30 dezembro, 2006


Existem estradas sem direcção e caminhos tortuosos a percorrer.
Acontece-nos em quase tudo, um esforço tremendo para conseguir pequenos nadas.
Como um Dali, as estrelas pintaram o céu, troquei os passos que esperava dar e amparei-me para não cair.
Sei que quase ninguém me lê neste canto.
Coloco letras em frases seminuas e abandonadas. Sou eu e elas, as letras.
Por vezes consigo vê-las saltar pelo papel, caminhando não sei porquê nem que direcção tomam,
e com dificuldade junto-as como um pastor o faz com suas ovelhas.
Essas letras, não são um rebanho, mas talvez, inquietas criaturas que fazem questão de perturbar o meu sossego.
Ordeno-lhes disciplina cuidada, rigor, contenção, mas as malvadas correm pelos textos, saltam parágrafos, e brincam, rindo muito, muito, pelo esforço que faço em mantê-las ordenadas.
Uso papelinhos que escrevinho e acumulo nos bolsos, como se levasse daí alguma vantagem.
Mas, não raras vezes, os papéis de pouco servem, saltando da memória para o teclado, frases, ideias, lembranças, que fintam esses papelinhos que nem Garrincha num drible vertiginoso.
Qualquer composição frásica com mais de três palavras, torna a minha facie sorridente.
E olho-me no espelho da alma revelando-me como numa foto a cores.

O meu coração gosta de entoar melodias (daí algumas taquicardias e extra-sístoles que me assaltam), parecendo por vezes um sino de bater repenicado.
Habitualmente anda exultante, por vezes deprimido, desassossegado, carente, desolado, mas isso é porque exijo muito dele, como de mim, aliás.
Como um Rembrandt, procuro simbiose nas cores e nos traços. Pincelada ali, retoque acolá, faço de um grotesco um quadro afinado.
Procuro imitá-los não repetindo erros, aprendendo com eles, mas como não uso máscara de protecção, dando o peito às balas, vou acumulando cicatrizes.
Imagino a quantidade despropositada de sinapses que o meu humilde cérebro desperdiça ao pensar. E como vou amontoando, pensamento, trabalho, leituras, investigação, mais pensamento e mais trabalho e tudo um pouco demais, tenho medo que o meu cérebro se auto esvazie.
E muitas vezes, esgotado que estou, é essa a sensação - de auto esvaziamento.
Aí tento reciclar.
Verde, azul, amarelo, qual Ecoponto, até conseguir pôr tudo no lugar.
Pois… a produção excessiva dá origem ao desperdício, não é?
– Moderação menino, moderação…

4 comentários:

Paula disse...

O texto é uma verdadeira apologia da escrita!

Sabes que ninguém te lê neste canto? Enganado estás!!
As palavras perturbam é certo, mas elas também têm o poder de transmitir emoções.
Atravês das palavras também se espelha a nossa alma, embora um quadro pintado também o faça.
Não tenhas receio que o cérebro se auto-esvazie. Não irá acontecer! Pensarás e terás sempre essa postura de misturar termos,abraçar conceitos e trazê-los até nós!

MeuSom disse...

Precisar de ler-te é um vício.
Ler-te é alimentar o vício.
E quanto mais se alimenta um vício, progressivamente se torna maior a carência desse alimento!

MeuSom disse...

Precisar de ler-te é um vício.
Ler-te é alimentar o vício.
E quanto mais se alimenta um vício, progressivamente se torna maior a carência desse alimento!

Anónimo disse...

neste canto sempre haverá coração a engolir-te as palavras perturbadoras