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A mostrar mensagens de Outubro, 2006
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Olá Leonor

Perguntavas tu, de dentro dos teus poucos aninhos o que é a "sensinilidade".

Pois, olha, eu entendi o que falavas.
Da senilidade, que vai querendo aparecer, mas que vou chutando à medida que posso, dessa, um dia mais tarde, falaremos, assim o tempo me dê tempo.
Da sensibilidade, que tu questionas, sei dizer-te, que é um sentir, por demais sentir.
É um estar que nos arrepia a pele, que nos adormece os músculos.
Não. Não é pieguice ser sensível, pelo contrário, faz falta sensibilidade ao mundo, às pessoas.
É porventura, ver as coisas com alertas de alma, com outra atenção.
Sabes, Leonor, o tempo foi roubando a cada um de nós, a possibilidade de nos ouvirmos e de também escutarmos os outros. Para não serem diferentes, guardam tudo dentro deles, vão amarfanhando, empurrando, até nada mais caber.
Guardam como se guarda um tesouro, algo de valioso que é.
Mas puro engano.
Saberes, dores, choros e alegrias. Quem não dá, não pode esperar receber.
Por isso, quanto mais guardam os cheir…

ARCO-ÍRIS

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Hoje sonhei com o arco-íris.
Esse sonho transportou-me para imagens de rara beleza, como as feições de meu Pai.
Ouvi a sua voz, vinda de longe. As suas palavras doces, o seu belo sorriso.
Ele dizia que apenas nos iludimos, quando pensamos que somos donos das coisas, dos instantes ou dos outros. E que a vida, ténue como é, apenas nos empresta algumas coisas, tirando-as quando o entender. E que melhor será a partilha e a comunhão do que a leviandade de querer ser a qualquer preço, melhor, poderoso, ou importante.
O meu Pai fazia magia quando me abraçava, como eu espero fazer, quando abraço os meus filhos.
E revivi os meus amigos, as minhas viagens, no que deixei de viver, no que passei ao lado por falta de tempo ou disposição, nas alegrias e nas tristezas, nos que passaram por mim, no que me deixaram e no que lhes deixei.
Relembrei cores, objectos, viagens, frases, danças, timbres de voz, olhares, cheiros, sobretudo nas coisas insignificantes a que atribuo enorme valor.
E espreitei pela janela…
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SE ME QUISERES...Prendes-te com atilhos e escreves em bloco-notas a palavra... desejo-te!Recortas letras de um qualquer papel jornal, formando palavras numa ordem desordenada com cheiro requentado a tinta, onde colocas o J e o P em maiusculas, distintas, formando palavras de ordem, como aquela que aguardo... SE ME QUISERES !Fazes um desenho colorido, vincas um papel, constrois um planador que atiras ao sabor do vento, na minha direcção.Escreves post-it vários e fixas em todas as árvores no passeio da avenida.SE ME QUISERES...Adoças-te em colheradas de gosto açucarado, raspando com pontas dos dedos e lambuzando-te em pequenas doses.Enrolas-te em algodão doce e deixas-me saborear aos golinhos durante o dia o sabor das tuas palavras.Sobes ao Big Ben, olhas-me da Torre Eiffel, e cruzas-te comigo na dos Clérigos.Pintas com cores garridas, libertando tubos e pinceis aprisionados em paleta incólume desafiando um desejo numa promessa de criação.Degustas a doce sensação da miragem, do desconhe…

"SHUT DOWN"

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Será a vida um jogo de espelhos onde a realidade se confunde com a imaginação ?
Será que habitam em nós fantasmas que nos perseguem e nos prendem a abismos de uma inquietude intransigente?
Será que fechamos caminhos e criamos labirintos para não sermos encontrados.?
Tento falar pausadamente para me ouvir, como quem nunca erra a "cor" de uma palavra.
Sinto-me avariado.
As pessoas também avariam, sem que se saiba porquê. E eu tenho momentos assim.
Tal como os motores, os computadores, faço "pause". Talvez tenham sido fios cá dentro que encostaram, talvez seja necessário um "Back-up", após tantos "donwload´s" efectuados.
O "Scroll Lock" impede-me de continuar, retém-me nas memórias.
Será o "disco rígido" ou a "placa gráfica "? Sinto-me a perder velocidade, quiçá capacidade.
O que sei é que se fizer "Shut Down", vai tudo ao ar e perco-me de todo.
Mas será que as pessoas também avariam pelo muito que pensam ou pelo nada …
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Quando foi a ultima vez que limpaste o coração? Calço luvas, coloco bata e máscara e munido de bisturi, percorro canais.De auricula para ventriculo, de veia cava para cá e para lá, de artérias gordurosas, alojamos aparelhagem bem no meio do coração.Encontro pó, vários quartos e salas com teias de aranha.Paninho na mão, "spray" limpa nódoas e cera para o soalho de quartos desabitados.Alguém escorrega ? - Não- Ninguém habita por lá.Peguei no álcool e vaporizei as paredes.- Ardeu ?- Claro que simMas era esse o objectivo. Deixar arder, doer.Quando foi a ultima vez que limpaste o coração ?O aspirador entrou em cena e a soda caustica retirou o mais entranhado.Por fim e antes de passar a linha e agulha para fechar o remendo executado com mestria em definitivo, deixei que as janelas arejassem...Do pouco que restou, peguei numa pá e enterrei-o bem no fundo do coração, quase tocando na alma.Jamais me habitarás.Viverás aí para sempre!
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Tenho dias em que só consigo ouvir o bater calmo do coração.
Adoro o cheiro matinal a flores e deixava-me estar nesse remanso, do "café da avó".
O céu está humido. Goteja na janela e a minha alma está carente de um sol que me faça festas.
Ouço frases de outros dias num tilintar de ouvido.
Sobram bocados de gente, de gestos, de tempo, neste aconchego em que me encontro.
Deito-me inconfessavelmente tarde.
O som do silêncio, a luz ténue, a sensação de calma e serenidade como gosto, como sinto, estendendo os braços na direcção do dia que se aproxima.
Tenho uma mancha no coração.
Abro janelas para silêncios que procuro agitar, desejoso de te ver limpar minhas asas de voo que não reconheces.
De ver meus dedos escorregarem em teclas de piano de cauda em contraluz, de palavras etéreas que saltam de acordes mal dedilhados.
Nunca quiseste entrar no espaço que abri para ti, nos braços que apertavam no aconchego do meu peito, no sussurrar da minha voz.
Abres as portas por onde passo.
Balanço no bal…
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O meu coração boca fora e a alma, meio metro fora do corpo.Rosto sem luz e voz sem palavras.Sinto que o meu corpo andou 10 metros para o lado e encostou na parede junto ao móvel, e eu aqui a olhá-lo.-Que é isto ? Mas onde é que tu vais ?... Sonho ?Ouvir-te falar faz-me abstraír do significado das palavras, e o meu coração bate descompassado num ritmo sem ritmo de frenético.E suspiro, roendo as unhas, quando te envolvo com o meu olhar.Adoraria deixar-te as minhas impressões digitais, sufragando-te os gestos e sacudindo o meu amor em ti.Volto a não sentir. Nem corpo, nem cheiro, não vislumbro luz.Saí de novo de mim e ainda não voltei...!Em que ancoradouro andarei ?A lua a boiar no céu, o cheiro a terra e mar.... regressei de Finisterra ?Mas que faço ? Onde tenho andado ? Qual a dimensão em que habito ?Saber que não existes, aligeira-me o fardo, deste tormento. Saber que não existes, porque eu te criei, colei-te a mim, fiz-te minha.Insónia, desprotegida.