Tenho dias em que só consigo ouvir o bater calmo do coração.
Adoro o cheiro matinal a flores e deixava-me estar nesse remanso, do "café da avó".
O céu está humido. Goteja na janela e a minha alma está carente de um sol que me faça festas.
Ouço frases de outros dias num tilintar de ouvido.
Sobram bocados de gente, de gestos, de tempo, neste aconchego em que me encontro.
Deito-me inconfessavelmente tarde.
O som do silêncio, a luz ténue, a sensação de calma e serenidade como gosto, como sinto, estendendo os braços na direcção do dia que se aproxima.
Tenho uma mancha no coração.
Abro janelas para silêncios que procuro agitar, desejoso de te ver limpar minhas asas de voo que não reconheces.
De ver meus dedos escorregarem em teclas de piano de cauda em contraluz, de palavras etéreas que saltam de acordes mal dedilhados.
Nunca quiseste entrar no espaço que abri para ti, nos braços que apertavam no aconchego do meu peito, no sussurrar da minha voz.
Abres as portas por onde passo.
Balanço no balançar de ancas onde me vejo num jogo de sedução arcaica, saltando do meu para o teu olhar e embebedo-me em ti.
E... adormeço-te enquanto te olho e me faço ninho no teu regaço.

Comentários

tcl disse…
Belíssimo texto.
Se calhar, é nos dias em que pensamos que só conseguimos ouvir o bater calmo do coração que afinal conseguimos ouvir também o que de mais fundo nos vai na alma e dizê-lo.
Ana disse…
Há manchas no coração que desaparecem com raios de luz. Não o feches nunca...
Beijos

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