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A mostrar mensagens de Março, 2007
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Agora que estamos na Primavera, acontece aquilo a que chamamos “paixonetas”, passarinhos rosados que nos cercam o coração.
A libido funciona melhor com o calor, com menos peças de roupa, com visões mais abrangentes do corpo de outro(a), ou apenas pelo facto de os dias estarem “maiores” e as pessoas por tudo isto estarem mais motivadas “a”, mais predispostas “a”.
(Para esta teoria existem várias opiniões, mas fiquemos por esta simples).
Pelo chegar das andorinhas, ou pelo florir das árvores (com excepção do raio do pólen que não nos larga), pela alegria contagiante ou pelo fim do Inverno e a sua componente depressiva, os que se apaixonam, referem a energia que lhes traz o impulso de descobrir alguém.
A “nova vida” que cintila nos olhos, palpita no coração e estremece o esqueleto por poderem partilhar com alguém e dar de si mais do que esperado.
Existem por outro lado, os que se reprimem nos envolvimentos, que varrem sentimentos para debaixo do tapete, que temem perder a sua identidade, que …
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Felisberta, segurava um lenço de seda entre as mãos enquanto espreitava o sol que brilhava sobre campos repletos de mil cores e doces cheiros primaveris.
Quase a completar 85 anos, tinha na ideia, – “.. Gostava tanto de ainda fazer o amor…”.
Palavras que repetia incessantemente num misto de orgulho e firmeza.
Felisberta nunca foi mulher de vida fácil. Trabalhava no cultivo do campo e no tratamento do gado.

Casara-se uma vez com o Chico da Nora e a sua vida igual a tantas outras, apenas dava para criar os filhos e deslocar-se de burra à cidade grande uma vez por mês.
Tinha umas terrinhas de que nunca se desfez para amparar a velhice, o que lhe valeu para habitar este Lar onde espreita os dias e onde um melro lhe traz cânticos de doces solfejos.
Olhou o Mar uma única vez, sabe de árvores onde não existiam árvores, um parque onde antes não existia parque e prédios enormes de apartamentos onde pastavam rebanhos a toque de pau.
Olha pela vidraça do tempo e repara nos plátanos exactamente no sítio…
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Estou farta desta vida de procura, da minha incessante e louca procura por ti.
Não sei porquê. Aliás nem sei se existes, onde estás, de onde vens.
Sou eu Genoveva Carola, que me esforço de mais ou tu que te apressas de menos?
Sou eu exigente e inquieta, ou serás desinteressado e afastado deste espaço que é meu?
Queria ver-te com esses olhos tristes de quem pede ajuda e carinho, e indefeso desnudas a alma que irei preencher.
O teu olhar de animal moribundo, a quem procuro para lamber feridas que cicatrizam devagar.
E cansa-me a tua indiferença.
A indiferença dos que podem ter e rejeitam, não procuram, não precisam ou definitivamente não querem.
E canso-me de persistir na luta do que já é defunto e ouvir continuadamente,
- …” Genoveva Carola, ou arranjas moço ou desarranjaste por completo…”
Cansada de não sentir jamais o meu coração em pranto, sobressaltado, e uma alma cheia a transbordar de ti.
E fecho-me em mim.
Não. Não que me resguarde ou ampare ou feche em concha definitiva. Apenas para não se…
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Sei como nasce o dia e termina a noite
Como olhar em ti perscrutando o horizonte.
Sei da ordem das estações do ano e das marés. Sei do sabor dos morangos, da tua pele e do teu sabor.
Sei da vinda dos Reis Magos e nem sei se ainda acredito no Pai Natal
Sei de cor alguns poemas e apenas algumas datas de aniversário
Sei o caminho para casa, a cor dos olhos dos meus filhos e lembro saudoso o azul brilhante dos do meu Pai
Sei de sonhos e fantasias, de realidades pesadelos e sensações. Sei de ansiedades, pânicos e comportamentos.
Sei de coisas boas de sentir, outras nem falar, nem de ouvir.
Sei de amizades perdidas, outras trocadas por alianças flutuantes onde as pessoas se fabricam à medida dos seus objectivos
Sei de coisas que não vejo mas acredito, como as moléculas, a solidão, a tensão arterial, o pensamento, a distância, e a dor que nos deixa quem parte.
Sei de coisas passadas, umas belas e felizes outras dolorosas e funestas e de outras que serão futuro – para o bem e para o mal.
Por vezes chego…
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Lembro da casa do Ti Carlos, onde se salgava o porco e se vendiam copos de três mal aviados pois a Ti Carolina tinha sempre um olho-no-burro-outro-no-cigano.
O Ti Carlos para além da taberna tinha um anexo com mercearia mais completa do que muitos hipermercados.
Desde a Gillette ao Sonasol, Colgate e sabão azul e branco, pentes, escovas e perfumes, cremes (o 444 era o mais famoso), toalhas, bolachas, pão, massa e queijo, fiambre que vinha de Espanha e ainda tinha tempo para dar injecções e cortar cabelos.
O telefone era luxo na taberna e o Zé Carpinteiro era dos poucos que o dedilhava com mestria.
Por cima um envelhecido retrato de Salazar ao lado de recorte de jornal escurecido pelo tempo com a equipa do Benfica de 66, e os números de contacto dos táxis, hospital e do Dr. Teodoro, veterinário lá da terra e senhor de muitas terras.
Contas era com a Ti Carolina que não sabendo das ditas, colocava no livro do mês uns pauzinhos e desenhitos que definiam a pessoa e a divida. Não tenho memória …

DIZEM QUE É LOUCO

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Dizem que é louco, porque vive sentado em roda de camião, coleccionando papelinhos coloridos e escritos os quais junta como puzzles. Separa-os entre as mãos, pelos bolsos e dentro de um saco plástico.
“Vive” entre autocarros de percursos vários, não repara nas pessoas nem no movimento, focalizado que está no seu mundo de papelinhos.
De vez em quando grita, som estridente que ecoa pelo espaço como quem manda calar todo o ruído envolvente.
Nada de mais. As cores e os escritos não batem certo ou algo não lhe agradou.
De resto é inocente, meigo e terno, sedutoramente terno.
Nada pede, nada lhe dão.
Separa cores e escritos, bilhetes, talões, formas.
Todos os dias a mesma rotina. Papel-cor-letra-cor-papel-forma-cor-talão.
Deixou que fechassem os dias e deixa correr as horas como se portas blindassem ritmos frenéticos de vida. Se abandonasse esta rotina seria como sair abruptamente de um camião em andamento.
Alguns que ali passam, gozam como macaco em galho saltitando por banana. Provocam reacções at…