16 março, 2007

DIZEM QUE É LOUCO



Dizem que é louco, porque vive sentado em roda de camião, coleccionando papelinhos coloridos e escritos os quais junta como puzzles. Separa-os entre as mãos, pelos bolsos e dentro de um saco plástico.
“Vive” entre autocarros de percursos vários, não repara nas pessoas nem no movimento, focalizado que está no seu mundo de papelinhos.
De vez em quando grita, som estridente que ecoa pelo espaço como quem manda calar todo o ruído envolvente.
Nada de mais. As cores e os escritos não batem certo ou algo não lhe agradou.
De resto é inocente, meigo e terno, sedutoramente terno.
Nada pede, nada lhe dão.
Separa cores e escritos, bilhetes, talões, formas.
Todos os dias a mesma rotina. Papel-cor-letra-cor-papel-forma-cor-talão.
Deixou que fechassem os dias e deixa correr as horas como se portas blindassem ritmos frenéticos de vida. Se abandonasse esta rotina seria como sair abruptamente de um camião em andamento.
Alguns que ali passam, gozam como macaco em galho saltitando por banana.
Provocam reacções atirando frases bafientas de sujidade entranhada.
Para ele, que dizem ser louco, é indiferente. O seu mundo não é esse.
Por mais que nos revolte, alguns antropóides semi-evoluídos continuarão a usar de partes gagas e cenas macacas.
Passamos a vida a desbaratar demónios e a aniquilar sonhos. Rebolamos em emoções que não conseguimos digerir e enrodilhamos, torturando-nos porque o tempo não está de feição.
Vivemos esta vida como se de um filme se tratasse. Fazemos trechos, montamos imagens, contando certamente com um belo resultado final.
Aquele que dizem ser louco, faz exactamente isso.
Monta peças de cor diferente ou igual, equilibra os de letra parecida e obtém um resultado. Adiciona-lhe emoção, desejo, paixão e gozo pelo obtido.
Faz, tal como toda a gente, trajecto emocional, indignação, picos de emoção e raiva, revolta, frustração, satisfação.
Tal como ele, fazemos monólogos implicados numa surdez que nos interessa e ouvimos o eco dos nossos gritos.
Pensamos em novos caminhos, novos projectos, novos desafios, mas não “esvaziamos” os nossos bolsos nem tiramos do saco plástico as cores certas.
Carregamos papéis antigos como memórias que ocupam diversos lugares e impedimos que surjam papéis novos com novas cores
Cada “louco” terá o seu modo de ver, de lidar com as cores, letras e objectos e de sublimar o peso do passado tentando encontrar num cantinho do coração, um caminho de futuro…
...sabe-se lá se sentado em roda de camião…conferindo papelinhos coloridos...!

1 comentário:

tcl disse...

Pois é, de menino e de louco todos temos um pouco e ainda bem que assim é. Mesmo quando por vezes quando não vemos (nem os outros vêem) mais do que sombras de nós próprios.