17 março, 2007




Lembro da casa do Ti Carlos, onde se salgava o porco e se vendiam copos de três mal aviados pois a Ti Carolina tinha sempre um olho-no-burro-outro-no-cigano.
O Ti Carlos para além da taberna tinha um anexo com mercearia mais completa do que muitos hipermercados.
Desde a Gillette ao Sonasol, Colgate e sabão azul e branco, pentes, escovas e perfumes, cremes (o 444 era o mais famoso), toalhas, bolachas, pão, massa e queijo, fiambre que vinha de Espanha e ainda tinha tempo para dar injecções e cortar cabelos.
O telefone era luxo na taberna e o Zé Carpinteiro era dos poucos que o dedilhava com mestria.
Por cima um envelhecido retrato de Salazar ao lado de recorte de jornal escurecido pelo tempo com a equipa do Benfica de 66, e os números de contacto dos táxis, hospital e do Dr. Teodoro, veterinário lá da terra e senhor de muitas terras.
Contas era com a Ti Carolina que não sabendo das ditas, colocava no livro do mês uns pauzinhos e desenhitos que definiam a pessoa e a divida.
Não tenho memória de alguma falha ou reclamação.
Mulher curvada pelas agruras da vida e do tempo, respeitada por todos, amanhava a horta e tratava com ervas algumas maleitas.
Em dia de bola, ou debate político, começava-se com umas mini´s fresquinhas apoiadas por amendoim torrado e era ver a aviar.
Quase sempre nascia discussão.
Nada que o Ti Carlos não resolvesse do alto dos seus 1,90 mts de Homem feito gente pelas terras queimadas do sol e guerras ultramarinas.
Pela manhã quando o padeiro tocava a buzina já a taberna estava pronta e as gomas reluziam dando jeito de mil cores que enfeitavam os frascos.
Falava-se na altura que os Anjos cirandavam por aquelas paragens...
Palavras do velho Pároco Joaquim Tenório que não abandonando as suas obrigações, não relaxava sem café e uma amarelinha p´ra aquecer.
Homem de filosofias e estudos ancestrais, confidente de meia terra e outra meia por conquistar.
Dizia-se que as ovelhas davam mais leite, os cabritos tinham outro sabor e consequentemente o queijo era detrás da orelha.
Enigmaticamente o verde estava mais verde e o Sol abrasador vinha corrido a breves aragens refrescantes.
Falavam os mais velhos que os anjos eram criaturas que vinham ao mundo para mostrar aos humanos como tudo pode ser bem melhor se bem cuidado.
Eu tenho para mim, que eles vêm para nos mostrar algo mais do que a qualidade da carne no Mac Donald´s, da banana nas pizzas, do efeito de estufa na camada de ozono, porque existe gente tão estranha que cospe para o chão, porque ainda tentamos atravessar nas passadeiras quando até aí somos insultados e atropelados, porque se buzina impacientemente, qual a razão porque tenho de apanhar o 47 para depois não perder o 28, porque ainda existem pessoas que nos tentam meter os Jerónimos pelos olhos dentro ou porque andam aí uns cobardes disfarçados de gente mas que afinal se comprova são mesmo diabos em pele de lobo que maltratam crianças.
Tenho para mim que os Anjos não esquecendo a nossa guarda, têm de trazer quantidades enormes de clorofórmio, que adormeça esta gente e a faça acordar com outro sentido pela vida, as pessoas e as coisas.

1 comentário:

Anónimo disse...

Como disse Milôr Fernandes, "viver é desenhar sem borracha", por isso rever desenhos antigos pode ser uma espécie de manutenção dos alicerces da vida.
Com o teu post, também revi alguns dos meus "desenhos"....Tenho um que mostra a loja da Ti Feciana (na verdade era Feliciana o nome dela, soube anos mais tarde...)onde se vendia arroz, açucar e farinha a avulso, ou ainda o "quartilho de mata bicho" para os homens que iam "pegar".
"Pegar as terras".... há que tempos não via este desenho!!!
Obrigada por o destapares do fundo do baú das minhas memórias...