E inventávamos o Mundo,
pintando em aguarelas de cor, almas unidas num só gozo.
Como malabaristas, ilusionistas da vida, disfarçando choros,
os nossos choros em gritos de amor.

Fechava os olhos e parecia que
o meu corpo se dissolvia em nada.
E olhava-te no teu corpo de mulher
e mordia-te língua e lábios,
e cheirava formas e aromas do teu corpo.

E tenho vontade de te possuir, uma e outra vez, sem que nada inebrie os meus sentidos, sem cansaço, sem espera,
E olhar-te!
Olhar-te como se olha a vida,
procurando na tua alma a profundeza do mesmo olhar.

E sentir-te feliz num vento de sabor a sal,
do teu corpo que respira a céu aberto.
E sentir-te entregar, como o mar se entrega em orgasmos infindos contra os rochedos.
E passar-te a língua em lugares secretos, só teus, só nossos, onde o coração espreita ao cimo da pele.

O teu sorriso nervoso,
o teu olhar como pétala de um Outono florido em odes madrigais.
Que me procura, que me quer, que me despe,
Rasgando roupa e pele, num desejo de ternura.
Mas sonho-te fugir entre dedos que se entrelaçam
E prendo-te.
És minha, agora,
hoje, amanhã e sempre.
Só para mim, presa ao meu pensamento, ao meu corpo,
colada no meu suor, na minha saliva no meu cheiro.
E vou aprisionar o teu cheiro.
E quero comer-te e beber-te em sílabas graves, como os poemas de O´Neill,
sentir-te o vai vem da tua mão no meu corpo,
massajando os músculos cansados de leituras nocturnas em sonetos de Chopin.
De tão cansado, já nem a luz que entrava eu via, nem o vai vem da rua que eu já não ouvia.
E subo pela escada sempre deserta, que ninguém sobe nem desce, piso onde tu pisas e tocas onde eu toco.
E ouço Caetano e Bethania,
E pareço um Adamastor aos olhos de Vasco da Gama.

E foste embora.
Era tarde, meu amor, eu sei.
Mas deixas sempre o teu cheiro para me acordar, para eu rolar para o teu lado da cama, ainda quente.
E nos lençóis ficou marcado o grito que a tua mão soltou,
quando no teu corpo estava eu.

E inventamos de novo o Mundo,
mais e menos por menos e mais
e fechamos um ciclo de vida,
em gemidos de prazer, corpos colados de amor
na direcção vaga do infinito.
Porque te amo.

Comentários

Anónimo disse…
... um dia todos os amores vão ser assim! intensos, inexplicaveis, violentíssimamente ternos, profundamente loucos!
e vou sentir que valeu a pena esperar!
porque só assim vale a pena amar...
sublime! soberbo! incontornávelmente perturbador...
Anónimo disse…
Mas onde tem andado este Homem ?
Que sensibilidade, que jeito próprio. Que forma de escrita, tão diferente, tão própria, tão bonita.
Li o seu blog todo e arrepiei-me.
Vou ser sua fã, e indicar o seu blog.
Pedro Viegas disse…
Agradeço os comentários.
Agradeço a força que me transmitem para continuar.
Espero não desiludir.
Anónimo disse…
Eu já sou tua fã, mas não é de agora.


AS
Anónimo disse…
Puro e simplesmente maravilhoso...
Fiquei sem folego.
Parabéns

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