27 março, 2007


Estou farta desta vida de procura, da minha incessante e louca procura por ti.
Não sei porquê. Aliás nem sei se existes, onde estás, de onde vens.
Sou eu Genoveva Carola, que me esforço de mais ou tu que te apressas de menos?
Sou eu exigente e inquieta, ou serás desinteressado e afastado deste espaço que é meu?
Queria ver-te com esses olhos tristes de quem pede ajuda e carinho, e indefeso desnudas a alma que irei preencher.
O teu olhar de animal moribundo, a quem procuro para lamber feridas que cicatrizam devagar.
E cansa-me a tua indiferença.
A indiferença dos que podem ter e rejeitam, não procuram, não precisam ou definitivamente não querem.
E canso-me de persistir na luta do que já é defunto e ouvir continuadamente,
- …” Genoveva Carola, ou arranjas moço ou desarranjaste por completo…”
Cansada de não sentir jamais o meu coração em pranto, sobressaltado, e uma alma cheia a transbordar de ti.
E fecho-me em mim.
Não. Não que me resguarde ou ampare ou feche em concha definitiva.
Apenas para não sentir.
E meto-me na banheira coberta de água, espuma e perfume que trago de Espanha.
E choro. Sufoco no choro, com medo que me oiçam.
As lágrimas não se misturam nesta água, caiem como pedras causando remoinhos e ondulações. Fosse assim minha alma, iria ao fundo e não regressava.
E não te entendo. Aliás, pouco me entendo também
Tão pouco sei o que quero, metida nesta aldeia Beirã, qual aldeia de Jacob.
Planto, lançando sementes para colher um dia, aguardando vestígios de ti.
Um olhar, um toque, uma ponta presa ao qual possa agarrar e dizer…”-És tu…”
- “Mas quem és tu?”
Tentei escrever e tantas vezes amarrotei folhas de papel por não conseguir definir tudo em linhas de tinta azul.
Cartas de sonhos e sentimentos em envelope fechado, que levo no regaço junto ao laço da bata que teimo em vestir.
E tantas vezes fui à taberna levar o meu destino, e tantas vezes voltei inundada por mil olhares gulosos, de homens cobertos de terra e inflamados de vinho.
Tentei escrever a essência do que sou para que dúvida não houvesse, mas escrevo e amarfanho e rasgo e desespero com a caneta que não transporta para o papel os sentimentos da mesma forma que antes o fazia.
Porventura será mais fácil descarregar frustrações e raivas contidas neste peito espartilhado, esperando por ti.
Muitos falam de Genoveva Carola, sonhadora intrépida, mulher frágil, cujo coração solta melodias dobradas como sinos de igreja, e salta de compasso em compasso numa arritmia descompassada.
Sobretudo os “encantadores de serpente” que vagueiam os bailes da paróquia e festas da Aldeia, mal cheirosos arrebanhados em pele de ovelha.
Amedronta-me o tempo que não pára de correr, numa terra deserta, estéril, árida e decadente.
-"Que será de mim?"

4 comentários:

Anónimo disse...

Texto lindíssimo....
terno, cheio de musicalidade e cor...
LU

Doc disse...

Escrita repleta de intensidade…

Quem não gostaria de carregar sem percorrer os caminhos do medo?

Só chegar, dizer, estou feliz por sentir um infinito desejo de amar!

Calamina disse...

há neste texto uma infinita tristeza repleta de poesia. já o li várias vezes e sempre me vêm as lágrimas aos olhos e um nó aperta-me a garganta. sinal de que conseguiste transmitir sentimentos profundos

Anónimo disse...

A angústia da procura, do desejo, do amor... incondicional e profundamente solitário. Bateu fundo e fez eco!Incomodou-me.