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A mostrar mensagens de Janeiro, 2007

Tempo de coisa nenhuma...!

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Um pedaço de tempo, uma parcela, uma fatia de tempo vivida como coisa nenhuma.
Mas, porque é tempo, teve o seu próprio tempo!
Como um gesto sem jeito, deambulo o olhar e busco em cada ponto preciso o que não vejo, mas adivinho.
Um dia destes, deixo de sonhar ou vislumbrar.
E passa o tempo, tempo de coisa nenhuma, como se fosse uma eternidade, ou como se nunca tivesse acontecido, tão difuso e longínquo me parece.
Prefiro a tua ausência a uma visão infinita e turva. Prefiro não pensar para não sentir, que jamais estarás lá.
Que soturnos estes dias!As figuras da cidade escoam-se como fantasmas, imagens sem corpo ou forma distinta, manchas confusas que atrapalham o olhar e a precisão do que procuro. Cães passam ladrando, automóveis apitando, vozes, ruídos, travagens, obras e movimento impreciso. E eu, caminho, em função de um qualquer tic-tac, de um qualquer “surround”, de um qualquer altifalante que informa-sobre-qualquer-coisa-que-nem-sei-o-quê.
A memória, altar das emoções, sem esforço, num e…

Dos sentidos...e dos sentimentos

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Tenho os sentidos embotados pela tua presença em mim.
De mim fugiste, sem dizeres porquê, sem o dizeres propriamente, apenas te afastando lentamente e lentamente deixando o rasto da tua ausência.
Tento esquecer-te, mas ouço a tua voz em todas as vozes e todas as músicas, vejo o teu rosto em cada pessoa com que me cruzo, cheiro o teu corpo em todos os aromas que a brisa me traz, e na minha sinto a tua pele, tacteada por entre terminais nervosos.
Sabias a alfazema, frutos maduros do campo nos cheiros que me conservam,
e ouvia-te sussurrar com mil cuidados para um tímpano sensível acordes doces cobertos de chocolate em mim.
Untavas palavras com perfumes suaves e frescos e chegavas-me uma colher do doce que tinhas barrado com toques de Rembrandt, para que se salientassem neste degustar em ti.
E tinhas lírios no cabelo e mar nos olhos e um sorriso de mundo aberto em mim, que guardo como recordação eterna e serena.
E fui-me retirando do mundo e o mundo de mim, como se fossemos pólos difíceis de t…
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Hoje, a manhã vem sorrateira, por entre frestas, tingindo de luz as paredes do quarto onde me deito e onde busco as fotos que já perdi.
A Fada diz-me para não procurar a dor, e a dor não veio.
Não atravessou paredes, não abriu portas, não entoou canções, não atravessou luz, nem tempo, nem dor, nem medo.
Simplesmente não veio.
Apenas me disse: Renova afectos e conquista novos em ti.
Porque o que me davas era areia e essa desfazia-se como os doces trinados que entoavas ao meu ouvido. E a Fada sabia...
Hoje que cessei de olhar os quadros e o candeeiro a petróleo, não sou mais ausente.
Risco a tua face com o meu lápis de carvão e invento memórias de ti.
Apago quando quero e altero o bater do coração, podendo até trocar de sitio.
Pulmão no rim, coração na vesícula, pâncreas nos intestinos.
Modifico a meu gosto como tu fazias quando existias em mim,
que alteravas todo o sentido e toda a existência,
como só tu...!
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Rasgo ideias que se entrelaçam em palavras que compõem poemas, pintam quadros de Amadeo e Picasso, formas quebradas, múltiplos ângulos em contraluz e a doce harmonia duma guitarra que dedilhada chora.
E percorro o Ganges e o Nilo na busca de fé. Porque vamos morrendo devagarinho, perdendo pele, visão, pêlo, audição, dicção e os poucos reflexos de vida que a vida nos dá e tira, apagando alguns neurónios que nos mantêm e leva-nos o sangue por esgotos rasgados, na exacta porção do tempo.
E do tempo ando eu atrás (tenho a sensação de que ando sempre atrasado para tudo...).
E procuro locais de culto como o Nyatpola no Nepal, onde me sinto levitar e onde as ideias de forma suave, surgem.
Como o Tigre e o Eufrates, e a cadeia montanhosa do Eurarat me enchem e remexem e abanam costurando agasalhos interiores de roupas desfeitas por fora.
Adorava quando preenchias o meu silêncio de tudo e de nada e na maior parte do tempo de coisa nenhuma. Mas eras tu. Por isso eu gostava.
Diziam os outros, que não …
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Dedilhas palavras numa escrita indecifrável para mim, como se escrevesses em partituras para piano e violino, palavras rendilhadas com notas de alma e emoção.

Solfejas lábios em mim, num contorno retorno de doces morangos em pele humedecida pelo toque
de frutos silvestres em gelado feito eu.

Percorres o teu no meu tempo, em acordes madrigais num dó menor em sol maior.
Cheiras meu corpo em tua pele e desatas a rir como nunca o fizeras,
sentindo alegria de dois em prosas dobradas em quatro.

Sei que o coração me arrasta a cabeça, mas quantas vezes ela estala de pulsações antagónicas, em que pequenos nadas travam enormes correntes de sangue em veias a ferver.

E quero ter locais de culto onde rezo e choro e peço e sofro e cresço e vivo para depois morrer em ti.
Como dedilho e canto e solfejo e rio e sopro e acordo em mim
... pedaço de mau caminho.
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Pena que nem todos saibam beber do Meu Cálice...!
Como prefiro que sorva do meu cálice quem me saiba saborear, degustando cada silaba intensa e tranquilamente”.











Os dias correm devagar como se tivessem pressa de coisa nenhuma.
Ou talvez tenha sido sempre assim, um tempo feito de nada.
Algumas pessoas são também como o tempo, feitas de nada.
Vazias, ocas, amargas, invejosas, tristes, infelizes, ignorantes e anónimas.
Numa existência anterior à criação do tempo, impuseram-nos códigos, que por serem genéticos, fizeram de cada um diferente de cada qual.
A incapacidade de aceitar diferenças, credos, cores, raças, uma ou outra possibilidade, alguma capacidade ou mesmo vontade, faz com que alguns sejam intolerantes, racistas, xenófobos, maldizentes, cruéis e pretendam ser guardiões dos templos dos outros, isto é, tentem emitir sobre todas as coisas... opinião.

Mas desses nunca se viu trigo nem joio, escrita ou leitura, solidariedade ou apoio.
Aprendem essas pessoas a sorver palavras e gestos empresta…

Nocturno

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... e a noite caiu sobre a Lisboa cansada.
e o ritmo citadino, como que regulado por um qualquer mecanismo rigoroso e infalível, abranda, fluindo então tranquila e quase sonolentamente, anunciando o retorno à intimidade.
E a chuva incessante que cai confere o tom urgente do regresso...
E a noite desperta sons e aromas adormecidos nos corpos cansados e esquecidos.
Como se a rotina castradora do dia-a-dia assim o tivesse imposto e só o anoitecer possa acordar e abrigar os mais inconfessáveis desejos...

Numa qualquer ruela a mesma noite que caiu sobre a cidade protege e envolve com o seu manto os sem abrigo, os mal amados, os deliberadamente solitários e os amantes... como criminosos... furtivos, como se não existisse outra forma, outro meio de se amarem...
tocam-se quase timidamente... beijam-se sôfrega e desenfreadamente, deixando despojos de amor por lugares recônditos, deixando-se a si, pedaços de si, pelas paredes e esquinas.

Porque ali não é lugar, ali não é o tempo…
e as palavras perdem o…
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... Arrepia-me o corpo e dispara-me o coração quando sussurras ao meu ouvido, palavras ou simples murmúrios.
Faço por manter a luz da dúvida acesa para que a candeia do amor que me invade não me ofusque a razão e faça ignorar quem somos.

Porque esqueço que navego num mar de recordações.

Boas, como os beijos e carícias que trocamos na nossa viagem a Londres, de um almoço repartido a dois, por nem aí nos querermos separar, nas marcas suaves da tua pele e a tua boca de morango que gravou a fogo o que hoje sou.

E as más. Quando depois de aninhares em mim, saías desconfortável em desespero, sem entender… nem tu saberes porquê…

Angustia, ansiedade – pensava eu.
Intensidade da paixão que dizias sentir – dizias tu.

E nunca conseguimos provar as razões desses desenlaces fugitivos, nem a horrível sensação de te sentir perder por entre os dedos.
E nunca falamos sobre isso.

Quando eu pedia diálogo, apertavas-me contra ti e apagavas-me coração e razão.
E queria copiar-te, porque já não tinha o original.
E f…
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Chegou muito lentamente como quem caminha sobre um manto de espuma e sussurrou qualquer coisa ao ouvido.
Ele agitou-se e abanou dizendo que não. Ela insistiu.
Que sim, que tinha de o conhecer bem interiormente, dado que ele afirmara, que nunca ninguém o conheceria inteiramente.

Ela abeirou-se mais e mais e tentou forçar entrada pelo ouvido.
O tímpano estava a vibrar, sinais da musica clássica que tinha acabado de ouvir.
Ela deixou-se escorregar, agarrou-se às paredes e deslizou pela garganta aterrando juntinho ao coração.
Aí, espreitou por uma janela aberta e viu vasos com flores plantadas. Um cheirinho a primavera, e o sol a espreitar radioso.
Um pouco mais ao lado, noutra janela, uns móveis velhos e quadros que o tempo apagou.
Logo a seguir, uma enorme porta, frondosa. Entrando, pé ante pé, descobriu um salão enorme e grandes janelas viradas para o mar. Nesse espaço, vislumbrou caixas de amor aos pedaços que ele tinha para distribuir. Encaixotados, mas fechados apenas com um lindo laçarote …