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Feliz Ano Novo 2008!

"Dentro de alguns dias, um Ano Novo vai chegar a esta estação.

Se não puder ser o maquinista, seja o seu mais divertido passageiro.

Procure um lugar próximo à janela desfrute cada uma das paisagens
que o tempo lhe oferecer, com o prazer de quem realiza a primeira viagem.

Não se assuste com os abismos, nem com as curvas que não deixam
ver os caminhos que estão por vir.

Procure curtir a viagem da vida, observando cada arbusto, cada riacho,
beirais de estrada e tons mutantes de paisagem.

Desdobre o mapa e planeie roteiros.

Preste atenção em cada ponto de parada, e fique atento ao apito da partida.

E quando decidir descer na estação onde a esperança lhe acenou não hesite.
Desembarque nela os seus sonhos...

Desejo que a sua viagem pelos dias do próximo ano 2008, seja de
PRIMEIRA CLASSE."



Muito OBRIGADO
pela força,
pelas visitas,
pela paciência.
e pela Amizade.


JOSÉ PEDRO VIEGAS
Sabias-me de cor pelo cheiro, aroma fresco de ternura
Pela música translúcida dos teus lábios em mim

E sabendo-me partido em pedaços, colavas com beijos, saliva e suor na pele rasgada
…e descobríamos o Mundo,
pintando em aguarelas de cor, almas unidas num só gozo.

olhando-te no teu corpo de mulher
Esboçavas rabiscos teus em mim
Como só nós podíamos inventar, novas cores, novos aromas, novos e renovados desejos.

E quando exaustos fechavam os olhos, ainda éramos nós, pinturas soltas e alegres de amantes pendurados no desejo de aguarelas nuas como Van Gogh.

E ver-te nem que pela ultima vez,
Inebriante desejo de orgasmos infindos, como pétalas que se soltam em lugares recônditos do teu corpo, em cheiros e formas e desejos

E ver-te feliz

Com solfejos de lábios em mim, ardendo num contorno, retorno de doces morangos em pele humedecida pelo toque de frutos silvestres em chocolate feito eu.

E busco e rebusco imagem de ti
Com ganas de te engolir inteira, de um trago, de uma só vez
E desapareceres em mim, c…

Paranoico...

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Detesto Dezembro.
Por mim saltava de Novembro directo a Janeiro.
Largava as compras e os enfeites de Natal mais as montras cravejadas de coisas bonitas e eu cabisbaixo, melancólico e cansado.

Tenho um cisco no olho e uma lágrima. Lá no canto, bem no canto do olho. Aí mesmo. Dá p´ra ver ?... Que coisa… eu nunca tenho lágrima no olho…

E tanta gente nas ruas… mais parece Pequim.
O que anda esta gente toda a fazer ?
Sorriem ? Mas porquê ? Desejam Boas-Festas ? Feliz Natal ? Mas será que as festas são mesmo boas e o Natal tão feliz assim ?

Nestas ruas apinhadas de gente, parece que ando de metro em hora de ponta.
Um chega p´ra lá… um abana aqui… um que empurra ali…. chiça.
Até o tipo lá da frente parece o condutor .
- “ Estação dos Restauradores…” Estação do Rossio…” Estação Paraíso”…

Pois só pode… estação Paraiso, na época de Natal…

Estou estranho. Ando estranho.
Aliás, sou estranho, e estou a ficar mais estranho ainda.

Qual Xanax qual Prozac, qual quê... Estou cheio de paranoias…

Tenho sentido alg…
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É Dezembro.

Caminho apressadamente para mais um aniversário … está quase…

Interrogo-me e olho-me no espelho. Caramba… rugas, entradas, meu Deus… como estás velho.

Sinto-me repartindo, desconstruindo, desmanchando, derretendo.

Espalhado, transformo-me em mil pedaços que dificilmente se juntam todos, ficando alguma peça por encaixar. A da senilidade vem já a seguir…

Olho-me por dentro, em diferentes ângulos e formas e revejo-me em jeitos e trejeitos num caleidoscópio emocional.

Faço “rewind” no meu percurso e saudoso recordo ciclos de vida com ternura.

Abraços que não dei, beijos que ficaram por dar, sentimentos mal transmitidos, olhares cúmplices, toques de amizade e tanto tanto por dizer e outro tanto por fazer.

E é Dezembro.

Estou nostálgico como em todos os Dezembros desta vida.
Não sou propriamente um consumidor das corridas e festejos de Natal, mas a época traz recordações, angustias e amarguras.

Não se pode estar com um pé no passado e o “cu” sentado no presente (já dizia um velho professo…
Era ternura envolta em nuvens de algodão.

Abriu horizontes, perdeu colegas e seduziu outros com a tenacidade feminina que alguns homens teimam em subestimar.

Acabou o verão igual a tantos outros e choveram Invernos uns atrás dos outros.

Passaram vinte anos.

Dobraram-se Cabos Bojadores e Tormentas, mais alguns naufrágios pelo meio.
Nunca se esqueceram.

Davam-se com serenidade, completando-se.
Ela mais afoita ele quietude. Ela mais incisiva ele rodeava.
Tornavam os dias mais redondos e as horas mais suaves.

Não se prendia a quase nada, talvez para não se magoar.
Vestia-se de armadura como cavaleira de quatro em riste, mas sentia-lhe o soluçar interior no olhar.

Hoje tempo passado sinto-lhe a falta das palavras que saíam soltas da boca, por vezes sem intervalos

Éramos como musica. Íamos aprendendo a letra, o ritmo e a melodia. Aos poucos.
Quando se pensava saber tudo de cor, os ritmos surgiam de maneira diferente

O Céu continua fechado por nuvens que não querem desaparecer.

Desconfio que o tempo an…
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Toco a tua boca.

Levemente, suavemente com os dedos sentindo todo o contorno dos lábios, vou desenhando essa boca como se pintasse um quadro em pinceladas suaves.

Levemente, suavemente, repouso o meu nariz no teu e percorro as fragrâncias suaves do teu beijo ao chegar os meus nos teus.

Unimos os lábios, a pessoa, a fragrância colorida que emanas de ti como se tivéssemos a boca cheia de flores perfumadas em movimentos vivos.

E se nos perdermos em aromas lancinantes, perdemo-nos os dois.

Se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogarmos num breve e terrível absorver de fôlego, essa instantânea morte é eloquente e bela.

E toco e retoco a tua boca, com um cerimonial de palavras incertas em momentos incertos de pessoas inseguras

E procuro e encontro e vejo e revejo e repito num interminável Bolero, que partilhamos numa conjugada cumplicidade.

Toco a tua boca como me tocas a mim em lances suaves de toques ritmados numa doce e terna loucura.
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Está sentado num banco de jardim, sozinho, oco.

Completamente oco e sozinho. Apenas uma melodia o acompanha vinda não sei de onde.
Passo por ele diariamente. Observo.

Limpo, cuidado, mas triste, sempre muito triste. Cabisbaixo, animicamente abatido.
Uns olhos azuis que em tempos devem ter sido brilhantes e faiscantes, hoje sem brilho e pouca cor.

Alguém se aproxima... e ele:
- Sai já daqui. Vai morrer longe. Vadio, grande vadio.
... E uns olhos de fome entranhados nos ossos que desaparece.

…De repente, ao fim de alguns meses…
- “Bom dia Dr.
E eu, incrédulo e ao mesmo tempo envergonhado respondo.
- Ah… olá. Bom dia para si também.
- Bem reparo que o Dr. todos os dias olha para mim e até já me tem dito os bons dias, mas pensava que era mais um a ter pena desta velha carcaça. Mas não.
Você olha-me diferente. Olha-me como gente. Com um sorriso e simpatia. E agradeço-lhe por isso. Por me considerar gente. E Vc nem imagina as centenas de pessoas que aqui passam e nem olham para este velho.Eu conheço-os…

ESTOU UM DESERTO DE IDEIAS…

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Deixo por vezes o meu corpo em suspenso num estendal.
Viro e reviro, passo por mangas e cós, do direito, do avesso, torço, sacudo e deixo a secar.
Resgato-me de mim em ideias que não percorrem meninges cansadas, ou repletas de mil e uma coisas mil.

Refugio-me em masmorras de choros e insegurança, que aperto contra mim e revejo pedaços de alma florida em jardins de Éden.

Sorrio por entre máscaras inexpressivas de dias adormecidos mergulhando no lado do esquecimento…

… e solto-me do estendal.

Inteira carcaça que revolta margens do rio do meu ser.
Fortes tempestades que amainei em cores e aromas de tanta espera… por ti.

Confuso o tempo, confusa a vida e a mente desprovida de razão, ou tão só repleta de certezas e razões fortes de palavra… sentimento.

Por entre névoas de paixão contida, retraída e nua, rompendo por breve instante o silêncio de sonhos em contramão.

Sinto a voz cansada e seca e o peito ardente por quebrar cercos e muros e cérebros agrilhoados.

E encosto-me no parapeito do abismo, e…
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Sou mesmo “despassarado” ou “deslembrado” ou esquecido ou “cabeça no ar” ou mais concretamente distraído.
Sou assim uma dessas coisas, porque nunca recordo datas e por vezes não encontro a cara no nome nem o nome da cara de um sujeito qualquer.
A idade não perdoa e os neurónios já não são o que eram, se é que alguma vez foram alguma coisa de jeito.
Eu coloco lembretes no telemóvel, na agenda, no portátil, mas falha sempre alguma coisa.

Mas jamais esquecerei a Lua que vi hoje.
Linda, sedutora, sonhadora, deslumbrante.
Uma lua cheia vigorosa, resplandescente.

E aí lembrei-me do arco-íris e dos caminhos que percorremos nesta vida.
Lembram-se do “Feiticeiro de Oz”? Pois foi nessa imagem que me fixei.

O raio do caminho que escolhemos ou que deixamos que nos escolha.
Caminhos onde nos perdemos, ruas que nos levam a lugar nenhum e uns abelhudos de uns tipos que nos tapam o Sol e fazem andar às escuras.

Já vivi caminhos e veredas e estradas largas e azinhagas escuras e realmente existem espaços, cami…
Dançamos de novo?

Todos os outros ruídos se silenciam para ficar apenas a melodia liquida de
uma união entre dois corpos que se embalam numa corrente de harmonia melodiosa.

Hoje, apetece-me dançar de novo…

Colaste-te a mim como tatuagem e o teu cheiro cobriu-me como pétalas coloridas

Fazes a minha alma dançar ao ritmo do tango em voltas e voltas que não param mais.

“Carlos Gardel” seria aluno de tão brilhante professora, eu, apenas ritmava passo em compasso de uma doce espera por ti.

Enrolo, viro e reviro e passo a passo conquisto o espaço entre nós.

Voltas-me e enlaças-me, esticas o braço e afastas-me num doce tornear de ancas e o meu coração é uma pergunta difícil que não encontra resposta a não ser em ti.

Agarrei-te de novo e num assomo de importância levantei a cabeça e rodei contigo colada e ombros nos ombros e braços nos braços e coxas nas pernas ou pernas nas coxas que já de mim nem sei…

E perdi-me no tempo e no espaço e atirei com o dia ao chão pontapeei as horas e liquidei os minutos…
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As folhas vão caindo neste Outono Primaveril.
As noites são cada vez mais longas e eu esmoreço de mim.

Perdi o passo ligeiro e curvo as mãos para dentro.

Em vão, procuro alhear-me, mas as pessoas caminham cansadas, evoluem em câmara lenta, de vez em quando levantam voo.

Eu olho-as e pergunto se serão Anjos…

Quantos buracos negros na alma terão de tapar para conseguir sorrir por dentro?

Porque tanta gente espeta pregos nas orelhas, nos lábios, na língua e no rosto ?

Porque exorcismo reviram as sobrancelhas e não tomam o tempo que o tempo lhes dá ?

Olhava o balão da máquina de café que aos poucos enchia, enquanto o rádio debitava decibéis de insuportável pandemia acústica

A brisa que solta corpos ondulantes e sacode pedaços de ti

Eu olho-te e pergunto se serás Anjo…

Por vezes, não consigo ver para além da saudade

Enquanto a torrada se faz...

eu viro-me para dentro à procura de mim.
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A morte enfrenta-nos em cada pedaço de caminho em cada segundo de vida.
Quando confrontados com choques violentos, atropelamentos mortais, carros despedaçados, famílias desfeitas, crianças pelo chão, corpos tapados, ganhamos consciência de como a vida se decide num click.

Nesses momentos imaginamos a alegria das pessoas no percurso efectuado, as conversas tidas, as imagens retidas, o sofrimento dos familiares, os filhos, as mães, tudo.

Numa altura em que nos vendem milagres ao molhos, desde depositar as células num congelador, utilizar o ADN para resolver problemas futuros, conservar o cordão umbilical, não comer gorduras nem sal, fazer exercício físico, beber chás milagrosos, um tinto que faz bem ao coração, dentes de alho para a circulação, um pouquinho de chocolate que ajuda a depressão, rezar pai-nosso e fazer figas no sopé de uma montanha, de tudo nos impingem para garantir a imortalidade.
Mas, nem as redomas de vidro ou os elixires de “Itapuama” nos ajudam.

Temos como hábito entregar…
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O sino tocava pelas 5 da tarde e na rua toda a gente parava

Os homens tiravam o chapéu, algumas mulheres benziam-se. Os homens ainda usavam chapéu.
Não sabia o significado daquilo tudo, mas aquele minuto tinha um silêncio que doía.
Balbuciava-se baixinho e as pessoas apressavam o passo.
Todos se dirigiam para o mesmo local, a igreja paroquial.

Nessa época os dias tinham um cheiro morno que não consigo definir, as árvores cresciam, as plantas esgrimiam argumentos de cores garridas.

O sino tocava acordes vários e cada um tomava o seu lugar, a homilia serena despertava corações em remanso atingindo os mais incautos.
O preto dominava, assim como a longevidade dos presentes.

No largo, pequenos pombos depenicavam restos de presença entre os sobrantes da calçada.

Manuel gostava de Maria que gostava de Manuel, mas não podia.
Maria falava com Manuel deixando espaços em branco entre as palavras.
Manuel olhava com ternura e debitava frases coloridas e Maria corava, arfando por entre dentes.

A vida não acab…
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Hoje acordei com medo, mas não chorei.
Não que chorar fizesse diferença, apenas não tinha lágrimas.
Medo de tudo e de nada, de mim e dos outros.

No seu tempo, Adão tinha medo de cair em tentação, os Egípcios não dormiam com medo das pragas de sapos…
Eu acordei com medo e procurei no escuro… e não vi nada.

Fico a pensar se serei uma pessoa corajosa, já tentei lutar no escuro para perder o medo, mas dei por mim numa figura ridícula.

Também os Gauleses tinham medo que o céu lhes caísse na cabeça, mais tarde surgiu o medo dos leprosos, depois nos descobrimentos era o Adamastor e as tormentas, a peste e a fome.
Mas procurar algo no escuro, tão perto e tão longe… tão inquietante.

Vivemos em acrobacias de alma, como trapezistas sem rede em corpos semi-nus sem chama de vida.
Solidão de vida, mesmo para os acompanhados, solidão de gestos, de vazios, de desencontros, de estados de alma de funestas esperanças de que hoje será, o ontem foi e o amanhã vamos ver…

Solidão de percursos antagónicos como diferen…
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Este deveria ser um Outono mágico,

mas sinto-me afastado do mundo, afastado de mim.

Estou entre o frio e o calor, o sol e a chuva.

Quero ser redescoberto sem GPS, instalado numa canoa a dobrar o Cabo Bojador.

Quero que me ouçam como se debitasse palavras plurais de sujeitos e predicados e sentissem nelas a mais antiga sabedoria.

Quero sentir-me embalado por mãos de veludo carinhosas e penetrantes.

Quero ser abraçado e tocado e mimado como se fosse fonte de calor inesgotável no mais rigoroso inverno e de mim dependesse o equilíbrio do mundo.

Quero ser beijado como se fosse um ribeiro à solta fertilizando campos e um sol que poisa devagar na montanha da vida

Quero ser respirado como peixe debaixo de água,

Como se fosse o ultimo sopro de vida.
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São tuas as histórias sem nome e sem rosto…

Palavras que lês sofregamente e me fazes perder num deserto de emoções.

Tiveste-me como uma miragem! Tocas-te e desvaneceste
(Não eu! a imagem que querias ver em mim!)

Procuras e não vês, eu vejo que não vês, mas tu não vês nada de mim.

Quando te olho não preciso de palavras

Quando te oiço não preciso da tua presença

São tuas as histórias sem nome e sem rosto…
Tal como as flores em que mexes e exalam perfume que te acompanha
Como folhas no coração.

Por não me quereres ouvir…
Morderás teus lábios deslumbrados e saberás a sangue dos sentidos

Lábios sedentos que tocaram no mais fundo do âmago e encontraram
Palavras escritas por mim.

Porque esperas meu Deus,
Para me cravares de palavras petrificadas
De sangue que jorra como lava
Por dentro de mim como vulcão.

Porque me tornei efígie de sal
Como mito, aguarela de espanto
E “obrigo” outros a ouvir-me e a entender o que sonho.

Para mim traço desafio… por querer tanto
Dou o peito às balas com incenso e encanto.

E prend…
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Tens medo.
Medo dos meus beijos sem ensaio geral ou antestreia
do inócuo, do profundamente gentil, do terrivelmente belo, do sumptuoso desejo.

Medo de me teres, de confundires tempo com espaço, de trocares os dias pelas noites, a negritude pela coragem e de te perderes na voragem dos dias.

Tens medo,
por isso fazes um cerimonial de palavras desacertadas quando chegas sem avisar,
e procuras a geometria do meu corpo quando bates à porta do coração.

Fixas o meu no teu olhar
e regresso devagar ao teu sorriso
como quem encontra harpas num musical inesperado.

Tens medo
das partituras que trago comigo
do doce solfejo em que te encontras
no âmago da solidão que nos invade
receosas, tenebrosas,
como vasos baratos de roseiras despidas.

Tens medo
que escape sorrateiro pela calada, ou que me desactive temporariamente
como palavras recheadas de adjectivos em perífrases prolongadas.
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Se me quiseres encontrar
estou aqui.
Entre o céu e a terra
entre a montanha e o mar
Talvez pendurado numa corda,
talvez a amar
Se me quiseres encontrar
estou aqui
Ora no aquário onde por vezes vivo
ou na concha que trago agarrada a mim.
Mas se me quiseres encontrar
despacha-te
pois podes não chegar a tempo de veres quem sou.

JP
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No caso Esmeralda assisto a um convénio de palermice e de soluções absurdas que parece não ter fim.
Existe um Pai biológico que só teve interesse em conhecer a filha, "quando lhe deu jeito", e uma Mãe biológica que os jornais descobriram.

Um casal "adopta" a criança ainda pequenina que cresce agarrada a esse amor e aos mimos desses Pais, os únicos que afinal conhece desde os 3 meses de idade.

Entretanto, no circo mediático esgrimem-se argumentos dos dois lados. Como em tudo, há os "coitados" os "desgraçados" e os "arrependidos" .

Da principal interessada - a Criança -, poucos se lembram. Ela é o caso menor neste enredo.

Entretanto Esmeralda começa a dar sinais.
Sente-se angustiada, nervosa, inquieta, com insónias, um estado psicológico preocupante.
Vá-se lá entender porquê, qual capuchinho vermelho, agora com cinco anos, percebe que existem os "maus" que a querem tirar dos "Pais".
Neste pingue-pongue mediático e circense…

ESTOU ESQUINADO…

Vida para mim…

É parar numa esquina e seguir,

Saltar no zebrado entre a barra preta e a branca num pé-coxinho libertador.

É vestir de novo o velho casaco e olhar na montra o novo que não consigo comprar.

Comer gelados e fazer desporto, beber um copo com os amigos e fazer amor até cair.

Vestir o fato número 18, a gravata 33 a camisa 12 e levar sapatos trocados.

Querer imitar quem salta do autocarro em andamento e malhar com as trombas no chão.

Caminhar ao longo da marginal de S. Martinho e sentir a chuva que borrifa e molha até aos ossos.

Mas sei…

Alimentar o sótão que me habita com coisas agradáveis e reservar espaços para outros que virão.

Fazer dele um quarto agradável, onde assisto à lua cheia e onde vou limpando janelas de boas vivências de memórias passadas.

Guardar num cantinho do coração a tua imagem e atafulhar de vestígios teus os restantes pedaços

No porão a que chamo intestino vou despejando atitudes, verborreias de quadrúpedes animados de verve fácil mas de difícil postura, onde cabe…
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Ando por aqui e por aí, e não te vejo.

Vislumbro vultos, inconsciente, desconhecido.
Existo e resisto a tirar a poeira que me cobre, um espelho que me assusta.

Estou enroscado em ti. Pele com pele, carne na carne. Enroscado num beijo.

Como os corais que se agarram às pedras
Cúmplices de duas metades iguais.

Gosto quando enrosco nesta sensação
De dar e receber na mesma proporção

Gosto de ti com a energia de dois continentes e a beleza de mil chamas ardentes
Gosto que me gostes e me chames louco e te enroles e reboles nos meus lençóis.

Transformo diabinhos de mim em fantasmas de ti e piso os teus passos por caminhos inventados.
Vivo com o teu cheiro no meu espírito movediço, planto flores onde existiam nuvens e agarro no sol com os dentes e trago a lua no bolso para te oferecer.

Mas vivem alcateias vigorosas, presas em redil vazio, que te olham e me inquietam.
E abraço-te e danço mil músicas de mil razões com mil poemas de aventuras mil
E sofregamente te enlaço e te afago e beijo e percorro o meu des…
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Ofereces-me as mãos dou-te um olhar

Ofereço-te um abraço, dás-me um sorriso, profundo, contido, quente, meigo e animal.

A tua presença e o teu cheiro tiram-me da razão, tremem-me as pernas, falta-me o ar, o teu toque acalma-me e agita-me, simultaneamente.
Os teus lábios que devoro, consomem-me numa sintonia perfeita. A roupa que sai, a pele que se queima. O corpo, a mente, a alma e de novo o coração que se desprende e agita, o belo, o pecado, o sagrado.

A tua boca cala-se, a minha seca. Os teus olhos brilham, os meus fecham-se. Os teus ouvidos redobram, os meus tapam, o teu coração acelera, o meu… acho que tropeça.

Vivo numa anatomia de palavras para te envolver, o doce da dança dos fios cruzados, de uma boca sequiosa de pele molhada de lábios gulosos gozados como os meus.

Há coisas que não quero que me saiam da cabeça, como a tua presença em mim, o sol no inverno e o sorriso na tua boca. Vivo continuamente espartilhado nas palavras e não consigo fazer-te cócegas no olhar.

Agora, amo-te à…

Cala-te Homem! (do quotidiano…)

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Homem: - Falta-me o ar.
Juro que me falta mesmo o ar. Já ontem à tarde me senti assim, quando alguém disse: - “Ai coitado, você está muito branco, sente-se bem?”
Ao que procurei de imediato um espelho para ver a minha cara e reparar no branco de cal que me tolhia. Vá lá que o coração tem andado certinho, desde que o Senhor Doutor Luís lá da Farmácia me deu aquele xarope...

E tudo isto por tua causa, que me afliges e adormeces a alma.
Sempre me trataste como um abjecto animal.
Tu, que nem camisas sabes passar nem o pequeno-almoço arranjar, quanto mais saber de alguém?

Passavas de tempo em tempo sem tempo para mim, nem tão pouco para ti.
Não sabias de carícias nem de aconchegos, nem de beijos, apenas de vidas de telenovelas enredadas semanas a fio como se eu fosse membro absoluto dessa teia.

Um simples beijo, coisa simples.
Festas, fazias como se estivesses na paragem do 87 para Almada com a mão a abanar a abanar sacudindo tudo em volta.

Carícias? Era como se esfregasses de pedra-pomes os cal…
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Sei percorrer caminhos dificeis até encontrar flores frescas para te dar.

Sei correr em sentido contrário ao sentido do tempo que tem um compasso muito seu, diferente do meu, diferente do que dele pensamos.

Eu não tenho o meu passo na medida certa do teu, nem o tempo a medida certa do nosso.
Sei quando o vento sopra em sentido contrário ao tempo, e eu corro contra o tempo a favor do vento.

Sei percorrer caminhos dificeis até encontrar conchas no mar e poemas para dedicar de versos preparados em noites mal dormidas.

Sei correr em passos ritmados com coração solto e selvagem, no qual cada curva é uma incerteza, cada onda sensação, cada caminho a intenção de um lugar.

Sei que a ausência é um mar que não devolve as ondas e uma alga escura que traz sal no olhar.

Sei percorrer estradas que me levam a algum lugar quando venho de lugar nenhum.

E sei correr num tempo nosso entre nuvens de mar e ondas de sol por caminhos fadados a um encontro.

Percorro e corro e parto-me em mil pedaços de mim por outros…

Ver a vida de pernas para o ar

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Mudei de alma e bagagem para este mundo.
Já não sei quando nem porquê.

Quando vim trouxe os anjos comigo, eles que me acompanham e sabem tudo de mim.

Quando por vezes fecho os olhos e venço o desejo de me rever ao espelho tento saber de que lado estou.
Raramente me sinto e quando olho bem, a imagem vai-se desfigurando pois este olhar precede um outro bem mais desperto e mais real.
Vejo de esguelha, torço o pescoço, contorno o olhar por cima do ombro e reparo que o outro olhar mais penetrante, mais astuto sobrepõe-se ao meu.

Saio devagar, deixando que se afaste também a minha imagem, lentamente, deixando apenas um rasto de mim para mim.

Quem estiver a ler dirá que estas palavras só têm cabimento no mundo lá de fora… mas eu não sei de que lado estou.

Várias vezes nos cruzamos, olhamos, sabemos da existência um do outro, até os anjos comuns são amigos, mas nunca conversamos pois somos engolidos pela multidão a cada passagem. Jogamos ao “toca-e-foge”, e perdemo-nos na multidão que passa e enche…
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E ofereceste-me sorrisos aos molhos, noites de luar, amor em lua cheia e eu, trapezista em corda-bamba aceitei-te tal como vinhas.
Perturbada, inquieta, metafórica, destruída, com um pé fora outro no abismo.

E ofereceste-me rios de palavras, lindas, quentes, alucinantes, inebriantes, aconchegantes contos e recontos em curvas apertadas estradas rectilíneas e um manancial de descobertas. E eu... deixei-me levar na corrente das palavras.

Passavas das palavras aos actos como quem navega à bolina contra cais de nevoeiros, e eu, ilusionista na vida e palhaço no circo, deixava-me levar por águas sulfurosas corrompendo o casco desse veleiro.

Trocávamos monólogos redondos enfeitados com fitas multi-cores que acalentam os ânimos e afagam o ego. E eu, impotente na verve, sonhava palavras doces que raro decifrava, trocando a obra-prima-do-mestre pela prima-do-mestre-de-obras, espraiando no limbo das incertezas.

E atiravas com amores-felizes, num turbilhão de palavras ditas, mas de frases inúteis e s…
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E mexias em tintas coloridas de mãos abertas ao mundo, inventando caminhos desbravando a pele.
De mãos pintadas percorrias o meu corpo espalhando cor e amor em doses proporcionais.

Decifravas tonalidades em cada passagem de mim por ti, rebuscando sentidos estéticos em cada toque em cada aroma.

Éramos ambos sonhadores descalços, pincelando teoremas em partes iguais de corpo em corpo de toque em toque.

Percorrias com teu no meu olhar e espalhavas língua em corpo ardente como fogo em noite de lua cheia.
Vampirizavas sal em bater descoordenado de coração.
Rasgavas pele com ardor aguçado de saliva e vibravas como nadador em apneia demorada.

Pintaste a noite como manto que nos cobre de carícias.
Aqui sou tudo e sou nada, apareço e desapareço em ti, e desmaio e morro em odes triunfais.

E é efémero este tempo este espaço em que vivemos em que sentimos que a vida passou perto de nós, porque sentimos na bruma que o tempo parou.
E gemias gritando e gritando gemias, palavras loucas roucas enevoadas per…
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Sei do doce da tua pele e do sal no mar, do frio nas montanhas e do aperto no coração sempre que te vejo.

Conheço de cor o teu riso e a forma como o usas para me fazer vibrar.
Conheço de cor a tua boca e a forma como a usas para te ouvir sussurrar.

Percorres os meus com os teus dedos e instalas sons na minha alma.
Entrelaças os teus nos meus dedos e dizes que sim sem eu ter perguntado nada.

Falas e fazes música com o teu olhar no meu fazendo a vida num concerto.
Não questionas a minha sanidade mental quando te abraço e beijo, o que agradeço.

Olho-te e vejo-te como aos 14 instalando melodias numa ária de Bach.
Solto palavras esvoaçantes como alma sem destino certo e um bando de pássaros que ruma ao sul deixando a promessa de voltar na Primavera.

A jornada começa no primeiro degrau da porta pequena, libertando-nos de prisões das quais dificilmente saímos, amarras que trazemos ancoradas a nós.

Deixamos enrodilhar afectos enquanto o mundo corre ao nosso lado, despertos numa realidade alheia

Q…

AO DESCONCERTO...!

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Morava numa rua onde passava um carro de vez em quando, ora sim ora não.
Pregava olho (metaforicamente) quando o jeito dava ou não dava jeito nenhum
Cruzava-se com gente, raramente, ou quase nunca.
Passeava um cão que não conhecia, nem de aspecto nem de raça, nem se existia mesmo.
Abanava as orelhas como ventoinhas e debruava sons esquálidos de cana rachada.
Raramente comia, ou porque não desejava ou não queria, quantas vezes nem o sabia.
As árvores dançavam ora com vento ora sem, dependendo da batida.
As numerações do relógio da torre na rua direita saltavam como pulgas e enfeitiçavam quem olhava.
Atravessava a rua na passadeira, saltando do risco branco para o preto e deste para o branco, no fim após travessia efectuada saltos em marcha-atrás.
Sonhava alto no fim de uma noite mal passada, assim entre o bife do lombo e a entremeada, quando sente um zagalote que lhe rasga o pensamento.
Eram os putos do andar de cima que pisando e repisando em soalhos ardentes com febrão matinal, acordam-no dos…
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Gosto da minha solidão
Sei que pode ser chato e enfadonho, viver comigo e em mim, apesar de no meio de tanta gente.
Mas adoro a concha que me tapa e protege dos nevoeiros que me cobrem.
Bem tento colocar um bálsamo protector sobre essa concha, mas por vezes não chega. Desligo-me realmente do mundo e de mim.
Tiro literalmente a bateria para não estragar a máquina e fico off.
Houve tempos em que fechava a porta com três voltas e um toque no ferrolho mais uma tranca das grossas.
Janelas bem estanques, luz apagada, uma folha em branco e uma caneta por cima
Imperfeito que sou, irrompe em mim uma mistura de ódio ao mundo e zanga estupidificada por abjectos e estranhos quadrúpedes que cirandam na nossa sociedade e perto de mim.

Sei que não pareço muito normal (?), com esta atitude de atabalhoadamente me divertir diariamente com revistas e livros que vou visitando para além dos papelinhos em que dito leis e ordens numa confusão mental que por vezes me povoa.
Assim tenho feito percursos ziguezague…

Aguenta Coração...!

Saio de casa arranjado, perfumadinho, engomadinho, todo xpto, para trabalhar lá no Hospital Público, como pública é a dimensão do meu emprego.

Atarefado pela desgraçada da vida mais o trânsito na ponte e o ruminante cabeça de abóbora que cuspia partituras com música agarrada aos meus ouvidos, eis que pespego um olhar na boa da Alice.
Boa...!? ... Bem... bom sou eu que me porto que nem um cachorro mimado quando se lhe coça as orelhas.
Ela era um completo terramoto grau 5,5º na escala de mamas apertadas contra um vestido de tule.
Vá-se lá saber porquê, embeiçou comigo (que não sou desajeitado de todo ) mas também não sou nenhuma figurinha dessas de trazer debaixo do braço, qual modelito de revistas sociais.

Por falar nisso, já dizia a minha tia Efigénia, Deus-a-tenha-em-eterno-descanso, que eu haveria de ser um tremoço (... por acaso nunca tinha pensado nesta ligação... tremoço...huummm...).

Mas voltando à boa da Alice, eis que ela dengosa com aquele olhar de dez-prás-seis (coitada, ainda uso…
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Preferia não te ver… sentindo tão perfeita.

Sonhar-te com o cabelo desgrenhado e sujo, amarrado em rabo-de-cavalo, lábios sem baton, esquecida do creme após o banho e desenfreada como se tivesses as minhas unhas cravadas em ti.

Sentir a tua boca em mim como um doce irresistível, que se prova em textura, revisitando memórias, encontrando a solução de açúcar a mais, ou mesmo no ponto, aferindo da medida exacta de um ingrediente novo.
Contornas-te em mim como um puzzle de peças variadas como variados são os nossos gestos numa onda sem fim.
E inventas jeitos e trejeitos para escapares por dentro de mim e perguntares (como se eu soubesse) o que está por trás das estrelas e o que vai para lá da linha do horizonte.

Distraidamente e enfeitiçado percorro olhares indiscretos por dentro de ti e arranco paixão e desejo e ternura e amizade em aromas equilibrados de giestas.
Vemo-nos em culpas e sentimentos e rodopiamos em dós-menores por ré-maior, embebidos em desejo.
Tomo-te então, em copo de cristal co…
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Parece que me sinto confinado a um espaço inter-espacial do qual não consigo sair.
Resolvo-me em emoções que não consigo digerir. Enrodilham-se em mim, torturam-me, torcem-me mãos e bloqueiam-me pescoço deixando-me quase imobilizado
Sinto desejo de saltar fronteiras deste mundo, beber todo o oceano de um trago.
As perdas. As perdas que me atormentam e soltam amarras.

Existe gente e espaço incomparável.
Gente que passa por nós de forma sublime, figura esfíngica como Anjo, e que não sendo Deus, será provavelmente um Deus.
Gente que interrompe esta viagem pela vida e que anseio que o “destempo” seja curto para que em tempo se faça de novo.

Por isso abanamos como árvores frondosas em dia de vendaval. Por isso não consigo falar, nem exprimo o que sinto. Por isso choro por cantos e em cantos.
Tenho a língua amordaçada por pedaços de papel colorido e as emoções adormecidas… e a morte, essa negritude que sorrateira e maliciosamente nos bate à porta, entra sem pedir licença, e sem voz, com um gesto sô…
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Hoje há festa!
Hoje danço contigo, Maria.
Vamos dançar e esquecer quem somos, nesta esquina de rua estreita.
Hoje há festa.
Hoje, um dia qualquer.
Ouvimos um tiro no beco ao lado e alguém tomba no chão de pedra fria.
No restaurante fino do fundo da rua tiram sacos de comida e bebida quase intacta. Alguém apanhou para vender no mercado da sobrevivência.
Barracas instáveis e insalubres, e nós dançamos Maria.
Esquecer o que és, o que somos.
Calcorrear caminhos entrelaçados, e eu, bem agarradinho a ti.
Falavas no selo do carro e na factura da electricidade, no cozido do almoço e eu cheirava-te o perfume no pescoço.
O raio do café que não prestava e a tua atenção que não sai do quadrado em volta.
Sorvo-te o cheiro, a cor e o tempo. Dou-te até “carradas de razão”, mas nem te oiço.
Falas-me na prisão do “Chico da Trenga” e no “Zé da Nora”, os “chutos” no passeio, um-tiro-no-porta-aviões e a chave do Euromilhões.
Rio-me contigo, mas não estou lá.
Percorro-te com os dedos numa dança sem fim e contas-me enred…
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O sal não lava a alma.
Tinha carro, cão, gato e pássaro.
Um peixinho, quatro pares de botas e um rímel desbotado.
Uma lágrima a três quartos que teimava em cair e o mar que não via faz tempo.
Um saco de roupa, mais um jantar e uma fralda mudada, comida p´ro gato e periquito da vizinha que saiu para férias e deixou-lho sem remorsos.

O sal não lava a alma.
Saiu pela romaria, visitou os primos e foi de França que chegaram as alegrias.
Apanhou o cabelo que lhe tocava nos ombros e vestiu a saia rodada. Estava linda.

Os olhos da populaça viraram na sua direcção e os homens aperaltaram as camisas, coçando os pelos do bigode.
Deixou cão, gato e pássaro, mais o periquito da vizinha que saiu para férias.
Bailou e cantou até que a noite gelada entrou nos ombros despidos.
Do rímel desbotado saltaram dois lindos olhos azuis que faiscavam de alegria e saudade.

O sal não lava a alma.
No regresso deu de caras com o Tó da Jorna e tocaram-se ao de leve numa passagem fugaz de olhares há muito desencontrados.
Tapou os…
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As palavras perdem-se, algumas nem se dão por achadas, os gestos tocam e encontram-nos.

As palavras atiram-se, mordem, cantam-se e ferem, os gestos apoderam-se, enlaçam remexem-nos e soltam-se.

As palavras esfumam-se, os gestos entranham-se, mas ambas vivem em nós.

As palavras amordaçam, descontrolam, desorientam, um gesto afaga, aquece, prende, recicla e orienta.

Quando as palavras são poucas ou indefinidas, e o gesto se esquece, a imaginação faz o resto!
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Fala-se que o Homem foi criado por Deus ao sexto dia e a mulher tirada de uma costela sua, provavelmente num domingo ou dia feriado.

Diz-se até, que misturando carbono 14 com São Paulo, no Salmo X ao quadrado vezes 2 com a bênção de S. Pedro e o Acto dos Apóstolos mais a intervenção do Gallup Institute nos EUA e fazendo a contagem através da Bíblia, chega-se a uma conclusão à qual não dou importância, pois para mim, pobre criatura, com essas contas ainda nos baralham mais... o que é difícil... de baralhados que estamos.

Afiançam também que os Halos do Polónio são as impressões digitais do Deus Criador, tal como escrito no Génesis. Se é ou não... vou deixar para um dos episódios do CSI.

Mas o nosso mundo é como é.
Aos olhos de Deus, aos nossos, aos de alguém ou outro qualquer. Um mundo no qual temos diariamente de gerir o que vai aparecendo, com os nossos limites, a nossa insegurança, os desafios que nos são impostos, a confrontação com o efémero, o transitório.

Crescemos apoiados nestas v…
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Fui Eremita na vida e Eremita de mim.
Li e aprendi o que significa a palavra sonho abrindo os olhos e deixando que entrassem palavras mágicas e pozinhos de prilim-pim-pim

Em dias de sol viajo de planeta em planeta de constelação em constelação, semeando uma rosa aqui, um sonho acolá, uma amizade por conseguir outra por agarrar, e apanho novas estrelas numa nesga de céu.
Transformei chuva em arco-íris, mágoas em ternura e solidão em acompanhamento.
Gosto de ler, é uma realidade, e na leitura... sonho.
Aprendi a falar no meio da multidão, e na solidão aprendi a escutar a voz interior e a dar nome às coisas que ainda não tinham.

Gostava das personagens de ficção com contornos de encantamento.
Longe de serem Eremitas como eu, cirandam por páginas e páginas de aventuras, com imagens coloridas, que já não vislumbro faz anos.
Pesquiso o meu "calendário" ... avancei décadas com a mesma ternura com que me visito diariamente.
Olho em volta e em tudo vislumbro muralhas. Pensava ser da visão tur…

O Sonho que posso ter...!

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Posso sonhar que corro a passo solto
Que da minha janela vejo a tua sem a ver...

Na minha memória vejo o teu rosto e sem saber,
abraço os teus braços e recebo em troca
abraços que não consigo ter.

Ideias que tecem mantos enredados
como novelo em ti
Pesquisa que faço no teu olhar quando te olho em mim.

Mas posso olhar-te num olhar profundo de morrer
agarrando fragmentos de luz sem nunca ver

Posso até sonhar recordações
tudo ou nada, muito ou pouco, e sem me aperceber
tê-lo sempre presente, juntinho a mim
guardado em gelo para não derreter

Posso até sonhar que vou morrer
Sem nunca ter outrora desejo de...

Ou procurar viver junto a ti
Porquanto a luz, os passos juntos, até mexer
minhas nas tuas mãos e ver surgir
Arco-íris e sonhos por fazer
Sonhar-te quimera e certeza de te ver.

Pode ser este o sonho, desejo,
quem sabe o quê...
pedaços de alma que esculpi em mim
um pedaço de céu, pedaços de tempo
ou de nada.
Pode ser este o sonho.... sei lá de quê...!
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Fumava cigarros atrás de cigarros, sorvendo a bica como se tentasse travar o mesmo fumo.
Os dedos amarelecidos vincavam bonecos feitos de papel jornal como um novo brinquedo.
Enlouquecido pelo tempo e pela vida, arrasta penosamente alguns quilos de ossos pela calçada desde os 43.
- "Mal de amores" - dizem uns...
- " São os demónios que o atacam" - Dizem outros...
Ninguém se entende na duvida, mas o povo tem sempre opinião...

Fala baixo, quase não se houve numa voz fraca e arrastada.
Os cabelos confundem-se com a barba e escondem uns olhos azuis profundos que já foram belos.
Enquanto olha e vagueia o olhar, vai debitando coisas sem nexo, alguns insultos aqui e ali, como se um punhal cravasse.
- "... nunca foi puro...coitado..." - Diz o povo
Empurrado pela circunstância e afastado pelos homens, vai cambaleando a sua sorte em desnorte.
Já teve com quem falar no meio da solidão... hoje não.
Já deu nome às coisas que não o tinham... hoje não. Tem a vida ao contrário e as p…
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Saí de mim.
Quem não sai de si?
Extrapolei-me, saltei fora. Desvaneceu-se a emoção da partida num gesto brusco mas cuidado.
Parti de mim sem amarras, libertei-me devagar, desligando-me do processo de alta rotatividade a que todos estamos submetidos.
Liberto os sentidos adensados em partes dormentes do meu corpo, na esperança que façam luz sobre esse torpor em que mergulha o espírito... deixando-os fluir devagarinho, para não doer demasiado, pois sei que vêm impiedosos, trazer-me á realidade...
Procuro na biblioteca da vida pedaços de outrora.
Aqui as palavras ficam, intemporais, presas a sussurros, gritos interiores, espaços em branco ou reticências.
O desencontro, a incompletude, o extemporâneo, a pesquisa enrolada em mantas quentes de lã.
Salto fora de mim e percorro regressos já vividos outrora.

Quão louco serei? Numa medida desmedida?
- Não mais que um outro que se julga puro, casto e são.

Regresso então ao aconchego do corpo feito adulto, incrustado em pedras de jovem com pinceladas de algu…
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- Porque choras Mafalda?
O Sol rasgava as pedras brancas da calçada. Os dias tinham parado e ouvia o bater morno do coração.
Cheiros fortes de café, flores abertas ao tempo e um aroma de paz.
Sobravam risos de criança e gaivotas esvoaçavam recortando um céu infinitamente azul.
Já pouco me sobrava.
- Porque choras Mafalda?
Faz tempo sentia a vida a sair-me pelos poros com alegria solta e incontida.
Um riso e um arrepio.
Socalcos nas montanhas da memória faziam-me recuar no sorriso que a alma transbordava.
Sobravam bocados soltos no caminho, como se fosse um vestido demasiado largo a cobrir um corpo de tamanho dois números abaixo.
E rangem-me pensamentos como uma tábua de soalho envelhecida, que piso e repiso, dias, meses, anos a fio… (mas porque razão me lembrei agora da tábua do soalho que range)?
Tenho por dentro de mim uma chuva que percorre todos os caminhos, mesmo os inimagináveis.
Quem sabe os pingos desta chuva que se entranha, não percorre as tábuas deste soalho envelhecido que gemendo faz…