilusionista ou quê? E será que vai conseguir mexer no cigarro com a mão que saiu do dito?

Eis que, não bastando, aparece um outro, alto, com barriga de pipo, daquelas que rebolando na neve provocam avalanche, e começa a vociferar.

- Ó Toino, viste aquela gaja ?
- Grande traço, diz o dito ilusionista, com um esgar, entre o aparvalhado e o sebento.

E eu, no meio dos dois, sem me conseguir mexer, disfarçando urinas retidas.

-Mas ó Toino, ela bem levava, hum?
- Hó, se levava, dizia, com a beata quase a morder-lhe os lábios.
- Então que querem? Metem aqueles pregos nos umbigos, amais as tatuages, e um Home num há-de ficar doido ?

Reparo então, que o grandalhão tinha cachecol futebolístico pendurado ao pescoço.

E no meio das algaraviadas que iam roncando, começam, por atacado a “despir” a dita cuja “gaja”.
Que faziam isto, e acontecia aquilo... e eu no meio, atarracado, imaginando que aquelas almas, de erecções, só mesmo naquela ocasião, enquanto dura a mijadela...

Fui lavar as mãos, na esperança de que poderia estar enganado e que o baixote afinal, não seria um McGuiver dos sanitários, quando ele passa, lançando baforadas de um Sg qualquer que empestou o espaço.

Grande animal... Então e as mãozinhas não se lavam?

Eis que, atraiçoado pelo pensamento, logo atrás, o grandalhão e mais meia dúzia de quadrúpedes pestilentos, passam numa chinfrineira que ecoa, e … nada! Mãos lavadas é que não!

Futebol e gajas, são duas paixões de que falam, sem uma prejudicar a outra.

E reparo que este é o espelho de um País de gente inculta, iletrada e sem maneiras.

E não terem bebido água do sanitário…. Já vou com sorte!

20 setembro, 2006



Depois de algum tempo

"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas.
Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.
E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.
Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso.
Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas segundos para destrui-la, e que poderás fazer coisas das quais te arrependerás para o resto da vida.
Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que tens na vida, mas quem tens na vida.
E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.
Aprendes que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebes que o teu melhor amigo e tu podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.
Descobres que as pessoas com quem tu mais te importas são tiradas da tua vida muito depressa, por isso devemos sempre despedir-nos das pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos.
Aprendes que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começas a aprender que não te deves comparar com os outros, mas com o melhor que podes ser.
Descobres que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que se quer ser, e que o tempo é curto.
Aprendes que, ou controlas os teus actos ou eles te controlarão e que ser flexível nem sempre significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, existem sempre os dois lados.
Aprendes que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer enfrentando as consequências.
Aprendes que paciência requer muita prática.
Descobres que algumas vezes a pessoa que esperas que te empurre, quando cais, é uma das poucas que te ajuda a levantar.
Aprendes que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tiveste e o que aprendeste com elas do que com quantos aniversários já comemoraste.
Aprendes que há mais dos teus pais em ti do que supunhas.
Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são disparates, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.
Aprendes que quando estás com raiva tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.
Descobres que só porque alguém não te ama da forma que desejas, não significa que esse alguém não te ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo.
Aprendes que com a mesma severidade com que julgas, poderás ser em algum momento condenado.
Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que tu o consertes.
Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás.Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga flores.
E aprendes que realmente podes suportar mais... que és realmente forte, e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.
E que realmente a vida tem valor e que tu tens valor diante da vida!
As nossas dádivas são traidoras e fazem-nos perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar."

William Shakespeare
Estranho beber dos teus lábios
Ensinamentos com mil histórias, mil nada inacabados, em notas de violino num musical em dó menor.

Estranho beber dos teus lábios
Frases inacabadas, conversas cruzadas, entrelaçadas, temas por decifrar.

Estranho beber dos teus lábios
O suster da respiração e sentir apenas a leve brisa do teu perfume,
que me atormenta a alma.

Estranho beber dos teus lábios,
Regras, leis, ritmos, musicalidade, esperanças e pinturas em tons de pastel.

Estranho beber dos teus lábios
E rodopiar pela tua pele em gestos sublimes de te tocar em cada lágrima, num arco-íris de movimentos,

Estranho beber dos teus lábios
E não conseguir mover-me ansioso às voltas da órbita que me impões, fora do trajecto que tinha traçado.

Estranho beber dos teus lábios
Palavras murmuradas que me atingem na carne como bolas de fogo

Estranho beber dos teus lábios
Inquietação por não ter conseguido oferecer-te as nuvens, o mar e o sol.

Estranho beber dos teus lábios
O relógio e a despedida a flor e o acenar na partida.

Estranho beber dos teus lábios
A falta de ser mais eu, mais tu, mais outros, de mais e mais sendo só e apenas eu.

17 setembro, 2006














Cativar

"(...) - Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. - Estou tão triste...
- Não posso brincar contigo - disse a raposa.Ainda ninguém me cativou...
- Ah! Então, desculpa! - disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- «Cativar» quer dizer o quê?
(...)- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu - disse a raposa.
- Quer dizer «criar laços»
- Criar laços?
- Sim, laços - disse a raposa - Ora vê: por enquanto tu não és para mim senão um rapazinho perfeitamente igual a cem mil outros rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim.
Por enquanto eu não sou para ti senão uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, passamos a precisar um dou outro. Passas a ser único no mundo para mim.
E eu também passo a ser única para ti
- Parece-me que te estou a perceber - disse o principezinho.
-Sabes, há uma certa flor... tenho a impressão que ela me cativou. (...)"

in, O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry

"Tratar a criança com cancro e não só o cancro na criança!
Este é nosso lema, que espelha o que pretendemos com a nossa Associação.
Todos os anos surgem mais casos de cancro infantil. As crianças com cancro e os seus pais sofrem durante anos psíquica, física e economicamente. A experiência mostra que a solidariedade é um factor de extrema importância para ajudar a minimizar os problemas causados pelos longos e difíceis períodos de tratamento.
Por outro lado, é cada vez maior a percentagem dos que vencem a doença
."

- Do Site da Acreditar-






PARA QUEM SOFRE


Hoje eu vou sorrir contigo.
Vou brincar, dar pontapés na bola, atirar-te conchas de esperança.
Hoje, eu vou correr ao teu lado e abraçar-te como se não houvesse amanhã, desligar-me do mundo e ter-te só para mim.
Vou fazer de cada dia teu, um dia melhor, para um amanhã maior.
Vou arrumar as tradições e reservar-te um espaço feliz no coração da minha vida.
Hoje serei eu e tu e mais ninguém.
Visitaremos os teus amigos e contaremos historias de Reis e Princesas e belas donzelas de lancelot.
Já não levarás o boné que te acompanhou todo este tempo, mas um sorriso de esperança que distribuis sem cansaço.
Levas contigo o obrigado que te sai vezes sem conta e que contagia.
Serás tu, a coragem que dissimula a dor e trará mil cores aos demais.
Levo-te à escola e aguardo-te na hora de saída. Sem saberes vi-te brincar, correr e saltar, e senti-me gente de novo.
Vi de novo a luz do teu rosto quando sorris.
Afaguei-te o cabelo e deste-me uma palmada nas costas como nos velhos tempos.
E vou abraçar-te junto de mim, dando graças por te ter comigo.

Pedro Viegas






15 setembro, 2006
















De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia

13 setembro, 2006















"No te quiero sino porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frío al fuego.

Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viajero
es no verte y amarte como un ciego.

Talvez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego".



Pablo Neruda

12 setembro, 2006









"Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;

ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados

E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;

ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir".


Kahli Gibran













El viento es un caballo:
óyelo cómo corre por el mar,
por el cielo.
Quiere llevarme:
escucha cómo recorre el mundo para llevarme lejos.
Escóndeme en tus brazos por esta noche sola,
mientras la lluvia rompe contra el mar
y la tierra su boca innumerable.
Escucha cómo el viento me llama galopando para llevarme lejos.
Con tu frente en mi frente,
con tu boca en mi boca,
atados nuestros cuerpos al amor que nos quema,
deja que el viento pase sin que pueda llevarme.
Deja que el viento corra coronado de espuma,
que me llame y me busque galopando en la sombra,
mientras yo, sumergido bajo tus grandes ojos,
por esta noche sola descansaré,
amor mío.


Pablo Neruda