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A mostrar mensagens de Dezembro, 2006
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"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um individuo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade de Acreditar

que daqui para frente...

tudo vai ser diferente ...!



"Carlos Drummond de Andrade"
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Existem estradas sem direcção e caminhos tortuosos a percorrer.
Acontece-nos em quase tudo, um esforço tremendo para conseguir pequenos nadas.
Como um Dali, as estrelas pintaram o céu, troquei os passos que esperava dar e amparei-me para não cair.
Sei que quase ninguém me lê neste canto.
Coloco letras em frases seminuas e abandonadas. Sou eu e elas, as letras.
Por vezes consigo vê-las saltar pelo papel, caminhando não sei porquê nem que direcção tomam,
e com dificuldade junto-as como um pastor o faz com suas ovelhas.
Essas letras, não são um rebanho, mas talvez, inquietas criaturas que fazem questão de perturbar o meu sossego.
Ordeno-lhes disciplina cuidada, rigor, contenção, mas as malvadas correm pelos textos, saltam parágrafos, e brincam, rindo muito, muito, pelo esforço que faço em mantê-las ordenadas.
Uso papelinhos que escrevinho e acumulo nos bolsos, como se levasse daí alguma vantagem.
Mas, não raras vezes, os papéis de pouco servem, saltando da memória para o teclado, frases, ideias, l…
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E agora?
Depois da euforia dos sacos na mão, rabanadas recheadas, Peru e Bacalhau com todos em fartas mesas, dos carros estacionados em 2ªs e 3ªs filas, para um ultimo retoque no presente que esquecemos, nos bons dias dados a correr, o abraço apertado e aperto de mão esfuziante, àquele que ainda ontem vimos e fizemos de conta-que-não-pois-ele-é-um-chato-do-caraças-e-eu-não-tenho-paciência.

Do Feliz-Natal-e-Festas-Felizes-e-se-não-nos-virmos-um-Bom-Ano-para-si-também, que sai a correr sem significado e sem jeito, em sílabas mastigadas com os restos do bolo-rei que ficou do café tomado no centro comercial.

Do frenesim de cores, de embrulhos, de laçarotes azuis, vermelhos, verdes, multicores, da camisola Gant, do lenço Burberry´s, do sapato Chanell ou da ultima-moda-xpto-eléctrica-que-ainda-ninguém-tem-e-faço-um-grande-vistaço.

E agora?

Largados os últimos, cirandando na rotina normal dos nossos dias, onde fica tudo isso?
Onde colocamos a excitação das ultimas semanas, dias, horas, minutos?
Ond…
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Na Marta já tentou acertar 3 vezes no coração, pontaria desafinada, danadinho.
Setas que pretendo atire e acerte em cheio... nada!.
Grave problema para quem faz da vida, Cupido.
Anda distraído, cabisbaixo, olheirento. O meu Cupido não anda bem.
Sentimentos de amargura pela falta de pontaria apresentada.
Como ontem... "...Vá, Cupido acerta naquele...."
E ele, apertando-o-arco-contra-o-peito, susteve respiração, disparou e... flecha no chão.
Nos treinos já caiu de telhados, tropeçou em baldes, bateu com a cabeça em postes, quase foi atropelado.
Quando dispara na pessoa errada, deita a correr até conseguir retirar a seta.
E chega-se perto de mim e fala-me ao coração pedindo desculpas e afagos.
Quantas vezes lhe digo, para ir tentando..."um dia vais conseguir..." "andas nervoso..." "ainda nãoapanhaste o jeito..." "são pequenas fases..." "muda de arco... "
Pede-me desculpa atrás de desculpas, e eu... desculpo, claro.
Pobre Cupido.
Eu acho que …
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Se embalares o meu sono
numa noite de cidade cansada, num imenso adormecer.
Num ritmo citadino, fluido, pedindo retorno à intimidade.

Se te aconchegares em mim,
enrolando-te em sons e aromas de fragrâncias campestres em corpos cansados e adormecidos, onde as palavras perdidas de sentido ecoam num espaço reduzido, como reduzido o nosso tempo.

E ouvimos ruídos de delinquentes com um passo a descompasso, cambaleando como “zombies” inebriados ao som do álcool que lhes tilinta nos olhos.

E embalo o meu sono em silêncio recolhendo despojos de mim, fazendo de ti concha em mim.
E guardo sorrisos e carícias e memórias que congelo para usar amanhã num qualquer micro-ondas de um qualquer lugar em que me encontre

E fecho a cadeado as minhas fraquezas não deixando transpirar um único acorde da musica que entoo, embalando sozinho o teu corpo em mim.

Fecho os olhos e resigno a minha condição a um interior de oceano sem fim.
Coberto de quando em quando num manto cerrado de nevoeiro.
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Como gosto de morangos rubros e suculentos numa tarde de verão...
como gosto de dias ensolarados despontando de névoas matinais em promessas de vida ...
como gosto da chuva a fustigar-me o rosto num qualquer entardecer...
do mar infinito, sereno ou alterado cuja imagem não se repete nunca...
da estrela cadente que trespassou o olhar sem sequer permitir formular um desejo ...
do dia que amanhece e adormece e amanhece de novo, sempre em tons de surpreendente colorido
de mim e de ti e de outros que passam e espreitam um gotejar por entre portas,
de um Porto ribeirinho, de uns bons malandros ou janotas aprumados,
de damas de chapéu arqueando sobre ombros com peles de boutiques finas,
de pedintes, de ouvintes, de um dragão vencedor.
Da água fria da foz e as suas margens reluzentes, como reluzentes as francesinhas do Capa Negra.
De um carro eléctrico que sobe os clérigos a compasso, dando graças ao granítico monumento
E a outros que povoam esta cidade de gente bela, de gente boa.
De um Porto sentido, po…
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Ela é uma matadora.
Bamboleia os quadris, umbigo ao vento, pele tratada, unhas de gel, mamas de silicone, pestanas de plástico, sobrancelhas de feltro.
Ela é uma vedeta.
Caminha como se estivesse sob holofotes.
Eles param, torcem e retorcem o pescoço, alguns já têm jeitos, afagam os bigodes e dão um ar de galanteio.
Pressente os olhares e bamboleia como numa dança erótica o seu corpo semi-artificial.
Entra no café da avenida e do barulho, silêncio gélido se faz.
Entrou a matadora.
As mulheres desdenham a imagem e comentam em surdina ...os “valha-me Deus, coitada...!, e
..."olha-me esta pindérica...", num misto de inveja e troça refinada.
Os Homens, são dominados por um resfriado de gentileza no trato, e os “faça favor...”, “claro que sim, concerteza...”, espalham-se pelo balcão.
Um olhar mais maroto, atravessa a sala.
O Sr António, velho lobo do mar, faz o Sudoku.
Duas filas feitas, engano no 8, apaga o 4, decide-se pelo 3.
Lança novo olhar e um “Ai se eu fosse mais novo...”- ecoa.
A matad…

Nódulo que tapa a alma

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Descobriu em si um nódulo que lhe amordaçava a vida.
Sentiu-se perder as forças e a razão. A esperança esfumou-se. Em breves segundos revisitou todos os lugares, relembrou todos os momentos, todo o seu tempo.

Estática, compenetrou-se das razões que não achava e eclodiu num choro compulsivo.
Arrumou-se em si mesma como um trapo que se enrola.

Sentia o corpo ceder como se não habitasse nele e o visse algures por aí.
Os músculos quase não reagem, tem uma ansiedade que não acaba e nem uma única célula que não esteja virada do avesso.

Pensou imediatamente porque razão Deus a tinha abandonado. Mas todos sabemos que Ele não pode atender a todos os necessitados e enquanto não arrumar todo o seu expediente, não se volta para aqui.

Amélia, sentiu um arrepio gelado de dor que atravessa a alma.
-"A morte passou por aqui, … exclamou."

Eu bem senti, que o tempo hoje estava diferente e que as brincadeiras no parque, geladas também elas, assim estavam, porque a morte andou por lá a brincar…
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Quero viver como um gato.
Enrolar-me nas tuas pernas e ronronar para que me afagues.
Beber leite em tigelas de plástico e comer peixe fresco pelas tuas mãos.
Quero pousar relaxado no teu sofá e encostar a minha cabeça no teu colo como quem não espera por amanhã.
Quero deliciar-me entre os livros que estás a ler e lamber o meu pelo depois do teu afago.
Quero ouvir-te ralhar quando espalho pelos por toda a casa e arranhar-te a pele quando brincas comigo.
Quero escutar os teus desabafos mesmo que não os entenda e miar de noite enquanto dormes.
Quero cheirar-te a pele e afogar-me no teu perfume de princesa.
Quero ser gato para subir aos telhados, saltar de beiral em beiral, ter sete vidas e dessas sete, viver catorze contigo.

Contra a Indiferença !

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Andamos ocupados com lembranças, prendas, corridas de ilusões próximas e distantes, numa mistura de deslumbramento com luzinhas a piscar em êxtase de consumismo frenético.

Passam por nós, novos e velhos, desenganados uns, coitados outros, cabisbaixos, sujos, melancólicos de tempo perdido, não se percebendo, tamanha a crueldade destes tempos, onde começa cada um de nós e acaba cada um dos outros.
Onde completamente indiferentes pela vida, não cedem lugar a sonhos realidades ou fantasias, e sem esperança no futuro, vegetam em circuitos urbanos.

Olhos opacos, pele tisnada e gasta, mãos sofridas da escravatura do sonho.

Percorro estas ruas de Dezembro, como de apeadeiro em apeadeiro, enchendo a memória e o olhar, para despejar na estação mais próxima, lágrimas por rostos de criança a quem foi prometido um Mundo e a quem deram, nada.

E se cada um de nós se plantar em pensamentos distantes e imaginar infâncias assim vividas, como seria o nosso olhar?
Como seria o tempo, de um tempo sem tempo, em …