28 março, 2007




Felisberta, segurava um lenço de seda entre as mãos enquanto espreitava o sol que brilhava sobre campos repletos de mil cores e doces cheiros primaveris.
Quase a completar 85 anos, tinha na ideia, – “.. Gostava tanto de ainda fazer o amor…”.
Palavras que repetia incessantemente num misto de orgulho e firmeza.
Felisberta nunca foi mulher de vida fácil. Trabalhava no cultivo do campo e no tratamento do gado.


Casara-se uma vez com o Chico da Nora e a sua vida igual a tantas outras, apenas dava para criar os filhos e deslocar-se de burra à cidade grande uma vez por mês.
Tinha umas terrinhas de que nunca se desfez para amparar a velhice, o que lhe valeu para habitar este Lar onde espreita os dias e onde um melro lhe traz cânticos de doces solfejos.
Olhou o Mar uma única vez, sabe de árvores onde não existiam árvores, um parque onde antes não existia parque e prédios enormes de apartamentos onde pastavam rebanhos a toque de pau.

Olha pela vidraça do tempo e repara nos plátanos exactamente no sítio onde estavam ontem. Patos e Gansos juntos num pequeno lago que a noite tantas vezes ilumina quando a insónia lhe traz à memória tempos de alegria e aflição, de amor e traição e doenças agarradas aos ossos que ainda lá estão.
As cataratas atrapalham, as artroses também, mas já confidenciou em surdina:
“- Ainda gostava de fazer o amor…”
As mãos engelhadas tremem, mas os olhos ternos, tristes e que guardam angustia e solidão cruza-se com outros que a acalmam.
São azuis profundos de um octogenário habitante do mesmo Lar, cavalheiro de bom porte, fato engomado e que diariamente se junta aos dela, cada um em seu espaço, mãos juntas e coração aquecido.
O sol a entrar obliquo, encontra-os como um quadro de Rembrandt.
_” Adoro estar assim… a fazer o Amor…”

------------------------------------------------

5 comentários:

Calamina disse...

Nunca é tarde para deixar entrar o amor pelas janelas da nossa vida, muito menos para fazê-lo.
Belo texto, continua!

Anónimo disse...

Agrada-me sempre a forma sensível e bonita que tens de dizer as coisas! És um poeta e essa alma encanta-me!

Doc disse...

A vida é uma flor cujo mel é o amor...
Que mais poderei acrescentar a este belo texto?
Nada... porque ele fala por si!

Moura ao Luar disse...

Ai coisa bonita, o amor, fazer o amor, depois de uma vida de sacrifício e trabalho, esperar o amor...

Anónimo disse...

Que doce este texto... que bom será terminar assim os dias, de mãos dadas, coração aquecido... a fazer o amor.