Eu olho o espelho, claro que olho, mas na verdade não me sinto adulto.
Sou ainda uma criança e vejo-me agarrado às pernas que tremem só de pensar.
Estou sempre a tentar ser um “Homem-Grande”. Estou sempre a tentar, com a mania de vir a ser, e esqueço que nunca serei, porventura.
Não é muito tarde eu sei, é apenas tarde para mim.
E revejo infância passada com peças a enfeitar presépios, que serviriam para adoçar com chocolates tardes animadas entre o jogo da carica no passeio frente ao talho ou leituras do “Patinhas”, acabado de chegar.
Ainda me lembro porque foi ontem, ainda recordo porque presente.
-…”Carlinhos…” Dizia a Avó enquanto ele fugia.

Olho o espelho quando passo, e volto atrás para relembrar tempos de um tempo.
E no apartamento por cima da casa pequena, como pequeno era o mundo, alguém geme. Parece que dormem em cama de ferro com cobertores de flanela tal o ranger do espaço e o calor que emana bem por cima da minha cama.
Nunca entendi a que se deve tanta algazarra, se discutem por tudo, por muito pouco ou quase nada.
Ou porque o mês vai a meio, ou o subsídio não entra ou a cabeça lhe dói... !

Não havia de doer… a minha vizinha era magra escanzelada, tipo pau-de-virar-tripas, e ele lambuças com bigode farto e gestos de camionista.
E a Avó, que volta a chamar… - "Carlinhos…” !
Sou ainda uma criança e as pernas doem de tanto tremer.
Um novo dia e de novo o ranger das molas em gemidos de mulher escanzelada, que adora gelados ao pôr-do-sol na pastelaria chique, da esquina em frente à avenida.
Como soava a sua voz quando dizia, … - “ainda irás ser um Homem-Grande”, e eu olhava o espelho de novo na esperança de me ver crescer.
Mas de noite apareciam sombras cobertas em anonimato, sem cama e sem vintém, que obrigavam a luzes acesas até à chegada do João Pestana, amigo certo e destemido que me aconchegava tempo e alma.
O Lambuças tropeçava madrugador, e janelas agitavam freneticamente como que a pedir socorro, enquanto ela amanhecia com o aspecto de quem arrastada impiedosamente, não largou a vida enquanto a morte a tentava roubar, por esticão.
Um dia veio a tristeza de uma autópsia que não deixava dúvidas, embrulhada em mortalha dobrada a quatro...,
Morte por escanzelamento e negritude violenta do foro psicológico por demandas interiores”.
A Avó volta a chamar…- “Carlinhos…”
E eu com as pernas que tremem só de pensar, olho o espelho, claro que olho, mas na verdade não me sinto um “Homem-Grande”.

Comentários

tcl disse…
"... os seus saltos soando no passeio fazem-me pensar nos caminhos que não percorri e que se dividem como ramos de uma árvore. Você despertou em mim a obsessão da minha primeira juventude: imaginava a vida à minha frente como uma árvore. Chamava-lhe então a árvore das possibilidades. Só durante curtos momentos se vê a vida assim. Depois ela surge como uma estrada imposta de uma vez para sempre, como um túnel donde não se pode sair. Contudo, o antigo aparecimento da árvore permanece em nós sob a forma de uma indelével nostalgia. Você recordou-me essa árvore, e, em troca, quero transmitir-lhe a imagem dela, fazer-lhe ouvir o seu murmúrio feiticeiro."

A Identidade
Milan Kundera

Olá Pedro
Penso que este excerto de Milan Kundera, que roubei do blog de uma amiga, tem muito a ver com este teu post. A "árvore das possibilidades" com as suas ramificações, encerra em si todos os sonhos da nossa juventude e, mantendo-se viva, faz com que continue a viver em nós o menino que fomos. Ser um Homem Grande, pode ser bom nalgumas coisas, nas nossas relações com os outros, no aprender a moderar o egoísmo que todas as crianças têm, por exemplo.
Mas alimentar a criança que vive em nós é não deixar morrer os sonhos e não deixar que a vida seja como "um túnel de onde não se pode sair". As ramificações da árvore estão cá, e a vida pode ser o que nós quisermos. É só tentar sair do túnel e seguir um dos ramos da árvore.

Mensagens populares deste blogue

O MUNDO DE PERNAS PARA O AR

Deixa ficar assim…

DESEJOS E DEMÓNIOS