Lembro muitas das pedras que já pisei, memorizo rostos, nomes não, e nos caminhos sou despistado.


Lembro do cimento onde se fazem as conversas que falam de nós, dos muros em que me sentei e das praias com céu imensamente azul em que abria os braços ao sol que, sem se fazer rogado me beijava e me bronzeava como um Anjo da Guarda, que nos sossega interiormente.

Muitas luas passaram enquanto eu percorri aqueles caminhos que recordo e em que muitos aspectos me conduziram a lugar nenhum.
Mas não é assim com todos?
O chão que pisei, lugares que percorri é hoje um céu onde crescem árvores.
Vaidade minha? Não. Esses mesmos lugares foram percorridos por milhares de entre nós.

Algumas coisas acabam sem nunca terem começado, outras precisarão de uma luzinha que indique o caminho mais seguro.
Eu, simplesmente tenho as mãos vazias de nada. Simples como pretendo.

Nesses caminhos já tentei dançar Chopin, mas são normalmente caminhos cruzados e não encontro os braços que espero me alcancem.

Gosto nesses caminhos das torres de São Francisco e da ilha de Manhattan, de ter encontrado um louco mais louco que eu, que conversava com os Anjos nas ruas de Londres.

Gosto das manhãs que nos proporcionam a ilusão de um começo, e da noite pela treva e sua astronomia, pelo rosto de Helena e a força de Ulisses pelo valor e felicidade dos outros.

Gosto da Foz do Arelho a perder areal cada ano que passa e do grupo que construímos. Do frio da Foz do Douro quando guardava a roupa e vestia o calção nas barraquinhas e recebia pulseiras de elásticos numerados.
Vivi as festas de Sta Clara no Bonfim e o Space Mountain na Eurodisney.

Vivi de olhos lacrimejados a abertura do meu primeiro Mundial e sorri quando vinte e dois dias depois chegaram os primeiros postais enviados de Katowice, um por um.

Relembro Vichy e 14 mosqueteiros de pequena estatura com malas maiores que os próprios em comboios apinhados de Árabes e nós partilhando Ases num Póker e bisca lambida.
Não esqueço Roma e a Avenida Fiumicino percorrida em lutas de carrinhos de supermercado carregados de compras e gente apinhada para quanto mais pesado… pior.

Choro sem vergonha quando algo me toca fundo e a amizade não é palavra vã.

Recordo o meu primeiro encontro desportivo com alegria e o ultimo de felicidade e nefasta tristeza.

Jamais esquecerei aqueles belos olhos azuis de paz e amor que sempre me acompanharam em todos estes percursos-meu querido Pai.

Gosto de coisas belas e boas e valorizo mais as simples e deliciosas.

Limpo o pó dos sapatos do caminho e rezo para que amanhã voltemos um pouco melhores do que hoje e que sintam que se quiserem podem gritar bem alto que estarei por aqui para todos os outros e para nós também.

Comentários

KUSKA disse…
Há homens que lutam um dia, e são bons, há homens que lutam um ano, e são melhores, há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons,há os que lutam toda a vida
estes são os imprescindíveis, dizem.

Há um que diz, “Choro sem vergonha quando algo me toca fundo e a amizade não é palavra vã.”

Este é o mais verdadeiro, porque sente.
Como gostaria de lhe estender os braços e dançar com ele Chopin.

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