16 novembro, 2006






E inventávamos o Mundo,
pintando em aguarelas de cor, almas unidas num só gozo.
Como malabaristas, ilusionistas da vida, disfarçando choros,
os nossos choros em gritos de amor.

Fechava os olhos e parecia que
o meu corpo se dissolvia em nada.
E olhava-te no teu corpo de mulher
e mordia-te língua e lábios,
e cheirava formas e aromas do teu corpo.

E tenho vontade de te possuir, uma e outra vez, sem que nada inebrie os meus sentidos, sem cansaço, sem espera,
E olhar-te!
Olhar-te como se olha a vida,
procurando na tua alma a profundeza do mesmo olhar.

E sentir-te feliz num vento de sabor a sal,
do teu corpo que respira a céu aberto.
E sentir-te entregar, como o mar se entrega em orgasmos infindos contra os rochedos.
E passar-te a língua em lugares secretos, só teus, só nossos, onde o coração espreita ao cimo da pele.

O teu sorriso nervoso,
o teu olhar como pétala de um Outono florido em odes madrigais.
Que me procura, que me quer, que me despe,
Rasgando roupa e pele, num desejo de ternura.
Mas sonho-te fugir entre dedos que se entrelaçam
E prendo-te.
És minha, agora,
hoje, amanhã e sempre.
Só para mim, presa ao meu pensamento, ao meu corpo,
colada no meu suor, na minha saliva no meu cheiro.
E vou aprisionar o teu cheiro.
E quero comer-te e beber-te em sílabas graves, como os poemas de O´Neill,
sentir-te o vai vem da tua mão no meu corpo,
massajando os músculos cansados de leituras nocturnas em sonetos de Chopin.
De tão cansado, já nem a luz que entrava eu via, nem o vai vem da rua que eu já não ouvia.
E subo pela escada sempre deserta, que ninguém sobe nem desce, piso onde tu pisas e tocas onde eu toco.
E ouço Caetano e Bethania,
E pareço um Adamastor aos olhos de Vasco da Gama.

E foste embora.
Era tarde, meu amor, eu sei.
Mas deixas sempre o teu cheiro para me acordar, para eu rolar para o teu lado da cama, ainda quente.
E nos lençóis ficou marcado o grito que a tua mão soltou,
quando no teu corpo estava eu.

E inventamos de novo o Mundo,
mais e menos por menos e mais
e fechamos um ciclo de vida,
em gemidos de prazer, corpos colados de amor
na direcção vaga do infinito.
Porque te amo.

5 comentários:

Anónimo disse...

... um dia todos os amores vão ser assim! intensos, inexplicaveis, violentíssimamente ternos, profundamente loucos!
e vou sentir que valeu a pena esperar!
porque só assim vale a pena amar...
sublime! soberbo! incontornávelmente perturbador...

Anónimo disse...

Mas onde tem andado este Homem ?
Que sensibilidade, que jeito próprio. Que forma de escrita, tão diferente, tão própria, tão bonita.
Li o seu blog todo e arrepiei-me.
Vou ser sua fã, e indicar o seu blog.

Pedro Viegas disse...

Agradeço os comentários.
Agradeço a força que me transmitem para continuar.
Espero não desiludir.

Anónimo disse...

Eu já sou tua fã, mas não é de agora.


AS

Anónimo disse...

Puro e simplesmente maravilhoso...
Fiquei sem folego.
Parabéns