30 novembro, 2006







Ontem, num grupo de amigos, discutia-se a problemática macho-masculina (na voz do António), do gajo que olha o rabo da gaja e se baba todo, como ranho de caracol.
Nunca tinha pensado nesta questão dos traseiros e da sua influência no comportamento masculino tão profundamente. Normalmente os homens vêem nestas questões, valores mais arredondados. Portanto, não sei se será questão, se falsa questão. E discutia-se a problemática questão de as rebolonas serem ou não, umas senhoras, ou umas pindéricas sem jeito para a coisa. Discutiu-se a filosofia do trejeito de anca, da perna mais ou menos torneada e até do tecido adiposo, que a substância traseira trás agarrada a si, o que, tornou o tema mais interessante, pois passou a discutir-se filosoficamente um problema de índole médico-cientifico.
Não sei o que tinha o tema de tão introspectivo, que o Mário, passou todo o tempo de boca aberta, maxilares bem firmes sem ranger os dentes. Os sorrisos esses eram mais que muitos, tal a definição científica e arquitectónica, que cada um emprestava ao assunto.
Até que o Vítor segredou: - “ mas que artelhos ela tem… até me põe o espírito taralhoco”…
Foi um desafinar de risos e de novo, um olhar diferente sobre a causalidade.
Já entravamos na vertente esotérica da coisa o que, diga-se, deixava toda a gente de cabeça no ar.
Acenderam-se então, incensos de mil aromas e a prosápia continuava, num desbobinar de conhecimentos (?) esbatidos em erros acumulados anos a fio.
Do trejeito de anca passou-se para os belos pares, pois também com um belo par de saliência pulmonar, com a graça de Deus, se apresentava.
Abanando-se num ciclópico de wonderbra, teceram-se loas a Afrodite, Deusa do Amor, o que instigou nova discussão.
O Telmo, ligado a ciências históricas, reconheceu que só Dionísio, Deus do vinho na mitologia grega poderia ser a solução,
Ou então Poseidon, Deus dos mares, pudesse contribuir para o arrefecimento da conversa.
Até que num faíscante olhar, a dona de tão belos argumentos arrematou o diálogo, desnudando tudo á sua volta, como se pretendesse revelar, fotos a cores.

28 novembro, 2006


Por vezes dou por mim a questionar-me :
- Para onde vou, de onde venho, o que tenho feito, o que necessito fazer, se existo, se sou mesmo eu, se estou vivo.
Travam os meus neurónios lutas incessantes com uns fiozinhos cá dentro, para se conectarem. Mas por vezes não é fácil, as conecções ou estão lentas ou com dificuldades de ligação.
E questiono -me porque escrevo.
Se já nem tempo tenho para ler as "Visões" e "Sábados", que se acumulam por casa, mais outras que aparecem, mais os livros que vou comprando, de tal forma que aviso sempre;
- "... aqui ninguém mexe!"
para quem não sabe, devoro estas leituras todas de fio a pavio, o que é viciante, bem sei.
Mas afinal porque escrevo?
Tenho amigos que escrevem, conhecidos que escrevem, outros que nem conheço que escrevem também, uns editaram outros não.
Escrevem alguns vizinhos, como o do 6º Dt, mas acho que nem ele sabe. Escreve o Administrador do condomínio papeis que nunca mais terminam. Escreve o Lopes do café, post-it´s, de "coisas-para-fazer".
Escrevia a Joana, que de tanto escrever, ganhou calos nos dedos e anda toda entrapada.
Escrevia o Tó, resmas e resmas de cadernos, que mal terminava queimava numa fogueira para se aquecer no beco lá do bairro, mas esse eu sei, expiava demónios que saíam pela ponta de feltro e voavam como gambuzinos.
Escreve o Zé do Talho, em pequenos papeis tingidos do sangue da faca de corte, "carne do Lombo - Kg x", e escreve o Sr. Padre, sermões dele para todos, e esses mesmos para ele, vá-se lá saber como os cumpre.
Escreve o médico receituários que só ele sabe ler, escreve toda a gente algumas… bizarrices que ninguém percebe.
Uns soltam os diabinhos, outros os diabretes, outros porque sim, outros porque talvez, alguns nem por isso.
Ok, que seja.
Eu? Sei lá.
Já agora ia estar aqui a despir a alma , não?
Ou será que já o estou a fazer?
Será ? Vêem?
Eu não dizia?
Tenho manhãs em que acordar já é difícil, quanto mais fazer a ligação ao computador central para ficar conectado.

25 novembro, 2006


Aproximamo-nos do mês, em que sinto-não-sei-bem-o-quê.
Uma inquietude que me agita o esqueleto. Aquele estado de alma, que me rói o corpo.
De ano para ano a estrada para o Natal, vai-se deteriorando. Só não deixo de a percorrer porque as crianças assim o dizem.
O comodismo, o consumismo e o cinismo tomam lugar na cadeira do Pai Natal.
Gosto dos beijos e abraços quentes e sentidos revestidos de um Natal apertado em laçarotes vermelho garrido. Gosto da partilha de afectos simples e despretensiosos. Não gosto dos que afastados numa maré com 364 dias, se lembram de enviar numa corrente de 1 dia, sms já gravados e reenviados por outros.
Não gosto das filas de adrenalina, mãos e cabeças agitadas num consumismo em espiral.
Não me encontro em hipocrisias latentes de desejos festivos em presépios de lata.
Sinto nesta época, um nó na garganta que me sufoca e se vai deslocando para me espremer as glândulas lacrimais.
Sinto vontade de saltar etapas do tempo, juntando crianças que olham montras e prendas e luzes de encanto, numa ceia de alegria, com sobremesas de felicidade.
E juntar os velhos, os doentes e os que se apertam de solidões, num embrulho de mil cores com música adequada e travessas de doces e desejos concedidos.
E evito encontros de conversas inúteis com pessoas que se acotovelam, para falar por falar como se ganhassem o céu com ladainhas.
Talvez num qualquer Dezembro me encontre sem ventos gelados no rosto, num desencanto de amargura trazido por glaciares que não vejo mais.
E nesse Dezembro relembre um tempo que já foi tempo e sinta
não-sei-bem-o-quê.

20 novembro, 2006


Ás vezes cometer um erro é a melhor maneira de se chegar a algum lado.
Veja-se Cristóvão Colombo. Se não tivesse cometido um pequeno erro de cálculo, o mais certo é que nunca tivesse desembarcado na América, mesmo que o fizesse, convencido que tinha descoberto o caminho mais curto para a Índia.
Na educação das crianças, erros de cálculo são frequentes.
Como são frequentes os nossos próprios erros na sua educação.
Não existem Humanos perfeitos (graças a Deus) muito menos Pais e Educadores perfeitos.
As crianças cirandam de ocupação em ocupação. E tanto o Estado como a Sociedade Civil, ainda não “procuraram” solução para esta questão.
Bem sei, que para muitos Pais e muitas mentalidades, é um “bem” a criança estar ocupada nos atelier´s, nas Escolas, nos Colégios, nos Jardins. Sempre não “chateiam”, não “ocupam” o seu tempo. E são esses Pais, que na sua época, brincavam nas ruas, corriam por jardins, jogavam á bola em qualquer local e aprendiam cedo e aos trambolhões a andar de bicicleta.
Hoje, são esses que não “têm tempo” para os filhos, que se zangam se sujam o calção ou o bibe e se zangam também se “descobrem”que os filhos nem de bicicleta sabem andar.
E se por um lado os ocupam, por necessidade funcional ou familiar, por outro querem enchê-los de informação para que sejam uma espécie de “Heróis do futuro”.
São eles que “despejam” crianças em horários de desporto, “empurram-nas” para ATL´s, “encostam-nas” em cursos de línguas e catequeses, e o tempo que sobra para brincar, para serem verdadeiramente crianças, não existe.
Deixam de ter tempo para conduzir as suas brincadeiras e crescem com a responsabilidade da competição, numa sociedade cada vez mais marginalizadora, competitiva e pouco social.
Os espaços de aprendizagem e sociabilização estão-se a perder, o pouco tempo que os pais passam com os filhos, por outro lado, faz com que sejam mais protectores, e assumam muitas vezes pelos próprios filhos, as responsabilidades e obrigações destes.
É a desculpabilização sistemática e a permissão para quase tudo, como compensação pelo pouco tempo passado em conjunto. Criam-se assim crianças sem regras, sem margens definidas, sem comportamentos adequados.
As crianças já não vêem nos Pais alguém que os cuida e com quem podem contar, quase não os vêem. O seu herói, o seu Porto de Abrigo. Alguém a quem imitar (a criança necessita dessa ferramenta no seu processo de crescimento interior). A posição corporal, o manear das mãos, do corpo, do pentear, das expressões, são cópias dos Pais.
Os Pais, por sua vez, vivem com o pensamento no “melhor” dos filhos. E mergulham em ansiedades e angústias de contornos particularmente patológicos.
Nos séculos passados, a vida dependia do berço em que se nascia, da fortuna familiar ou posição social.
Hoje, a criança vive mergulhada numa piscina, salta barreiras de atletismo, gravita no Jardim-de-Infância, escuta lições de piano, fala Inglês e Francês, conhece Geografia, Geologia e Meteorologia, tem explicações, e tornam estes dez-reis-de-gente, em potros de competição.
A vida já não se vive, compete-se.
Crescem, tornando-se licenciados, com um grau académico X, bom atleta de valor Y, um profissional de excelência, com um emprego de truz, férias de traz, uma casa de sonho de elevado valor, restaurantes de luxo, ginásios de elite, uma mulher fina, com unhas de gel, sobrancelhas postiças, mamas com silicone, lábios tratados na Michelyn, loira e bem vestida.
E ele com consultas de luxo em clínicas de Psiquiatria dos Alpes Suiços toma doses cavalares de Prozac – mas isso não interessa nada - a vida dele é realmente um sonho, foi isso que os pais programaram.
E os Pais? esses, olham-se um dia ao espelho e revivem os poucos momentos passados com os filhos.
Afinal o que sabem deles? O que partilharam? Que dificuldades sentiram? Que diálogos tiveram? Quantas feridas trataram? Quantas idas ao Pediatra? Quantas fraldas mudaram e banhos lhes deram ?Quantas vezes o abraçaram, beijaram, aconchegaram a roupa e disseram simplesmente…. Amo-te muito meu filho…!








P.S. Desculpem, nunca faço aqui comentários externos. Nem de pessoas, nem de politica, nem de casos.
Este espaço não o quero para isso.
Mas existe um, que me deixou angustiado. O das duas irmãs que ficaram órfãs, assistindo ao acidente dos pais, esmagados contra a própria viatura.
Elas estão separadas, cada uma com seus avós. Separadas pelo Tejo, uma em cada margem.
Juntem-nas por favor.
Elas necessitam fazer o luto, juntas.
Necessitam estar uma com a outra e chorarem os pais, juntas.

Mais do que qualquer ajuda externa, necessitam antes de mais, uma da outra.

16 novembro, 2006






E inventávamos o Mundo,
pintando em aguarelas de cor, almas unidas num só gozo.
Como malabaristas, ilusionistas da vida, disfarçando choros,
os nossos choros em gritos de amor.

Fechava os olhos e parecia que
o meu corpo se dissolvia em nada.
E olhava-te no teu corpo de mulher
e mordia-te língua e lábios,
e cheirava formas e aromas do teu corpo.

E tenho vontade de te possuir, uma e outra vez, sem que nada inebrie os meus sentidos, sem cansaço, sem espera,
E olhar-te!
Olhar-te como se olha a vida,
procurando na tua alma a profundeza do mesmo olhar.

E sentir-te feliz num vento de sabor a sal,
do teu corpo que respira a céu aberto.
E sentir-te entregar, como o mar se entrega em orgasmos infindos contra os rochedos.
E passar-te a língua em lugares secretos, só teus, só nossos, onde o coração espreita ao cimo da pele.

O teu sorriso nervoso,
o teu olhar como pétala de um Outono florido em odes madrigais.
Que me procura, que me quer, que me despe,
Rasgando roupa e pele, num desejo de ternura.
Mas sonho-te fugir entre dedos que se entrelaçam
E prendo-te.
És minha, agora,
hoje, amanhã e sempre.
Só para mim, presa ao meu pensamento, ao meu corpo,
colada no meu suor, na minha saliva no meu cheiro.
E vou aprisionar o teu cheiro.
E quero comer-te e beber-te em sílabas graves, como os poemas de O´Neill,
sentir-te o vai vem da tua mão no meu corpo,
massajando os músculos cansados de leituras nocturnas em sonetos de Chopin.
De tão cansado, já nem a luz que entrava eu via, nem o vai vem da rua que eu já não ouvia.
E subo pela escada sempre deserta, que ninguém sobe nem desce, piso onde tu pisas e tocas onde eu toco.
E ouço Caetano e Bethania,
E pareço um Adamastor aos olhos de Vasco da Gama.

E foste embora.
Era tarde, meu amor, eu sei.
Mas deixas sempre o teu cheiro para me acordar, para eu rolar para o teu lado da cama, ainda quente.
E nos lençóis ficou marcado o grito que a tua mão soltou,
quando no teu corpo estava eu.

E inventamos de novo o Mundo,
mais e menos por menos e mais
e fechamos um ciclo de vida,
em gemidos de prazer, corpos colados de amor
na direcção vaga do infinito.
Porque te amo.

14 novembro, 2006

SE...


Se conseguir ver um gato preto na próxima esquina a cruzar-se comigo, se o eléctrico 32 passar um minuto depois da hora marcada, se o padeiro buzinar antes das oito, se confundir de novo o azul com o preto, se o telemóvel vibrar em vez de tocar, se mais uma vez não vir a mulher-do-padeiro, se chover de novo com 23 graus, se a menina do Renault verde voltar a ultrapassar pela direita, se os próximos 4 semáforos, continuarem vermelhos, se neste exacto momento me voltar a arrepiar, se a tartaruga fizer barulho no aquário, se o pinga-pinga da torneira não parar, se voltar a adormecer ao fim de 5 minutos de leitura, se o nevoeiro não se dissipar e deixar cruzar o arco-íris pela montanha, se a D. Alice do café me voltar a falar dos belos rissóis de carne da filha, se continuar a mexer o café para a esquerda, se o Teodoro Anastácio da Silva Campelo e Melo de Gouveia Frederico e Silva, não aparecer de novo na “Caras” com o patrocínio da mesma e viajar para a ilha dela, se os preliminares forem abolidos, se no urinol publico voltar a sentir olhares de machos na minha direcção, se os políticos conseguirem sorrir sem cinismo e durante 2 minutos conseguirem falar uma palavra de verdade, se o Manel do 4º esquerdo não der o arroto ao descer as escadas do escritório, ou a menina da livraria não coçar a orelha quando lhe falo, é mau sinal…..... ainda não recuperei da loucura.

09 novembro, 2006

NEM SEI PORQUÊ!


Lembro-me de já ter sido D. Quixote, Sancho Pança, D. Sebastião, famoso, estupor, óptimo e um bom malandro.
Nas bocas da penumbra, adocicados com sal refinado ou açúcar louro, ditados pelo povo, podemos ser qualquer coisa.
Pouco incomoda. Apenas ligeiros arranhões, naquilo que alguns tentam que se torne num acidente sem proporções.
Com o tempo habituamo-nos a que algumas salivas brotem venenos escarlates, o que com o passar do tempo se há-de reverter no seu próprio perfume envenenado.
Alguns já os vi cair. Outros por aí virão.
Leio cada folha da memória, e percorro caminhos de tempos passados.
Custa-me levantar pedaços de papel escritos com lágrimas fortuitas de raiva contida por infinitos tempos.
E hesito entre papel e teclas e Word e A4, entre o que sou, e o que me querem fazer.
Puro engano, imbecis. Cruéis desesperados de almas penadas e empedernidos socalcos de coração despedaçado.
Puro engano.
Jamais sabereis valores. Jamais me vereis senão aquilo que vos mostro, e que é tão pouco, que jamais sereis donos de qualquer verdade.
Engano vosso.
Carpideiras do sangue de outros e vampiros dos demais.
Podereis adiar fumos brancos. Vendilhões do tempo, desgraçados desgarrados do interior vazio que é o vosso.
Verdugos de penumbras, vividos em escuridão, sem rosto, sem mãos, sem pele, sem expressões. Fechai gavetas e portas, dobrai fechaduras das vossas casas, onde habitam fantasmas existenciais.
Lavai-vos com água benta, das impurezas da alma que habitais, colocai um qualquer roll-on, que vos perfume a existência e vereis um novo ressurgir, num amanhã diferente, para melhor, se fores capaz.

07 novembro, 2006



Sara, abriu a pasta, e retirou o Moleskin preto.
Puxou da caneta que conservava religiosamente vai para dois anos, desde que ele sucumbira nos seus braços de Morfeu.
Escreveu-lhe:
“… A lua está fria e distante. Tudo está longe de mim. O ar vai ficando mais pesado porque o tempo não passa.
Há coisas a começar e a acabar, neste exacto instante. Vidas e sonhos, sonhos e vidas, e mar e estrelas e palavras e desejos e encontros. Amores encontrados, amores perdidos, outros desajeitados, quantos esquecidos.
E eu…. Eu estou aqui parada. Tenho pouco cabelo já. A químio arrasa-me os glóbulos, e tudo gira em volta de nada.
Não sei o que espero.
Não sei se estou à espera que algo comece ou acabe em mim…”

Rasgou a folha e escondeu-a debaixo da almofada, adormecendo.

Ele respondeu, sem tardar.

“… Sabes Sara, tudo deixa de ter importância quando falas, quando escreves, quando me olhas.
Pouco me interessa a duração do tempo. O tempo é tempo, nada mais.

O importante para mim, é o momento. Este momento que vivemos.
E vivemos hoje, porque amanhã não sabemos. Nem eu, nem tu. Ninguém o sabe.
Tornaste-te uma lutadora, uma Mulher coragem. O teu exemplo e de outras Mulheres coragem, esses sim, perdurarão pelos tempos.
E hoje sou feliz, e canto e salto e grito e abraço-te porque te quero, porque te tenho.
Porque o hoje é muito mais do que o ontem e certamente do que amanhã.

Porque o vivemos, porque o sentimos, porque assim, aqui, estamos os dois.
Sabes, Sara. Toda a minha vida, recordei pessoas, sítios, cheiros, sabores, palavras, casas, paredes, luzes, estórias… sempre recordei vivências, instantes, memórias. Eu que nunca me imaginei de outra maneira, senão nostálgico...
Até que me diagnosticaram uma obsessão.
Mas, estou curado dessa.
Agora só me vejo no momento, neste, contigo, neste nada que é tudo.
Sei que por vezes gelam as madrugadas. Sei que o meu amor, na tua boca, mais não é que sal dissolvendo-se mais e mais a cada dentada de vida vivida nas horas roubadas aos dias.
Já sabia que o sofrimento faria par comigo.
Mas escolhi assim, amor! "

05 novembro, 2006

Acho que sim... sei lá...!



Pasmo com a coscuvilhice, a falta de temas que as pessoas “não” têm.
E pasmo, porque mais do que tratarmos das nossas vidinhas, com os problemas inerentes a cada um, seja no emprego, no carro que está velho e não anda, nos filhos e na produção escolar, no vencimento que um dia destes é ultrapassado pela quantidade de impostos que temos de suportar, com a vida de casa e seus amores tão delicados, damos frequentemente pelo linguarejar das pessoas, sobre os outros, que de si, é bom que nem se fale.
Ele é tema de telenovela, de primeira página em papel de jornal nauseabundo, de revista cor-de-rosa social, daquelas que dominam os temas como verdades absolutas, do tipo, … “ o céu é azul”, …”amanhã se não chover, fará um rico dia”… “o sol quando nasce é para todos”…e blá, blá, blá.
As acusações chovem. Todos falam.
Espirram toda a lama na direcção de alguém.
Fazem chicanas em mesas de café, com um chá para quatro, ou aproveitam o pouco que trabalham para vociferar argumentos pestilentos sobre outros, sacudindo o seu próprio pó, e teias de aranha, que mais parecem enlatados.
Rotineiramente fartam-se de dizer mal de outros para esconder o seu próprio mal.
Mostram-se conhecedores, ainda que sem conhecer, apenas porque ouviram alguém dizer, quantas das vezes por inveja ou ciumeira, ou porque sim…sei lá.
E farto de estar a ouvir uma conversa sem pés nem cabeça, sobre a filha-do-pasteleiro-que-dizem-que-anda-metida-com-aquele-rapaz-que-trabalha-lá-em-baixo-no-restaurante- do- Alfredo-e-o-coitado-do-marido-que-é-uma-jóia-sem-saber-de-nada,....
Mais, o-senhor-padre-que-Deus-nos-valha- (benzem-se três vezes)-que-parece-que-tem-um-filho-que-vive-com-a-mãe-uma-rapariga-lá-da-aldeia-dele-em-Penegodes-que-fica-lá-nos-altos-dos-montes-e-que-nunca-desceu-à-cidade-para-não-ser-apontada-pelo-povo
Mais, a da minha-vizinha-Maria-que-Nosso-Senhor-me-acuda-que-quando-era-nova-andava-metida-com-tudo-o que-é-Homem-e-bem-que-ela-aproveitou-a-malandra-e-o-marido-coitado-que-é-um-moiro-de-trabalho-e-só-aparece-bebâdo-ás-vezes-…
… E perguntemos a essas queridas… porque é que não se metem na vida delas…?!

01 novembro, 2006



Tudo o que fuja da rotina ou do instalado, do sempre igual e constante marear, as alterações, provocam roturas, confusões e perplexidades.
Tudo muda, muita coisa muda, umas para o bem, outras para o mal, mas tudo acaba por mudar.
E muda quando queremos, quando estamos predispostos ou mesmo quando nem pensamos tal.
Temos receios de grandes alterações, de grandes mudanças, que façam mexer no quotidiano, que agite a nossa vidinha catolicamente instalada, que faça sombra à própria sombra.
Mexer em processos ou estilos de vida ou a qualquer coisa diferente de ligar a ignição, meter a primeira no automóvel e arrancar, carregar em botões, meter a chave à porta ou apanhar o 46 para o trabalho.
Sentar no mesmo café, atendido pelo mesmo empregado, ver o mesmo vizinho, levar as crianças à escola, assistir os mesmos programas, as férias no mesmo local de farnel na mão, a acomodação permanente e constante.
Mas tudo muda, muitas vezes a ritmo de caracol, devagar, lentamente, tudo muda.
Levamos tempo a assimilar as mudanças, a perplexidade instala-se, e a nossa adaptação depende do tempo que levarmos a fazê-lo.
Temos medo que essas mudanças provoquem instabilidade, que agitem águas adormecidas, que mexam no nosso “modus vivendi”, na operacionalidade das nossas vidinhas.
Mas todos conseguimos adaptações, flexibilizando para podermos fazer e conhecer coisas e pessoas diferentes. O problema que se coloca não está na mudança propriamente dita, mas no nosso eu, interior. Na memória do que foi, no passado que nos agita fantasmas, nos pensamentos que adjectivam as meninges, que nos obriga a comparações, e que por isso afecta a mudança.
E abalam-nos pensamentos, filmes antigos, vivências belas ou tenebrosas, desassossegos instalados. Fechamo-nos em conchas ou caixas de “Tupparware” hermeticamente fechadas, silêncios labirínticos, escondendo-nos do que nos pode pôr à prova. Afinal, é sempre muito mais fácil não enfrentar, do que dar com os costados nas verdades que nos surgem aos olhos.
Emocionalmente somos afectados. Choramos, arrepelamos os cabelos, revoltamo-nos, e sentimo-nos marginalizados e colocados no cantinho do sótão das coisas velhas da vóvó. De um momento para o outro, somatizamos todos os maus momentos, as conversas que nos “tocaram”, as atitudes que magoaram, o mal que nos infligiram, as “trocas” que afectaram, os processos descontruídos.
Qual Cinderela com madrastas cínicas e feiosas, gritamos amarguras que nos atiraram para esta má sorte, e tendemos a sentir bruxinhas velhas de vassoura em riste a manietarem-nos a memória.
Mas temos de enfrentar, limpando o pó sujo da alma e as teias de aranha do coração… e já agora… tiramos a vassoura da bruxa má e em vez de a montarmos para fugir, imaginamo-nos o “Batman” e damos nós a varredela final… que tal?