08 abril, 2007





Tendencialmente tentamos resolver tudo pelo caminho da razão, mas a racionalidade nem sempre nos traz, as sinergias, a vontade, que temos ou precisamos, para fazer seja o que for.

E como nem tudo é feito pela área racional somos compelidos a ouvir o coração.
Aquele Tic-tac, que muitas vezes nos surpreende e ao qual nem ligávamos importância.

Os sentimentos, o frio e o calor, o turbilhão que nos ataca as ideias, o medo das relações, o assumir dos afectos, os sinais que nos são dados pela nossa pele feita galinha ou demasiado gelada ou quente de explosão, por impulsos físicos.

Aqui, raramente entram intelectualidades.
Bem pelo contrário, são os que se baralham mais.

Tenho para mim que se escuto a voz da razão, fico sempre com um não-sei-o-quê de incertezas, de meios-termos, de meias dúvidas.
Mas se me bater no coração, pode demorar, mas mais tarde a própria vida se encarrega de o comprovar, e nesse caso dar-lhe-ei ou não razão.

Sabemos todos que se o coração bate forte demais com palpitações, suores frios, quase arrítmico, algo se passa. E então teremos de evocar as forças da alma para nos ajudarem nos dilemas, conflitos, duvidas, e incertezas.
Este conjunto alma e coração são como a bússola do barco que anda à deriva e nos traz a bom porto.
É que o coração com o seu cavalgar desenfreado perde as rédeas e necessita de controlo na condução, não vá ele fazer algum disparate.

Contudo, vejamos outra coisa que o Ser humano provido de inteligência, razão, coração e do necessário bom senso, por vezes faz, pela sua inquietude e necessidade de afirmação, desejo incontrolável de "ter mais” e pela sua vaidade pessoal.

Raramente salientamos o mérito alheio.

Atribuímos a isso –“sorte”-, -“cunha”-, e mesmo que sintamos que foi mérito obtido, não o assumimos.
Rói-nos a alma o crescimento ou o mérito desportivo, social, ou profissional de um outro.
Mais rapidamente fazemos o desmérito rápido, o defeito urgente ou a suposta sorte de qualquer coisa mais saliente.
Depois aparecem aqueles bajuladores profissionais, que nestas ocasiões dão umas palmadinhas nas costas, mais beijinhos convenientes, uns convites p´ra café ou um passa-lá-por-casa-que–tenho-um-vintage-que-vais-adorar.

Nestas ocasiões dá-se e recebe-se indiferença.

Pessoas com traços de fraco carácter, raramente fazem amigos e mais tarde encontram-se numa ilha rodeados de muita gente.
São habitualmente pessoas mal formadas interiormente, com problemas de carácter, familiar, pessoais, profissionais, de vivências anteriores, amargurados, mal amados e pouco confiantes.

Nada dão – nada recebem.

Daí muitas vezes o nosso fado do melancólico, de memória pouco esforçados.
Pessoas sem sentido para a vida e uma vida sem sentido.

Sejamos racionais, mas não deixemos de ouvir aquele tic-tac musical que quando atentos traz-nos cheiro a flores e curas para muitos males.

2 comentários:

tcl disse...

Concordo contigo Pedro. Quem nada dá, nada recebe. Não é que o mundo seja feito apenas de trocas, de interesses e, felizmente, há muitos que dão de forma desinteressada. Mas quando se fala de afectos, de aentimentos, de amizade, é improtante que as relações sejam biunívocas. Senão, quem dá amizade, quem dá conforto nos maus momentos, quem se interessa e nada recebe em troca, acaba por se cansar de ver o outro a olhar para o seu próprio umbigo e acaba por dar cada vez menos até chegar ao ponto de não dar nada. Todos temos sentimentos, todos gostamos dum afago, dum carinho. Todas estas coisas são de facto importantes para vivermos melhor connosco e com os outros e para não nos transformarmos em ilhas distantes. Ilhas, são efectivamente aquilo em que se transformam as pessoas que nada dão de si próprias, às vezes sem sequer darem por isso, de tal forma estão ocupadas a mirar os seus próprios reflexos nas montras que só elas vêem.

DOC disse...

Gestos, que nos transformam em ilhas, ilha eu, não quero não vou ser.
Pode ser excesso de sensibilidade da minha parte, mas há certos gestos não partilhados que me chocam. Felizmente não vejo muitas vezes, mas sempre vou vendo: um casal, ou pelo menos um par de pessoas mulher-homem a conversar na rua. E um deles, na conversa aproxima-se do outro, de um modo carinhoso, cada vez mais, até muitas vezes lhe passa o braço pela cintura, enquanto o outro vai fugindo com o corpo, afastando-se também cada vez mais, até fazer um arco de repulsa.
Faz-me imensa impressão e não consigo entender, se a mim que estou longe a mensagem chega com tal clareza e nitidez quase em letras garrafais – NÃO TE QUERO! – como é possível que o outro elemento do par não o largue instantaneamente, e se afaste uns passos? Impressiona-me os dois gestos, a repulsa tão acintosa e agressivamente demonstrada, e a insistência de perfeita cegueira de quem insiste na aproximação.

É tão bom um afecto partilhado, mas tão amargo um desencontro destes.