Nocturno












... e a noite caiu sobre a Lisboa cansada.
e o ritmo citadino, como que regulado por um qualquer mecanismo rigoroso e infalível, abranda, fluindo então tranquila e quase sonolentamente, anunciando o retorno à intimidade.
E a chuva incessante que cai confere o tom urgente do regresso...
E a noite desperta sons e aromas adormecidos nos corpos cansados e esquecidos.
Como se a rotina castradora do dia-a-dia assim o tivesse imposto e só o anoitecer possa acordar e abrigar os mais inconfessáveis desejos...

Numa qualquer ruela a mesma noite que caiu sobre a cidade protege e envolve com o seu manto os sem abrigo, os mal amados, os deliberadamente solitários e os amantes... como criminosos... furtivos, como se não existisse outra forma, outro meio de se amarem...
tocam-se quase timidamente... beijam-se sôfrega e desenfreadamente, deixando despojos de amor por lugares recônditos, deixando-se a si, pedaços de si, pelas paredes e esquinas.

Porque ali não é lugar, ali não é o tempo…
e as palavras perdem o sentido e os olhos procuram o sentido perdido... e as mãos falam por si!
e tudo fica por dizer... tudo fica por fazer.

Porque o amor clandestino é assim! Intenso... urgente... desmedido... e condenado!
Condenado, como aqueles que se arrastam em pedaços de cartão, jornal e cobertores a contraluz e a conta-gotas de uma qualquer garrafa de um qualquer pedaço de álcool. Condenado como aqueles que se dobram sobre si, e se dobram uns e outros num ritmo infindável de jovens com mais uma agulha espetada e um pedaço de limão que escorre pelos dedos enegrecidos da morte que os espreita.
Até quando...
Até que um dia o sol brilhe e a voz ecoe, sons de gritos, de raiva, emudecidos pelo raiar da aurora.
E vagueiam mulheres fáceis, prostitutas da vida, como se a noite as ocultasse.

E vagueiam proxenetas de cintos afivelados e camisas de cetim multicores.
E cantam os fadistas em tascas de turistas preenchidas.
E abraçam-se os amantes, num aconchego de paixão...
E olham em volta tentando adivinhar asas em quem passa.
Mendigo ou senhor, plebeu ou erudito, disforme ou sublime... pouco importa, desde que não lhes turve a visão desta miragem.

Recolhem-se de mansinho na expectativa de um consentimento sem reservas, quiçá cúmplices no compreender das coisas para além da razão.
E o silêncio, o mesmo que caiu sobre a cidade, desperta os sentidos... acorda a razão... Não passa de mais uma ilusão, esta ilusão de anjos!

Também eles, tal como nós, vivem presos na vontade de qualquer coisa melhor.
De um encontro entre iguais, de uma fantasia por cumprir que os liberte da sua condição alada e lhes permita o acesso à terrena vontade dos corpos que habitam.







Comentários

Pontos_nos_psis disse…
A imagem do por-do-sol ao pé do rio é ABSOLUTAMENTE FANTÀSTICA e fica muito bem a embrulhar as palavras escritas. Temos escritor ! ;-)
Anónimo disse…
Mais uma vez parabéns.
Vc não se limita a despachar frases. Vc trabalha os textos, pensa e envolve-se neles.
Já escreveu algum livro ?
O(A)s fãs querem saber mais de si...
Queremos mais...
tcl disse…
Palavras escritas como uma pintura, aguarela de sentimentos e imagens que se fundem em suaves matizes de cores, luz e sombra.
Gostei muito. Continua.

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