29 dezembro, 2007

Feliz Ano Novo 2008!





"Dentro de alguns dias, um Ano Novo vai chegar a esta estação.

Se não puder ser o maquinista, seja o seu mais divertido passageiro.

Procure um lugar próximo à janela desfrute cada uma das paisagens
que o tempo lhe oferecer, com o prazer de quem realiza a primeira viagem.

Não se assuste com os abismos, nem com as curvas que não deixam
ver os caminhos que estão por vir.

Procure curtir a viagem da vida, observando cada arbusto, cada riacho,
beirais de estrada e tons mutantes de paisagem.

Desdobre o mapa e planeie roteiros.

Preste atenção em cada ponto de parada, e fique atento ao apito da partida.

E quando decidir descer na estação onde a esperança lhe acenou não hesite.
Desembarque nela os seus sonhos...

Desejo que a sua viagem pelos dias do próximo ano 2008, seja de
PRIMEIRA CLASSE."



Muito OBRIGADO
pela força,
pelas visitas,
pela paciência.
e pela Amizade.


JOSÉ PEDRO VIEGAS

26 dezembro, 2007







Sabias-me de cor pelo cheiro, aroma fresco de ternura
Pela música translúcida dos teus lábios em mim

E sabendo-me partido em pedaços, colavas com beijos, saliva e suor na pele rasgada
…e descobríamos o Mundo,
pintando em aguarelas de cor, almas unidas num só gozo.

olhando-te no teu corpo de mulher
Esboçavas rabiscos teus em mim
Como só nós podíamos inventar, novas cores, novos aromas, novos e renovados desejos.

E quando exaustos fechavam os olhos, ainda éramos nós, pinturas soltas e alegres de amantes pendurados no desejo de aguarelas nuas como Van Gogh.

E ver-te nem que pela ultima vez,
Inebriante desejo de orgasmos infindos, como pétalas que se soltam em lugares recônditos do teu corpo, em cheiros e formas e desejos

E ver-te feliz

Com solfejos de lábios em mim, ardendo num contorno, retorno de doces morangos em pele humedecida pelo toque de frutos silvestres em chocolate feito eu.

E busco e rebusco imagem de ti
Com ganas de te engolir inteira, de um trago, de uma só vez
E desapareceres em mim, como eu em ti.

E já soltos e mortos para o mundo voamos em paletes de cores garridas por quadros de pintores famosos como asas de Anjos que sentimos, mas não vemos.

25 dezembro, 2007

Paranoico...










Detesto Dezembro.
Por mim saltava de Novembro directo a Janeiro.
Largava as compras e os enfeites de Natal mais as montras cravejadas de coisas bonitas e eu cabisbaixo, melancólico e cansado.

Tenho um cisco no olho e uma lágrima. Lá no canto, bem no canto do olho. Aí mesmo. Dá p´ra ver ?... Que coisa… eu nunca tenho lágrima no olho…

E tanta gente nas ruas… mais parece Pequim.
O que anda esta gente toda a fazer ?
Sorriem ? Mas porquê ? Desejam Boas-Festas ? Feliz Natal ? Mas será que as festas são mesmo boas e o Natal tão feliz assim ?

Nestas ruas apinhadas de gente, parece que ando de metro em hora de ponta.
Um chega p´ra lá… um abana aqui… um que empurra ali…. chiça.
Até o tipo lá da frente parece o condutor .
- “ Estação dos Restauradores…” Estação do Rossio…” Estação Paraíso”…

Pois só pode… estação Paraiso, na época de Natal…

Estou estranho. Ando estranho.
Aliás, sou estranho, e estou a ficar mais estranho ainda.

Qual Xanax qual Prozac, qual quê... Estou cheio de paranoias…

Tenho sentido alguém que me persegue. Olhares, gestos, vigias por espelhos, sensações esquisitas e um arrepio na espinha.
A porta abriu no café da esquina. Ela saiu atrás de mim. Olha-me sorrateiramente, mas olha-me.
Já acelerei o passo. Estou ofegante, ela disfarça. Põe óculos, tira óculos, Pára. Arranca. Está a ficar para trás.

Calma. Eu sei que isto é táctica. Outro dia vi o 24 h e reparei numa cena idêntica. Eles fazem de propósito para pensarmos que não nos perseguem.

Ainda me vai aparecer de frente. E eu… sei lá o que faço. Corro, fujo ou enfrento ?
Vou falar com ela… “.. desculpe, tem horas ?... “ – bolas, tenho a garganta seca.

Acho que nâo vou conseguir.

Eu também não tenho horas. Aliás eu nunca tenho horas para nada e coisa nenhuma.
Eu passo das horas e salto os minutos. Liquido as horas e extrapulo o tempo.

Desperdiço horas e passo da hora certa. Também as estico (sim, as horas) e desperdiço. Malditas horas. Essas também me perseguem… as horas.

Nunca param.
Olho fixamente os ponteiros… e eles…. Tic-Tac-Tic-Tac, cadenciados, certinhos, sem falas.
Os das horas, depois os dos minutos, mais os dos segundos, mais rápidos, bem mais rapidos.

Fico fulo da vida com esta historia das horas e dos dominios que fazem sobre nós (sobre mim).

Hora de levantar, hora de escovar os dentes e hora de sair de casa. Hora de entrar no emprego e hora do café, mais hora do almoço e hora disto e daquilo e daquele outro e… raios partam o tempo.

Mas fico fulo e sinto-me dominar por essa chatice de forças primitivas que me absorvem o corpo e a mente e a força e me impelem a vingar-me de todos e cada um de nós pelo tempo que perdemos e desperdiçamos.

E quero fazer pagar pelos crimes hediondos a que assistimos diariamente e pela desfaçatez de politiquices que cirandam por aí a toda a hora.

Ora... horas. Sim, as horas… as horas são chatas, controladoras. Chatas.
Mas que se lixem as horas. E neste espaço de tempo a fulana que me perseguia também desapareceu.

Ela volta… sim. Sei que volta.
Voltará um dia para me sacudir o esqueleto e provocar-me a atenção.
Mas que posso fazer… Olho ? não olho? Disfarço ? Mas como ?

Eu tenho grandes pensamentos.
Não deve ser normal uma pessoa ter zilhões de pensamentos por segundo sem que nenhum deles esteja necessariamente correlacionado.

O horizonte parece tão longe e eu não consigo avistá-lo daqui.
Preciso subir, subir, subir….preciso olhar de cima, por cima. Por vezes subo no cimo de um prédio e vejo a cidade inteira apenas coberta por nuvens cinza.

Chovia. E eu pensei que não podia apanhar chuva, pois o eletromagnestismo existente podia-se estragar com os pingos da chuva. E eu posso ficar estragado.

Tenho 28 anos e ainda me sinto um pouco deslocado.
Como se tivesse 14 ou coisa que o valha. Tremo só de pensar. Quando vou terminar esta adolescência eterna ?

Porque não cresço? Raio de borbulhas que me invadem o corpo e pele…
Onde assino o atestado de perdedor? Numa folha de 25 linhas azul? E onde? No picotado ou já aqui? E posso molhar o dedo na almofada e colocar a impressão digital? É que odeio a minha letra e a forma leve e teimosa de escrita.

Devo ser esquizofrenico.
Letra teimosa... humm… letra de miudo da primária.
Letra torta e escorregadia.

Ontem caí. Devia ir a pensar na letra ou na tipa que me perseguia ou nas horas.
Já nem me lembro. Mas sei que caí. Devo ter escorregado e fiquei logo com uma mancha negra e o braço dorido.
Sou destrambelhado, desorganizado, desarranjado, disparatado.

E tambem devo ser esquizofrenico pois não paro de pensar na razão porque caí e porque há 10 anos subi pela primeira vez a uma árvore.

Mas porque raio aparece aqui a árvore neste texto ?

Tenho de adaptar a árvore a qualquer coisa. Transformar isto tudo numa versão Beta 3.5.

Ou dar-lhe um toque cosmético.

Por falar em cosmético, lembrei-me agora que tinha um cisco no olho, bem ao canto do olho e não saiu. E a lágrima... mas eu nunca choro, porquê a lágrima?

Sou apenas um adolescente e as miudas não me largam.
Sobretudo a Joana Macaca Rabana. É linda como o Sol e magra como um funil.
E eu aqui embeiçado por ela e o raio das horas que me atormentam e o cisco do olho que não sai. Já a Isabel pensou que eu estava a fazer-me a ela, de tanto piscar o olho.

Nunca entendi nada. Nada.
Sempre me esforcei tanto, sempre fui tão fundo em tudo... p´ra continuar sem resposta alguma. Porque razão ainda te oiço, aliás?
Tu és e serás sempre o meu limite profundo.
O meu Alter-Ego.
O meu abismo. O tudo e o nada que me engole.
Tu e o cisco e a lágrima,e as horas mais as esquizófrenias, e a fulana de óculos escuros que me perseguia, mas parece que não...mais… sei lá eu.

E o raio da árvore que parou por aqui sem eu saber.
O que faz a árvore neste texto

Estou a ficar paranóico, não estou ?

20 dezembro, 2007










É Dezembro.

Caminho apressadamente para mais um aniversário … está quase…

Interrogo-me e olho-me no espelho. Caramba… rugas, entradas, meu Deus… como estás velho.

Sinto-me repartindo, desconstruindo, desmanchando, derretendo.

Espalhado, transformo-me em mil pedaços que dificilmente se juntam todos, ficando alguma peça por encaixar. A da senilidade vem já a seguir…

Olho-me por dentro, em diferentes ângulos e formas e revejo-me em jeitos e trejeitos num caleidoscópio emocional.

Faço “rewind” no meu percurso e saudoso recordo ciclos de vida com ternura.

Abraços que não dei, beijos que ficaram por dar, sentimentos mal transmitidos, olhares cúmplices, toques de amizade e tanto tanto por dizer e outro tanto por fazer.

E é Dezembro.

Estou nostálgico como em todos os Dezembros desta vida.
Não sou propriamente um consumidor das corridas e festejos de Natal, mas a época traz recordações, angustias e amarguras.

Não se pode estar com um pé no passado e o “cu” sentado no presente (já dizia um velho professor).

E é Dezembro.

Sei disso e de outras coisas.
Sei de sonhos e fantasias, de realidades pesadelos e sensações. Sei de ansiedades, pânicos e comportamentos.

Sei das horas e do tempo e estradas mais avenidas desertas em madrugadas sem fim.

E sei do sabor da maçã, o doce da tua pele e pouco de mim sei.

E sei do inverno do vento em que choro, de sinapses, acordes, terapias e memórias com pensamentos oblíquos, quadrados e rectos, e algumas razões.

Estou perto de mais um aniversário natalício e é de novo Dezembro.

E transformo-me em malabarista, ilusionista, vendedor de banha-da-cobra, para me esconder de mim.

Abanei o mês, atirei com o dia ao chão, pontapeei as horas e matei os minutos a fazer palavras cruzadas sem encontrar significados.

Até um dia… quem sabe…!

18 dezembro, 2007







Era ternura envolta em nuvens de algodão.

Abriu horizontes, perdeu colegas e seduziu outros com a tenacidade feminina que alguns homens teimam em subestimar.

Acabou o verão igual a tantos outros e choveram Invernos uns atrás dos outros.

Passaram vinte anos.

Dobraram-se Cabos Bojadores e Tormentas, mais alguns naufrágios pelo meio.
Nunca se esqueceram.

Davam-se com serenidade, completando-se.
Ela mais afoita ele quietude. Ela mais incisiva ele rodeava.
Tornavam os dias mais redondos e as horas mais suaves.

Não se prendia a quase nada, talvez para não se magoar.
Vestia-se de armadura como cavaleira de quatro em riste, mas sentia-lhe o soluçar interior no olhar.

Hoje tempo passado sinto-lhe a falta das palavras que saíam soltas da boca, por vezes sem intervalos

Éramos como musica. Íamos aprendendo a letra, o ritmo e a melodia. Aos poucos.
Quando se pensava saber tudo de cor, os ritmos surgiam de maneira diferente

O Céu continua fechado por nuvens que não querem desaparecer.

Desconfio que o tempo anda demasiado ocupado e que a vida se esqueceu que ainda ando por cá.

Passaram vinte anos.

Lembrou-se da dança das palavras desacertadas, do cerimonial de desencontros, de histórias sem nome e sem rosto.

E escreveram-se sem se sentirem, sentiram sem se ouvirem, e guardaram num fundo de si, notas musicais como quando se tocavam e diziam tanto sem falarem.

Abrigava-se da dor como da chuva ácida, mas procurava inspirar o mesmo ar, que partilhavam com ternura.

Mais tarde, reencontraram-se no Céu pintando anjos na neve. Ela intensa, doce e bravia, ele mel, paz e carinho.

Afinal… podiam continuar assim para sempre…

11 dezembro, 2007











Toco a tua boca.

Levemente, suavemente com os dedos sentindo todo o contorno dos lábios, vou desenhando essa boca como se pintasse um quadro em pinceladas suaves.

Levemente, suavemente, repouso o meu nariz no teu e percorro as fragrâncias suaves do teu beijo ao chegar os meus nos teus.

Unimos os lábios, a pessoa, a fragrância colorida que emanas de ti como se tivéssemos a boca cheia de flores perfumadas em movimentos vivos.

E se nos perdermos em aromas lancinantes, perdemo-nos os dois.

Se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogarmos num breve e terrível absorver de fôlego, essa instantânea morte é eloquente e bela.

E toco e retoco a tua boca, com um cerimonial de palavras incertas em momentos incertos de pessoas inseguras

E procuro e encontro e vejo e revejo e repito num interminável Bolero, que partilhamos numa conjugada cumplicidade.

Toco a tua boca como me tocas a mim em lances suaves de toques ritmados numa doce e terna loucura.

10 dezembro, 2007














Está sentado num banco de jardim, sozinho, oco.

Completamente oco e sozinho. Apenas uma melodia o acompanha vinda não sei de onde.
Passo por ele diariamente. Observo.

Limpo, cuidado, mas triste, sempre muito triste. Cabisbaixo, animicamente abatido.
Uns olhos azuis que em tempos devem ter sido brilhantes e faiscantes, hoje sem brilho e pouca cor.

Alguém se aproxima... e ele:
- Sai já daqui. Vai morrer longe. Vadio, grande vadio.
... E uns olhos de fome entranhados nos ossos que desaparece.

…De repente, ao fim de alguns meses…
- “Bom dia Dr.
E eu, incrédulo e ao mesmo tempo envergonhado respondo.
- Ah… olá. Bom dia para si também.
- Bem reparo que o Dr. todos os dias olha para mim e até já me tem dito os bons dias, mas pensava que era mais um a ter pena desta velha carcaça. Mas não.
Você olha-me diferente. Olha-me como gente. Com um sorriso e simpatia. E agradeço-lhe por isso. Por me considerar gente. E Vc nem imagina as centenas de pessoas que aqui passam e nem olham para este velho.Eu conheço-os a todos. A si aos seus colegas, aos outros que aqui passam. A todos.

- Peço desculpa, mas realmente tenho reparado que passa aqui os seus dias e questiono-me porque o fará…

- Sabe, já não tenho muita força nem grande vontade a não ser ficar aqui.
Apanho sol, vejo gente, espreito o jornal e aguardo a minha hora. Sim, porque nada mais me resta...
Mas Vcs, rapazes mais novos, não vos auguro grande futuro.
As pessoas são cínicas, perderam a vergonha, mentem. Vivemos num Mundo em que dois lados lutam entre si por petróleo, ganância, armas, diamantes.
Uns são apelidados de terroristas aos outros de justiça, quando são exactamente iguais mas usam máscaras diferentes.

Todos se fecham e resguardam dentro de si, das suas vidas, cada vez mais amargas e violentas, quando deviam estar agradecidas pelo simples facto de viverem...

Quando olho à minha volta só vejo interesses mesquinhos e pessoas que se queixam de tudo, talvez tenha estado cego este tempo todo e pensado que o mundo era melhor mas agora vejo que as pessoas são seres que caminham para a insensibilidade e para a cegueira eterna.

- Mas…Senhor….
- Só lhe posso agradecer. Sabe que nesta luta diária pela vida e pelo tempo que escasseia como se o dia já não albergasse as 24 horas, esquecemos ou tendemos a esquecer essas verdades. Por isso lhe agradeço por mo recordar.

Completamente sozinho continuou. Já não tão oco, já não tão só pelo menos aparentemente.
E durante meses fomos trocando cumprimentos, palavras, desabafos de circunstância. Mostrava alguma pose e muita convicção. Também muita revolta e angústia, desalento pelo hoje e pelo futuro.

Um dia, sem me aperceber a melodia parou.
Os ritmos outrora cadenciados deixaram de ter significado.

Aquele Homem só, observador e invariavelmente oco na sua expressão, partiu.

Hoje, dia de cimeira EU-África, lembrei-me deste episódio e destas palavras.

E questiono-me se não andarão por aí umas aves de rapina à volta dos despojos do sorriso daquele Homem e se os seus “gritos” não ecoam no coração de todos nós?

06 dezembro, 2007

ESTOU UM DESERTO DE IDEIAS…















Deixo por vezes o meu corpo em suspenso num estendal.
Viro e reviro, passo por mangas e cós, do direito, do avesso, torço, sacudo e deixo a secar.
Resgato-me de mim em ideias que não percorrem meninges cansadas, ou repletas de mil e uma coisas mil.

Refugio-me em masmorras de choros e insegurança, que aperto contra mim e revejo pedaços de alma florida em jardins de Éden.

Sorrio por entre máscaras inexpressivas de dias adormecidos mergulhando no lado do esquecimento…

… e solto-me do estendal.

Inteira carcaça que revolta margens do rio do meu ser.
Fortes tempestades que amainei em cores e aromas de tanta espera… por ti.

Confuso o tempo, confusa a vida e a mente desprovida de razão, ou tão só repleta de certezas e razões fortes de palavra… sentimento.

Por entre névoas de paixão contida, retraída e nua, rompendo por breve instante o silêncio de sonhos em contramão.

Sinto a voz cansada e seca e o peito ardente por quebrar cercos e muros e cérebros agrilhoados.

E encosto-me no parapeito do abismo, esperando escorregar pela noite.
Corpo de braços e pernas e tronco e mãos que se atam e desatam e não sabem como fazer nem parar ou soltar e esvoaçam num túnel de vento, ganhando asas e ressurgindo como Anjo em manto branco de paz e silêncio e harmonia.

E olho o vosso rosto e vejo-vos cansados e gastos.
Rostos que arrastam os seus donos como alguns corpos… almas.

03 dezembro, 2007














Sou mesmo “despassarado” ou “deslembrado” ou esquecido ou “cabeça no ar” ou mais concretamente distraído.
Sou assim uma dessas coisas, porque nunca recordo datas e por vezes não encontro a cara no nome nem o nome da cara de um sujeito qualquer.
A idade não perdoa e os neurónios já não são o que eram, se é que alguma vez foram alguma coisa de jeito.
Eu coloco lembretes no telemóvel, na agenda, no portátil, mas falha sempre alguma coisa.

Mas jamais esquecerei a Lua que vi hoje.
Linda, sedutora, sonhadora, deslumbrante.
Uma lua cheia vigorosa, resplandescente.

E aí lembrei-me do arco-íris e dos caminhos que percorremos nesta vida.
Lembram-se do “Feiticeiro de Oz”? Pois foi nessa imagem que me fixei.

O raio do caminho que escolhemos ou que deixamos que nos escolha.
Caminhos onde nos perdemos, ruas que nos levam a lugar nenhum e uns abelhudos de uns tipos que nos tapam o Sol e fazem andar às escuras.

Já vivi caminhos e veredas e estradas largas e azinhagas escuras e realmente existem espaços, caminhos e percursos sinuosos.

Escolher caminhos nesta vida é como tirar uma pedra do sapato, quanto mais dói mais nos apetece que fique, numa auto-flagelação que assusta.

Um amigo, começou em noites de nuvens, com luas em quarto-minguante e estrelas brilhantes. Apanhou as estrelas e meteu-as num frasco de cristal.
Levava o coração apertadinho numa mão e as estrelas na outra. Fatinho aprumado, cabelo três-quartos e sapatos que reluziam num festival de espelhos.

Até meio caminho percorrido nesta estrada da vida, tudo decorreu da melhor forma, mas depois de tanto dar e pouco receber numa partilha de oferendas ficou num céu sem sol e estrelas perdidas em saco roto.

Outro, pegaram-lhe na mão e arrebatadoramente disseram: - “Vamos?”
E ele… nada. Nem reagiu de tão estupefacto por tamanha prova de amor sem rede.
O “vamos” tilintou na cabeça durante alguns minutos, um calor inquietante, fruto da mão quente que lhe acariciava a pele.

Aceitou o desafio e trocou-o por beijos e sorrisos e gargalhadas de coisas sem nexo como corpos que se encaixam na perfeição e se puxam um ao outro inexplicavelmente.
Teres aquela mão que se move na tua e enlaça e entrelaça e que te puxa, levando não sabes para onde, ainda que o saibas perfeitamente…
...É assustador... E perfeito.

Para outros o vento da vida já não traz nada de volta. Estão sós e continuam, como num barco pequeno atolado de coisas mil e insanas loucuras.
E deixam no espelho em que se olham sorrisos para recordarem, como se o arco-íris qual estrada, caísse junto à janela, com folículos cintilantes de luz…

24 novembro, 2007







Dançamos de novo?

Todos os outros ruídos se silenciam para ficar apenas a melodia liquida de
uma união entre dois corpos que se embalam numa corrente de harmonia melodiosa.

Hoje, apetece-me dançar de novo…

Colaste-te a mim como tatuagem e o teu cheiro cobriu-me como pétalas coloridas

Fazes a minha alma dançar ao ritmo do tango em voltas e voltas que não param mais.

“Carlos Gardel” seria aluno de tão brilhante professora, eu, apenas ritmava passo em compasso de uma doce espera por ti.

Enrolo, viro e reviro e passo a passo conquisto o espaço entre nós.

Voltas-me e enlaças-me, esticas o braço e afastas-me num doce tornear de ancas e o meu coração é uma pergunta difícil que não encontra resposta a não ser em ti.

Agarrei-te de novo e num assomo de importância levantei a cabeça e rodei contigo colada e ombros nos ombros e braços nos braços e coxas nas pernas ou pernas nas coxas que já de mim nem sei…

E perdi-me no tempo e no espaço e atirei com o dia ao chão pontapeei as horas e liquidei os minutos…

E vamos “a volver” e “el dia que me quieras” não acabam nunca, num sapateado que me enlouquece.

Hoje apetece-me dançar contigo…

Porque a vida inteira é pouco para o abraço imenso que te quero dar













As folhas vão caindo neste Outono Primaveril.
As noites são cada vez mais longas e eu esmoreço de mim.

Perdi o passo ligeiro e curvo as mãos para dentro.

Em vão, procuro alhear-me, mas as pessoas caminham cansadas, evoluem em câmara lenta, de vez em quando levantam voo.

Eu olho-as e pergunto se serão Anjos…

Quantos buracos negros na alma terão de tapar para conseguir sorrir por dentro?

Porque tanta gente espeta pregos nas orelhas, nos lábios, na língua e no rosto ?

Porque exorcismo reviram as sobrancelhas e não tomam o tempo que o tempo lhes dá ?

Olhava o balão da máquina de café que aos poucos enchia, enquanto o rádio debitava decibéis de insuportável pandemia acústica

A brisa que solta corpos ondulantes e sacode pedaços de ti

Eu olho-te e pergunto se serás Anjo…

Por vezes, não consigo ver para além da saudade

Enquanto a torrada se faz...

eu viro-me para dentro à procura de mim.

07 novembro, 2007










A morte enfrenta-nos em cada pedaço de caminho em cada segundo de vida.
Quando confrontados com choques violentos, atropelamentos mortais, carros despedaçados, famílias desfeitas, crianças pelo chão, corpos tapados, ganhamos consciência de como a vida se decide num click.

Nesses momentos imaginamos a alegria das pessoas no percurso efectuado, as conversas tidas, as imagens retidas, o sofrimento dos familiares, os filhos, as mães, tudo.

Numa altura em que nos vendem milagres ao molhos, desde depositar as células num congelador, utilizar o ADN para resolver problemas futuros, conservar o cordão umbilical, não comer gorduras nem sal, fazer exercício físico, beber chás milagrosos, um tinto que faz bem ao coração, dentes de alho para a circulação, um pouquinho de chocolate que ajuda a depressão, rezar pai-nosso e fazer figas no sopé de uma montanha, de tudo nos impingem para garantir a imortalidade.
Mas, nem as redomas de vidro ou os elixires de “Itapuama” nos ajudam.

Temos como hábito entregar à Divina Providência a nossa vida e o futuro da nossa gente, mas quando chega a hora, até a Senhora de Fátima discorda dessa irresponsabilidade.
Se pensarmos um pouco, verificamos que, depois de devidamente abençoados com velinhas colocadas no milionário santuário, rezas e orações com terços a circular por entre os dedos, já vai no segundo autocarro que regressa de Fátima e cai numa ravina.

Portanto, o que se sugere é que se viva, com intensidade e alegria, que tratemos bem o próximo, rindo e saltando, beijando e amando, não desperdiçando a oportunidade de dizermos a quem amamos o que sentimos.
Esta vida já de si difícil é mesmo um fiozinho muito ténue.

03 novembro, 2007













O sino tocava pelas 5 da tarde e na rua toda a gente parava

Os homens tiravam o chapéu, algumas mulheres benziam-se. Os homens ainda usavam chapéu.
Não sabia o significado daquilo tudo, mas aquele minuto tinha um silêncio que doía.
Balbuciava-se baixinho e as pessoas apressavam o passo.
Todos se dirigiam para o mesmo local, a igreja paroquial.

Nessa época os dias tinham um cheiro morno que não consigo definir, as árvores cresciam, as plantas esgrimiam argumentos de cores garridas.

O sino tocava acordes vários e cada um tomava o seu lugar, a homilia serena despertava corações em remanso atingindo os mais incautos.
O preto dominava, assim como a longevidade dos presentes.

No largo, pequenos pombos depenicavam restos de presença entre os sobrantes da calçada.

Manuel gostava de Maria que gostava de Manuel, mas não podia.
Maria falava com Manuel deixando espaços em branco entre as palavras.
Manuel olhava com ternura e debitava frases coloridas e Maria corava, arfando por entre dentes.

A vida não acaba. Existe sempre um amanhã. Assim falava o Senhor Prior quando se dirigia aos fiéis.

No Minho da minha infância estes dias eram anos.
As lagoas no sopé das serras, as colinas, as grandes planícies as ravinas enclausuradas, os vales e as flores indescritíveis do Minho Português permanecem pelo tempo.

Gosto de poesia desarrumada e de romances históricos. Também acolho bem as crónicas mais concisas e directas e mais eloquentes. Aprendi a ler o JN nessas visitas em conjunto com uns rojões e um cabrito bem apaladado.

Lembro a literatura popular nas férias de Braga, Ponte de Lima e as ondas frias do mar da Foz e de Moledo.
Do vinhedo minhoto recebi luz, cheiro e sabor agridoce.
Do mosto vinha um aroma que empatava o bacalhau desfiado com azeite, muita cebola e azeitona misturada com broa nas quintas de Entre-Os-Rios

Também os livros do Tintim, Astérix e os inconfessáveis do Pato Donald, Mickey, Patinhas e o sortudo Gastão, faziam das tardes intermináveis um contraponto com o verde que escorria das garrafas geladas e as cataplanas de Vigo com marisco em abundância mais os caramelos de Tuy.

O sino tocava e as procissões abundavam com Anjos vestidos de meninas e meninas emparedadas em asas.

Os homens usavam chapéu, o Manuel gostava da Maria que gostava do Manuel, mas não podia, e ainda hoje o sino toca pelas 5 da tarde, na Igreja do Largo, engalanada pelas festividades minhotas, enquanto o Senhor Prior oferecia bilhetes para o céu a troco de penitências na terra.
.

22 outubro, 2007











Hoje acordei com medo, mas não chorei.
Não que chorar fizesse diferença, apenas não tinha lágrimas.
Medo de tudo e de nada, de mim e dos outros.

No seu tempo, Adão tinha medo de cair em tentação, os Egípcios não dormiam com medo das pragas de sapos…
Eu acordei com medo e procurei no escuro… e não vi nada.

Fico a pensar se serei uma pessoa corajosa, já tentei lutar no escuro para perder o medo, mas dei por mim numa figura ridícula.

Também os Gauleses tinham medo que o céu lhes caísse na cabeça, mais tarde surgiu o medo dos leprosos, depois nos descobrimentos era o Adamastor e as tormentas, a peste e a fome.
Mas procurar algo no escuro, tão perto e tão longe… tão inquietante.

Vivemos em acrobacias de alma, como trapezistas sem rede em corpos semi-nus sem chama de vida.
Solidão de vida, mesmo para os acompanhados, solidão de gestos, de vazios, de desencontros, de estados de alma de funestas esperanças de que hoje será, o ontem foi e o amanhã vamos ver…

Solidão de percursos antagónicos como diferentes os trilhos percorridos.

Tudo isto por causa do medo e do escuro, do sobressalto temporal, num nocturno adormecido.
O tempo olha para ti com desdém. Não tens idade nem hora, apenas a escuridão da noite que te povoa.

E o medo do escuro na noite ao acordar, generoso e doce, o medo.
Como eu. Distraído mas pensador, de infinita bondade rodeado de ideias com o cérebro atafulhado de novas cores, novos quadrantes.
O que é isto se não sonhos?

Aqueles acontecimentos que colocamos numa gaveta a meio da cómoda onde alojamos sentimentos.
Umas vezes junto aos lenços perfumados, coloco os sonhos amarfanhados, outras, arrumadinhos e vincados.
Consoante chegam, a gaveta enche e chega a abarrotar.

Os sonhos nunca são demais, por isso pouco ligo ao inchaço da gaveta.

Medos em sobressalto que evocam risos de infância, a exaltação de uma primeira paixão, a memória de viagens a locais por descobrir. Cores e cheiros, canela e cor de fogo, intensos,límpidos e cristalinos, vales verdejantes, céu aberto à harmonia.

Somos uma vida de pedras soltas, colocadas energicamente umas sobre as outras estrategicamente preparadas.

O medo e a noite.

Já não tenho medo, mas se tiver que chorar... choro.
Esse medo não tenho.












Este deveria ser um Outono mágico,

mas sinto-me afastado do mundo, afastado de mim.

Estou entre o frio e o calor, o sol e a chuva.

Quero ser redescoberto sem GPS, instalado numa canoa a dobrar o Cabo Bojador.

Quero que me ouçam como se debitasse palavras plurais de sujeitos e predicados e sentissem nelas a mais antiga sabedoria.

Quero sentir-me embalado por mãos de veludo carinhosas e penetrantes.

Quero ser abraçado e tocado e mimado como se fosse fonte de calor inesgotável no mais rigoroso inverno e de mim dependesse o equilíbrio do mundo.

Quero ser beijado como se fosse um ribeiro à solta fertilizando campos e um sol que poisa devagar na montanha da vida

Quero ser respirado como peixe debaixo de água,

Como se fosse o ultimo sopro de vida.

09 outubro, 2007



















São tuas as histórias sem nome e sem rosto…

Palavras que lês sofregamente e me fazes perder num deserto de emoções.

Tiveste-me como uma miragem! Tocas-te e desvaneceste
(Não eu! a imagem que querias ver em mim!)

Procuras e não vês, eu vejo que não vês, mas tu não vês nada de mim.

Quando te olho não preciso de palavras

Quando te oiço não preciso da tua presença

São tuas as histórias sem nome e sem rosto…
Tal como as flores em que mexes e exalam perfume que te acompanha
Como folhas no coração.

Por não me quereres ouvir…
Morderás teus lábios deslumbrados e saberás a sangue dos sentidos

Lábios sedentos que tocaram no mais fundo do âmago e encontraram
Palavras escritas por mim.

Porque esperas meu Deus,
Para me cravares de palavras petrificadas
De sangue que jorra como lava
Por dentro de mim como vulcão.

Porque me tornei efígie de sal
Como mito, aguarela de espanto
E “obrigo” outros a ouvir-me e a entender o que sonho.

Para mim traço desafio… por querer tanto
Dou o peito às balas com incenso e encanto.

E prendem-me língua, seguram-me dedo
amarrotam-me a alma e censuram a escrita
Proíbem palavras.

Lanço-me então ao céu em asas
E esvoaço entre nuvens de ciprestes
Como Anjo.

Fui
Esfumei
Perdi-me em nuvens ancestrais penduradas em arco-íris.

São tuas as histórias sem nome e sem rosto…

Quando te olho não preciso de palavras
Quando te oiço não preciso da tua presença

Quando me lês não precisas de mim
Porque tantas vezes me silencio e são tão poucas as pessoas que sabem…
Chegar a mim…!

02 outubro, 2007



















Tens medo.
Medo dos meus beijos sem ensaio geral ou antestreia
do inócuo, do profundamente gentil, do terrivelmente belo, do sumptuoso desejo.

Medo de me teres, de confundires tempo com espaço, de trocares os dias pelas noites, a negritude pela coragem e de te perderes na voragem dos dias.

Tens medo,
por isso fazes um cerimonial de palavras desacertadas quando chegas sem avisar,
e procuras a geometria do meu corpo quando bates à porta do coração.

Fixas o meu no teu olhar
e regresso devagar ao teu sorriso
como quem encontra harpas num musical inesperado.

Tens medo
das partituras que trago comigo
do doce solfejo em que te encontras
no âmago da solidão que nos invade
receosas, tenebrosas,
como vasos baratos de roseiras despidas.

Tens medo
que escape sorrateiro pela calada, ou que me desactive temporariamente
como palavras recheadas de adjectivos em perífrases prolongadas.

30 setembro, 2007
















Se me quiseres encontrar
estou aqui.
Entre o céu e a terra
entre a montanha e o mar
Talvez pendurado numa corda,
talvez a amar
Se me quiseres encontrar
estou aqui
Ora no aquário onde por vezes vivo
ou na concha que trago agarrada a mim.
Mas se me quiseres encontrar
despacha-te
pois podes não chegar a tempo de veres quem sou.

JP

27 setembro, 2007













No caso Esmeralda assisto a um convénio de palermice e de soluções absurdas que parece não ter fim.
Existe um Pai biológico que só teve interesse em conhecer a filha, "quando lhe deu jeito", e uma Mãe biológica que os jornais descobriram.

Um casal "adopta" a criança ainda pequenina que cresce agarrada a esse amor e aos mimos desses Pais, os únicos que afinal conhece desde os 3 meses de idade.

Entretanto, no circo mediático esgrimem-se argumentos dos dois lados. Como em tudo, há os "coitados" os "desgraçados" e os "arrependidos" .

Da principal interessada - a Criança -, poucos se lembram. Ela é o caso menor neste enredo.

Entretanto Esmeralda começa a dar sinais.
Sente-se angustiada, nervosa, inquieta, com insónias, um estado psicológico preocupante.
Vá-se lá entender porquê, qual capuchinho vermelho, agora com cinco anos, percebe que existem os "maus" que a querem tirar dos "Pais".
Neste pingue-pongue mediático e circense com escapadelas à justiça, prisões, julgamentos etc, tentam explicar à criança que afinal os "maus" são apenas agradáveis e óptimos para comer gelados e brincar ao esconde-esconde.

Por incrível e mal dos pecados de quem dita as leis e julga crianças de 5 anos, a atrevida criancinha em vez de aceitar tudo isto servido em bandeja... assusta-se.

Então, alguns técnicos, Psicólogos, Psiquiatras, Médicos, Juízes, Jornalistas, Cronistas, Vendedores de jornais, Vendedores de castanhas, Peixeiras e Taberneiros, resolvem em novas análises, redefinir as visitas de quinzenais a mensais pois a "criatura infantil" tinha reagido mal à situação.

Entretanto um Douto Doutor de Leis, que já não se lembra do tempo em que deu a mão aos seus pais nem os banhos que lhe deram, nem a papinha que comeu nem as fraldas que lhe mudaram, decreta que Esmeralda deve ser entregue aos Pais Biológicos.

Dá-se assim um remate final e marca um golo a equipa visitante para gáudio dos seus apaniguados.

A bola (vulgo Esmeralda) lá vai rolando de Herodes para Pilatos, provavelmente com noites mal dormidas, sonhos preenchidos com papões, dores de barriga, inquietação permanente e um retrato no futuro-imediato pouco favorável.

Pais... são aqueles que nos dão a mão para dormir, embalam os sonos, ajudam a baixar a febre quando aperta e nos limpam o ranhito do nariz.
Pais são os que estão ao nosso lado dia após dia e noite após noite que nos dão afecto, carinho e amor.

Mas também quem disse que a Criança Esmeralda de apenas cinco anos tinha alguma coisa a ver com isto?

25 setembro, 2007

ESTOU ESQUINADO…


Vida para mim…


É parar numa esquina e seguir,

Saltar no zebrado entre a barra preta e a branca num pé-coxinho libertador.

É vestir de novo o velho casaco e olhar na montra o novo que não consigo comprar.

Comer gelados e fazer desporto, beber um copo com os amigos e fazer amor até cair.

Vestir o fato número 18, a gravata 33 a camisa 12 e levar sapatos trocados.

Querer imitar quem salta do autocarro em andamento e malhar com as trombas no chão.

Caminhar ao longo da marginal de S. Martinho e sentir a chuva que borrifa e molha até aos ossos.

Mas sei…

Alimentar o sótão que me habita com coisas agradáveis e reservar espaços para outros que virão.

Fazer dele um quarto agradável, onde assisto à lua cheia e onde vou limpando janelas de boas vivências de memórias passadas.

Guardar num cantinho do coração a tua imagem e atafulhar de vestígios teus os restantes pedaços

No porão a que chamo intestino vou despejando atitudes, verborreias de quadrúpedes animados de verve fácil mas de difícil postura, onde cabem lembranças que organizo e escolho se vale a pena serem guardadas.

Assim, transformo muitas deselegâncias, muitas tempestades em copos de água e consigo matar a minha sede para me entender melhor

De vez em quando faço um despejo completo desses males que me apoquentam e literalmente empurro-os para a fossa do tempo.


Não gosto…

Receber e-mails do tamanho do primeiro testamento, ser culpado da fome no Darfur, da guerra no Líbano e da peste na Eritreia.

Levar com um tipo no café que diz que me conhece de qualquer lado, e sem nexo,conta as posições que adopta e a suposta performance de trás para a frente mais a qualidade da gaja com que namora e a dele.

Aturar gajos dependentes de uma dependência qualquer para o qual vão pedir um subsídio do qual ficarão dependentes e sorrateiramente irão reverter essa dependência numa outra qualquer e só me apetece gritar …VÃO TRABALHAR PORRA!

23 setembro, 2007


















Ando por aqui e por aí, e não te vejo.

Vislumbro vultos, inconsciente, desconhecido.
Existo e resisto a tirar a poeira que me cobre, um espelho que me assusta.

Estou enroscado em ti. Pele com pele, carne na carne. Enroscado num beijo.

Como os corais que se agarram às pedras
Cúmplices de duas metades iguais.

Gosto quando enrosco nesta sensação
De dar e receber na mesma proporção

Gosto de ti com a energia de dois continentes e a beleza de mil chamas ardentes
Gosto que me gostes e me chames louco e te enroles e reboles nos meus lençóis.

Transformo diabinhos de mim em fantasmas de ti e piso os teus passos por caminhos inventados.
Vivo com o teu cheiro no meu espírito movediço, planto flores onde existiam nuvens e agarro no sol com os dentes e trago a lua no bolso para te oferecer.

Mas vivem alcateias vigorosas, presas em redil vazio, que te olham e me inquietam.
E abraço-te e danço mil músicas de mil razões com mil poemas de aventuras mil
E sofregamente te enlaço e te afago e beijo e percorro o meu desejo em ti
E vibras e ris e choras e olhas lânguida de ternura transparente
E soletras beijos em poemas de canções que te escrevi, com parágrafos triunfais.

Ando por aqui e por aí e não te vejo
Acordo num sono alvorada, com um copo de rícino esbatido
Depois de olhar mortificado, o espelho que te substitui.

Vou agora, desta vez e já não volto.
Levo comigo um beijo, redenção
Por não te saber reter na memória,
desatenção.

20 setembro, 2007















Ofereces-me as mãos dou-te um olhar

Ofereço-te um abraço, dás-me um sorriso, profundo, contido, quente, meigo e animal.

A tua presença e o teu cheiro tiram-me da razão, tremem-me as pernas, falta-me o ar, o teu toque acalma-me e agita-me, simultaneamente.
Os teus lábios que devoro, consomem-me numa sintonia perfeita. A roupa que sai, a pele que se queima. O corpo, a mente, a alma e de novo o coração que se desprende e agita, o belo, o pecado, o sagrado.

A tua boca cala-se, a minha seca. Os teus olhos brilham, os meus fecham-se. Os teus ouvidos redobram, os meus tapam, o teu coração acelera, o meu… acho que tropeça.

Vivo numa anatomia de palavras para te envolver, o doce da dança dos fios cruzados, de uma boca sequiosa de pele molhada de lábios gulosos gozados como os meus.

Há coisas que não quero que me saiam da cabeça, como a tua presença em mim, o sol no inverno e o sorriso na tua boca. Vivo continuamente espartilhado nas palavras e não consigo fazer-te cócegas no olhar.

Agora, amo-te às cores, aos berros, aos pulos, na inquieta ânsia de ter um só dos teus carinhos...!
Amo-te com atilhos no coração, roupa com ar de fim-de-semana, fita no cabelo e a loucura a roçar-me os lábios.

Ficas a navegar ao sabor do vento levada por ondas de paixão e num ápice percorres constelações. Aprendo a fazer dez magias percorrendo cem vezes o mesmo caminho.

Quando os teus lábios segredam coisas aos meus e suspiram desesperados por novos segredos que necessidade tenho de ouvir? E que capacidade tenho para te ouvir?

Ofereço-te um abraço, dás-me a mão,
ofereces-me um sorriso, enlouqueço em ti.

19 setembro, 2007

Cala-te Homem! (do quotidiano…)














Homem: - Falta-me o ar.
Juro que me falta mesmo o ar. Já ontem à tarde me senti assim, quando alguém disse: - “Ai coitado, você está muito branco, sente-se bem?”
Ao que procurei de imediato um espelho para ver a minha cara e reparar no branco de cal que me tolhia. Vá lá que o coração tem andado certinho, desde que o Senhor Doutor Luís lá da Farmácia me deu aquele xarope...

E tudo isto por tua causa, que me afliges e adormeces a alma.
Sempre me trataste como um abjecto animal.
Tu, que nem camisas sabes passar nem o pequeno-almoço arranjar, quanto mais saber de alguém?

Passavas de tempo em tempo sem tempo para mim, nem tão pouco para ti.
Não sabias de carícias nem de aconchegos, nem de beijos, apenas de vidas de telenovelas enredadas semanas a fio como se eu fosse membro absoluto dessa teia.

Um simples beijo, coisa simples.
Festas, fazias como se estivesses na paragem do 87 para Almada com a mão a abanar a abanar sacudindo tudo em volta.

Carícias? Era como se esfregasses de pedra-pomes os calcanhares que te apoquentavam.

Casamento querias tu, mas já a Alice, vizinha do terceiro direito me dizia que andavas à caça de casório com um homem abastado.

Coitada, logo te havia de calhar um pobre coitado de Cacilhas que nem embarcação tem. E chamavas-me jumento. Jumento de ti.
Como se tudo o que te dei, berloques para o carro, almofada para te sentares no sofá e encostares a cabecinha no meu ombro enquanto choravas baba e ranho pelas dondocas desprotegidas em canal brasileiro, nada valessem...

Eu que te levava a passear sábado sim, sábado não, e quando o meu Benfica jogava lá estávamos nós a ver passar o pessoal. Festa era o que tu querias, festa.

Passavas o tempo em médicos para te acoitarem as maleitas febris mais as dores nos quadris e os joanetes. Vestias preto e amarelo misturado com roxo, cambraia e cetim, e abanavas o traseiro enquanto mandavas beijo repenicado a um qualquer amigo, sabe Deus.

E bem sei das conversas que tinhas com as tuas amigas depois da canastra. Canastronas, velhas e desempoeiradas que cochichavam afazeres para espreitar as elegantes criaturas aprumadas em fatos de marca.

Vai ser melhor para os dois, que me dê uma “solipampa” qualquer, num qualquer dia e que te estrague a saídinha preparada com bolinhos de cacau e chá adocicado por colher de prata.

Eu que sempre fui muito calmo, de poucas falas e muito sintético no que digo.
Nunca encontrarás outro como eu, isso é que não…!

Ficarás uma velha gaiteira pouco só, que bem te ocupas, como se eu não soubesse dos truques que me fazes e das vergonhas que finjo não ter.
E não dizes nada. Nem me ouves porventura, velha anafada, bolorenta.

Mulher: - “-...Cala-te Homem… !

18 setembro, 2007







Sei percorrer caminhos dificeis até encontrar flores frescas para te dar.

Sei correr em sentido contrário ao sentido do tempo que tem um compasso muito seu, diferente do meu, diferente do que dele pensamos.

Eu não tenho o meu passo na medida certa do teu, nem o tempo a medida certa do nosso.
Sei quando o vento sopra em sentido contrário ao tempo, e eu corro contra o tempo a favor do vento.

Sei percorrer caminhos dificeis até encontrar conchas no mar e poemas para dedicar de versos preparados em noites mal dormidas.

Sei correr em passos ritmados com coração solto e selvagem, no qual cada curva é uma incerteza, cada onda sensação, cada caminho a intenção de um lugar.

Sei que a ausência é um mar que não devolve as ondas e uma alga escura que traz sal no olhar.

Sei percorrer estradas que me levam a algum lugar quando venho de lugar nenhum.

E sei correr num tempo nosso entre nuvens de mar e ondas de sol por caminhos fadados a um encontro.

Percorro e corro e parto-me em mil pedaços de mim por outros tantos de ti, entre quatro colunas por entre a saudade que me espera.

Flores frescas para ti !

14 setembro, 2007

Ver a vida de pernas para o ar





Mudei de alma e bagagem para este mundo.
Já não sei quando nem porquê.

Quando vim trouxe os anjos comigo, eles que me acompanham e sabem tudo de mim.

Quando por vezes fecho os olhos e venço o desejo de me rever ao espelho tento saber de que lado estou.
Raramente me sinto e quando olho bem, a imagem vai-se desfigurando pois este olhar precede um outro bem mais desperto e mais real.
Vejo de esguelha, torço o pescoço, contorno o olhar por cima do ombro e reparo que o outro olhar mais penetrante, mais astuto sobrepõe-se ao meu.

Saio devagar, deixando que se afaste também a minha imagem, lentamente, deixando apenas um rasto de mim para mim.

Quem estiver a ler dirá que estas palavras só têm cabimento no mundo lá de fora… mas eu não sei de que lado estou.

Várias vezes nos cruzamos, olhamos, sabemos da existência um do outro, até os anjos comuns são amigos, mas nunca conversamos pois somos engolidos pela multidão a cada passagem. Jogamos ao “toca-e-foge”, e perdemo-nos na multidão que passa e enche as avenidas da vida.

O meu coração cospe lavas com cheiro a incenso.
Sei que não tarda vai-se arrancar de mim.
Coração moído, rasgado em pedaços, retalhos, meros grãos de areia que por vezes guardo no bolso, não vá fazer-me falta.

Mudei de alma e bagagem para este mundo…sei lá como e porquê.

12 setembro, 2007















E ofereceste-me sorrisos aos molhos, noites de luar, amor em lua cheia e eu, trapezista em corda-bamba aceitei-te tal como vinhas.
Perturbada, inquieta, metafórica, destruída, com um pé fora outro no abismo.

E ofereceste-me rios de palavras, lindas, quentes, alucinantes, inebriantes, aconchegantes contos e recontos em curvas apertadas estradas rectilíneas e um manancial de descobertas. E eu... deixei-me levar na corrente das palavras.

Passavas das palavras aos actos como quem navega à bolina contra cais de nevoeiros, e eu, ilusionista na vida e palhaço no circo, deixava-me levar por águas sulfurosas corrompendo o casco desse veleiro.

Trocávamos monólogos redondos enfeitados com fitas multi-cores que acalentam os ânimos e afagam o ego. E eu, impotente na verve, sonhava palavras doces que raro decifrava, trocando a obra-prima-do-mestre pela prima-do-mestre-de-obras, espraiando no limbo das incertezas.

E atiravas com amores-felizes, num turbilhão de palavras ditas, mas de frases inúteis e sem sentido, precisando aqui e ali de adjectivos, predicados e até complementos directos.

E ofereceste-me livros de conquistas, guerreiros em cada esquina, arqueiros de Rei Artur.

Sentia-me como Lancelot, até chegarem gnomos, feitiços, fadas e poções mágicas que nada fazem.

E ofereceste-me o Sul quando eu procurava o Norte, encheste-me de reflexos e eu buscava a sorte caminhavas sem sentido eu evitava a morte.

Sem palavras nem actos, contos nem recontos, ditos ou reditos, sem duendes nem feitiços, fadas e archotes, nem lança-chamas, bobos de Camelot.

10 setembro, 2007











E mexias em tintas coloridas de mãos abertas ao mundo, inventando caminhos desbravando a pele.
De mãos pintadas percorrias o meu corpo espalhando cor e amor em doses proporcionais.

Decifravas tonalidades em cada passagem de mim por ti, rebuscando sentidos estéticos em cada toque em cada aroma.

Éramos ambos sonhadores descalços, pincelando teoremas em partes iguais de corpo em corpo de toque em toque.

Percorrias com teu no meu olhar e espalhavas língua em corpo ardente como fogo em noite de lua cheia.
Vampirizavas sal em bater descoordenado de coração.
Rasgavas pele com ardor aguçado de saliva e vibravas como nadador em apneia demorada.

Pintaste a noite como manto que nos cobre de carícias.
Aqui sou tudo e sou nada, apareço e desapareço em ti, e desmaio e morro em odes triunfais.

E é efémero este tempo este espaço em que vivemos em que sentimos que a vida passou perto de nós, porque sentimos na bruma que o tempo parou.
E gemias gritando e gritando gemias, palavras loucas roucas enevoadas perdidas num tempo sem tempo em êxtase sem fim.

E mexes em tintas coloridas espalhando por ti e por mim multi-cores açucaradas, ternas, belas, sedutoras.

Rasguei o manto que me cobria sonho e medo, meio-verdade, meio-loucura, funesta imagem translúcida da febre que me cobre.

Finalmente acordei encharcado do teu suor em mim ou do meu amor em ti,

Jamais saberei a tonalidade da verdade, se da febre que me tinge alma e lucidez se do sal que me cobre o corpo e que tem cheiro de pétalas como valsas em nocturno de Chopin.










Sei do doce da tua pele e do sal no mar, do frio nas montanhas e do aperto no coração sempre que te vejo.

Conheço de cor o teu riso e a forma como o usas para me fazer vibrar.
Conheço de cor a tua boca e a forma como a usas para te ouvir sussurrar.

Percorres os meus com os teus dedos e instalas sons na minha alma.
Entrelaças os teus nos meus dedos e dizes que sim sem eu ter perguntado nada.

Falas e fazes música com o teu olhar no meu fazendo a vida num concerto.
Não questionas a minha sanidade mental quando te abraço e beijo, o que agradeço.

Olho-te e vejo-te como aos 14 instalando melodias numa ária de Bach.
Solto palavras esvoaçantes como alma sem destino certo e um bando de pássaros que ruma ao sul deixando a promessa de voltar na Primavera.

A jornada começa no primeiro degrau da porta pequena, libertando-nos de prisões das quais dificilmente saímos, amarras que trazemos ancoradas a nós.

Deixamos enrodilhar afectos enquanto o mundo corre ao nosso lado, despertos numa realidade alheia

Quero ter-te num amanhã despido de sombras num nevoeiro de carícias doces e sou feliz porque me roubas um sorriso
quando pretendo soltar uma lágrima.

27 agosto, 2007

AO DESCONCERTO...!
















Morava numa rua onde passava um carro de vez em quando, ora sim ora não.
Pregava olho (metaforicamente) quando o jeito dava ou não dava jeito nenhum
Cruzava-se com gente, raramente, ou quase nunca.
Passeava um cão que não conhecia, nem de aspecto nem de raça, nem se existia mesmo.
Abanava as orelhas como ventoinhas e debruava sons esquálidos de cana rachada.
Raramente comia, ou porque não desejava ou não queria, quantas vezes nem o sabia.
As árvores dançavam ora com vento ora sem, dependendo da batida.
As numerações do relógio da torre na rua direita saltavam como pulgas e enfeitiçavam quem olhava.
Atravessava a rua na passadeira, saltando do risco branco para o preto e deste para o branco, no fim após travessia efectuada saltos em marcha-atrás.
Sonhava alto no fim de uma noite mal passada, assim entre o bife do lombo e a entremeada, quando sente um zagalote que lhe rasga o pensamento.
Eram os putos do andar de cima que pisando e repisando em soalhos ardentes com febrão matinal, acordam-no dos braços de "Morfeu" na altura em que Sandra Bullock lhe caía nos braços.
Até tinha boa impressão dos miúdos, mas a partir daquele dia qualquer coisa travou a simpatia por eles...
Jamais saberá da ínfima possibilidade de ter uma Deusa nos braços...!

23 agosto, 2007











Gosto da minha solidão
Sei que pode ser chato e enfadonho, viver comigo e em mim, apesar de no meio de tanta gente.
Mas adoro a concha que me tapa e protege dos nevoeiros que me cobrem.
Bem tento colocar um bálsamo protector sobre essa concha, mas por vezes não chega. Desligo-me realmente do mundo e de mim.
Tiro literalmente a bateria para não estragar a máquina e fico off.
Houve tempos em que fechava a porta com três voltas e um toque no ferrolho mais uma tranca das grossas.
Janelas bem estanques, luz apagada, uma folha em branco e uma caneta por cima
Imperfeito que sou, irrompe em mim uma mistura de ódio ao mundo e zanga estupidificada por abjectos e estranhos quadrúpedes que cirandam na nossa sociedade e perto de mim.

Sei que não pareço muito normal (?), com esta atitude de atabalhoadamente me divertir diariamente com revistas e livros que vou visitando para além dos papelinhos em que dito leis e ordens numa confusão mental que por vezes me povoa.
Assim tenho feito percursos ziguezagueando desde que encontrei a casa mais vazia, poucos objectos, alguns quadros menos, as minhas pinturas espalhadas e os cachimbos que saboreio, fora do lugar de sempre.

Vou-me construindo solidão enquanto o Inverno povoar de cinzento a minha alma.
Caminho na rua e em cada pedaço de tempo, em cada pedaço de nada, um arremesso de ti.
Foste fantasma na vida e ausente de mim. Falo-te quando conduzo e me conduzo por ti.
Olhas-me do fundo de uma chávena de café numa esplanada do Rio, Milão, Paris ou Londres.
Apareces como post-it agarrada a jornais que folheio e fazes contorcionismo nas montras da Zara.
Espreitei-te na 5th Avenue, no Sacré Coeur, e na Avenida Fiumicino. Veneza já não está igual e o Santini misturou sabores que não consigo recordar.
Afastas-te do Sol que tens por companhia e alimentas-te da Lua que te refresca a memória de mim.
Mantenho a esperança como um sedativo para acalmar as dores que me atormentam, ansioliticos que desprezam a minha existência e um electrocardiograma que dá sinais vitais de ti em mim.
Assim vou povoando as meninges com imagens que guardei.

Deixei-te fotos, filmes, musicas, despojos da guerra em que nunca estive. O cão, esse amigo de tempos invernosos fica no aconchego dos teus braços.
Guarda tudo, não destruas o que era de mim.
Talvez um dia, devagar, embalada em doces gotículas do perfume que amei, olhando as estrelas que povoam esse nobre Alentejo, possas revisitar tudo isso.
Guarda contigo o cheiro a alfazema das belas paisagens francesas. Guarda os recantos dos livros, a memória, fios dos meus poucos cabelos e um abraço.
Lambe as feridas e deixa que sangrem para melhor cicatrização.

Não te afastes de ti como de mim.
Vai regando as flores e plantando novas, gatafunha escritos que nunca entendi e grita bem alto sentimentos que nunca ouvi.
Escuta quem te elege e acorda numa alvorada para ver os lírios, pássaros, frio agreste que corta, e embrulha-te na manta de retalhos da vida que construímos.
Por mim, fico na solidão em que me perco… não te percas tu de ti, também.

21 agosto, 2007

Aguenta Coração...!




Saio de casa arranjado, perfumadinho, engomadinho, todo xpto, para trabalhar lá no Hospital Público, como pública é a dimensão do meu emprego.

Atarefado pela desgraçada da vida mais o trânsito na ponte e o ruminante cabeça de abóbora que cuspia partituras com música agarrada aos meus ouvidos, eis que pespego um olhar na boa da Alice.
Boa...!? ... Bem... bom sou eu que me porto que nem um cachorro mimado quando se lhe coça as orelhas.
Ela era um completo terramoto grau 5,5º na escala de mamas apertadas contra um vestido de tule.
Vá-se lá saber porquê, embeiçou comigo (que não sou desajeitado de todo ) mas também não sou nenhuma figurinha dessas de trazer debaixo do braço, qual modelito de revistas sociais.

Por falar nisso, já dizia a minha tia Efigénia, Deus-a-tenha-em-eterno-descanso, que eu haveria de ser um tremoço (... por acaso nunca tinha pensado nesta ligação... tremoço...huummm...).

Mas voltando à boa da Alice, eis que ela dengosa com aquele olhar de dez-prás-seis (coitada, ainda usou um penso enorme no olho quando era nova, mas aquilo nunca endireitou), agarrou-me pelo nó da gravata e enfiou-me cara dentro do decote.
- Então ó meu safado, quando é que vamos pôr a escrita em dia?

Assim pasmado, ainda me imaginei contabilista, mas afinal continuava a ser o Tony-das-marquesas-do Hospital-central, (profissão de alto risco, não só pelo contacto com todo o tipo de doenças, mas sobretudo pela quantidade de peões que faço nos corredores do Santa Maria).

- Mas Alice, meu docinho ...
-Nem Alice nem meia-Alice - rosnava ela.
Com este rosnar até se me atravancam os fígados com nós nos intestinos.
Esta não é mulher de levar desaforos nem negas para casa...

Alice, mulher escultural cuja beleza entope as canalizações do Bairro da Ajuda, dona de um pedaço de pernas de fazer inveja a qualquer futebolista de mija-na-escada.
Uma vez estávamos no meu boguinhas comprado-a-prestações-ou-letras-do-Banco que-nunca-cheguei-a-saber-pois-foi-o-Tójó-lá-do-prédio-que-o-vendeu, quando ela me apertou com aquelas pernas que mais pareciam quebra-nozes.
Dali fui directo ao endireita com uma contusão na cervical e duas costelas partidas.

Livre da Alice, que é como quem diz, assunto despachado para as seis e picos da tarde, paro no café para o primeiro do dia.
Grande entorpecimento.O meu Benfica perdeu...
Tremores assaltam-me as meninges, os pelos eriçados e um bate-bate coração que nem carrinhos de choque em feiras de Maio.
Num instante, tal o meu estado catatónico, quatro galifões espreitam-me por cima do ombro para a leitura do "desastre". Tamanho era o bafo a aguardente-velha, que nem foi necessário esbofetearem-me para acender a chama da vida.

Desesperado com aquilo que os meus olhos liam mas o cérebro não acompanhava, o que seria um mau resultado do Glorioso, foi também uma péssima exibição com bilhetes a quarenta euros no atravancar da segunda-circular.
Ainda pensei fazer queixa na polícia por atentado ao pudor tamanha a falta de jeito que eles têm pr´a coisa desde o velho Eusébio, mas estava atrasado p´ra picar o ponto.

Começo assim a trabalhar já com meio AVC, taquicardias sem nexo, e um quarto-de-enfarte enfiado nos beiços.
O que vale é que trabalho num Hospital Público, (pese a greve dos clínicos por pagamento de horas extraordinárias), mas eles são os Doutores, eles é que sabem.

Mas este dia que nem começou nada mal, irá terminar seguramente melhor, pois a boa da Alice não me vai deixar pespegado no esquecimento...
Já sonho com meio bife do lombo, ovo estrelado e molho na batata, que na tasca do Zé servem que nem ginjas.

Já noite caída ainda atendi um telefonema da Alice queixando-se da minha falta de jeito, cansaço e mau feitio.
Ora, desliguei com um sorriso de orelha a orelha (o que em mim não é pouco...) pois sempre me disseram que não se pode levar tudo à letra...!

18 agosto, 2007







Preferia não te ver… sentindo tão perfeita.

Sonhar-te com o cabelo desgrenhado e sujo, amarrado em rabo-de-cavalo, lábios sem baton, esquecida do creme após o banho e desenfreada como se tivesses as minhas unhas cravadas em ti.

Sentir a tua boca em mim como um doce irresistível, que se prova em textura, revisitando memórias, encontrando a solução de açúcar a mais, ou mesmo no ponto, aferindo da medida exacta de um ingrediente novo.
Contornas-te em mim como um puzzle de peças variadas como variados são os nossos gestos numa onda sem fim.
E inventas jeitos e trejeitos para escapares por dentro de mim e perguntares (como se eu soubesse) o que está por trás das estrelas e o que vai para lá da linha do horizonte.

Distraidamente e enfeitiçado percorro olhares indiscretos por dentro de ti e arranco paixão e desejo e ternura e amizade em aromas equilibrados de giestas.
Vemo-nos em culpas e sentimentos e rodopiamos em dós-menores por ré-maior, embebidos em desejo.
Tomo-te então, em copo de cristal com goladas de sílabas em palavras acentuadas, partindo de novo no fim, num regresso em espiral na proporção do limbo em que nos movemos, soletrando beijos por acabar em parágrafos completos sem ponto final.

Questiono a minha sanidade mental ao ver-te de olhar penetrante, afiado como gumes apontados em doses de rícino e que desfazem em pó quem duvida da paixão.
Enxotas parágrafos recheados de adjectivos indefinidos, soltando os meus neurónios na direcção do sol, queimando meninges, como se coisa hedionda se tratasse.

Palavras de um texto que me percorre as entranhas e mexe uma bílis sem enjoo.
Palavras de quimera em doces de mil-folhas, palavras abstractas que nada te dizem.
Que se instale então um saco de soro de ti na veia cava superior, para que entres na minha corrente sanguínea.
Aí chegados ficarás comigo para sempre, e com os teus jeitos e trejeitos perguntarás o que fica por trás das estrelas e o que vai para lá da linha do horizonte.

11 agosto, 2007








Parece que me sinto confinado a um espaço inter-espacial do qual não consigo sair.
Resolvo-me em emoções que não consigo digerir. Enrodilham-se em mim, torturam-me, torcem-me mãos e bloqueiam-me pescoço deixando-me quase imobilizado
Sinto desejo de saltar fronteiras deste mundo, beber todo o oceano de um trago.
As perdas. As perdas que me atormentam e soltam amarras.

Existe gente e espaço incomparável.
Gente que passa por nós de forma sublime, figura esfíngica como Anjo, e que não sendo Deus, será provavelmente um Deus.
Gente que interrompe esta viagem pela vida e que anseio que o “destempo” seja curto para que em tempo se faça de novo.

Por isso abanamos como árvores frondosas em dia de vendaval. Por isso não consigo falar, nem exprimo o que sinto. Por isso choro por cantos e em cantos.
Tenho a língua amordaçada por pedaços de papel colorido e as emoções adormecidas… e a morte, essa negritude que sorrateira e maliciosamente nos bate à porta, entra sem pedir licença, e sem voz, com um gesto sôfrego e indiferente, alcança com seus tentáculos os mais preciosos tesouros.
Aparece normalmente sem avisar. Porventura pragueja e não cede ao nosso pedido de indulgência.

Sinto que em determinada altura ela me olhou de soslaio do alto da sua mais profunda prepotência e perdi-me de mim por instantes.
Olhou-me de um e de outro lado e deixou-me assim… sem palavras… sem gestos… indefeso… vazio… mais pobre… levando consigo a tiracolo uma parte de mim.

Uma parte grande de mim.

06 agosto, 2007


Hoje há festa!
Hoje danço contigo, Maria.
Vamos dançar e esquecer quem somos, nesta esquina de rua estreita.
Hoje há festa.
Hoje, um dia qualquer.
Ouvimos um tiro no beco ao lado e alguém tomba no chão de pedra fria.
No restaurante fino do fundo da rua tiram sacos de comida e bebida quase intacta. Alguém apanhou para vender no mercado da sobrevivência.
Barracas instáveis e insalubres, e nós dançamos Maria.
Esquecer o que és, o que somos.
Calcorrear caminhos entrelaçados, e eu, bem agarradinho a ti.
Falavas no selo do carro e na factura da electricidade, no cozido do almoço e eu cheirava-te o perfume no pescoço.
O raio do café que não prestava e a tua atenção que não sai do quadrado em volta.
Sorvo-te o cheiro, a cor e o tempo. Dou-te até “carradas de razão”, mas nem te oiço.
Falas-me na prisão do “Chico da Trenga” e no “Zé da Nora”, os “chutos” no passeio, um-tiro-no-porta-aviões e a chave do Euromilhões.
Rio-me contigo, mas não estou lá.
Percorro-te com os dedos numa dança sem fim e contas-me enredos de novelas no meio deste turbilhão.
E danças comigo nesta festa que sabemos pode nem ser.
Foge-me o pé e vamos de encontro ao muro.
Como podemos dançar Maria?
Se não me sentes, se não me envolves, se chibatadas fervem nas costas de alguém e armas soltam disparos de raiva incontida e se perdem no ar como poeira, assentando nas pernas de um ou nas costas de um outro que tomba aos repelões.
Hoje era dia de festa Maria.
Alguém trocou a noite pelo dia e assentou arraiais pelos becos da desgraça.
Quero fugir contigo Maria…

05 agosto, 2007















O sal não lava a alma.
Tinha carro, cão, gato e pássaro.
Um peixinho, quatro pares de botas e um rímel desbotado.
Uma lágrima a três quartos que teimava em cair e o mar que não via faz tempo.
Um saco de roupa, mais um jantar e uma fralda mudada, comida p´ro gato e periquito da vizinha que saiu para férias e deixou-lho sem remorsos.

O sal não lava a alma.
Saiu pela romaria, visitou os primos e foi de França que chegaram as alegrias.
Apanhou o cabelo que lhe tocava nos ombros e vestiu a saia rodada. Estava linda.

Os olhos da populaça viraram na sua direcção e os homens aperaltaram as camisas, coçando os pelos do bigode.
Deixou cão, gato e pássaro, mais o periquito da vizinha que saiu para férias.
Bailou e cantou até que a noite gelada entrou nos ombros despidos.
Do rímel desbotado saltaram dois lindos olhos azuis que faiscavam de alegria e saudade.

O sal não lava a alma.
No regresso deu de caras com o Tó da Jorna e tocaram-se ao de leve numa passagem fugaz de olhares há muito desencontrados.
Tapou os ombros despidos pelo vento frio da madrugada e calcorreou a calçada em passo apressado.
Da casa enorme, fronteira ao átrio da Igreja, uma luz tombava sobre o jardim amarelecido.
Puxou a saia rodada para baixo do joelho, soltou os cabelos e sem tempo virou de encontro ao muro estatelando-se no chão pisado por agruras e destinos.

Ao levantar-se, enfrentou-o mais uma vez (era a terceira esta semana) e decidida deixou para trás quatro pares de botas, o carro, gato e passarada, mais um saco de roupa, aguardando melhor momento para embrulhar fraldas.
Não.
O sal não lava a alma!

As palavras perdem-se, algumas nem se dão por achadas, os gestos tocam e encontram-nos.

As palavras atiram-se, mordem, cantam-se e ferem, os gestos apoderam-se, enlaçam remexem-nos e soltam-se.

As palavras esfumam-se, os gestos entranham-se, mas ambas vivem em nós.

As palavras amordaçam, descontrolam, desorientam, um gesto afaga, aquece, prende, recicla e orienta.

Quando as palavras são poucas ou indefinidas, e o gesto se esquece, a imaginação faz o resto!

10 julho, 2007











Fala-se que o Homem foi criado por Deus ao sexto dia e a mulher tirada de uma costela sua, provavelmente num domingo ou dia feriado.

Diz-se até, que misturando carbono 14 com São Paulo, no Salmo X ao quadrado vezes 2 com a bênção de S. Pedro e o Acto dos Apóstolos mais a intervenção do Gallup Institute nos EUA e fazendo a contagem através da Bíblia, chega-se a uma conclusão à qual não dou importância, pois para mim, pobre criatura, com essas contas ainda nos baralham mais... o que é difícil... de baralhados que estamos.

Afiançam também que os Halos do Polónio são as impressões digitais do Deus Criador, tal como escrito no Génesis. Se é ou não... vou deixar para um dos episódios do CSI.

Mas o nosso mundo é como é.
Aos olhos de Deus, aos nossos, aos de alguém ou outro qualquer. Um mundo no qual temos diariamente de gerir o que vai aparecendo, com os nossos limites, a nossa insegurança, os desafios que nos são impostos, a confrontação com o efémero, o transitório.

Crescemos apoiados nestas verdades ou noutras certezas, depende de cada um e do seu trajecto, do que fez, ou do que virá a fazer.
Mas sabemos que tudo vale o que vale, dura o que dura e tende a ser mais ou menos importante consoante o grau ou hierarquia que lhe damos.
E vivemos assim numa "amizade", em que necessitamos de um autocolante para dizermos ao outro que o consideramos amigo, ou passamos a ser apenas mais um atrelado neste comboio de conhecimentos por que passamos.
Os "amores" ora são ora já eram, as "ideologias" vão e voltam, os "deveres" poucos, "obrigações" muitas, a "bipolaridade" é que está a dar, acordamos de manhã com um sorriso e adormecemos de costas para o mundo e de "beiço caído" lá pela noitinha.

Entretanto, “viajamos” de menino para homem, de pobre para rico, “enfatiamos” com uma roupagem que não é nossa e apercebemo-nos que não cabemos nele passado tempo e provações. De corridas de cem metros passamos à maratona e de desapaixonados, para um romantismo atroz.
Sonhamos neste tempo sem tempo e espalhamos frustrações.
Queremos pertencer a algo ou alguém, ou adensamos a nuvem que traz chuva e trovoada se alguém não nos quer a nós.
Tememos o que desejamos e arranjamos escapatórias fugindo em ziguezagues titubeantes.

Tornamo-nos peixinho em aquário. Boca aberta na procura do ar que nos escapa.
Quando pressentimos desejo, abanamos a cauda, quando não, fazemos bolinhas de ar.
Vimos à tona respirar e damos “marradinhas” no aquário quando estamos” meio-tortos” e mais para lá do que para cá.

Esta é uma parte da história que descobrimos quando levantamos parte da pele que nos cobre.
A restante somos nós que a fazemos, bem ou mal, muito ou pouco, do agrado de muitos ou de ninguém, com audácia e perspicácia ou sem coisa nenhuma.
Mas como da pele de cada um sabe o próprio, deixemos que ela se solte ou se agarre, consoante o desejo.
Misturemos então o Carbono 14 com S. Paulo e abençoe-nos S. Pedro.
Assim seja!

05 julho, 2007











Fui Eremita na vida e Eremita de mim.
Li e aprendi o que significa a palavra sonho abrindo os olhos e deixando que entrassem palavras mágicas e pozinhos de prilim-pim-pim

Em dias de sol viajo de planeta em planeta de constelação em constelação, semeando uma rosa aqui, um sonho acolá, uma amizade por conseguir outra por agarrar, e apanho novas estrelas numa nesga de céu.
Transformei chuva em arco-íris, mágoas em ternura e solidão em acompanhamento.
Gosto de ler, é uma realidade, e na leitura... sonho.
Aprendi a falar no meio da multidão, e na solidão aprendi a escutar a voz interior e a dar nome às coisas que ainda não tinham.

Gostava das personagens de ficção com contornos de encantamento.
Longe de serem Eremitas como eu, cirandam por páginas e páginas de aventuras, com imagens coloridas, que já não vislumbro faz anos.
Pesquiso o meu "calendário" ... avancei décadas com a mesma ternura com que me visito diariamente.
Olho em volta e em tudo vislumbro muralhas. Pensava ser da visão turva que me preocupa, mas constato que os muros estão mais altos e praticamente intransponíveis.
São muralhas de sempre, que continuo esforçadamente a transpor dia após dia, e cada dia outra... até um dia.

Filigranas de gente que corre vida fora, sequiosos de tudo num pouco de nada, partem apressados para um destino incerto. Eremitas da vida, mais cedo ou mais tarde.
Já tentei fazer uma fusão de seres mas não obtive resultado final ... - acho que se partiram pedaços e espalharam-se por aí...
... tenho 32 ou 74, já nem sei. As barbas brancas pendem como num quadro de Degas e o corpo magro e corcuvado alimenta-se de prosa... - o que não me faz nada bem.

Lembro-me de ter comprado bilhete de ida... - a estação não recordo....

Ritmos respiratórios descoordenados circundam-me como beatas na igreja em hora de ponta.
Olham em redor na procura "do rosto" e da indumentária enquanto o padre... - Santo Deus... vai pregando lamúrias sobre o terceiro ou quarto dia de uma coisa qualquer.

Salto fora de mim com rotinas que pesquiso. Trinta-e-dois-segundos-e dez-metros, separam-me de um cacilheiro em pleno Cais-do-Sodré.
Singelamente tudo é brevidade.
O espaço, o tempo, a vida, até esta loucura de Eremita que aprendeu a ler num livro de sonhos.

04 julho, 2007

O Sonho que posso ter...!



















Posso sonhar que corro a passo solto
Que da minha janela vejo a tua sem a ver...

Na minha memória vejo o teu rosto e sem saber,
abraço os teus braços e recebo em troca
abraços que não consigo ter.

Ideias que tecem mantos enredados
como novelo em ti
Pesquisa que faço no teu olhar quando te olho em mim.

Mas posso olhar-te num olhar profundo de morrer
agarrando fragmentos de luz sem nunca ver

Posso até sonhar recordações
tudo ou nada, muito ou pouco, e sem me aperceber
tê-lo sempre presente, juntinho a mim
guardado em gelo para não derreter

Posso até sonhar que vou morrer
Sem nunca ter outrora desejo de...

Ou procurar viver junto a ti
Porquanto a luz, os passos juntos, até mexer
minhas nas tuas mãos e ver surgir
Arco-íris e sonhos por fazer
Sonhar-te quimera e certeza de te ver.

Pode ser este o sonho, desejo,
quem sabe o quê...
pedaços de alma que esculpi em mim
um pedaço de céu, pedaços de tempo
ou de nada.
Pode ser este o sonho.... sei lá de quê...!

26 junho, 2007



Fumava cigarros atrás de cigarros, sorvendo a bica como se tentasse travar o mesmo fumo.
Os dedos amarelecidos vincavam bonecos feitos de papel jornal como um novo brinquedo.
Enlouquecido pelo tempo e pela vida, arrasta penosamente alguns quilos de ossos pela calçada desde os 43.
- "Mal de amores" - dizem uns...
- " São os demónios que o atacam" - Dizem outros...
Ninguém se entende na duvida, mas o povo tem sempre opinião...

Fala baixo, quase não se houve numa voz fraca e arrastada.
Os cabelos confundem-se com a barba e escondem uns olhos azuis profundos que já foram belos.
Enquanto olha e vagueia o olhar, vai debitando coisas sem nexo, alguns insultos aqui e ali, como se um punhal cravasse.
- "... nunca foi puro...coitado..." - Diz o povo
Empurrado pela circunstância e afastado pelos homens, vai cambaleando a sua sorte em desnorte.
Já teve com quem falar no meio da solidão... hoje não.
Já deu nome às coisas que não o tinham... hoje não.
Tem a vida ao contrário e as prioridades distorcidas, não conseguindo distanciar-se da loucura, vivendo com ela e para ela.

Joga um permanente passo em falso na direcção do abismo. Não volta atrás, segue para o passo seguinte, baloiçando na linha ténue do que separa o infinito.
Arquitecto de vida perdida sabe que as Igrejas se constróem por naves e absides, sabe da pintura de Chagall, Degas, de Gauguin ou Matisse.

Monocórdico resvala em entendimento passagens intemporais, quase sem nexo, quase sem jeito...

-"Mãe...Mãezinha...” – ouve-se a espaços e a medo quase em segredo.

Falta-lhe essa mão, esse aconchego, esse afago de Mãe.
Um cobertor de afecto que tape toda uma vida .
...Por isso lhe falta a força e o sangue nas veias...... o delírio dos sonhos por habitar, onde com coragem tudo pode acontecer...
... a ansiedade de pressentir um toque, uma mão, uma caricia a todo o instante...
... amor, coração e ar nos pulmões afectados de tanto cigarro mais comido que fumado...
... a paz de espirito ou um espirito de paz que jamais encontrou dentro de si .... o tudo de tão pouco que precisa e nunca teve...

20 junho, 2007






Saí de mim.
Quem não sai de si?
Extrapolei-me, saltei fora. Desvaneceu-se a emoção da partida num gesto brusco mas cuidado.
Parti de mim sem amarras, libertei-me devagar, desligando-me do processo de alta rotatividade a que todos estamos submetidos.
Liberto os sentidos adensados em partes dormentes do meu corpo, na esperança que façam luz sobre esse torpor em que mergulha o espírito... deixando-os fluir devagarinho, para não doer demasiado, pois sei que vêm impiedosos, trazer-me á realidade...
Procuro na biblioteca da vida pedaços de outrora.
Aqui as palavras ficam, intemporais, presas a sussurros, gritos interiores, espaços em branco ou reticências.
O desencontro, a incompletude, o extemporâneo, a pesquisa enrolada em mantas quentes de lã.
Salto fora de mim e percorro regressos já vividos outrora.

Quão louco serei? Numa medida desmedida?
- Não mais que um outro que se julga puro, casto e são.

Regresso então ao aconchego do corpo feito adulto, incrustado em pedras de jovem com pinceladas de alguma idade.
Seja bem-vinda velha carcaça…!
Dentro da rotatividade esperada, bem que não se demorou...
Pequenos saltos num espaço feito tempo em que deixamos partir os sentidos sem sentido algum, pesquisando por dentro de mim e olhando-me por fora num vislumbre da descoberta de quem sou.
Jamais o saberei…!
E agora, quem o sabe?

05 junho, 2007


- Porque choras Mafalda?
O Sol rasgava as pedras brancas da calçada. Os dias tinham parado e ouvia o bater morno do coração.
Cheiros fortes de café, flores abertas ao tempo e um aroma de paz.
Sobravam risos de criança e gaivotas esvoaçavam recortando um céu infinitamente azul.
Já pouco me sobrava.

- Porque choras Mafalda?

Faz tempo sentia a vida a sair-me pelos poros com alegria solta e incontida.
Um riso e um arrepio.
Socalcos nas montanhas da memória faziam-me recuar no sorriso que a alma transbordava.
Sobravam bocados soltos no caminho, como se fosse um vestido demasiado largo a cobrir um corpo de tamanho dois números abaixo.
E rangem-me pensamentos como uma tábua de soalho envelhecida, que piso e repiso, dias, meses, anos a fio… (mas porque razão me lembrei agora da tábua do soalho que range)?
Tenho por dentro de mim uma chuva que percorre todos os caminhos, mesmo os inimagináveis.
Quem sabe os pingos desta chuva que se entranha, não percorre as tábuas deste soalho envelhecido que gemendo faz vibrar a montanha do pensamento e desbota por dentro todas as cores existentes que em flores se transformavam...

- Porque choras Mafalda?

Tenho por casa livros até á reforma. Livros que jamais lerei.
Mas é mais forte do que eu. Dou por mim quantas vezes a repeti-los e a afastar outros que de belos nem lhes toco.
Existe uma fantasia, talvez uma dança entre mim e os livros.
Cresceram comigo, tal como revistas e jornais e já os sinto como fazendo parte ou pedaços de mim.
Alguns não servem para nada. Ganham pó numa prateleira que fica de frente para uma janela virada a sul. Por vezes, raios de cores mil, penetram sorrateiramente pela vidraça invadindo páginas de saber.
Torna-se belo o momento.
Os dias passam, os meses passam. O tempo inclemente vai deixando as suas marcas. Ficam velhos, estragados pela falta de uso.
Murcharam, ficam cinzentos, caíram no chão sem fazer qualquer ruído.
Leve e suavemente, ela vem com uma pá e uma vassoura e varre-os com toda a delicadeza que o instante permite.
De seguida, pousa aqueles restos mortais numa mesa e coloca-os numa caixa de madeira com umas flores pintadas por cima.
Fechou a caixa e escondeu-a na gaveta dos segredos.

- Porque choras Mafalda?

Sinto frémitos no peito, estalidos nas veias. O cheiro forte a café que chega e me invade corpo e alma.
Aromas de terra nova, fertilizante, água e sol em terra que germina forte.
Já não me sobra muito tempo do tempo que te dei.
Mas quero pisar e repisar essa tábua solta, velha e gasta do soalho que geme, clamando por mim.
Nem que seja a ultima vez...!