27 abril, 2007


Ele era muito melhor no verbo do que na vida.
Ela tinha rugas e um sorriso rasgado num corpo prazenteiramente cansado de viver. Por vezes arrastava-se, outra dançava com pezinhos de lã..

Felismina tinha percorrido trilhos de tristeza, solidão, desilusão, decepções e desencantos.

António, conhecia de cor e salteado o gosto azedo de horas mais negras, que vão deixando hematomas no coração e chagas na alma…

Eram ambos separados e tentavam um caminho comum.
Mas havia feridas por sarar…

Adiavam o tratamento dos desmazelos e construíam cada um por si um muro, fortificado pela amargura e pela determinação de não mais voltar a sofrer.

Ela mostrava-lhe que o amor doía… ele tentava desesperadamente voltar a respirar.

Em conjunto... quase nada…

A dor, o sofrimento, os anos passados, marcavam fortemente aquelas almas desencontradas.
Felismina sonhava com um grande amor, levitando num sonho de encantamento e excesso, abraçando o sol e a lua, rodopiando sobre si depositando o corpo levemente na terra, num arrebatamento de paixão que a fazia estremecer e amainar a dor.

António mantinha-se frio e distante.
Não queria abraços nem palmadas fingidas de aço que se cravam na pele como lanças,
não queria aconchegos cintilantes em tons bordados de azul ou fingimentos de vão de escada, não queria sorrisos contorcionistas, malabarismos e ismos intermináveis.

Passaram-se assim dias e semanas, muitas semanas….
O Inverno deu lugar á Primavera e o Sol e o Céu convidavam ao desabrochar das emoções.

António amava Felismina. Felismina amava António.

Os dias viram noites e os mares oceanos, tudo na vida em constante mutação.
As musicas viram concertos e desacertos, as fraquezas viram forças, minutos viram horas, passado que vira futuro, sendo passado lembrança.
Ele passou a desenhar as palavras que queria ouvir.
Ela sussurrava-lhe sentimentos que gostava de sentir.
Tantos os bocados de um no outro, que por mais que esfregassem já não conseguiam
tirar.
Juntos, pareciam em permanente descongelação.
O tempo curava as feridas, esperando que o tempo chegasse ou algum remédio o resolvesse.
Felismina foi lambendo as mesmas para não infectarem e só assim cicatrizaram.
Procuraram em cada um, peças soltas...
Foram-se reconstruindo e ressurgiram inteiros, ou então pela metade. Não se importaram. Metade de cada, formava um.
Ele foi ficando com as palavras e o amor
Ela era muito melhor na vida do que no verbo, foi descobrindo o que sabia e amando como podia.
Hoje são ponteiros de um mesmo relógio, desenhando horas, minutos, segundos…!

14 abril, 2007








Diz-me o porquê desta dor que não passa.
Não passa.
E o teu olhar está mesmo aqui à minha frente.
E choro enquanto te vejo olhar ternamente para mim, a sorrir.
E choro enquanto o meu corpo se desfaz numa súplica dolorosa que te possa devolver a felicidade de veres os teus netos e a todos nós, a felicidade que sinto que mereces.
E choro também enquanto me iludo conscientemente, querendo convencer-me que essa felicidade que desejo para ti, poderia ser egoistamente, toda ela, partilhada comigo,
E tudo está longe e distante e eu com esta idade escrevo para ti, pese o muito que conversamos nos últimos 10 anos.

Podem até dizer que estou louco, que me passei, mas eu sei, nós sabemos que este assunto entre nós está bem resolvido. Aliás só podia, de tão bem nos entendermos.
Mas faltaram algumas palavras, alguns momentos mais…

Mas falta sempre não é?

Sabes que não consigo fingir sentimento… e dizias-me …”que nem desaforo eu guardava”… ainda hoje é assim …
Fecho-me por norma na concha que me pertence há décadas quando preciso “estar” e ao fechar-me resolvo comigo estas questões.

Sei que nada, nunca vai apaziguar esta dor, esta tempestade que por vezes me destrói e arranha por dentro. Tenho frio e choro lágrimas quentes e sufoco e não aqueço, jamais, porque nos entendíamos num mesmo olhar.
Por vezes sinto que tudo parou e que o tempo não passa, e em todos os gestos que revejo, meus, dos outros, parece-me ver uma despedida… mas sei que jamais te despedirias de mim.

E tudo em qualquer instante me dói por não poder partilhar contigo, apesar de partilhar com tanta gente de quem tanto gostas. E sinto uma pequena e aguda dor por sentir tão perto a distância e tão longa a ausência
Porque sempre pensei que dói mais não sentir do que partilhar estes desabafos.
E quando preciso deles sei onde tranquilamente falo, e ouço-te sabiamente!











Tenho escondidos na minha gaveta, textos, frases que me adoçam a alma ou irritam a pele, depende dos momentos.
Tenho correntes que me impedem a escrita e lábios selados para nada dizer.
Olho na direcção de um espelho de água e não reconheço o do lado de lá.
-"O que faz aquele ali?"

Recordo momentos de sonho e cicatrizes da vida
Visitas-me com passos de dançarina, e olho as minhas mãos na esperança de me conhecer.
Puxas-me numa valsa e sinto-me deslocar como se sempre o soubesse fazer.
Agitas-me numa rumba e aí desengonçado dou um jeito, mas sem jeito que me valha.

Mas adorei este pedaço, como quando minha Mãe me puxava era eu garoto, e ganhava torneios de xadrez a três e deslizava em gestos quase perfeitos, por entre casais bem postos de fatiota engomada e meu Pai sorria com o meu vermelhão de vergonha
“-…dançar estas musicas Mãe… isto é p´ra velhos…”.

Corro desenfreadamente, entro em cafés, livrarias, espreito montras, gelatarias,
Ofereço alma e coração para que me digam quem sou e ninguém repara neste gesto.
- “Vá lá… é uma oferta mesmo….”

Vagueiam caminhantes em passos apressados, por entre néon, vistosas silhuetas de damas de XXI, e tento encontrar-me em memórias presentes com gestos do passado.

Há coisas a começar e a acabar, neste exacto instante, vidas e sonhos, e ondas do mar e estrelas, e o sol que se esconde e palavras e encontros... E eu estou aqui.
Parado num espelho de riacho vendo se me encontro ou o que espero de mim, Não sei se à espera que algo comece ou acabe em mim. E o mundo chega-me como um estranho que não convidei para nenhum festim.
Suspendo a respiração por um instante e ouço o Tic-Tac do relógio infindável e o respirar da tua pele.

Revejo memórias de belas sardinhadas e caldo verde com a bela da broa e um verdinho que todos gabavam de perfeito.
Salta-me á memória o homem do saco. Espécie em vias de extinção que vendia castanhas assadas ainda quentes em saco de serapilheira pendurado ao pescoço.
E a malta do liceu, alguns bem putos, que “armados” em franganotes, bebíamos canecas de cerveja com groselha e rabanadas com calda logo ao pequeno-almoço.
Depois “bilharada” e uma visita ao cinema Terço que ficava mais barato e dava ainda para meio pirolito.

E dou por mim, numa roda com todo o grupo, novos e velhos, num rodopio de felicidade e festejo, até que salta um tango e lá tenho eu de arranjar escapatória.
E suspendo de novo a respiração.

Tic-tac. Tic-Tac, de novo o respirar da tua pele em mim, e eu procurando no leito do rio ou no turbilhão da imagem que me foca e desfoca e chama por mim.

Vou procurando saber se algo começa ou acaba em mim.
Mas o mundo chega-me como estranho e eu não convidei ninguém para nenhum festim.

08 abril, 2007







Lembro muitas das pedras que já pisei, memorizo rostos, nomes não, e nos caminhos sou despistado.


Lembro do cimento onde se fazem as conversas que falam de nós, dos muros em que me sentei e das praias com céu imensamente azul em que abria os braços ao sol que, sem se fazer rogado me beijava e me bronzeava como um Anjo da Guarda, que nos sossega interiormente.

Muitas luas passaram enquanto eu percorri aqueles caminhos que recordo e em que muitos aspectos me conduziram a lugar nenhum.
Mas não é assim com todos?
O chão que pisei, lugares que percorri é hoje um céu onde crescem árvores.
Vaidade minha? Não. Esses mesmos lugares foram percorridos por milhares de entre nós.

Algumas coisas acabam sem nunca terem começado, outras precisarão de uma luzinha que indique o caminho mais seguro.
Eu, simplesmente tenho as mãos vazias de nada. Simples como pretendo.

Nesses caminhos já tentei dançar Chopin, mas são normalmente caminhos cruzados e não encontro os braços que espero me alcancem.

Gosto nesses caminhos das torres de São Francisco e da ilha de Manhattan, de ter encontrado um louco mais louco que eu, que conversava com os Anjos nas ruas de Londres.

Gosto das manhãs que nos proporcionam a ilusão de um começo, e da noite pela treva e sua astronomia, pelo rosto de Helena e a força de Ulisses pelo valor e felicidade dos outros.

Gosto da Foz do Arelho a perder areal cada ano que passa e do grupo que construímos. Do frio da Foz do Douro quando guardava a roupa e vestia o calção nas barraquinhas e recebia pulseiras de elásticos numerados.
Vivi as festas de Sta Clara no Bonfim e o Space Mountain na Eurodisney.

Vivi de olhos lacrimejados a abertura do meu primeiro Mundial e sorri quando vinte e dois dias depois chegaram os primeiros postais enviados de Katowice, um por um.

Relembro Vichy e 14 mosqueteiros de pequena estatura com malas maiores que os próprios em comboios apinhados de Árabes e nós partilhando Ases num Póker e bisca lambida.
Não esqueço Roma e a Avenida Fiumicino percorrida em lutas de carrinhos de supermercado carregados de compras e gente apinhada para quanto mais pesado… pior.

Choro sem vergonha quando algo me toca fundo e a amizade não é palavra vã.

Recordo o meu primeiro encontro desportivo com alegria e o ultimo de felicidade e nefasta tristeza.

Jamais esquecerei aqueles belos olhos azuis de paz e amor que sempre me acompanharam em todos estes percursos-meu querido Pai.

Gosto de coisas belas e boas e valorizo mais as simples e deliciosas.

Limpo o pó dos sapatos do caminho e rezo para que amanhã voltemos um pouco melhores do que hoje e que sintam que se quiserem podem gritar bem alto que estarei por aqui para todos os outros e para nós também.








Falei com a D. Marta a quem encomendei uns bolos e broas-de-avintes, que tem um filho a quem chama “Bolinha”, e que é assim como o 78 que se atrasa sempre no horário de partida entre a Boavista e a Foz.

Não direi atrasado mas vá lá é um moço bonacheirão que por vezes se despista nas curvas do comportamento.
Tirou o curso numa Cerci, componente técnico-profissional e desde sempre é o braço esquerdo e direito da D. Marta.

Só que o “Bolinhas” faz umas bolas de Berlim com creme que são divinais.
Aqui há uns tempos, por afeição fiz-lhe um cartaz que emoldurei e que tinha escrito….

Aqui fabricam-se as melhoras bolas com creme do Mundo, e o melhor pasteleiro “O Bolinhas” é meu amigo”

Pela simpatia no trato, pela delicadeza e respeito, a educação esmerada sem subserviência, o tentar ser útil e as mãos que fabricam bolos e pão como Rembrandt ou Dali pintava um quadro.

Bolos de aniversário então… bastava o esboço do desenho e ele engrandecia a montra refrescada, que fazia a delícia de miúdos e graúdos.

Estas atitudes, estes comportamentos tocam-me fundo e funciono muito por impulsos.
O que não me tendo trazido dissabores, pouco efeito fazem.

Três dias depois, entrei na pastelaria da D. Marta e surpreendentemente não vi o quadro.
Tremi, com receio de algum mal entendido e fiquei preocupado. Juro que o café nem me caiu bem.
Eis que de repente, o Sr. João, funcionário desde sempre, disse:
Dr. Importa-se de chegar aqui atrás por favor?....” .
Assim fiz, meio escondido na gabardina bege.

Mal abri a porta recebo um abraço tão apertado como há muito não tinha.
O “Bolinha” era todo ele sorriso e a D. Marta não sabia como se conter.

O “Bolinha” tinha o quadro à espera para eu assinar e só depois o colocaria em sítio visível.
Pelo meio embrulhou meia-dúzia das suas maravilhosas bolas como oferta.

D.Marta comovida dizia que o “Bolinha” aguardava ansioso o dia em que eu lá regressasse e que o quadro lhe trouxe dos dias mais felizes da vida, àquele enorme jovem, mas grande pasteleiro.

Saí comovido e ainda hoje dou graças a Deus pelos meus impulsos.

Com este impacto que me emocionou e ainda hoje me arrepia só de pensar, recordo com saudade o meu desaparecido amigo “Zé Qui” e as nossas bolas de Berlim a meias… (post de Maio 2006).





Tendencialmente tentamos resolver tudo pelo caminho da razão, mas a racionalidade nem sempre nos traz, as sinergias, a vontade, que temos ou precisamos, para fazer seja o que for.

E como nem tudo é feito pela área racional somos compelidos a ouvir o coração.
Aquele Tic-tac, que muitas vezes nos surpreende e ao qual nem ligávamos importância.

Os sentimentos, o frio e o calor, o turbilhão que nos ataca as ideias, o medo das relações, o assumir dos afectos, os sinais que nos são dados pela nossa pele feita galinha ou demasiado gelada ou quente de explosão, por impulsos físicos.

Aqui, raramente entram intelectualidades.
Bem pelo contrário, são os que se baralham mais.

Tenho para mim que se escuto a voz da razão, fico sempre com um não-sei-o-quê de incertezas, de meios-termos, de meias dúvidas.
Mas se me bater no coração, pode demorar, mas mais tarde a própria vida se encarrega de o comprovar, e nesse caso dar-lhe-ei ou não razão.

Sabemos todos que se o coração bate forte demais com palpitações, suores frios, quase arrítmico, algo se passa. E então teremos de evocar as forças da alma para nos ajudarem nos dilemas, conflitos, duvidas, e incertezas.
Este conjunto alma e coração são como a bússola do barco que anda à deriva e nos traz a bom porto.
É que o coração com o seu cavalgar desenfreado perde as rédeas e necessita de controlo na condução, não vá ele fazer algum disparate.

Contudo, vejamos outra coisa que o Ser humano provido de inteligência, razão, coração e do necessário bom senso, por vezes faz, pela sua inquietude e necessidade de afirmação, desejo incontrolável de "ter mais” e pela sua vaidade pessoal.

Raramente salientamos o mérito alheio.

Atribuímos a isso –“sorte”-, -“cunha”-, e mesmo que sintamos que foi mérito obtido, não o assumimos.
Rói-nos a alma o crescimento ou o mérito desportivo, social, ou profissional de um outro.
Mais rapidamente fazemos o desmérito rápido, o defeito urgente ou a suposta sorte de qualquer coisa mais saliente.
Depois aparecem aqueles bajuladores profissionais, que nestas ocasiões dão umas palmadinhas nas costas, mais beijinhos convenientes, uns convites p´ra café ou um passa-lá-por-casa-que–tenho-um-vintage-que-vais-adorar.

Nestas ocasiões dá-se e recebe-se indiferença.

Pessoas com traços de fraco carácter, raramente fazem amigos e mais tarde encontram-se numa ilha rodeados de muita gente.
São habitualmente pessoas mal formadas interiormente, com problemas de carácter, familiar, pessoais, profissionais, de vivências anteriores, amargurados, mal amados e pouco confiantes.

Nada dão – nada recebem.

Daí muitas vezes o nosso fado do melancólico, de memória pouco esforçados.
Pessoas sem sentido para a vida e uma vida sem sentido.

Sejamos racionais, mas não deixemos de ouvir aquele tic-tac musical que quando atentos traz-nos cheiro a flores e curas para muitos males.

05 abril, 2007

















As minhas ideias vagueiam, saltitando por aí.

De vez em quando qual fruto maduro alguma coisa cai e desato a escrever antes que apodreça.
O imenso desejo de escrita leva-me a ter que domar as ideias, refreando alguns ímpetos, tornando-as mais suaves e menos revoltas, mais resistentes.


Pelas segundas-feiras então, resisto a quase tudo. Resisto ao despertador que toca desesperadamente na esperança que lhe dê ouvidos, tendo já experimentado os de música, de noticiários, de apito, suaves, fortes, só faltando os gritos das vendedeiras do bolhão em dia de imensa freguesia.
Resisto à primeira conversa da manhã quando desperto, ao pequeno almoço, e resisto ao trabalho que me espera paciente em cima da secretária com aquele bom-dia-que-até-apetece.

À Segunda, como provavelmente muitos de vós, passo o dia num estado secundário, funcionando melhor depois do café, mas sou normalmente como os carros antigos que funcionavam a manivela, primeiro que pegue...

Sou uma sombra de mim próprio, bem longe de tudo… até que chegue a ditosa Terça-Feira.
Dizem alguns colegas que estas pequenas rugas que me povoam são do semblante entre o carregado e o aluado.


O Sr. Manuel, gerente do café que frequento, costuma sorrir, cúmplice, quando me vê chegar pela manhã: -"É o costume Senhor?" E eu -"sim, muito obrigado, Sr. Manuel", retribuindo o sorriso, mas com um ar alheado que não engana ninguém... Sabe que, neste dia, vou tomar o pequeno almoço com o jornal á frente, não comentando sequer as venturas ou desventuras desportivas, só voltando a dizer algo, quando me despedir com um novo "Obrigado" e um "Até logo!"... Contrariamente ao resto da semana, em que costumo ficar ao balcão a perder-me em conversas com ele, pois é uma pessoa extremamente comunicativa, interessada e vivida…
Aí, sai de tudo, desde futebol à política, das (des) medidas do governo à crise do pastel de nata.

Mas pior que uma Segunda-Feira "tout court", é uma Segunda-Feira chuvosa e fria!!!
Nestes dias apetecia-me emigrar, mas acho que todos conhecem de cor esta canção...
Não, à Segunda, nada a fazer... Encontro-me ausente para parte incerta... Se calhar, não tão incerta quanto isso... Mas é certamente um lugar aconchegado, quentinho, tranquilo, dois braços envolvendo-me simplesmente os ombros e uma voz a sussurrar-me ao ouvido -"Deixa estar, amanhã, já passou”….

Meu velho Grilinho Falante que me vais aturando tontices e trazes contigo maturidade, seriedade e voz de bolinho de chocolate que tanto aprecio. ..

03 abril, 2007

Há ecos estranhos em mim.
Palavras, gritos, ruídos que não dou conta, mas andam por aqui.
Por vezes não sei o que significam, ou o que dizem todos esses ecos.
Confundem-me, entranham-se no cérebro, saltitam de neurónios, encavalitam-se num jogo traiçoeiro, dão voltas, sussurram ao ouvido e espalham-se pela pele e arrepia-me só de o sentir.

Sinto-me como que num abismo, que cruelmente não me deixa ver o fundo e por isso não adivinho o instante da queda.


E tenho medo!

Engraçada esta sensação de medo, que raio!

E sinto que o eco que me chega provém de ti.
Gritos de revolta, angustia e anseio, gritos de medo também?
Sinto que o tempo escoa apenas num sentido e não volta, pelo menos para mim.

E luto e faço, procuro, desfaço, atónito com a desfaçatez desta vida injusta e repleta de ecos como os que habitam em mim.

Procuro conhecer-te abrindo em veias pesquisando o sangue que corre em ti.
Mas tenho o teu sorriso cândido na cara do tempo e em mim, e sinto que posso morrer na tua boca, uma boca de desejo, que me deixa embriagar pela liquidez dos dias e das noites que se sucedem sem sentido.


E os ecos de novo que me abanam por dentro e me rompem estrutura já pouco alicerçada.
E apanho-me tantas vezes tão distante, tão longe que me chego a imaginar não existir porque o tempo já não tem espaço para mim.

Engraçada esta sensação de nunca ser, como se sedado de sono pudesse seduzir o destino
Afinal o tempo não desaparece, a memória é que tende a apagar, porque é ele
-o tempo- que insistirá sempre em trazer-nos de volta.

01 abril, 2007










Vou contar-vos um segredo em jeito de história...


Escrever nunca foi tarefa fácil, apesar dos bons exemplos em casa.
Por exemplo, nunca mantive um diário na minha adolescência.

Nunca consegui preencher nada relacionado com aspectos da minha vida, nada mesmo.
Não que não tivesse tentado, mas acabava sempre em rabiscos nas páginas, tipo estrelinhas, campos de futebol com jogadores, flores e corações quando a paixão rondava e nos momentos mais tenebrosos, caveiras!

Quando tentava espalhar palavras nas folhas ainda brancas, aquelas fugiam-me!
Traiçoeiras e caprichosas, as palavras... Sempre gostaram muito de brincar comigo, não sei se para me colocarem "no meu lugar", ou se para me desafiarem a brincar com elas também...

Raramente traduziam o que sentia ou o que queria transmitir.

Ficavam sempre aquém ou então iam além do que pretendia. Poucas vezes eram certeiras... E pregaram-me imensas partidas. Algumas com muita graça, outras nem por isso…

Imaginem que escrevi a minha primeira Carta de Amor, tinha eu sete anos de idade.

O objecto do meu afecto era uma menina muito apagada, redonda, de óculos também eles redondos, desajeitada, sem beleza, nem graça, sem qualquer tipo de virtude em particular, que a distinguisse dos seus pares... Era aliás, o alvo preferido das brincadeiras de mau gosto dos alunos da escola.
E não suscitava qualquer interesse nos rapazes, a não ser para mim, que me encantei perdidamente.

Recordo que o carro do pai dela parecia uma traineira, com um cãozinho que não parava de abanar a cabeça e me deixava enjoado.

Nunca deu mostras sequer de estar inclinada pelo rapazinho que olhava para ela, de soslaio, mas sempre enternecido...

Um dia, resolvi declarar-lhe o calor dos meus sentimentos. Peguei numa página do caderno mais bonito que tinha, na minha caneta com cheiro a pastilha elástica azul à Porto, e com toda a inocência da minha idade, escrevi na folha de pautas azuis, as palavras mais amorosas, mais doces que sabia, para lhe contar o que me ia na alma.

Terminei a carta, com um coração envolvendo os nossos nomes... Dobrei-a em quatro e coloquei-a com aprumo num envelope, aguardando a melhor oportunidade para a entregar ao seu destinatário.

Mas, tímido, a coragem faltou-me.
Engendrei, então, um estratagema: iria colocar a minha declaração na gaveta de uma carteira abandonada no hall de entrada da escola, e indicaria à minha paixão secreta o local onde estava escondido tamanho tesouro que lhe era destinado.
Assim fiz, pelo mal dos meus poucos e tenros pecados!

Mas não estava nem um pouco preparado para o que estava para vir...A menina “caixa de óculos”, desengonçada e de pai com carro traineira e cãozinho com cabecinha
a-dar-a-dar, encontrou a carta com cheiro a pastilha elástica.
Mas em vez de a ler, sorrir-me, guardar para si, e dar-me a mão, desatou a rir, sem respeito nem piedade para com a pobre criatura que tinha acabado de desnudar seu coração para ela!
Correu a mostrá-la a todos quantos se interessaram... E que, como podem calcular, foram muitos!

Passaram a cantarolar, trocistas: "Ele está apaixonado”, “Ele está apaixonado”!", como se fosse a maior vergonha do mundo, quando eu pensava que era um estado de graça!

Senti o Céu desabar em cima de mim, baixei os olhos, fiquei rubro, uma pontada violenta no peito, uma vontade de me enfiar num buraco bem fundo e de só sair de lá quando fosse bem crescido... E lágrimas pela cara abaixo... E mais lágrimas... Pelo meu carinho desperdiçado, pela ilusão, e pela certeza de que nunca mais iria gostar de mais ninguém!·


Se, em vez de lhe ter entregue palavras escritas em papel, lhe tivesse agarrado as mãos, sorrido e dado um beijo naquela bochecha rechonchuda, teria sido diferente?

Acredito que sim...


Agora que sou Homem, reconciliei-me com as palavras, que descobri serem capazes de grandes feitos e profunda amizade... Mas o que lhes digo, é que melhores amigos do que elas, são os sorrisos ternos, os olhares cintilantes, a carícia discreta de uma mão, o contacto involuntário de dois braços, o estremecimento de todo o ser...

e um beijo rechonchudo numa bochecha.