29 outubro, 2006



Olá Leonor

Perguntavas tu, de dentro dos teus poucos aninhos o que é a "sensinilidade".

Pois, olha, eu entendi o que falavas.
Da senilidade, que vai querendo aparecer, mas que vou chutando à medida que posso, dessa, um dia mais tarde, falaremos, assim o tempo me dê tempo.
Da sensibilidade, que tu questionas, sei dizer-te, que é um sentir, por demais sentir.
É um estar que nos arrepia a pele, que nos adormece os músculos.
Não. Não é pieguice ser sensível, pelo contrário, faz falta sensibilidade ao mundo, às pessoas.
É porventura, ver as coisas com alertas de alma, com outra atenção.
Sabes, Leonor, o tempo foi roubando a cada um de nós, a possibilidade de nos ouvirmos e de também escutarmos os outros. Para não serem diferentes, guardam tudo dentro deles, vão amarfanhando, empurrando, até nada mais caber.
Guardam como se guarda um tesouro, algo de valioso que é.
Mas puro engano.
Saberes, dores, choros e alegrias. Quem não dá, não pode esperar receber.
Por isso, quanto mais guardam os cheiros, as cores e as texturas das coisas, menos percebem que a melhor parte é compartilhar.
Quando uma lágrima cai, quase sem percepção (... e comigo isso acontece, não te admires...), quando sentes por antecipação um desfecho daí esperado, quando um adulto que nunca foi criança em vez de desabafar, flexibilizar... foge.
Quando arrumamos sentimentos que bem abanados e estruturados, podem ainda ter tempo de conseguir milagres;
quando alguns desses milagres, são passeios de alma e estradas do coração, concluimos que nada é mais importante do que o que nos toca na alma.

20 outubro, 2006

ARCO-ÍRIS



Hoje sonhei com o arco-íris.
Esse sonho transportou-me para imagens de rara beleza, como as feições de meu Pai.
Ouvi a sua voz, vinda de longe. As suas palavras doces, o seu belo sorriso.
Ele dizia que apenas nos iludimos, quando pensamos que somos donos das coisas, dos instantes ou dos outros. E que a vida, ténue como é, apenas nos empresta algumas coisas, tirando-as quando o entender. E que melhor será a partilha e a comunhão do que a leviandade de querer ser a qualquer preço, melhor, poderoso, ou importante.
O meu Pai fazia magia quando me abraçava, como eu espero fazer, quando abraço os meus filhos.
E revivi os meus amigos, as minhas viagens, no que deixei de viver, no que passei ao lado por falta de tempo ou disposição, nas alegrias e nas tristezas, nos que passaram por mim, no que me deixaram e no que lhes deixei.
Relembrei cores, objectos, viagens, frases, danças, timbres de voz, olhares, cheiros, sobretudo nas coisas insignificantes a que atribuo enorme valor.
E espreitei pela janela em direcção ao céu.
O céu à noite é um lençol com estrelas. (…por vezes as nuvens fazem-se “edredons” tapando-as do frio...).
E olhei a estrela polar, cassiopeia, e ursa maior.
Senti um frio que me pregou a alma e suspirei.
Ao sair de casa, deparei com o arco-íris do sonho a olhar-me de cima.
Puxei-o e ele poisou de mansinho na minha mão.
Desde criança que o imagino como o caminho da felicidade.
Pensava nesse tempo, (ainda hoje o penso), que se conseguisse subir caminharia até ao infinito, onde quer que ele ficasse.
Talvez pelas cores, talvez pela beleza ou harmonia, sentia-me jovem de novo e dei por mim a saltar. Cantarolei, pedi um "donut´s", bebi um café e olhei-o devagarinho.
Lá estava ele, num remanso colorido, afagando-se nas curvas da mão.
Remirei a aura e sentei-me numa esplanada.
Naquele instante deixei-me transportar na direcção das estrelas.
Pedi um desejo e habitaram em mim pedaços de sonho em algodão doce.
Sorri.
De tal modo era o sorriso, que as pessoas paravam para me olhar.
E eu não parava. Mesmo que o quisesse, não era capaz. O sorriso transformava-se em felicidade, a felicidade em amor e de novo em sorriso.
De repente, no meio de tanto sorriso, apanhou-me distraído e, saltou da mão alojando-se no coração.
Ao princípio, estranhei… depois entranhei.
Hoje vivo com ele no peito e sorrio.
Sorrio às crianças, sorrio aos velhos, sorrio aos doentes, sorrio aos desafortunados, sorrio aos meus inimigos, sorrio aos que me querem, sorrio aos que não me olham, sorrio aos que me evitam, sorrio aos que não sorriem, sorrio à vida, e, descobri, que apenas um sorriso, um leve e pequeno sorriso, pode fazer milagres.
Experimentem!

17 outubro, 2006



SE ME QUISERES...

Prendes-te com atilhos e escreves em bloco-notas a palavra... desejo-te!

Recortas letras de um qualquer papel jornal, formando palavras numa ordem desordenada com cheiro requentado a tinta, onde colocas o J e o P em maiusculas, distintas, formando palavras de ordem, como aquela que aguardo... SE ME QUISERES !

Fazes um desenho colorido, vincas um papel, constrois um planador que atiras ao sabor do vento, na minha direcção.

Escreves post-it vários e fixas em todas as árvores no passeio da avenida.

SE ME QUISERES...

Adoças-te em colheradas de gosto açucarado, raspando com pontas dos dedos e lambuzando-te em pequenas doses.

Enrolas-te em algodão doce e deixas-me saborear aos golinhos durante o dia o sabor das tuas palavras.

Sobes ao Big Ben, olhas-me da Torre Eiffel, e cruzas-te comigo na dos Clérigos.

Pintas com cores garridas, libertando tubos e pinceis aprisionados em paleta incólume desafiando um desejo numa promessa de criação.

Degustas a doce sensação da miragem, do desconhecido, a misteriosa magia do despertar dos sentidos...

SE ME QUISERES...

Deixa o silêncio pairar tranquilo e efémero, deixa que a magia faça o resto...

Descobre-me, destapando-me alma e coração, arreganhando memórias como peças soltas em teatro de marionetas.

SE ME QUISERES...

Terás o Sol na ponta dos dedos e o Mar como presença notada.

Terás a Lua nos olhos e a minha Voz num sussurro permanente.

...Virás de Princesa vestida, numa charrete de quatro cavalos brancos, brilhando a rubis e diamantes, e mesmo que pela meia-noite te transformes em abóbora, jamais deixarás de ser... Princesa...!

16 outubro, 2006

"SHUT DOWN"



Será a vida um jogo de espelhos onde a realidade se confunde com a imaginação ?
Será que habitam em nós fantasmas que nos perseguem e nos prendem a abismos de uma inquietude intransigente?
Será que fechamos caminhos e criamos labirintos para não sermos encontrados.?
Tento falar pausadamente para me ouvir, como quem nunca erra a "cor" de uma palavra.
Sinto-me avariado.
As pessoas também avariam, sem que se saiba porquê. E eu tenho momentos assim.
Tal como os motores, os computadores, faço "pause". Talvez tenham sido fios cá dentro que encostaram, talvez seja necessário um "Back-up", após tantos "donwload´s" efectuados.
O "Scroll Lock" impede-me de continuar, retém-me nas memórias.
Será o "disco rígido" ou a "placa gráfica "? Sinto-me a perder velocidade, quiçá capacidade.
O que sei é que se fizer "Shut Down", vai tudo ao ar e perco-me de todo.
Mas será que as pessoas também avariam pelo muito que pensam ou pelo nada que vivem ?
Prefiro ser mártir das minhas crenças que cavaleiro em seu dorsel.
Não. Não posso julgar.
Ninguém pode julgar ninguém sem se olhar a si.
Pensamos os outros… imaginamos… puro engano. Só lendo na alma através do coração.
Não somos Deus, nem Anjos, nem Diabo.
- Diabo ? - Pró Diabo... como esse não serei.
O que não sou é servente de hipocrisias ou mestre-de-obras sem consciência.
Gosto da minha transparência, mas também me encubro em vestes de pó como se não existisse.
E ando neste limbo cinzento de inquietude, cansado.
Cansado de mais para "te" pensar, para "me" ver.
Vou saboreando ao longo do dia o sabor destas palavras, sabendo que nem todas as bocas saberão beber do meu cálice.
Não imagino o que sai, nem para quê.
São os olhos e ouvidos que quem me ouve lê e interpreta, que dão sentido às palavras e forma às imagens.
Porque um amontoado de palavras será sempre, e só, um amontoado de palavras se não fizerem eco na sensibilidade de quem tenta decifrar o seu significado.
… Sinto que a máquina tende a parar. “Ctrl” “Alt” “Del”…
Na música os compassos aprendem-se. Errando, repetindo e voltando a errar.
E sendo esta vida um jogo de espelhos, os erros, nossos e dos outros, devem ser considerados normais. Afinal quem pode atirar a primeira pedra?
Op´s!
“Pause”!

13 outubro, 2006



Quando foi a ultima vez que limpaste o coração?

Calço luvas, coloco bata e máscara e munido de bisturi, percorro canais.

De auricula para ventriculo, de veia cava para cá e para lá, de artérias gordurosas, alojamos aparelhagem bem no meio do coração.

Encontro pó, vários quartos e salas com teias de aranha.

Paninho na mão, "spray" limpa nódoas e cera para o soalho de quartos desabitados.

Alguém escorrega ? - Não

- Ninguém habita por lá.

Peguei no álcool e vaporizei as paredes.

- Ardeu ?

- Claro que sim

Mas era esse o objectivo. Deixar arder, doer.

Quando foi a ultima vez que limpaste o coração ?

O aspirador entrou em cena e a soda caustica retirou o mais entranhado.

Por fim e antes de passar a linha e agulha para fechar o remendo executado com mestria em definitivo, deixei que as janelas arejassem...

Do pouco que restou, peguei numa pá e enterrei-o bem no fundo do coração, quase tocando na alma.

Jamais me habitarás.

Viverás aí para sempre!

12 outubro, 2006


Tenho dias em que só consigo ouvir o bater calmo do coração.
Adoro o cheiro matinal a flores e deixava-me estar nesse remanso, do "café da avó".
O céu está humido. Goteja na janela e a minha alma está carente de um sol que me faça festas.
Ouço frases de outros dias num tilintar de ouvido.
Sobram bocados de gente, de gestos, de tempo, neste aconchego em que me encontro.
Deito-me inconfessavelmente tarde.
O som do silêncio, a luz ténue, a sensação de calma e serenidade como gosto, como sinto, estendendo os braços na direcção do dia que se aproxima.
Tenho uma mancha no coração.
Abro janelas para silêncios que procuro agitar, desejoso de te ver limpar minhas asas de voo que não reconheces.
De ver meus dedos escorregarem em teclas de piano de cauda em contraluz, de palavras etéreas que saltam de acordes mal dedilhados.
Nunca quiseste entrar no espaço que abri para ti, nos braços que apertavam no aconchego do meu peito, no sussurrar da minha voz.
Abres as portas por onde passo.
Balanço no balançar de ancas onde me vejo num jogo de sedução arcaica, saltando do meu para o teu olhar e embebedo-me em ti.
E... adormeço-te enquanto te olho e me faço ninho no teu regaço.

06 outubro, 2006



O meu coração boca fora e a alma, meio metro fora do corpo.

Rosto sem luz e voz sem palavras.

Sinto que o meu corpo andou 10 metros para o lado e encostou na parede junto ao móvel, e eu aqui a olhá-lo.

-Que é isto ? Mas onde é que tu vais ?

... Sonho ?

Ouvir-te falar faz-me abstraír do significado das palavras, e o meu coração bate descompassado num ritmo sem ritmo de frenético.

E suspiro, roendo as unhas, quando te envolvo com o meu olhar.

Adoraria deixar-te as minhas impressões digitais, sufragando-te os gestos e sacudindo o meu amor em ti.

Volto a não sentir. Nem corpo, nem cheiro, não vislumbro luz.

Saí de novo de mim e ainda não voltei...!

Em que ancoradouro andarei ?

A lua a boiar no céu, o cheiro a terra e mar.... regressei de Finisterra ?

Mas que faço ? Onde tenho andado ? Qual a dimensão em que habito ?

Saber que não existes, aligeira-me o fardo, deste tormento.

Saber que não existes, porque eu te criei, colei-te a mim, fiz-te minha.

Insónia, desprotegida.