14 abril, 2007









Tenho escondidos na minha gaveta, textos, frases que me adoçam a alma ou irritam a pele, depende dos momentos.
Tenho correntes que me impedem a escrita e lábios selados para nada dizer.
Olho na direcção de um espelho de água e não reconheço o do lado de lá.
-"O que faz aquele ali?"

Recordo momentos de sonho e cicatrizes da vida
Visitas-me com passos de dançarina, e olho as minhas mãos na esperança de me conhecer.
Puxas-me numa valsa e sinto-me deslocar como se sempre o soubesse fazer.
Agitas-me numa rumba e aí desengonçado dou um jeito, mas sem jeito que me valha.

Mas adorei este pedaço, como quando minha Mãe me puxava era eu garoto, e ganhava torneios de xadrez a três e deslizava em gestos quase perfeitos, por entre casais bem postos de fatiota engomada e meu Pai sorria com o meu vermelhão de vergonha
“-…dançar estas musicas Mãe… isto é p´ra velhos…”.

Corro desenfreadamente, entro em cafés, livrarias, espreito montras, gelatarias,
Ofereço alma e coração para que me digam quem sou e ninguém repara neste gesto.
- “Vá lá… é uma oferta mesmo….”

Vagueiam caminhantes em passos apressados, por entre néon, vistosas silhuetas de damas de XXI, e tento encontrar-me em memórias presentes com gestos do passado.

Há coisas a começar e a acabar, neste exacto instante, vidas e sonhos, e ondas do mar e estrelas, e o sol que se esconde e palavras e encontros... E eu estou aqui.
Parado num espelho de riacho vendo se me encontro ou o que espero de mim, Não sei se à espera que algo comece ou acabe em mim. E o mundo chega-me como um estranho que não convidei para nenhum festim.
Suspendo a respiração por um instante e ouço o Tic-Tac do relógio infindável e o respirar da tua pele.

Revejo memórias de belas sardinhadas e caldo verde com a bela da broa e um verdinho que todos gabavam de perfeito.
Salta-me á memória o homem do saco. Espécie em vias de extinção que vendia castanhas assadas ainda quentes em saco de serapilheira pendurado ao pescoço.
E a malta do liceu, alguns bem putos, que “armados” em franganotes, bebíamos canecas de cerveja com groselha e rabanadas com calda logo ao pequeno-almoço.
Depois “bilharada” e uma visita ao cinema Terço que ficava mais barato e dava ainda para meio pirolito.

E dou por mim, numa roda com todo o grupo, novos e velhos, num rodopio de felicidade e festejo, até que salta um tango e lá tenho eu de arranjar escapatória.
E suspendo de novo a respiração.

Tic-tac. Tic-Tac, de novo o respirar da tua pele em mim, e eu procurando no leito do rio ou no turbilhão da imagem que me foca e desfoca e chama por mim.

Vou procurando saber se algo começa ou acaba em mim.
Mas o mundo chega-me como estranho e eu não convidei ninguém para nenhum festim.

1 comentário:

DOC disse...

Sorte a aquele que não se esqueceu de quem com ternura e total entrega me ensina o caminho do Amor.