28 novembro, 2006


Por vezes dou por mim a questionar-me :
- Para onde vou, de onde venho, o que tenho feito, o que necessito fazer, se existo, se sou mesmo eu, se estou vivo.
Travam os meus neurónios lutas incessantes com uns fiozinhos cá dentro, para se conectarem. Mas por vezes não é fácil, as conecções ou estão lentas ou com dificuldades de ligação.
E questiono -me porque escrevo.
Se já nem tempo tenho para ler as "Visões" e "Sábados", que se acumulam por casa, mais outras que aparecem, mais os livros que vou comprando, de tal forma que aviso sempre;
- "... aqui ninguém mexe!"
para quem não sabe, devoro estas leituras todas de fio a pavio, o que é viciante, bem sei.
Mas afinal porque escrevo?
Tenho amigos que escrevem, conhecidos que escrevem, outros que nem conheço que escrevem também, uns editaram outros não.
Escrevem alguns vizinhos, como o do 6º Dt, mas acho que nem ele sabe. Escreve o Administrador do condomínio papeis que nunca mais terminam. Escreve o Lopes do café, post-it´s, de "coisas-para-fazer".
Escrevia a Joana, que de tanto escrever, ganhou calos nos dedos e anda toda entrapada.
Escrevia o Tó, resmas e resmas de cadernos, que mal terminava queimava numa fogueira para se aquecer no beco lá do bairro, mas esse eu sei, expiava demónios que saíam pela ponta de feltro e voavam como gambuzinos.
Escreve o Zé do Talho, em pequenos papeis tingidos do sangue da faca de corte, "carne do Lombo - Kg x", e escreve o Sr. Padre, sermões dele para todos, e esses mesmos para ele, vá-se lá saber como os cumpre.
Escreve o médico receituários que só ele sabe ler, escreve toda a gente algumas… bizarrices que ninguém percebe.
Uns soltam os diabinhos, outros os diabretes, outros porque sim, outros porque talvez, alguns nem por isso.
Ok, que seja.
Eu? Sei lá.
Já agora ia estar aqui a despir a alma , não?
Ou será que já o estou a fazer?
Será ? Vêem?
Eu não dizia?
Tenho manhãs em que acordar já é difícil, quanto mais fazer a ligação ao computador central para ficar conectado.

2 comentários:

tcl disse...

"As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?"

Eugénio de Andrade

Paula disse...

Faço o comentário através de um poema meu...
Forte abraço!!

O poder das palavras

Palavras são força, alento
São correntes fortes, fortificação!
Que nos escravizam, dominam
Ou libertam e aliviam
São ambíguas, flutuantes
Ou concretas, consistentes
São falsas, dissonantes
Desafinação!
Poéticas
Versificação!
São o que são
Dizem o que vai na alma
Sofrida de desilusão
Mas podem ser
Também hinos de perdão
Feitas similarmente de silêncios
De sons por inventar
São esperança, expectativa
Confiança
Num abraço que fica sempre por dar!