Sara, abriu a pasta, e retirou o Moleskin preto.
Puxou da caneta que conservava religiosamente vai para dois anos, desde que ele sucumbira nos seus braços de Morfeu.
Escreveu-lhe:
“… A lua está fria e distante. Tudo está longe de mim. O ar vai ficando mais pesado porque o tempo não passa.
Há coisas a começar e a acabar, neste exacto instante. Vidas e sonhos, sonhos e vidas, e mar e estrelas e palavras e desejos e encontros. Amores encontrados, amores perdidos, outros desajeitados, quantos esquecidos.
E eu…. Eu estou aqui parada. Tenho pouco cabelo já. A químio arrasa-me os glóbulos, e tudo gira em volta de nada.
Não sei o que espero.
Não sei se estou à espera que algo comece ou acabe em mim…”

Rasgou a folha e escondeu-a debaixo da almofada, adormecendo.

Ele respondeu, sem tardar.

“… Sabes Sara, tudo deixa de ter importância quando falas, quando escreves, quando me olhas.
Pouco me interessa a duração do tempo. O tempo é tempo, nada mais.

O importante para mim, é o momento. Este momento que vivemos.
E vivemos hoje, porque amanhã não sabemos. Nem eu, nem tu. Ninguém o sabe.
Tornaste-te uma lutadora, uma Mulher coragem. O teu exemplo e de outras Mulheres coragem, esses sim, perdurarão pelos tempos.
E hoje sou feliz, e canto e salto e grito e abraço-te porque te quero, porque te tenho.
Porque o hoje é muito mais do que o ontem e certamente do que amanhã.

Porque o vivemos, porque o sentimos, porque assim, aqui, estamos os dois.
Sabes, Sara. Toda a minha vida, recordei pessoas, sítios, cheiros, sabores, palavras, casas, paredes, luzes, estórias… sempre recordei vivências, instantes, memórias. Eu que nunca me imaginei de outra maneira, senão nostálgico...
Até que me diagnosticaram uma obsessão.
Mas, estou curado dessa.
Agora só me vejo no momento, neste, contigo, neste nada que é tudo.
Sei que por vezes gelam as madrugadas. Sei que o meu amor, na tua boca, mais não é que sal dissolvendo-se mais e mais a cada dentada de vida vivida nas horas roubadas aos dias.
Já sabia que o sofrimento faria par comigo.
Mas escolhi assim, amor! "

Comentários

tcl disse…
Belíssimo texto.
Viver o presente, recordar o passado, ter esperança no futuro.
Gostei muito.
BiChOs Do MaTo disse…
Obrigado pela visita ao meu blog e pelas palavras que deixaste.
Adorei.
Em relação a este post, ao qual me identifico bastante, está tudo certo....depois de tudo isto ultrapassado, o tempo jamais será visto como antes, já não me meterá medo..........serei paciente.
Tal como a beleza, aprendi que esta se mede por aquilo que levamos dentro, pelo que sentimos e por aquilo que fazemos pelos outros.
A pessoa que era, vaidosa, preocupada com a beleza externa, a todo e qualquer momento, preocupa-se agora em ser feliz e fazer ou outros ainda mais felizes.
Beijinhos grandes
Lara

Mensagens populares deste blogue

O MUNDO DE PERNAS PARA O AR

Deixa ficar assim…

DESEJOS E DEMÓNIOS