Vou contar-vos um segredo em jeito de história...


Escrever nunca foi tarefa fácil, apesar dos bons exemplos em casa.
Por exemplo, nunca mantive um diário na minha adolescência.

Nunca consegui preencher nada relacionado com aspectos da minha vida, nada mesmo.
Não que não tivesse tentado, mas acabava sempre em rabiscos nas páginas, tipo estrelinhas, campos de futebol com jogadores, flores e corações quando a paixão rondava e nos momentos mais tenebrosos, caveiras!

Quando tentava espalhar palavras nas folhas ainda brancas, aquelas fugiam-me!
Traiçoeiras e caprichosas, as palavras... Sempre gostaram muito de brincar comigo, não sei se para me colocarem "no meu lugar", ou se para me desafiarem a brincar com elas também...

Raramente traduziam o que sentia ou o que queria transmitir.

Ficavam sempre aquém ou então iam além do que pretendia. Poucas vezes eram certeiras... E pregaram-me imensas partidas. Algumas com muita graça, outras nem por isso…

Imaginem que escrevi a minha primeira Carta de Amor, tinha eu sete anos de idade.

O objecto do meu afecto era uma menina muito apagada, redonda, de óculos também eles redondos, desajeitada, sem beleza, nem graça, sem qualquer tipo de virtude em particular, que a distinguisse dos seus pares... Era aliás, o alvo preferido das brincadeiras de mau gosto dos alunos da escola.
E não suscitava qualquer interesse nos rapazes, a não ser para mim, que me encantei perdidamente.

Recordo que o carro do pai dela parecia uma traineira, com um cãozinho que não parava de abanar a cabeça e me deixava enjoado.

Nunca deu mostras sequer de estar inclinada pelo rapazinho que olhava para ela, de soslaio, mas sempre enternecido...

Um dia, resolvi declarar-lhe o calor dos meus sentimentos. Peguei numa página do caderno mais bonito que tinha, na minha caneta com cheiro a pastilha elástica azul à Porto, e com toda a inocência da minha idade, escrevi na folha de pautas azuis, as palavras mais amorosas, mais doces que sabia, para lhe contar o que me ia na alma.

Terminei a carta, com um coração envolvendo os nossos nomes... Dobrei-a em quatro e coloquei-a com aprumo num envelope, aguardando a melhor oportunidade para a entregar ao seu destinatário.

Mas, tímido, a coragem faltou-me.
Engendrei, então, um estratagema: iria colocar a minha declaração na gaveta de uma carteira abandonada no hall de entrada da escola, e indicaria à minha paixão secreta o local onde estava escondido tamanho tesouro que lhe era destinado.
Assim fiz, pelo mal dos meus poucos e tenros pecados!

Mas não estava nem um pouco preparado para o que estava para vir...A menina “caixa de óculos”, desengonçada e de pai com carro traineira e cãozinho com cabecinha
a-dar-a-dar, encontrou a carta com cheiro a pastilha elástica.
Mas em vez de a ler, sorrir-me, guardar para si, e dar-me a mão, desatou a rir, sem respeito nem piedade para com a pobre criatura que tinha acabado de desnudar seu coração para ela!
Correu a mostrá-la a todos quantos se interessaram... E que, como podem calcular, foram muitos!

Passaram a cantarolar, trocistas: "Ele está apaixonado”, “Ele está apaixonado”!", como se fosse a maior vergonha do mundo, quando eu pensava que era um estado de graça!

Senti o Céu desabar em cima de mim, baixei os olhos, fiquei rubro, uma pontada violenta no peito, uma vontade de me enfiar num buraco bem fundo e de só sair de lá quando fosse bem crescido... E lágrimas pela cara abaixo... E mais lágrimas... Pelo meu carinho desperdiçado, pela ilusão, e pela certeza de que nunca mais iria gostar de mais ninguém!·


Se, em vez de lhe ter entregue palavras escritas em papel, lhe tivesse agarrado as mãos, sorrido e dado um beijo naquela bochecha rechonchuda, teria sido diferente?

Acredito que sim...


Agora que sou Homem, reconciliei-me com as palavras, que descobri serem capazes de grandes feitos e profunda amizade... Mas o que lhes digo, é que melhores amigos do que elas, são os sorrisos ternos, os olhares cintilantes, a carícia discreta de uma mão, o contacto involuntário de dois braços, o estremecimento de todo o ser...

e um beijo rechonchudo numa bochecha.

Comentários

tcl disse…
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).

Álvaro de Campos

Daí o riso do objecto dos teus amores de infância. Talvez essa menina já soubesse, apesar da sua tenra idade, que melhor que palavras escritas "são os sorrisos ternos, os olhares cintilantes, a carícia discreta de uma mão, o contacto involuntário de dois braços, o estremecimento de todo o ser...
e um beijo rechonchudo numa bochecha."
Doc disse…
Gosto das formas como as histórias se vão construindo, quase sem se dar por isso, à medida que se avança na leitura.
Como elas vão deixando cair migalhas de curiosidade ao longo do caminho para que quem vem atrás, ou seja, eu que as li, as vá seguindo, subtilmente,conduzida pela mão mas sentindo-me apenas a passear.

Das cerejas
eu lembro que eram doces.
Eram rubis de brincos
nas orelhas
e serviam de troca
boca a boca
no entretém guloso
dos namorados.

Uma história da minha infância...
onde tudo está nos pormenores ou no realismo mágico, do sonho!
rocha suave disse…
As história de quando eramos crianças, servem para aprender quando chegarmos a adultos...
Mas não deixa de ter a sua graça, as inocências e as declarações de amor feitas na juventude...

www.rochasuave.blogs.sapo.pt

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