30 março, 2007



Agora que estamos na Primavera, acontece aquilo a que chamamos “paixonetas”, passarinhos rosados que nos cercam o coração.
A libido funciona melhor com o calor, com menos peças de roupa, com visões mais abrangentes do corpo de outro(a), ou apenas pelo facto de os dias estarem “maiores” e as pessoas por tudo isto estarem mais motivadas “a”, mais predispostas “a”.
(Para esta teoria existem várias opiniões, mas fiquemos por esta simples).
Pelo chegar das andorinhas, ou pelo florir das árvores (com excepção do raio do pólen que não nos larga), pela alegria contagiante ou pelo fim do Inverno e a sua componente depressiva, os que se apaixonam, referem a energia que lhes traz o impulso de descobrir alguém.
A “nova vida” que cintila nos olhos, palpita no coração e estremece o esqueleto por poderem partilhar com alguém e dar de si mais do que esperado.
Existem por outro lado, os que se reprimem nos envolvimentos, que varrem sentimentos para debaixo do tapete, que temem perder a sua identidade, que sentem perigos que o cercam.
Receiam perder o controlo (não sabem como é bom perder o controlo de vez em quando), fazer e dizer coisas que não são supostas, nem desejáveis.
Estes referem que o desequilíbrio físico e psíquico que sentem não é favorecido pelo prazer que a paixão lhes traz.
Daí, que não se apaixonando colocam temporalmente um cadeado nesse lugar, fechando-o hermeticamente para não dar espaço a imprevistos ou desafios inesperados que amoleçam a pele e agitem a carne.

Quando estamos apaixonados, envolvidos e interessados nesses laços, não desejamos desatar o nó, pouco ligando a quem passa ou aparece.
Pouco nos importa a condição social, quem é ou como é.
Porque “é” o que “é” como queremos. Aos nossos olhos, alma e coração, permanecendo imperturbáveis.
O acto do enamoramento em si, tem sobretudo a ver com o próprio (daí os amigos e familiares não entenderem ou aceitarem determinadas escolhas).
Apaixonamo-nos quando é possível interiormente ou quando encontramos alguém que sirva o nosso desejo dentro da nossa disponibilidade para tal.
Racionalmente por vezes não funciona.
Serve para crescermos interiormente, para estruturarmos e garantirmos alicerces de futuro, adequando o esforço no sentido de nos agradarmos, e ao outro.
São estas “paixonetas” ou “amores de primavera” que vivem muitos dos nossos filhos e que tanto nos inquieta, porque esquecemos o que fomos e fizemos.
Variações do tempo, dirão…

1 comentário:

Doc disse...

Silencioso e ágil, ele segue-me. Sem com isso me perder de vista, observa tudo quanto nos rodeia, calculando ângulos, medindo distâncias, à espera do lugar e do momento certos para executar o seu salto fatal. É tão exímio na sua caçada que, se fosse outro, talvez me passasse completamente despercebido. Ele... nunca.
Os meus sentidos detectam-no imediatamente e começam a funcionar, soltando os meus odores, as minhas cores. Executo, em movimentos aparentemente normais, uma cadência de passos que é na realidade uma dança, para ele mais do que perceptível. Para os outros com quem me cruzo, não sei... não estou preocupada em saber - não é com eles que travo este combate mortalmente lúbrico. Sei que tudo quanto em mim é feminino me transforma numa hiper-predadora, no meu papel de presa - e não há mais doce forma de se ser a presa!
Sem deixar de me sentir presente nele, dou voltas inúteis, dificulto o percurso que poderia ser rápido e directo, mas não deixaria qualquer recordação. Recuso a satisfação efémera, quase sempre irremediavelmente esquecida, opto por uma coreografia mais dramática. Quero que esta criatura feroz e felina se recorde para sempre do gosto do meu sangue e de como me morreu aos pés caprichosos e andarilhos de eterna bailarina.
Por fim, com argucioso alheamento, entro no lugar que - sei-o muito bem - não tem saída. Aguardo o tal salto, sempre belo no arco amplo que desenha, mas volto-me a tempo... E recebemo-nos, mutuamente subjugados, em risos sufocados por beijos.
Finalmente olhamo-nos com aquele ar cansado e casto, de quem combateu até ao último sopro e pode morrer em paz.
- Como foi o teu dia?...
Rimo-nos ambos da pergunta que nos devolve à humanidade.