02 janeiro, 2007











Chegou muito lentamente como quem caminha sobre um manto de espuma e sussurrou qualquer coisa ao ouvido.
Ele agitou-se e abanou dizendo que não. Ela insistiu.
Que sim, que tinha de o conhecer bem interiormente, dado que ele afirmara, que nunca ninguém o conheceria inteiramente.

Ela abeirou-se mais e mais e tentou forçar entrada pelo ouvido.
O tímpano estava a vibrar, sinais da musica clássica que tinha acabado de ouvir.
Ela deixou-se escorregar, agarrou-se às paredes e deslizou pela garganta aterrando juntinho ao coração.
Aí, espreitou por uma janela aberta e viu vasos com flores plantadas. Um cheirinho a primavera, e o sol a espreitar radioso.
Um pouco mais ao lado, noutra janela, uns móveis velhos e quadros que o tempo apagou.
Logo a seguir, uma enorme porta, frondosa. Entrando, pé ante pé, descobriu um salão enorme e grandes janelas viradas para o mar. Nesse espaço, vislumbrou caixas de amor aos pedaços que ele tinha para distribuir. Encaixotados, mas fechados apenas com um lindo laçarote azul, que se desfazia ao mais pequeno toque.
Aqui e ali, alguns tropeções num bater mais acelerado e um bombear nas aurículas e ventrículos. A veia cava resmungona, debitava frases incertas e a aorta, sabidona, despachava carinho e ternura pelos restantes espaços por preencher.
De um salto, com um sopro vindo do pulmão foi atirada para a cabeça.
Ali, no meio de sinapses e alguns contornos eléctricos, deparou com memórias, pensamentos oblíquos, curvos e rectos, e algumas razões.
Num instante sentiu, que aquela tela, pelo qual via passar o filme da vida era familiar.
Tal como a sua, aquela, era imensamente igual a tantas outras, como num romance de cordel.
Foi mexendo e sentindo, espalhando pedaços de tempo, de espaço, de sons, de cheiros, de alegria, tristeza, cantos e choros, lagrimas e raiva, ternura e afecto, paixão e amor.
Deu umas sacudidelas nalguns espaços mal arrumados e ouviu baixinho...
- “ ... Deixa tudo como encontraste...”
Varreu algum pó acumulado, endireitou espaço e pedaço, acendeu de novo a luz e saiu de lá muito mais preenchida.
Encostou-se a ele de novo e segredou-lhe num sussurro, junto ao ouvido bem juntinho ao coração...
“Gosto de ti...”

6 comentários:

Anónimo disse...

Adorei este texto. Mas, como em todas as histórias deve haver um final, apetece-me perguntar: e ele, que respondeu?

Teresa Paula Marques disse...

Que bonito texto! Era bom que as coisas na realidade se processassem assim, que as pessoas gostassem umas das outras apesar de saberem da existência os "espaços mal arrumados”, ou “pensamentos oblíquos”... das limitações que, no fundo, no fundo … é que nos tornam humanos!

Anónimo disse...

As histórias nem sempre têm fim. A noção de série agrada-me muito. Na minha opinião, as "1000 conversas" não pretendem igualar "As mil e uma noites". Porém, concordo com o anónimo ou a anónima das 12:24 AM. Queremos mais: o que é que ele respondeu!?

Pedro Viegas disse...

Agradeço as visitas e os comentários. Para além do agrado, há um acréscimo de responsabilidade perante tão interessantes leitores.

Mas, Dra Teresa, nós temos de saber viver, flexibilizando óbviamente e fazendo a(s) nossa(s) adaptações, com os "espaços mal arrumados" e os tais "pensamentos", porque só assim seremos nós (humanos).E quantas vezes é nessas "limitações" que encontramos outras coisas bem melhores. E não somos todos nós HUMANAMENTE limitados ?
Um Beijinho e Obg.

Aos anónimos,
essa é uma grande responsabilidade...
Cada um de nós terá decerto o seu próprio final. Torna mais interessante este "suspense".
Mas não é de todo as "Mil e uma Noites".

Mas talvez ele possa responder algo como............ ok, vou tentar arranjar um texto...mas isto é muita responsabilidade :)

Ana disse...

Deve ser bom ter vasos com flores plantadas no coração :-)

PATIVIEGAS disse...

olá e não é que temos mesmo um grande e talentoso escritor ... que orgulho poder dizer que o meu tio escreve de forma tão bonita e que nos toca realmente nos pontos mais intimos,profundos,guardados por tantos e escondidos por quase todos.

maravilhoso foi um prazer ler

bjinhos da tua sobrinha pati