"Porque não tentas ser apenas e só um bocadinho mais feliz?".

Era assim que um velho padre meu amigo, consecutivamente me questionava. Eu, pela amizade que nos unia e pela confiança que tínhamos um no outro, encolhia os ombros e dizia... "vou sendo..."
Não era do género de ouvir dos outros maleitas várias, não tinha paciência para confissões de intimidades bacocas (a essas dizia, que Deus, não era para ali chamado e que esses assuntos resolvem-se por eles).
A mim nunca me quis ouvir confissão, nem eu lha daria. Sei, que não era apologista de mandar rezar "Pais-Nossos" nem "Avé-Marias", muito menos crucificava pecadores, "... Quem não pecar não é humano..."-dizia.

Preocupava-se com as minhas leituras e radicalismo de posições. Mantinha como interessantes as minhas revoltas e devolvia-me sonhos e futuros embrulhados em dias melhores.
A sabedoria nele reinava. Calmo, apaziguador, "leitor" de almas, açucarava corações, com longas barbas brancas que tapavam o hábito e o cabeção alvo.
Nas sua homilias abordava imensas vezes os seus estudos filosóficos e o doutoramento em Roma. A tolerância foi “dom” que com ele nasceu, o gosto pelo ensino e a palavra certa num aconchego de lã.
Em tom sarcástico coçava a barba e dizia: “ Valha-nos Deus, Santo Neurónio que ainda habitas algum espaço cerebral…”

Frequentemente vi-o pintar muros de casas, arranjar portas e transportar móveis.
Com o meu grupo de alegres adolescentes jogava a bola, fazendo de árbitro numa intermediação que variava entre o "deixa-jogar" e o "marca-falta" contra o palavrão ou o excesso violento.

Na época Pascal, lá vinha ele com a cruz e o sino a rebate, e eu, garoto ainda, a acompanhá-lo de porta em porta.
Anos mais tarde, lembro-me de uns bailaricos na sala contígua à Sacristia, que talvez abençoada, foi palco de muitos namoros ainda hoje felizes.
Fiz parte do seu grupo mais restrito de amigos, de diálogo permanente e acólito de conversas em que o tema solidariedade (que ainda hoje me acompanha), justiça e humildade, o vestiam da cabeça aos pés.

Hoje, ao ver e ler temas como o do referendo da IVG, não seguiria esse meu amigo e velho Padre, a doutrina hipócrita escrita em cartas enviadas em mochilas de crianças, com frases de matanças de fetos pelas mães.
Embrião-feto-ser-humano, na sua maior parte, as pessoas nem imaginam o que é, ou como é um embrião nem tão pouco também um ser-humano e o respeito que se deve ter por ele.
Tenho para mim que raros são aqueles que se lembram dos que, sem comida, sem abrigo, sem cuidados básicos, sem acesso a instrução, sem cuidados de saúde física e psicológica, vivem encostados à esquina de uma indiferença assustadora num limbo que nada tem de humano.
Agrilhoados a uma sociedade castradora e selectiva, vão vegetando de lixo para cartão, de moeda de parque de estacionamento para seringa na porta sul de um qualquer centro de saúde com dose de metadona bem aviada.

O meu Padre e velho amigo, lutava todos os dias pela dignidade das pessoas, transportando livros, lápis e sebentas para os mais novos, alimento, estima e conforto para os mais idosos.
“… Porque não tentas ser apenas e só um bocadinho mais feliz ?...”
- “Olha meu Amigo, tentar, tento, mas não está a ser nada fácil…”

Comentários

Pontos_nos_psis disse…
A felicidade é um conceito tão vago, que cada um a sente à sua maneira. Eu acho que percebemos isso à medida que vamos avançando na vida, e, sobretudo, sentido necessidade de passarmos a valorizar as pequenas coisas que ela nos dá! um bom fds
tcl disse…
eu diria mais que é valorizando as pequenas coisas que podemos aprender a ser felizes :-)

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