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A mostrar mensagens de Abril, 2007
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Ele era muito melhor no verbo do que na vida.
Ela tinha rugas e um sorriso rasgado num corpo prazenteiramente cansado de viver. Por vezes arrastava-se, outra dançava com pezinhos de lã..

Felismina tinha percorrido trilhos de tristeza, solidão, desilusão, decepções e desencantos.

António, conhecia de cor e salteado o gosto azedo de horas mais negras, que vão deixando hematomas no coração e chagas na alma…

Eram ambos separados e tentavam um caminho comum.
Mas havia feridas por sarar…

Adiavam o tratamento dos desmazelos e construíam cada um por si um muro, fortificado pela amargura e pela determinação de não mais voltar a sofrer.

Ela mostrava-lhe que o amor doía… ele tentava desesperadamente voltar a respirar.

Em conjunto... quase nada…

A dor, o sofrimento, os anos passados, marcavam fortemente aquelas almas desencontradas.
Felismina sonhava com um grande amor, levitando num sonho de encantamento e excesso, abraçando o sol e a lua, rodopiando sobre si depositando o corpo levemente na terra, num ar…
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Diz-me o porquê desta dor que não passa. Não passa. E o teu olhar está mesmo aqui à minha frente. E choro enquanto te vejo olhar ternamente para mim, a sorrir. E choro enquanto o meu corpo se desfaz numa súplica dolorosa que te possa devolver a felicidade de veres os teus netos e a todos nós, a felicidade que sinto que mereces.
E choro também enquanto me iludo conscientemente, querendo convencer-me que essa felicidade que desejo para ti, poderia ser egoistamente, toda ela, partilhada comigo,
E tudo está longe e distante e eu com esta idade escrevo para ti, pese o muito que conversamos nos últimos 10 anos.

Podem até dizer que estou louco, que me passei, mas eu sei, nós sabemos que este assunto entre nós está bem resolvido. Aliás só podia, de tão bem nos entendermos. Mas faltaram algumas palavras, alguns momentos mais…

Mas falta sempre não é?

Sabes que não consigo fingir sentimento… e dizias-me …”que nem desaforo eu guardava”… ainda hoje é assim …
Fecho-me por norma na concha que me pertence há…
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Tenho escondidos na minha gaveta, textos, frases que me adoçam a alma ou irritam a pele, depende dos momentos.
Tenho correntes que me impedem a escrita e lábios selados para nada dizer.
Olho na direcção de um espelho de água e não reconheço o do lado de lá.
-"O que faz aquele ali?"

Recordo momentos de sonho e cicatrizes da vida
Visitas-me com passos de dançarina, e olho as minhas mãos na esperança de me conhecer.
Puxas-me numa valsa e sinto-me deslocar como se sempre o soubesse fazer.
Agitas-me numa rumba e aí desengonçado dou um jeito, mas sem jeito que me valha.

Mas adorei este pedaço, como quando minha Mãe me puxava era eu garoto, e ganhava torneios de xadrez a três e deslizava em gestos quase perfeitos, por entre casais bem postos de fatiota engomada e meu Pai sorria com o meu vermelhão de vergonha
“-…dançar estas musicas Mãe… isto é p´ra velhos…”.

Corro desenfreadamente, entro em cafés, livrarias, espreito montras, gelatarias,
Ofereço alma e coração para que me digam quem sou e ni…
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Lembro muitas das pedras que já pisei, memorizo rostos, nomes não, e nos caminhos sou despistado.

Lembro do cimento onde se fazem as conversas que falam de nós, dos muros em que me sentei e das praias com céu imensamente azul em que abria os braços ao sol que, sem se fazer rogado me beijava e me bronzeava como um Anjo da Guarda, que nos sossega interiormente.

Muitas luas passaram enquanto eu percorri aqueles caminhos que recordo e em que muitos aspectos me conduziram a lugar nenhum.
Mas não é assim com todos?
O chão que pisei, lugares que percorri é hoje um céu onde crescem árvores.
Vaidade minha? Não. Esses mesmos lugares foram percorridos por milhares de entre nós.

Algumas coisas acabam sem nunca terem começado, outras precisarão de uma luzinha que indique o caminho mais seguro.
Eu, simplesmente tenho as mãos vazias de nada. Simples como pretendo.

Nesses caminhos já tentei dançar Chopin, mas são normalmente caminhos cruzados e não encontro os braços que espero me alcancem.

Gosto nesses camin…
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Falei com a D. Marta a quem encomendei uns bolos e broas-de-avintes, que tem um filho a quem chama “Bolinha”, e que é assim como o 78 que se atrasa sempre no horário de partida entre a Boavista e a Foz.

Não direi atrasado mas vá lá é um moço bonacheirão que por vezes se despista nas curvas do comportamento.
Tirou o curso numa Cerci, componente técnico-profissional e desde sempre é o braço esquerdo e direito da D. Marta.

Só que o “Bolinhas” faz umas bolas de Berlim com creme que são divinais.
Aqui há uns tempos, por afeição fiz-lhe um cartaz que emoldurei e que tinha escrito….

Aqui fabricam-se as melhoras bolas com creme do Mundo, e o melhor pasteleiro “O Bolinhas” é meu amigo”

Pela simpatia no trato, pela delicadeza e respeito, a educação esmerada sem subserviência, o tentar ser útil e as mãos que fabricam bolos e pão como Rembrandt ou Dali pintava um quadro.

Bolos de aniversário então… bastava o esboço do desenho e ele engrandecia a montra refrescada, que fazia a delícia de miúdos e graúdo…
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Tendencialmente tentamos resolver tudo pelo caminho da razão, mas a racionalidade nem sempre nos traz, as sinergias, a vontade, que temos ou precisamos, para fazer seja o que for.

E como nem tudo é feito pela área racional somos compelidos a ouvir o coração.
Aquele Tic-tac, que muitas vezes nos surpreende e ao qual nem ligávamos importância.

Os sentimentos, o frio e o calor, o turbilhão que nos ataca as ideias, o medo das relações, o assumir dos afectos, os sinais que nos são dados pela nossa pele feita galinha ou demasiado gelada ou quente de explosão, por impulsos físicos.

Aqui, raramente entram intelectualidades.
Bem pelo contrário, são os que se baralham mais.

Tenho para mim que se escuto a voz da razão, fico sempre com um não-sei-o-quê de incertezas, de meios-termos, de meias dúvidas.
Mas se me bater no coração, pode demorar, mas mais tarde a própria vida se encarrega de o comprovar, e nesse caso dar-lhe-ei ou não razão.

Sabemos todos que se o coração bate forte demais com palpitações, s…
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As minhas ideias vagueiam, saltitando por aí.

De vez em quando qual fruto maduro alguma coisa cai e desato a escrever antes que apodreça.
O imenso desejo de escrita leva-me a ter que domar as ideias, refreando alguns ímpetos, tornando-as mais suaves e menos revoltas, mais resistentes.


Pelas segundas-feiras então, resisto a quase tudo. Resisto ao despertador que toca desesperadamente na esperança que lhe dê ouvidos, tendo já experimentado os de música, de noticiários, de apito, suaves, fortes, só faltando os gritos das vendedeiras do bolhão em dia de imensa freguesia.
Resisto à primeira conversa da manhã quando desperto, ao pequeno almoço, e resisto ao trabalho que me espera paciente em cima da secretária com aquele bom-dia-que-até-apetece.

À Segunda, como provavelmente muitos de vós, passo o dia num estado secundário, funcionando melhor depois do café, mas sou normalmente como os carros antigos que funcionavam a manivela, primeiro que pegue...

Sou uma sombra de mim próprio, bem longe de tud…
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Há ecos estranhos em mim.
Palavras, gritos, ruídos que não dou conta, mas andam por aqui.
Por vezes não sei o que significam, ou o que dizem todos esses ecos.
Confundem-me, entranham-se no cérebro, saltitam de neurónios, encavalitam-se num jogo traiçoeiro, dão voltas, sussurram ao ouvido e espalham-se pela pele e arrepia-me só de o sentir.
Sinto-me como que num abismo, que cruelmente não me deixa ver o fundo e por isso não adivinho o instante da queda.


E tenho medo!

Engraçada esta sensação de medo, que raio!

E sinto que o eco que me chega provém de ti.
Gritos de revolta, angustia e anseio, gritos de medo também?
Sinto que o tempo escoa apenas num sentido e não volta, pelo menos para mim.

E luto e faço, procuro, desfaço, atónito com a desfaçatez desta vida injusta e repleta de ecos como os que habitam em mim.

Procuro conhecer-te abrindo em veias pesquisando o sangue que corre em ti.
Mas tenho o teu sorriso cândido na cara do tempo e em mim, e sinto que posso morrer na tua boca, uma boca de desejo,…
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Vou contar-vos um segredo em jeito de história...

Escrever nunca foi tarefa fácil, apesar dos bons exemplos em casa.
Por exemplo, nunca mantive um diário na minha adolescência.
Nunca consegui preencher nada relacionado com aspectos da minha vida, nada mesmo.
Não que não tivesse tentado, mas acabava sempre em rabiscos nas páginas, tipo estrelinhas, campos de futebol com jogadores, flores e corações quando a paixão rondava e nos momentos mais tenebrosos, caveiras!
Quando tentava espalhar palavras nas folhas ainda brancas, aquelas fugiam-me!
Traiçoeiras e caprichosas, as palavras... Sempre gostaram muito de brincar comigo, não sei se para me colocarem "no meu lugar", ou se para me desafiarem a brincar com elas também...

Raramente traduziam o que sentia ou o que queria transmitir.
Ficavam sempre aquém ou então iam além do que pretendia. Poucas vezes eram certeiras... E pregaram-me imensas partidas. Algumas com muita graça, outras nem por isso…

Imaginem que escrevi a minha primeira Cart…