Falei com a D. Marta a quem encomendei uns bolos e broas-de-avintes, que tem um filho a quem chama “Bolinha”, e que é assim como o 78 que se atrasa sempre no horário de partida entre a Boavista e a Foz.

Não direi atrasado mas vá lá é um moço bonacheirão que por vezes se despista nas curvas do comportamento.
Tirou o curso numa Cerci, componente técnico-profissional e desde sempre é o braço esquerdo e direito da D. Marta.

Só que o “Bolinhas” faz umas bolas de Berlim com creme que são divinais.
Aqui há uns tempos, por afeição fiz-lhe um cartaz que emoldurei e que tinha escrito….

Aqui fabricam-se as melhoras bolas com creme do Mundo, e o melhor pasteleiro “O Bolinhas” é meu amigo”

Pela simpatia no trato, pela delicadeza e respeito, a educação esmerada sem subserviência, o tentar ser útil e as mãos que fabricam bolos e pão como Rembrandt ou Dali pintava um quadro.

Bolos de aniversário então… bastava o esboço do desenho e ele engrandecia a montra refrescada, que fazia a delícia de miúdos e graúdos.

Estas atitudes, estes comportamentos tocam-me fundo e funciono muito por impulsos.
O que não me tendo trazido dissabores, pouco efeito fazem.

Três dias depois, entrei na pastelaria da D. Marta e surpreendentemente não vi o quadro.
Tremi, com receio de algum mal entendido e fiquei preocupado. Juro que o café nem me caiu bem.
Eis que de repente, o Sr. João, funcionário desde sempre, disse:
Dr. Importa-se de chegar aqui atrás por favor?....” .
Assim fiz, meio escondido na gabardina bege.

Mal abri a porta recebo um abraço tão apertado como há muito não tinha.
O “Bolinha” era todo ele sorriso e a D. Marta não sabia como se conter.

O “Bolinha” tinha o quadro à espera para eu assinar e só depois o colocaria em sítio visível.
Pelo meio embrulhou meia-dúzia das suas maravilhosas bolas como oferta.

D.Marta comovida dizia que o “Bolinha” aguardava ansioso o dia em que eu lá regressasse e que o quadro lhe trouxe dos dias mais felizes da vida, àquele enorme jovem, mas grande pasteleiro.

Saí comovido e ainda hoje dou graças a Deus pelos meus impulsos.

Com este impacto que me emocionou e ainda hoje me arrepia só de pensar, recordo com saudade o meu desaparecido amigo “Zé Qui” e as nossas bolas de Berlim a meias… (post de Maio 2006).

Comentários

DOC disse…
As pessoas são como cartas. Algumas aparecem na caixa do correio com envelopes vistosos e são apenas publicidade enganosa. Outras em envelopes amarelecidos pelo tempo e trazem lindas recordações. Certas pessoas são ainda como bilhetes postais e transmitem-nos sempre a alegria do Verão. Outras ainda são entregues à mão em envelopes discretos e trazem as mais belas cartas de amorizade. E há amigos que são postais de Natal, sempre presentes!
É bom saber que há pessoas como tu, não se esquecem dos amigos!

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