20 novembro, 2006


Ás vezes cometer um erro é a melhor maneira de se chegar a algum lado.
Veja-se Cristóvão Colombo. Se não tivesse cometido um pequeno erro de cálculo, o mais certo é que nunca tivesse desembarcado na América, mesmo que o fizesse, convencido que tinha descoberto o caminho mais curto para a Índia.
Na educação das crianças, erros de cálculo são frequentes.
Como são frequentes os nossos próprios erros na sua educação.
Não existem Humanos perfeitos (graças a Deus) muito menos Pais e Educadores perfeitos.
As crianças cirandam de ocupação em ocupação. E tanto o Estado como a Sociedade Civil, ainda não “procuraram” solução para esta questão.
Bem sei, que para muitos Pais e muitas mentalidades, é um “bem” a criança estar ocupada nos atelier´s, nas Escolas, nos Colégios, nos Jardins. Sempre não “chateiam”, não “ocupam” o seu tempo. E são esses Pais, que na sua época, brincavam nas ruas, corriam por jardins, jogavam á bola em qualquer local e aprendiam cedo e aos trambolhões a andar de bicicleta.
Hoje, são esses que não “têm tempo” para os filhos, que se zangam se sujam o calção ou o bibe e se zangam também se “descobrem”que os filhos nem de bicicleta sabem andar.
E se por um lado os ocupam, por necessidade funcional ou familiar, por outro querem enchê-los de informação para que sejam uma espécie de “Heróis do futuro”.
São eles que “despejam” crianças em horários de desporto, “empurram-nas” para ATL´s, “encostam-nas” em cursos de línguas e catequeses, e o tempo que sobra para brincar, para serem verdadeiramente crianças, não existe.
Deixam de ter tempo para conduzir as suas brincadeiras e crescem com a responsabilidade da competição, numa sociedade cada vez mais marginalizadora, competitiva e pouco social.
Os espaços de aprendizagem e sociabilização estão-se a perder, o pouco tempo que os pais passam com os filhos, por outro lado, faz com que sejam mais protectores, e assumam muitas vezes pelos próprios filhos, as responsabilidades e obrigações destes.
É a desculpabilização sistemática e a permissão para quase tudo, como compensação pelo pouco tempo passado em conjunto. Criam-se assim crianças sem regras, sem margens definidas, sem comportamentos adequados.
As crianças já não vêem nos Pais alguém que os cuida e com quem podem contar, quase não os vêem. O seu herói, o seu Porto de Abrigo. Alguém a quem imitar (a criança necessita dessa ferramenta no seu processo de crescimento interior). A posição corporal, o manear das mãos, do corpo, do pentear, das expressões, são cópias dos Pais.
Os Pais, por sua vez, vivem com o pensamento no “melhor” dos filhos. E mergulham em ansiedades e angústias de contornos particularmente patológicos.
Nos séculos passados, a vida dependia do berço em que se nascia, da fortuna familiar ou posição social.
Hoje, a criança vive mergulhada numa piscina, salta barreiras de atletismo, gravita no Jardim-de-Infância, escuta lições de piano, fala Inglês e Francês, conhece Geografia, Geologia e Meteorologia, tem explicações, e tornam estes dez-reis-de-gente, em potros de competição.
A vida já não se vive, compete-se.
Crescem, tornando-se licenciados, com um grau académico X, bom atleta de valor Y, um profissional de excelência, com um emprego de truz, férias de traz, uma casa de sonho de elevado valor, restaurantes de luxo, ginásios de elite, uma mulher fina, com unhas de gel, sobrancelhas postiças, mamas com silicone, lábios tratados na Michelyn, loira e bem vestida.
E ele com consultas de luxo em clínicas de Psiquiatria dos Alpes Suiços toma doses cavalares de Prozac – mas isso não interessa nada - a vida dele é realmente um sonho, foi isso que os pais programaram.
E os Pais? esses, olham-se um dia ao espelho e revivem os poucos momentos passados com os filhos.
Afinal o que sabem deles? O que partilharam? Que dificuldades sentiram? Que diálogos tiveram? Quantas feridas trataram? Quantas idas ao Pediatra? Quantas fraldas mudaram e banhos lhes deram ?Quantas vezes o abraçaram, beijaram, aconchegaram a roupa e disseram simplesmente…. Amo-te muito meu filho…!








P.S. Desculpem, nunca faço aqui comentários externos. Nem de pessoas, nem de politica, nem de casos.
Este espaço não o quero para isso.
Mas existe um, que me deixou angustiado. O das duas irmãs que ficaram órfãs, assistindo ao acidente dos pais, esmagados contra a própria viatura.
Elas estão separadas, cada uma com seus avós. Separadas pelo Tejo, uma em cada margem.
Juntem-nas por favor.
Elas necessitam fazer o luto, juntas.
Necessitam estar uma com a outra e chorarem os pais, juntas.

Mais do que qualquer ajuda externa, necessitam antes de mais, uma da outra.

3 comentários:

asn disse...

E eu, que já sou avô, à espera de um terceiro neto, a Carolina, a lembrar-me dos meus tempos de criança.
As brincadeiras que tínhamos, em grandes grupos, nas nossas ruas, a malta da Rua dos Loureiros e a da Rua Silva Gaio, futebol, corridas a skiar em cima de tábuas ensaboadas por baixo, ladeira da Sé até ao campo de treinos do Académico de Viseu.
E a lembrar-me também de como convivíamos com os nossos pais e com os nossos tios e primos. Como éramos capazes de viver uma vida cheia de laços amigos, familiares, que se entrelaçavam e nos ajudavam a criar as nossas âncoras para a vida.
Como vão longe esses tempos!
Será que os filhos da actualidade terão, inevitavelmente, que viver sozinhos ou mal acompanhados, sem um mínimo de afecto, real, efectivo, dos seus progenitores?
Que humanidade se está a programar para o Futuro?!...
...
Sinto-me angustiado pelos jovens de hoje. Será que estou a ficar velho, demasiado agarrado à ideia de que antigamente é que havia uma vida de efectiva intimidade familiar? E que essa afectividade é imprescindíel para a formação do ser humano?
Se não, sei lá!?...
António

Pedro Viegas disse...

Pois é António. Os jogos da casquinha (casca de laranja) que jogavamos de porta para porta tentando marcar golo com as mãos, as voltas a portugal em caricas "vestidas" com papeis coloridos, os rolamentos, o tostãozinho para o St António, com uma cascata feita em pleno passeio, eu sei lá, tantas e tantas brincadeiras.
E não é saudosismo, pois cada época, seu tempo.
Só que estamos a criar jovens sem valores, sem o culto da boa educação e do respeito pelos outros e por si próprio, enviando-os para ringues de competição desenfreada.
Mas cabe-nos a nós tentar contrariar, por pouco que seja, esta desagregação.

MeuSom disse...

Vês?!... mas como é que é possivel não passar por este espaço sempre?! Tu tens um "não sei quê" que me prende por aqui.