Tempo de coisa nenhuma...!






Um pedaço de tempo, uma parcela, uma fatia de tempo vivida como coisa nenhuma.
Mas, porque é tempo, teve o seu próprio tempo!
Como um gesto sem jeito, deambulo o olhar e busco em cada ponto preciso o que não vejo, mas adivinho.
Um dia destes, deixo de sonhar ou vislumbrar.
E passa o tempo, tempo de coisa nenhuma, como se fosse uma eternidade, ou como se nunca tivesse acontecido, tão difuso e longínquo me parece.
Prefiro a tua ausência a uma visão infinita e turva. Prefiro não pensar para não sentir, que jamais estarás lá.
Que soturnos estes dias!As figuras da cidade escoam-se como fantasmas, imagens sem corpo ou forma distinta, manchas confusas que atrapalham o olhar e a precisão do que procuro. Cães passam ladrando, automóveis apitando, vozes, ruídos, travagens, obras e movimento impreciso. E eu, caminho, em função de um qualquer tic-tac, de um qualquer “surround”, de um qualquer altifalante que informa-sobre-qualquer-coisa-que-nem-sei-o-quê.
A memória, altar das emoções, sem esforço, num exercício ininterrupto e tão natural como respirar, põe e dispõe!
Num turbilhão todos os sentidos, todos os sentimentos se apossam de nós... em todos os instantes e em cada instante de todos os momentos, de que cada momento, é feito.
De modo indelével acabou por se ancorar em mim a memória de ti.
Como quando termino a leitura de um livro.
Fecho, acaricio a lombada deformada, denunciando a cumplicidade partilhada nos momentos vividos em estreita intimidade... e pela mente perpassam imagens em cadeia, como se de um filme se tratasse.
Prefácio, princípio, meio e fim.
E as palavras não bastam para descrever as emoções, descrever sentimentos.
E volto a caminhar e a olhar, tentando vislumbrar sombras ocultas, inquietas, abstractas,
E reparo em cartazes expostos em paredes enegrecidas, ou anúncios em “Néon,” de filmes em que não participas, ou anúncios de TV, para os quais olho sem porquê.
E são tempos, tempos frios, saudosos, como criança que eras e corrias brincando no jardim fronteiriço, ou quando agarravas num qualquer pedaço de nada e me punhas na mão como quem beija uma estrela, e sentia-te chegada a mim, que sou nada.
Mas que tempo é este, de guerras e gritos, de fome e desespero, e de tudo e de tanto e de nada.
Neste tempo de coisa nenhuma.

Comentários

tcl disse…
Tempo de coisa nenhuma, tempo de tanta coisa, tempo de tudo. Todo o tempo é tempo de alguma coisa, mesmo que essa coisa seja um pequeno nada. Um tempo de pequenos nadas a encher o nosso tempo de todo o tempo do mundo.
lamia disse…
Neste tempo de coisa nenhuma, em que te encontro sem quê, deleita-se o meu espírito sem mais, nestas palavras profundas e belas. Adorei.

Mensagens populares deste blogue

O MUNDO DE PERNAS PARA O AR

Deixa ficar assim…

DESEJOS E DEMÓNIOS