27 maio, 2007







Por vezes ausento-me para parte incerta, fechado numa concha de que já vos falei, e da qual só eu tenho a chave.
Vagueio dentro dela como vagueio por dentro de mim.
Procuro palavras, frases, significados que me façam ressurgir.

Tenho vontade de ver sem que me vejam, tenho vontade de me trocar todo.
Sinto nas costas olhos que me perseguem, mãos que me agarram, forças que me impelem a transpor obstáculos para um qualquer lugar.
Os olhos são mudos e as mãos cegas, por isso esta loucura tem tendência a passar.

Gostaria de guardar e poder usar todos os segundos que me mantêm acordado.
Coloco uma pastilha elástica no tampo de uma mesa, atiro o cinzeiro para o chão e piso o jornal do vizinho da mesa em frente. Faço uma careta a uma mulher de mini-saia e cabelo anos 60, e canto em voz alta para sentir o resultado desta fraca voz. Subo para uma cadeira e finjo-me estátua.
Saio porta fora de costas fazendo marcha-atrás engatando mudança após mudança. Acho que não passei da terceira, mas isso também pouco importa.
Vou tentar viver da frente para trás, para entretanto viver aos zigue-zagues.
Os círculos completam-se em novos círculos e deles não saímos.

O Júlio dos jornais resolveu finalmente o enigma dele ao verificar a minha loucura. A Maria do café sempre solícita e acolhedora abana a cabeça lamentando o que desconfiava vai para algum tempo. A Zuleida deixou de pensar no horizontal sempre que me olhava e decerto vai navegar pensamentos para outras paragens.

E assim, de um instante para o outro, deixamos de ser o Senhor-Doutor-da- mula-ruça, para nos transformarmos no gajo-louco-que-eu-bem-desconfiava-ou-o-tipo-que-a-mim-não-me-enganava-pois-eu-sabia-muito-bem-que-ele-não-era-boa-rês.
Num minuto somos algo com nome, posição, significado, somos uma imagem com história e passado para no seguinte sermos apenas uma coisa qualquer que passou à história.

Um dia, perto ou longe, mais ou menos usados, pouco ou muito preenchidos, ricos ou remediados, com sanitários de ouro ou latrinas de papel, seremos pó.
Desfeito em pó descolorido partirei para o colo de uma estrela.
Provável que ela me acaricie e me transforme num qualquer pedaço de qualquer coisa.
Quem sabe, não serei parte de um rio transbordante, banhando margens e conduzindo embarcações, quem sabe serei pétala e inundarei de um belo perfume uma qualquer casa de uma qualquer família desenraizada.
Um dia poderei ser pedaço de papel, e consoante o vento quiser, esvoaçar de encontro a ti.
Posso ser tudo e não ser nada.
Posso voltar atrás a círculos já vividos ou jamais viver em círculos.
Posso até voltar a ser alguém e retomar a vida numa doce loucura.

16 maio, 2007







Durante muito tempo desgovernei-me em pânico, encostava o mais que podia o automóvel à direita nas filas de trânsito, parava e afastava-me o mais que podia para respirar.

Quando entrava num centro comercial era certo que minutos depois toda aquela movimentação, o pesadelo de cores, cheiros e decibéis elevados, fazia-me perder a noção com o pânico a emergir á porta da loucura. Também no cinema a inquietação apoderava-se e raras vezes terminava os filmes, mais centrado na minha respiração e nos suores frios que me toldavam o corpo.

Aos poucos eu e a vida e a vida comigo, mais a alma que resolveu encher e o coração que avisava, ensinaram-me a distinguir e a ver com olhos de falcão, assim como uns abanões no esqueleto que não permitiram que fosse imolado em lume brando.

Não raras vezes senti pontapés na consciência.
Dirigia-me ao espelho mais próximo para visualizar o que se passava por aqui, mas como é óbvio a consciência fechava-se numa concha e não deixava vislumbrar para dentro de si.

Passei anos a viver naquele limbo entre a saúde e a doença, a alegria e a tristeza, o choro e o riso, o melhor e o pior, o mais e o menos, o deve e haver, o quando e o já, o agora e o depois, a lágrima e a esperança, o tormento e a candura, a revolta e o amor.

Mais tarde passei a estar como quem reza a oração da noite e se deita depois de consciência tranquila, acordava rejuvenescido.
Tentava despovoar a mente de sonhos e pesadelos para que o sono fosse feito de um trago só.
Quando o corpo pendia para a preguiça, uma voz de dentro gritava:

- Levanta-te, que a alma não dorme…
- Mas se não dorme, como faz para descansar? - Perguntava eu
- A alma faz vigílias por ti. Quando estás tranquilo, ela aproveita e descansa… Neste caso estou aqui faz tantas horas, que me doem os pés…
- Devias ter asas onde tens os pés, talvez assim pudesses partir em auxílio mais rapidamente...- retorquia
- Tens de saber respeitar esta alma que bate calorosamente e em angustia por ti. Vá, salta daí, respira fundo e vida p´ra frente…!

Fui rabiscando e guardando pedaços de papéis envelhecidos pelo tempo, qual sovinice de um devoto ás coisas escritas.
Algumas interessantes outras nem por isso.
Serviam essencialmente para transcrever tormentos, soluços, saltos em espiral e mergulhos em queda livre.
Assim fui treinando corpo e mente, num misto de pensamentos e derivados de palavras, não passando disso mesmo, palavras, mas que sei as cinzas nunca as vão consumir.

São apenas palavras, gestos de mim, coisas simples que fazem descongelar outra voz que vive em mim.
Palavras que cantam sem voz que riem sem boca e choram sem lágrimas, num composto perfeito ou desmedido e que jorram em catadupa quando menos se espera.
Não cruzo qualidades, perfeições ou deformação, vou deixando que se espalhem no papel, sem qualquer nexo ou causalidade, nem interesses preconcebidos.

Sei que este tempo é um tempo imperfeito.
Um tempo sem tempo, que se separa de nós, e que demoramos a reencontrar, se alguma vez isso acontece.
E dedicamos espaço e pensamento àqueles a quem dedicamos pouco tempo, outros, tempo demais.
Frases que não entendi, olhares que demorei a decifrar, preces que mais pareciam confissões, sorrisos que mais pareciam lágrimas.
Abraços embrulhados em cianeto, elogios que se escondiam em defeitos, rasteiras vestidas de cetim, afastamentos que diziam bem-vindo, sombras que brilhavam no escuro, mas uma permanente segurança que não desarma.
Perdemos tempo em batalhas inúteis, contabilizando erros ou acertos, havendo menos espaço na coluna do haver e mais esgotada a coluna do dever.

Mas esta realidade passa por muitas provações.
Somos Plebeus, Príncipes, Super-Homens, Lancelot´s, Robin dos Bosques, Pateta, Pato Donald, Palhaço, Urso, Gato, etc.
Vamos transformando e variando a máscara ou adaptando ao longo do percurso, ou então não deixamos mesmo que nos vistam essas roupagens e mantemo-nos à tona de água com toda a dificuldade inerente a quem não consegue nadar em águas profundas.

07 maio, 2007














Imagina que sou uma estrela e que vagueio neste infindável Universo, habitando um cantinho onde me escondo e quase ninguém dá por isso.
Aí, habito um silêncio que me devolve a alma.
É no silêncio que vivo melhor, que escuto melhor, que vislumbro melhor, que sou melhor.
Foi no silêncio que te vi e por lá fiquei.
Sorrias de cada vez que te olhava e abrias novo sorriso por cada vez que te falava.
Tal como a vida que se torna num jogo, trazias contigo um do monopólio.
… retroceda 3 casas…

Os teus lábios falam sem se mexerem…
Sentia-me o teu herói, tal a forma como imaginava cada gesto teu por cada frase tua, uma reacção por cada ideia que salta para o papel onde docemente penetrava na tua caligrafia mágica.
Sonhava cada pensamento teu por conteúdo mais profundo, cada olhar por cada alcance.
Lançavam-se os dados…
… avance 6 casa…, se passar na casa partida será penalizado…

Sabia que me querias dizer, mas eu precisava sentir.
Sabemos que não basta tocar é preciso querer, como não basta um adeus quando precisamos de um olá, como não é suficiente beijar sem se gostar.
Tal como não nos basta escrever, sendo preciso pensar, não basta também chegar, é preciso partir.
Os dados estão lançados…
… 1,2,3… retroceda 8 casas…

Nunca te olhas de frente, tal o hábito de não te olhares.
Raramente te vês.
Usavas capa e espada, venda nos olhos e julgavas-te justiceira de nós.
Rasgavas tempo e bancos de nevoeiro, lutavas contra fantasmas que te habitavam e gritavas silêncios em ti.
Nunca vencemos quando queremos ser heróis e não passamos de inimigos de nós próprios… essas lições tinhas estudadas.

Os teus lábios falam sem se mexerem e quase não percebo o que dizes.
Rasgaste o manto que te cobria, perdeste as peças do jogo.
Os silêncios tornaram-se ruídos profundos e a tua caligrafia cruzava hieróglifos no ar.
Então, embrulhei tudo numa roupagem colorida e lancei ao mar num aceno de despedida.

06 maio, 2007


Este Blog tem sido "atacado" por publicidade não autorizada e que está a ser dificil combater.

Aos visitantes, as minhas desculpas, na certeza de que tudo farei para eliminar estes invasores.

Como compreenderão sou completamente alheio a esta situação, pelo que nada mais me resta do que pedir desculpa.


JP











Maltrapilho e abjecto vilão.
Compulsivamente chato, rebuscado interesseiro e cinicamente falso.
Usa capa e espada mas não nos defende, ataca pelos flancos e não dá o flanco.
Pior que muitos vilões da história, não teme nada nem ninguém.
Não guarda respeito, não respeita regras e apetece-me desafiá-lo numa luta em tudo desigual.
Parece ter vida eterna.
A espada não mata nem magoa, e deve usar poção mágica tamanha a sua capacidade de resistência.
Olha-me nos olhos e diz: - “ Apenas faço o que tem de ser feito…”
Inquietante.
Corro imenso mas chego sempre atrasado, não me sobra espaço nem tempo.
Procuro esticá-lo mas sou imediatamente derrubado.
Indomável para qualquer um, mesmo os que vivem 36 em 24.
Grande safado que me martiriza e apoquenta e consome toda a energia que me resta.
Ri sobre e para mim, digere bem as ameaças, enfrenta muitos de uma só vez, trata o medo por tu e olha em frente para os desafios.
Tem olhos de quem vive do frio e revela profundidade sem limites.
Tento conhecê-lo melhor, mas nunca chego a tempo.
Vivo a destempo.
Não perdoa e não magoa.
Também porque não sou homem de desistir, vou pelo menos tentando “dar luta”, mas apercebo-me que a vitória já se tornou mito urbano.
Corro com ele e contra ele, numa luta sem limites.
Não me dá tréguas e encosta-me muitas vezes às cordas… arrasando com o pouco que me resta…!
Vilão e inimigo,
a falta de tempo…
deste tempo que não estica…!