26 fevereiro, 2007
















Saiu de casa com meio pão na boca e a maçã pela mão, chega ao escritório a cheirar a metro e quando regressa pela noite, tem uma mistura de odores entre o sovaqueiro e o odorento.
Janta uma sopa frugal e pespega-se a ver a canastrona que passa na telenovela das 22h e a mulher grita – amor vens-te deitar?
Como? Se acabei de chegar…! Como? Se nem tirei ainda dos olhos o ritmo alucinante de mais um dia de metro e comboio e clientes e trabalho e ainda comboio e metro?
Como deitar? se ainda nem a sopa aterrou num estômago esmurrado por dias tenebrosos, colegas pestilentos e um Cais do Sodré a cheirar a mofo.

Sentia-se só. Como só tinha acontecido uns anos antes quando se perdera numa viagem de finalistas ao Japão. A sensação de isolamento que o invadiu, pareceu-lhe a mesma daquela avenida Nipónica. Mesmo acompanhado, a solidão mantinha-se no rosto, no olhar e na atitude de completo isolamento.
Abriu os olhos passava das 3 horas. Tinha adormecido entre o Telejornal das 24 e a fixação no trabalho do dia seguinte que já lhe ocupava os espaços cerebrais.
A mulher dormia em porto de abrigo, ancorada e presa por resistentes cordas ao pontão dos sonhos realizados.
Ele afastou os lençóis e deitou-se em cama quente para mais um despertar sonolento e mudo.
Tinha reunião cedo.
As obras do escritório que partilhava com outros advogados impediam concentração.
Um manancial de tábuas, pó, pregos, tintas, escondiam na entrada dois toxicodependentes numa sala de chuto improvisada.
Baixam a cara envergonhados escondendo o produto que tentam lançar como veneno em veias secas de carvão.
São delicados na sua vergonha.
Arrastam consigo cheiro nauseabundo de noites dormidas em cartão e jornal, e o olhar vidrado que atiram para o chão quando se cruzam, poupando sentimentos contraditórios.


Delicadamente em uníssono, dizem...
Bom dia Senhor. – Desculpe Senhor. – Obrigado Senhor.


Raridade, um cumprimento nos dias que correm. Raridade maior um sorriso, mesmo que desdentado, acompanhado de agradecimento.


Vagamente sabemos a cor do carro do vizinho do lado ou o novo corte de cabelo da mulher do segundo esquerdo. Deixamos que o tempo nos leve os filhos da infância para a adolescência e desta para a faculdade, e quando despertamos encontramo-nos entre meio pão na boca, uma discussão com a mulher e o olhar terno, angustiado e perdido de dois toxicodependentes.


Detesto este cheiro a sovaco no metro entre meia partida para o comboio da vida.

24 fevereiro, 2007






Tens um vendaval de folhas escritas, rabiscadas, riscadas, desenhadas e espalhadas pelos quatro cantos.
Tens livros e revistas que lês e vais amontoando, esperando melhores dias.
Sabes sempre do sorriso depois da lágrima, o recomeço depois do fim, o amanhecer depois da noite e o olá depois do adeus.
E vem um dia após o outro, um ano que substitui outro, uma hora que antecede outra hora e um sonho que amadurece outro sonho.
Tentaste mas não conseguiste parar o relógio do tempo.
Hesitaste ao empurrá-lo, abanaste-o mesmo assim, gritaste quanto pudeste e ele indefinidamente não parou.
"Depois de tempo, tempo vem, mesmo que não saibamos o que isso significa" - dizias...
Emudeces e entristeces com qualquer coisa além do óbvio.

E sinto-te desfalecer.
Pedes para fazer “rewind”, “down”, ou mesmo carregar num botão que diga “close”, ou tentas formas de te rebobinar todo.

Já não riscas, pintas, desenhas, escreves ou rabiscas.

Já não lês, recortas, colas, e nem amontoar pretendes.
Procuras peças soltas e bocados ausentes em ti.

Sobejam parafusos, bobines, discos, platinados, relés, pilhas, placas. Peças soltas por aí…!
Mas ao abrires as asas seguro de ti, voando para um qualquer lugar mesmo distante,
pode a lua faltar-te num abraço, mas terás sempre o sol a nascer, sorrindo.

20 fevereiro, 2007


Neste País de brandos costumes mas maus vícios, um dos mais costumeiros é o de impedir que um qualquer, faça algo de positivo por algo ou alguém em qualquer actividade, alterando muito do imobilismo que é a vida de muita gente, quantas das vezes base de sustentação para os nossos jovens não se afundarem em vícios ou os idosos não aguardarem impotentes pela "sua hora".
Surgem então alguns iluminados, porventura mal ensinados ou de lição pouco estudada num qualquer partido politico, "lobby" ou mesa de café.
Novos conceitos, nascidos no momento, de forma a não afectar o “modus vivendi” de alguns, poucos, muito poucos, graças a Deus.
Não move a essa gente, ideias de renovação e revigoramento, de costumes e processos, apenas pretendem não deixar abanar o existente, contando com cumplicidades permanentes e omissões deliberadas.
Vamo-nos infelizmente habituando, já que estamos no tempo em que as asneiras são apresentadas como verdades profundas.
Sobre qualidade de vida como também sobre muitas outras questões, estamos habituados a que se escolha a pior, como a melhor das soluções.
São doutos conhecedores, que proliferam em redor de tudo, não colaborando com nada, uns bem falantes outros nem por isso, uns de fato e gravata de seda dos melhores costureiros, outros de ganga, sarja, blusão e camisa desabotoada, qualquer deles pertencendo a uma determinada “família ou “grupo” um regalo para todos os sentidos e paladares e uma requintada sinfonia, dado que nos dão um manancial de verdades feitas, certezas imutáveis e conclusões peremptórias.
O “chinfrim” por eles protagonizado já não se tolera, tamanha a magnitude do ruído, já condenado por decibéis acima do tolerável.
A alguns, convém que as ideias e conhecimentos com amplitude não vençam, porque a teoria do quadrado, o mais pequeno possível e bem fechado é que interessa.
O imobilismo sentido, provocará desencanto, pois olha-se em volta e estes “doutos pedagogos” que podemos encontrar nas Autarquias, Empresas, Escolas, na TV, no Parlamento, a dormir, a polir esquinas e em toda a parte, jamais tiveram actividade digna de relevo, nem profissão conhecida.
São os colocados da situação, funcionários políticos, pregadores de feiras, encostados da actualidade.
A sua vida é muitas vezes, um vazio sentimental, familiar, social, servindo estas atitudes como forma de auto-promoção ou afirmação, que até lhes dará um grande jeito lá pelos 30 de cada mês.

17 fevereiro, 2007




















Enquanto a noite se faz, eu ando por aí, virando e revirando pensamentos. Sei que perco horas de sono, e essas jamais voltarão, mas sou de um tempo em que tenho de acompanhar o tempo.
Entre noites mal dormidas à pressa e uns quantos dias mal engolidos, onde quase não me sinto e poucas vezes me encontro, deambulo pela cidade percorrendo ruas, avenidas, e vielas em busca de mim.
Mas também em busca de ti.
Em busca dos teus dias completos e dos intervalos sempre curtos em que apenas sobrava espaço para um olhar.
Em busca do teu voo, pois sei que as asas que dizes ter, não existem e o limbo em que vives, vai um dia deixar-te cair.
Detenho-me num daqueles mendigos para quem nunca temos olhar.
Um sujeito que olha o chão e estende a mão negra de sujo e gretada pelo tempo.
Detenho-me no seu cartaz, “sou doente”.
Fixo o meu no seu olhar e vejo olhos inteligentes como amargos e revoltados.
Sentei-me a seu lado, e olhei-o, como quem olha a contra-capa de um livro em busca da foto do seu autor e imagina a pessoa que escreveu aquele texto, aquela frase. E é assim que me sinto aqui. Adivinhando gente, espiando alguém.
Provavelmente não serei mais que um outro, com que se depara enquanto olha o seu cartaz “sou doente”.
Ar cabisbaixo, humildade, mas candura e gestos ternos e elegantes como a mão escondida pela negritude, a pobreza do aviso tingido de nódoas, remendado.
É o “Mingos”. Um produto bastardo da classe burguesa, que encostado a vidas desfeitas, jamais se encontrou numa sociedade consumista, hipócrita e desumana.
Diz-me que não olha ninguém para não se ver. Que não procura, para não se encontrar e que quase não vivendo, vive bem.
Não lhe deixei moeda em copo plástico, puxei de um cobertor e tapei-me.
Entre dias de intensa desilusão engolidos à pressa, aguardo pelo teu voar, na esperança que possas cair aqui, no meio da vida.
Quem me quiser encontrar, estarei ao lado do cartaz que diz, “Sou doente”, empunhando um outro que dirá… “o maluco sou eu…”

11 fevereiro, 2007





Eu olho o espelho, claro que olho, mas na verdade não me sinto adulto.
Sou ainda uma criança e vejo-me agarrado às pernas que tremem só de pensar.
Estou sempre a tentar ser um “Homem-Grande”. Estou sempre a tentar, com a mania de vir a ser, e esqueço que nunca serei, porventura.
Não é muito tarde eu sei, é apenas tarde para mim.
E revejo infância passada com peças a enfeitar presépios, que serviriam para adoçar com chocolates tardes animadas entre o jogo da carica no passeio frente ao talho ou leituras do “Patinhas”, acabado de chegar.
Ainda me lembro porque foi ontem, ainda recordo porque presente.
-…”Carlinhos…” Dizia a Avó enquanto ele fugia.

Olho o espelho quando passo, e volto atrás para relembrar tempos de um tempo.
E no apartamento por cima da casa pequena, como pequeno era o mundo, alguém geme. Parece que dormem em cama de ferro com cobertores de flanela tal o ranger do espaço e o calor que emana bem por cima da minha cama.
Nunca entendi a que se deve tanta algazarra, se discutem por tudo, por muito pouco ou quase nada.
Ou porque o mês vai a meio, ou o subsídio não entra ou a cabeça lhe dói... !

Não havia de doer… a minha vizinha era magra escanzelada, tipo pau-de-virar-tripas, e ele lambuças com bigode farto e gestos de camionista.
E a Avó, que volta a chamar… - "Carlinhos…” !
Sou ainda uma criança e as pernas doem de tanto tremer.
Um novo dia e de novo o ranger das molas em gemidos de mulher escanzelada, que adora gelados ao pôr-do-sol na pastelaria chique, da esquina em frente à avenida.
Como soava a sua voz quando dizia, … - “ainda irás ser um Homem-Grande”, e eu olhava o espelho de novo na esperança de me ver crescer.
Mas de noite apareciam sombras cobertas em anonimato, sem cama e sem vintém, que obrigavam a luzes acesas até à chegada do João Pestana, amigo certo e destemido que me aconchegava tempo e alma.
O Lambuças tropeçava madrugador, e janelas agitavam freneticamente como que a pedir socorro, enquanto ela amanhecia com o aspecto de quem arrastada impiedosamente, não largou a vida enquanto a morte a tentava roubar, por esticão.
Um dia veio a tristeza de uma autópsia que não deixava dúvidas, embrulhada em mortalha dobrada a quatro...,
Morte por escanzelamento e negritude violenta do foro psicológico por demandas interiores”.
A Avó volta a chamar…- “Carlinhos…”
E eu com as pernas que tremem só de pensar, olho o espelho, claro que olho, mas na verdade não me sinto um “Homem-Grande”.

07 fevereiro, 2007



















"Porque não tentas ser apenas e só um bocadinho mais feliz?".

Era assim que um velho padre meu amigo, consecutivamente me questionava. Eu, pela amizade que nos unia e pela confiança que tínhamos um no outro, encolhia os ombros e dizia... "vou sendo..."
Não era do género de ouvir dos outros maleitas várias, não tinha paciência para confissões de intimidades bacocas (a essas dizia, que Deus, não era para ali chamado e que esses assuntos resolvem-se por eles).
A mim nunca me quis ouvir confissão, nem eu lha daria. Sei, que não era apologista de mandar rezar "Pais-Nossos" nem "Avé-Marias", muito menos crucificava pecadores, "... Quem não pecar não é humano..."-dizia.

Preocupava-se com as minhas leituras e radicalismo de posições. Mantinha como interessantes as minhas revoltas e devolvia-me sonhos e futuros embrulhados em dias melhores.
A sabedoria nele reinava. Calmo, apaziguador, "leitor" de almas, açucarava corações, com longas barbas brancas que tapavam o hábito e o cabeção alvo.
Nas sua homilias abordava imensas vezes os seus estudos filosóficos e o doutoramento em Roma. A tolerância foi “dom” que com ele nasceu, o gosto pelo ensino e a palavra certa num aconchego de lã.
Em tom sarcástico coçava a barba e dizia: “ Valha-nos Deus, Santo Neurónio que ainda habitas algum espaço cerebral…”

Frequentemente vi-o pintar muros de casas, arranjar portas e transportar móveis.
Com o meu grupo de alegres adolescentes jogava a bola, fazendo de árbitro numa intermediação que variava entre o "deixa-jogar" e o "marca-falta" contra o palavrão ou o excesso violento.

Na época Pascal, lá vinha ele com a cruz e o sino a rebate, e eu, garoto ainda, a acompanhá-lo de porta em porta.
Anos mais tarde, lembro-me de uns bailaricos na sala contígua à Sacristia, que talvez abençoada, foi palco de muitos namoros ainda hoje felizes.
Fiz parte do seu grupo mais restrito de amigos, de diálogo permanente e acólito de conversas em que o tema solidariedade (que ainda hoje me acompanha), justiça e humildade, o vestiam da cabeça aos pés.

Hoje, ao ver e ler temas como o do referendo da IVG, não seguiria esse meu amigo e velho Padre, a doutrina hipócrita escrita em cartas enviadas em mochilas de crianças, com frases de matanças de fetos pelas mães.
Embrião-feto-ser-humano, na sua maior parte, as pessoas nem imaginam o que é, ou como é um embrião nem tão pouco também um ser-humano e o respeito que se deve ter por ele.
Tenho para mim que raros são aqueles que se lembram dos que, sem comida, sem abrigo, sem cuidados básicos, sem acesso a instrução, sem cuidados de saúde física e psicológica, vivem encostados à esquina de uma indiferença assustadora num limbo que nada tem de humano.
Agrilhoados a uma sociedade castradora e selectiva, vão vegetando de lixo para cartão, de moeda de parque de estacionamento para seringa na porta sul de um qualquer centro de saúde com dose de metadona bem aviada.

O meu Padre e velho amigo, lutava todos os dias pela dignidade das pessoas, transportando livros, lápis e sebentas para os mais novos, alimento, estima e conforto para os mais idosos.
“… Porque não tentas ser apenas e só um bocadinho mais feliz ?...”
- “Olha meu Amigo, tentar, tento, mas não está a ser nada fácil…”