Enquanto a noite se faz, eu ando por aí, virando e revirando pensamentos. Sei que perco horas de sono, e essas jamais voltarão, mas sou de um tempo em que tenho de acompanhar o tempo.
Entre noites mal dormidas à pressa e uns quantos dias mal engolidos, onde quase não me sinto e poucas vezes me encontro, deambulo pela cidade percorrendo ruas, avenidas, e vielas em busca de mim.
Mas também em busca de ti.
Em busca dos teus dias completos e dos intervalos sempre curtos em que apenas sobrava espaço para um olhar.
Em busca do teu voo, pois sei que as asas que dizes ter, não existem e o limbo em que vives, vai um dia deixar-te cair.
Detenho-me num daqueles mendigos para quem nunca temos olhar.
Um sujeito que olha o chão e estende a mão negra de sujo e gretada pelo tempo.
Detenho-me no seu cartaz, “sou doente”.
Fixo o meu no seu olhar e vejo olhos inteligentes como amargos e revoltados.
Sentei-me a seu lado, e olhei-o, como quem olha a contra-capa de um livro em busca da foto do seu autor e imagina a pessoa que escreveu aquele texto, aquela frase. E é assim que me sinto aqui. Adivinhando gente, espiando alguém.
Provavelmente não serei mais que um outro, com que se depara enquanto olha o seu cartaz “sou doente”.
Ar cabisbaixo, humildade, mas candura e gestos ternos e elegantes como a mão escondida pela negritude, a pobreza do aviso tingido de nódoas, remendado.
É o “Mingos”. Um produto bastardo da classe burguesa, que encostado a vidas desfeitas, jamais se encontrou numa sociedade consumista, hipócrita e desumana.
Diz-me que não olha ninguém para não se ver. Que não procura, para não se encontrar e que quase não vivendo, vive bem.
Não lhe deixei moeda em copo plástico, puxei de um cobertor e tapei-me.
Entre dias de intensa desilusão engolidos à pressa, aguardo pelo teu voar, na esperança que possas cair aqui, no meio da vida.
Quem me quiser encontrar, estarei ao lado do cartaz que diz, “Sou doente”, empunhando um outro que dirá… “o maluco sou eu…”

Comentários

syl disse…
Prefiro de longe a loucura ao delírio de grandeza.

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