26 dezembro, 2006





E agora?
Depois da euforia dos sacos na mão, rabanadas recheadas, Peru e Bacalhau com todos em fartas mesas, dos carros estacionados em 2ªs e 3ªs filas, para um ultimo retoque no presente que esquecemos, nos bons dias dados a correr, o abraço apertado e aperto de mão esfuziante, àquele que ainda ontem vimos e fizemos de conta-que-não-pois-ele-é-um-chato-do-caraças-e-eu-não-tenho-paciência.

Do Feliz-Natal-e-Festas-Felizes-e-se-não-nos-virmos-um-Bom-Ano-para-si-também, que sai a correr sem significado e sem jeito, em sílabas mastigadas com os restos do bolo-rei que ficou do café tomado no centro comercial.

Do frenesim de cores, de embrulhos, de laçarotes azuis, vermelhos, verdes, multicores, da camisola Gant, do lenço Burberry´s, do sapato Chanell ou da ultima-moda-xpto-eléctrica-que-ainda-ninguém-tem-e-faço-um-grande-vistaço.

E agora?

Largados os últimos, cirandando na rotina normal dos nossos dias, onde fica tudo isso?
Onde colocamos a excitação das ultimas semanas, dias, horas, minutos?
Onde colocar os velhos que nos fizeram companhia na Ceia de Natal?
Outra vez no contentor das coisas raras encostados uns aos outros numa inesgotável fila de encaminhados para um destino comum?
Onde deixar o pobre pedinte ou o “tontinho” do saco às costas e Phones de trabalhador das obras nas orelhas a imitar o Michael Jackson?
Será que os vamos pôr de lado mais um ano, como fazemos com os presépios, o Menino Jesus em palhinhas e a vaquinha sorridente que olha o céu esperando a chegada dos Reis Magos?
Será que não podemos começar a sorrir em lugar de apontar o dedo indicador?
Será que podemos “perder” uns míseros minutos e olhar o pobre, o velho e o doente que se cruza connosco diariamente?

Será que já fizemos o esforço de olhar à nossa volta e ver o vizinho, o miúdo que joga a bola no pátio ou no jardim e a senhora doente que com 125 €/mês de reforma, todos os dias atravessa a rua para carcomida pelo tempo, ir buscar o seu alimento feito de leite e de pão?
Será que a indiferença não nos afectará um dia a todos nós directa ou indirectamente?
Não seremos mais gente, mais preenchidos se olharmos com um sorriso quem nos envolve com passos vagarosos ou apressados um dia após outro?

Teremos de chegar a um outro Natal e calcorrear os mesmos caminhos na direcção do nada, sem conseguirmos realizar um dos nossos destinos de vida na vida, tornando “o Outro” um pouquinho mais feliz?

Vamos continuar a olhar de lado para os sujos, doentes, oprimidos, velhos, pobres e demais, e atirar para os outros os ónus sociais das misérias que habitam paredes-meias com os excessos?

Porque será que este Mundo continua a organizar as 15h do orgasmo colectivo e não faz as 16 h da visita a uma família carenciada e lhes leva pão, roupa, leite, dignidade, sorriso, felicidade e um amanhã melhor?
E agora?

4 comentários:

Anónimo disse...

Li e incluo-me nas tais que não perde tempo com o nada, o sem rumo, o andar-por-andar... antes procuro tornar o meu tempo digno, indo ao encontro da família,dos velhos e sua sabedoria, dos amigos, do doente ao saudável, do companheirismo, do que precisa mas sabe retribuir com um olhar...enfim, é importante andarmos antentos ao que nos rodeia, ainda que por vezes andemos demasiado depressa e atarefados com os nossos problemas e pensamentos, prespegando o olhar no chão, para nos certeficarmos que estamos no passo certo...É importante, que mesmo nesses dias, não nos esqueçamos de olhar para cima, de cabeça erguida e procurar a estrela mais bonita que brilha mesmo de dia...
Graça Sapinho

tcl disse...

Ser solidário começa por nós, na nossa atitude para com os outros. Olhar à nossa volta, não ignorar, não fingir que não vemos ou que não ouvimos. Procurar o olhar, dar um sorriso e repartir o que temos com quem precisa mais do que nós. E isso pode, deve, fazer-se todos os dias do ano como um princípio de vida. É dificil mudar o mundo. Mas se eu, tu, nós, tivermos um comportamento para com os que nos rodeiam que nos faça sentir que somos pessoas melhores e que contribuímos para minorar a miséria dos outros, seja ela material ou afectiva, é já um grande passo.
A mensagem que aqui deixo é pois: comecemos por nós, esperando que o nosso exemplo crie raízes para uma cadeia de solidariedade crescente.

Pedro Viegas disse...

São essas as palavras que têm de ficar registadas. Se cada um de nós todos os dias der um pouquinho de si para fazer um outro feliz, estará a contribuir, para essa CADEIA DE SOLIDARIEDADE CRESCENTE.

MeuSom disse...

:)))