08 dezembro, 2006

Nódulo que tapa a alma


Descobriu em si um nódulo que lhe amordaçava a vida.
Sentiu-se perder as forças e a razão. A esperança esfumou-se. Em breves segundos revisitou todos os lugares, relembrou todos os momentos, todo o seu tempo.

Estática, compenetrou-se das razões que não achava e eclodiu num choro compulsivo.
Arrumou-se em si mesma como um trapo que se enrola.

Sentia o corpo ceder como se não habitasse nele e o visse algures por aí.
Os músculos quase não reagem, tem uma ansiedade que não acaba e nem uma única célula que não esteja virada do avesso.

Pensou imediatamente porque razão Deus a tinha abandonado. Mas todos sabemos que Ele não pode atender a todos os necessitados e enquanto não arrumar todo o seu expediente, não se volta para aqui.

Amélia, sentiu um arrepio gelado de dor que atravessa a alma.
-"A morte passou por aqui, … exclamou."

Eu bem senti, que o tempo hoje estava diferente e que as brincadeiras no parque, geladas também elas, assim estavam, porque a morte andou por lá a brincar às escondidas.
-“ Mas logo agora, que até tinha a vidinha mais composta” – disse

Mas não podemos esperar tempo nem vontade, pois nada acontece quando se espera.
A vida prega-nos rasteiras inesperadas, e não escolhe tempo nem lugar.

Eu sabia aceitar o meu inverso, sabia aceitar tumultos de alma como aqueles que me invadem a existência.

Eu acreditava em muitas coisas.
Estabelecia conceitos, mas sempre fraquejei quando tentei pô-los à prova.
Sempre tive uma vida muito previsível, muito dois mais dois são quatro, uma vida mortal e lúcida, transparente e pouco deslumbrante.

Diga-se de passagem que de deslumbrante também, sempre tive pouco.
A beleza, esqueceu-se de pousar por aqui e foi bater a outras portas, os óculos com graduação tipo fundo de garrafa pouco me abonou, a maldita da espondilose que toda a vida me atacou, e agora por fim, até tendinites ganhei, do trabalho na fábrica.

Mas a minha vida era em tudo igual a um relógio, com os ponteiros rodando, sempre ao mesmo ritmo sempre no mesmo compasso. Tic tac tic tac. Voltas e voltas, nos segundos, nos minutos nas horas, nos dias, por aí fora. Até hoje...

Até ao dia em que me encontro minada no corpo e dilacerada na alma.

E quando tento percorrer com os meus olhos o desconhecido, fica tudo mais complicado pelo indecifrável futuro.
“… mas preciso encontrar forças e razões para lutar…”

Vejo almas que sorriem, e tento entender porque sorriem.
As almas vagueiam em espaços recônditos. Tento perceber porque andam assim por aqui.
Para onde vão.

E caminham rapidamente num descontrolo de movimentos. Mas devem ter destino, se não porque aumentariam o seu passo tornando-o apressado?
Uma alma sem destino não precisa aumentar a cadência do seu andar…

Elas choram quando me olham e trazem cicatrizes espalhadas pelo corpo, que em tempos foi belo, e fazem-no por mim… mas eu não sei como fazer para que elas voltem a sorrir…
Mas porque haveriam de sorrir?
Amélia levantou-se.
Limpou as lágrimas e sorriu. Sorriu como nunca tinha sorrido.

Olhou pelo canto do olho e viu a vida lá fora.
Sentiu vibrações em seu redor, boas vibrações, sussurros de alma nos seus ouvidos e sorriu, sorriu de novo, e sentiu uma luz forte, como um sol invadindo e irradiando felicidade, renovando o seu corpo.
“… sinto que preciso reaprender a viver…”

… e sentir a minha alma ferver de lava incandescente de vida e apelo à vida, como um vulcão que cospe lava por todo o corpo e o faz estremecer de calor e, de novo… de paixão.
Paixão pelos que me rodeiam, amor pelos filhos, pais, marido, irmãos.

E uma alegria imensa por saber que estou viva e por me ter sido concedido o sabor o prazer e o poder de sentir a vida.
… E abraçou-se de novo à vida, vivendo a vida de novo!

3 comentários:

pnet disse...

Muiro giro

Anónimo disse...

Desculpe a invasao mas eu tive mesmo que ver o seu blog ... Algo me atraiu ... e nao pude deixar de comentar ... Gosto bastante ... continue a 'postar'

Pedro Viegas disse...

De todo.
Agradeço as visitas e os comentários. Essa é a "vitamina" que ajuda a continuar.