Saiu de casa com meio pão na boca e a maçã pela mão, chega ao escritório a cheirar a metro e quando regressa pela noite, tem uma mistura de odores entre o sovaqueiro e o odorento.
Janta uma sopa frugal e pespega-se a ver a canastrona que passa na telenovela das 22h e a mulher grita – amor vens-te deitar?
Como? Se acabei de chegar…! Como? Se nem tirei ainda dos olhos o ritmo alucinante de mais um dia de metro e comboio e clientes e trabalho e ainda comboio e metro?
Como deitar? se ainda nem a sopa aterrou num estômago esmurrado por dias tenebrosos, colegas pestilentos e um Cais do Sodré a cheirar a mofo.

Sentia-se só. Como só tinha acontecido uns anos antes quando se perdera numa viagem de finalistas ao Japão. A sensação de isolamento que o invadiu, pareceu-lhe a mesma daquela avenida Nipónica. Mesmo acompanhado, a solidão mantinha-se no rosto, no olhar e na atitude de completo isolamento.
Abriu os olhos passava das 3 horas. Tinha adormecido entre o Telejornal das 24 e a fixação no trabalho do dia seguinte que já lhe ocupava os espaços cerebrais.
A mulher dormia em porto de abrigo, ancorada e presa por resistentes cordas ao pontão dos sonhos realizados.
Ele afastou os lençóis e deitou-se em cama quente para mais um despertar sonolento e mudo.
Tinha reunião cedo.
As obras do escritório que partilhava com outros advogados impediam concentração.
Um manancial de tábuas, pó, pregos, tintas, escondiam na entrada dois toxicodependentes numa sala de chuto improvisada.
Baixam a cara envergonhados escondendo o produto que tentam lançar como veneno em veias secas de carvão.
São delicados na sua vergonha.
Arrastam consigo cheiro nauseabundo de noites dormidas em cartão e jornal, e o olhar vidrado que atiram para o chão quando se cruzam, poupando sentimentos contraditórios.


Delicadamente em uníssono, dizem...
Bom dia Senhor. – Desculpe Senhor. – Obrigado Senhor.


Raridade, um cumprimento nos dias que correm. Raridade maior um sorriso, mesmo que desdentado, acompanhado de agradecimento.


Vagamente sabemos a cor do carro do vizinho do lado ou o novo corte de cabelo da mulher do segundo esquerdo. Deixamos que o tempo nos leve os filhos da infância para a adolescência e desta para a faculdade, e quando despertamos encontramo-nos entre meio pão na boca, uma discussão com a mulher e o olhar terno, angustiado e perdido de dois toxicodependentes.


Detesto este cheiro a sovaco no metro entre meia partida para o comboio da vida.

Comentários

Doc disse…
"Raridade, um cumprimento nos dias que correm. Raridade maior um sorriso, mesmo que desdentado, acompanhado de agradecimento."

Deliciosamente bonita a verdade desta frase!

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