Tudo o que fuja da rotina ou do instalado, do sempre igual e constante marear, as alterações, provocam roturas, confusões e perplexidades.
Tudo muda, muita coisa muda, umas para o bem, outras para o mal, mas tudo acaba por mudar.
E muda quando queremos, quando estamos predispostos ou mesmo quando nem pensamos tal.
Temos receios de grandes alterações, de grandes mudanças, que façam mexer no quotidiano, que agite a nossa vidinha catolicamente instalada, que faça sombra à própria sombra.
Mexer em processos ou estilos de vida ou a qualquer coisa diferente de ligar a ignição, meter a primeira no automóvel e arrancar, carregar em botões, meter a chave à porta ou apanhar o 46 para o trabalho.
Sentar no mesmo café, atendido pelo mesmo empregado, ver o mesmo vizinho, levar as crianças à escola, assistir os mesmos programas, as férias no mesmo local de farnel na mão, a acomodação permanente e constante.
Mas tudo muda, muitas vezes a ritmo de caracol, devagar, lentamente, tudo muda.
Levamos tempo a assimilar as mudanças, a perplexidade instala-se, e a nossa adaptação depende do tempo que levarmos a fazê-lo.
Temos medo que essas mudanças provoquem instabilidade, que agitem águas adormecidas, que mexam no nosso “modus vivendi”, na operacionalidade das nossas vidinhas.
Mas todos conseguimos adaptações, flexibilizando para podermos fazer e conhecer coisas e pessoas diferentes. O problema que se coloca não está na mudança propriamente dita, mas no nosso eu, interior. Na memória do que foi, no passado que nos agita fantasmas, nos pensamentos que adjectivam as meninges, que nos obriga a comparações, e que por isso afecta a mudança.
E abalam-nos pensamentos, filmes antigos, vivências belas ou tenebrosas, desassossegos instalados. Fechamo-nos em conchas ou caixas de “Tupparware” hermeticamente fechadas, silêncios labirínticos, escondendo-nos do que nos pode pôr à prova. Afinal, é sempre muito mais fácil não enfrentar, do que dar com os costados nas verdades que nos surgem aos olhos.
Emocionalmente somos afectados. Choramos, arrepelamos os cabelos, revoltamo-nos, e sentimo-nos marginalizados e colocados no cantinho do sótão das coisas velhas da vóvó. De um momento para o outro, somatizamos todos os maus momentos, as conversas que nos “tocaram”, as atitudes que magoaram, o mal que nos infligiram, as “trocas” que afectaram, os processos descontruídos.
Qual Cinderela com madrastas cínicas e feiosas, gritamos amarguras que nos atiraram para esta má sorte, e tendemos a sentir bruxinhas velhas de vassoura em riste a manietarem-nos a memória.
Mas temos de enfrentar, limpando o pó sujo da alma e as teias de aranha do coração… e já agora… tiramos a vassoura da bruxa má e em vez de a montarmos para fugir, imaginamo-nos o “Batman” e damos nós a varredela final… que tal?

Comentários

tcl disse…
"Mudam-se os tempos mudam-se as vontades
Muda-se o ser muda-se a confiança
Todo o mundo é composto de mudança
Tomando sempre novas qualidades

Continuamente vemos novidades
Diferentes em tudo da esperança
Do mal ficam as mágoas na lembrança
E do bem (se algum houve) as saudades

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía"

E, o que é mais interessante em relação a isto, é que do sec. XVI para cá, nada mudou
Anónimo disse…
mudar!... imagino que tu próprio mudaste desde que escreveste este texto! e, se bem te leio nas entrelinhas... se bem te entendo, mudaste para melhor! porque a raiva surda que te impede de "mudar" é também aquela que te move a tentar decifrar o enigma do querer (e não querer!) mudar... e procuras, como eu... o sentido da mudança... e queres!... e porque não?!...

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