... Arrepia-me o corpo e dispara-me o coração quando sussurras ao meu ouvido, palavras ou simples murmúrios.
Faço por manter a luz da dúvida acesa para que a candeia do amor que me invade não me ofusque a razão e faça ignorar quem somos.

Porque esqueço que navego num mar de recordações.

Boas, como os beijos e carícias que trocamos na nossa viagem a Londres, de um almoço repartido a dois, por nem aí nos querermos separar, nas marcas suaves da tua pele e a tua boca de morango que gravou a fogo o que hoje sou.

E as más. Quando depois de aninhares em mim, saías desconfortável em desespero, sem entender… nem tu saberes porquê…

Angustia, ansiedade – pensava eu.
Intensidade da paixão que dizias sentir – dizias tu.

E nunca conseguimos provar as razões desses desenlaces fugitivos, nem a horrível sensação de te sentir perder por entre os dedos.
E nunca falamos sobre isso.

Quando eu pedia diálogo, apertavas-me contra ti e apagavas-me coração e razão.
E queria copiar-te, porque já não tinha o original.
E fugias. Fugias por tempos e voltavas depois, sombria, inquieta, para te apoderares de mim, novamente.
E eu, num turbilhão, entre um beijo e uma partida…
Deixavas um rasto de ti, que eu percorria até uma encruzilhada de sentidos.

E durante semanas, meses, via-te em todo o lado.
E corria desesperado ao teu encontro na Gare do Oriente – e não eras tu.
E saltava para dentro de um comboio voador gritando o teu nome – pois que te vi, à janela – e não eras tu.
E calcorreei o Cais do Conde d’Óbidos, como da última partida … e não és tu.

E senti-me como um papel que dobras e desdobras e passas de mão em mão e amarfanhas, como sempre foi o teu jeito.

E tenho de atirar fora os contentores de memórias, e deixar no fundo do mar esses momentos, para não ter agrafado a mim, uma certidão a prazo, com linhas de dor e letras de sombras.

Por paragens que nem conheço, vagueei na procura de respostas a questões já sem forma, de tão dissecadas… como se não existisses já …
E adormeço… para acordar em mim.

Comentários

Ana disse…
Parabéns, é um dos teus melhores textos.
Pedro Viegas disse…
Obg. Ana.
O objectivo era dar continuidade ao anterior, não sei se consegui...
tcl disse…
Pedro, este é sem dúvida um texto lindíssimo, pleno de sentimentos, de incertezas e de desejos.
Vi o comentário que deixaste aos anónimos do post anterior, que te pediam uma continuação... não sei se a vejo neste post, mas tu saberás melhor que eu. De qualquer forma parabéns e continua!

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