Dos sentidos...e dos sentimentos














Tenho os sentidos embotados pela tua presença em mim.
De mim fugiste, sem dizeres porquê, sem o dizeres propriamente, apenas te afastando lentamente e lentamente deixando o rasto da tua ausência.
Tento esquecer-te, mas ouço a tua voz em todas as vozes e todas as músicas, vejo o teu rosto em cada pessoa com que me cruzo, cheiro o teu corpo em todos os aromas que a brisa me traz, e na minha sinto a tua pele, tacteada por entre terminais nervosos.
Sabias a alfazema, frutos maduros do campo nos cheiros que me conservam,
e ouvia-te sussurrar com mil cuidados para um tímpano sensível acordes doces cobertos de chocolate em mim.
Untavas palavras com perfumes suaves e frescos e chegavas-me uma colher do doce que tinhas barrado com toques de Rembrandt, para que se salientassem neste degustar em ti.
E tinhas lírios no cabelo e mar nos olhos e um sorriso de mundo aberto em mim, que guardo como recordação eterna e serena.
E fui-me retirando do mundo e o mundo de mim, como se fossemos pólos difíceis de tocar.

E tudo isto são sentimentos…

Alguns menos sensíveis, não navegam nestas águas, raramente sentem transformações no corpo e o cérebro está formatado para outras sensações.
Quem sente, afina e desafina, tem mudanças de temperatura, ri e chora, procura e encontra, encontra e não tem, solidifica e fraqueja, salta barreiras ou é derrubado por elas.
Dos sentimentos procura-se saber arrumá-los para que a eles se possa sobreviver.
Arrumar não é afastar mas apenas tê-lo num lugar sensível, muito próximo do peito, onde possamos agarrá-lo e afagá-lo ternurentamente.

Lembro-me há uns tempos, ter visto um amigo com os sentimentos pela mão. Passeava com eles, trazia-os nos bolsos e aos poucos foram-se perdendo.
Hoje, gastou-os e não procurou alimentá-los para que sobrevivessem.
Tornou-se frio, distante, inquieto e no peito uma fortaleza inexpugnável.
Sei que tem saudades, mas fora avisado que não se passeiam sentimentos pela mão… podem-se perder.
De outro sei, que os coloca num saquinho plástico, bem aconchegado e tapado com um pano para que não sofra resfriado. Mal fez, o coitado soluçava constantemente por não ter ar nem visão. Entristeceu-se o sentimento e apagou-se, sufocando.
Outros exibem-nos como penduricalhos ao pescoço, e agitam-nos num vai e vem frenético como os seus movimentos de cabeça, que torna neurónios em doce de pastel de nata.

Estes poucos cuidados, fazem dos sentimentos, coisas banais e funestas, atirados para um local sem espaço e desarrumado, mal cheiroso, e pouco ventilado.
Mas quer-se um sentir quente, envolvente, doce, que me lembre de ti, mesmo que longe, mesmo que o mundo rode ao contrário e me faça o que não sou, e me arrume num canto rodeado de livros a mim ou de crianças a ti.
Que te escreva e descreva uma voz e um rosto, um aroma e uma canção, um sentimento positivo de esperança, para viver.
Que seja o que sentimos, maior que o universo, tu no teu mundo que não conheço, e eu no meu, que raramente sei onde fica.

Comentários

tcl disse…
Não há dúvida Pedro, que não se pode andar com os sentimentos à solta, ou deixá-los por aí, esquecidos em qualquer mesa de café. Há que guardá-los no coração, arrumá-los, como tu dizes, e acalentá-los, mimá-los, para que, bons ou maus, não os esqueçamos. São eles que fazem de nós PESSOAS. Digo-to eu, eterna sentimental :-)
Ana disse…
Os sentimentos não vivem sozinhos, per si. Há uma vida que os condiciona e nos obriga a que os arrumemos, temporariamente ou para sempre. Ou, pelo contrário, deixar-mos que brotem em toda a sua força.
E isso, a maior parte das vezes, está na s nossas mãos.
Um beijo.
Ana disse…
Os sentimentos não existem sozinhos.
A vida condiciona se os fechamos ou deixamos transparecer em todo o seu esplendor.
Um beijo.
portugal disse…
"os ventos q as vezes tiram algo q amamos, sao os mesmos q nos trazem algo q aprendemos a amar ... por isso n devemos chorar pelo q nos foi tirado e sim aprender a amar o q nos foi dado...pois tudo aquilo q realmente e nosso nunca se vai para sempre!"


"a maior covardia do ser humano e despertar o amor noutro sem ter a intencao de ama-lo mas sim magoa-lo..."

Mensagens populares deste blogue

O MUNDO DE PERNAS PARA O AR

Deixa ficar assim…

DESEJOS E DEMÓNIOS